SAGRADO CIRCUITO (1)

SÃO PAULO (e ainda não terminou) – A notícia mais importante da sexta-feira em Barcelona não teve nada a ver com o que aconteceu em Barcelona — no caso, Lando Norris fechando o primeiro dia de treinos livres para o GP da Catalunha em primeiro.
A notícia, mesmo, tem origem no domingo passado, em Mônaco. A Alpine, que tinha pedido revisão das punições a Pierre Gasly, ganhou no tapetão. E com justiça. O francês tinha cruzado a linha em terceiro no Principado. Mas tinha dois pênaltis de 5s para pagar por excesso de velocidade nos boxes. Com os tempos corrigidos, caiu para sétimo.
Eu achei que não ia dar em nada. Mas deu. A Alpine apresentou à FIA provas de que a medição do ponto de entrada no pit-lane até o ponto determinado para calcular a velocidade estava errada. Uma diferença de 77 cm. A FIA mede a velocidade no pit-lane com aquela fórmula clássica, que a gente aprende na escola: velocidade = espaço/tempo. Não é propriamente um radar como os que a gente vê nas ruas e estradas.

Gasly tinha sido flagrado, nessa medição, a 60,1 km/h e a 60,4 km/h. Com a revisão, essas velocidades caíram para menos de 60 km/h. O francês disse, em Mônaco, que seu pódio fora “roubado”. Recuperou o terceiro lugar e festejou muito hoje pela manhã em Barcelona. Quem estava à sua frente até o sétimo lugar caiu uma posição. O resultado de Monte Carlo, pois, ficou assim (em negrito, os que foram afetados pela mudança):
- Kimi Antonelli
- Lewis Hamilton
- Pierre Gasly
- Isack Hadjar
- Oscar Piastri
- Liam Lawson
- Arvid Lindblad
- Alexander Albon
- Esteban Ocon
- Fernando Alonso
A pontuação do campeonato também muda, claro, mas em posições intermediárias. Não se preocupem muito com isso. Mercedes, Red Bull e McLaren estudam recursos contra a alteração do resultado. Explica-se. Alguns pilotos dessas equipes também foram punidos com 5s pelo mesmo motivo que Gasly, como Oscar Piastri e George Russell. No caso rubro-taurino, o protesto seria contra a perda do pódio de Hadjar. Franco Colapinto e Lewis Hamilton também foram punidos, mas como a revisão não muda em nada suas posições finais, o assunto está encerrado em relação a eles.



E por que só o caso de Gasly foi revisto? Primeiro, porque a Alpine foi ligeira e entrou com o pedido imediatamente depois da corrida. E, diligente, foi armada com provas. Depois, porque o francês não pagou os pênaltis na hora, como fizeram os demais — perdendo 5s parados nos boxes. Pierre só levou o acréscimo de tempo, algo que pode ser revertido. O que aconteceu na pista, aí não dá para voltar atrás. Como calcular o que seria da corrida de Russell, por exemplo, se ele não levasse um drive-through no final como consequência por não ter pagado o pênalti no pit stop?
Não tem jeito. A FIA pediu desculpas, assumiu o B.O., mas é difícil mudar algo agora. A Alpine foi diligente, provou seu ponto de vista e tinha como recuperar as posições perdidas depois da bandeira quadriculada. As demais não têm o que fazer, a não ser mostrar sua contrariedade com a entidade.
O erro de medição no pit-lane é meio ridículo, para uma categoria tão cara e sofisticada quanto a F-1. Mas acontece. Não sejamos tão rigorosos.
A Barcelona, agora.
O dia foi de sol e calor na região do autódromo de Montmeló, que a partir de agora não recebe mais o GP da Espanha, mas sim o de Barcelona-Catalunha. Poderiam chamar só de GP da Catalunha para simplificar as coisas, mas vá lá. Tanto faz. Essa prova, a partir do ano que vem, passa a revezar com o GP da Bélgica no calendário. O GP da Espanha será o de Madri, cuja pista estreia nesta temporada, em setembro.


O primeiro treino livre teve essa turminha da pesada aí em cima, no lugar dos titulares de Ferrari (Hamilton), McLaren (Norris), Cadillac (Sergio Pérez), Mercedes (Antonelli), Red Bull (Hadjar), Williams (Albon) e Audi (Nico Hülkenberg). Já tem alguns anos, a regra: cada titular tem de ceder seu carro duas vezes por temporada em treinos livres a pilotos novatos. Alguns times começaram a ticar a obrigatoriedade em Barcelona, pista que todo mundo conhece de cor e salteado.
O destaque foi o estoniano Paul Aron, sexto com a Audi. Leonardo Fornaroli, atual campeão da F-1, também andou direitinho e ficou em quinto. Luke Browning, da Williams, nem conseguiu sair dos boxes, coitado. O carro apresentou um problema elétrico. George Russell, com 1min16s363, foi o primeiro colocado na sessão.


Embora Norris tenha feito o melhor tempo do dia, 1min15s426, o grande vencedor da sexta-feira foi Russell. Em baixa depois das cinco sapatadas seguidas que tomou de Antonelli, o inglês conseguiu ficar bem à frente do italiano na folha de tempos. Segundo colocado atrás de Norris, a meros 0s009 de distância, George colocou 0s580 em cima de Kimi, que teve algumas dificuldades no único treino que fez.
É uma chance de começar a se recuperar no campeonato. Com 68 pontos de déficit para o companheiro de equipe, Russell não pode mais se dar o luxo de levar outra pancada. É verdade que a McLaren, meio que do nada, apareceu como possível adversária na pista catalã. Mas sua prioridade é andar na frente de Antonelli. Se tiver só um banheiro disponível no motorhome (ainda chamo os prédios das equipes de motorhomes, sorry), é ele quem tem de fazer xixi primeiro. Quando chegam as macarronadas no almoço, tem de ser dele o primeiro prato. Se estiverem dividindo quarto de hotel, o primeiro a entrar no chuveiro.


A gracinha do dia foi essa toalha aí em cima com a inscrição “To Kimi, not Kim”. Parece que tem algo a ver com uma bobagem qualquer sobre a toalha que Antonelli deveria usar antes do pódio em Mônaco e que foi tomada emprestada pela suposta namorada de Hamilton, Kim Kardashian. Confesso que não dei maior importância ao episódio. Mas, hoje, qualquer bobagem vira “conteúdo”. Está registrada a nova toalha.
Mais importante que a toalha foi a definição do regulamento de motores para os próximos dois anos. Hoje 53% da potência gerada vem do motor a combustão e 47% dos componentes elétricos. No ano que vem essa proporção será de 58% a 42% e, em 2028, 60% a 40% — com os motores a combustão ganhando mais protagonismo. O fluxo de combustível será aumentado em 5% em 2027 e em 13% em 2028.
É um começo.