SOBRE DOMINGO DE MANHÃ
A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (e vem mais!) – Parecem, como diz a legenda, pai e filho. Toto Wolff foi questionado no ano passado por ter promovido Kimi Antonelli a titular da Mercedes, sobretudo na temporada europeia, entre os GPs de Ímola e da Itália, com aquele pequeno hiato canadense — que no calendário deste ano não existe mais, já que puxaram Montreal para perto de Miami. Em nove GPs, o italianinho fez três pontos. Eles vieram de um décimo lugar na Hungria e um nono em Monza.
No Canadá, é verdade, Kimi foi ao pódio, seu primeiro na F-1. Mas, na Europa, soçobrou. E a escolha de Toto foi colocada em dúvida. O menino, afinal, tinha só 18 anos. Não passou nem pela F-3. E iria substituir o maior de todos, Lewis Hamilton. A carga não seria pesada demais para o garoto que tinha um ursinho de pelúcia no quarto?
Em nenhum momento, porém, o homem-forte da Mercedes cogitou voltar atrás. Insistiu. Deu a Kimi todo apoio possível. Agiu como um pai bondoso e paciente, mestre e guru.
Domingo, em Mônaco, Antonelli ganhou sua quinta corrida consecutiva, a primeira da Mercedes desde 2019 com Lewis Hamilton, naquela prova emocionante pouco depois da morte de Niki Lauda. É o virtual campeão de 2026 depois de meras seis etapas.
Toto acertou e não foi pouco.





E o que, afinal, está acontecendo com George Russell, que começou o campeonato tão bem e, de repente, despencou num abismo que parece não ter fundo? As duas últimas etapas foram trágicas para o inglês. Ele marcou apenas oito pontos, da Sprint canadense. Antonelli fez 56. A diferença que o italiano tinha sobre o companheiro quando assumiu a liderança do Mundial, no Japão, era de nove pontos. Três corridas depois, passou para 68.
Como desgraça pouca é bobagem — acho que escrevi isso domingo –, George ainda perdeu a vice-liderança do campeonato para Hamilton, que cravou dois segundos lugares seguidos.
Não sei o que está acontecendo com Russell. Nem ele sabe. Falou vagamente sobre uma melhor adaptação de Antonelli aos novos carros da F-1, lamentou os dois GPs sem marcar pontos e atirou nos ombros do jovem parceiro a responsabilidade de ser campeão.
Mas garantiu que não jogou a toalha.
A FRASE DE MONTE CARLO
“Não vou desistir. Acredito em mim e sei do que sou capaz.”
George Russell


Seja lá do que for capaz, Russell precisa parar de dar bobeira, como no pit stop em que não pagou o pênalti de 5s por excesso de velocidade nos boxes. Tinha de entrar gritando para ninguém encostar em seu carro.
OK, entendo que naquela hora é difícil pensar em tudo. Para isso tem a equipe. Mas se não tivesse de fazer um drive-through depois, por conta da falha em cumprir a punição, Russell teria chegado em terceiro. Um pódio que não lhe faria mal algum. Seria um recadinho a Antonelli e, no limite, a ele mesmo: ainda estou aqui.
Pobre George. Não está mais ali.

Com o quinto e o sexto lugares de Liam Lawson e Arvid Lindblad, a Pode Pagar com Pix? marcou 18 pontos no fim de semana, mesma pontuação da Ferrari. E menos que a Mercedes, apenas, que fez 25 da vitória de Antonelli. O time de Faenza foi o único a colocar dois carros na zona de pontos em Mônaco. E seus meninos conseguiram as melhores posições em GPs de suas curtas carreiras.
O resultado levou a filial da Red Bull a 39 pontos, só dois atrás da Alpine. É a briga pela quinta colocação no Mundial, conhecida também como “a melhor das outras”.
O NÚMERO DE MÔNACO
9
…equipes pontuaram no GP de Mônaco: Mercedes, Ferrari, Red Bull, McLaren, Débito ou Crédito?, Alpine, Williams, Haas e Aston Martin — esta última saindo do zero. Apenas Audi e Cadillac não marcaram. O time das quatro argolas foi mal, mesmo. Mas sua coleguinha americana, também estreante, sentiu o gostinho doce de um décimo lugar de Sergio Pérez, que seria uma merecida recompensa pelo trabalho duro de seu pessoal até aqui (Valtteri Bottas à parte, já que o finlandês não parece muito a fim de ralar o joelho). Pena que o mexicano levou uma punição por posicionar seu carro fora do lugar na segunda largada. Já tinha feito o mesmo na primeira. Outra chance dessas, sabe-se lá quando aparece. E Pérez mostrou que é, mesmo, bom piloto de rua.

O GP de Mônaco teve 8,3 pontos de média no Ibope em sua transmissão pela TV Globo em sinal aberto. A transmissão em si, como escrevi domingo, foi uma porcaria. Mas essa audiência foi a maior para um GP de F-1 no Brasil desde 2020. Portanto, maior que todas as registradas pela Band(eirantes) entre 2021 e 2025, período em que a emissora do Morumbi deteve os direitos de transmissão da categoria para o país.
É o que a Liberty quer. Se o narrador está num estádio de futebol em Cleveland e a comentarista-repórter atropela o ex-piloto que faz piada sem graça no estúdio, pouco importa aos donos do negócio. E também não importava que o narrador anterior fosse um sujeito chegado a declarações transfóbicas em redes sociais, ou que passasse metade das corridas mandando abraços para advogados.
O que vale são os números. Esses, a Globo entrega.





PROTESTO – A Alpine não se conformou com os dois pênaltis para Pierre Gasly, que totalizaram dez segundos acrescidos ao seu tempo total de prova. O francês cruzou a linha em terceiro e, depois de aplicadas as multas, caiu para sétimo. “Sonho com um pódio aqui desde criança e quando consigo, me roubam”, choramingou o piloto. O time pediu revisão nas medições de excesso de velocidade nos boxes. Vários pilotos tomaram pênaltis iguais. A explicação: quase todos cortam ligeiramente caminho na entrada do pitlane, encurtando a distância entre os pontos de medição. A velocidade dos boxes em Mônaco é de 60 km/h. Dos cinco punidos na corrida, quatro foram registrados a 60,1 km/h. Gasly foi pego a 60,1 km/h na sua parada e a 60,4 km/h quando os carros passaram por dentro dos boxes atrás do safety-car enquanto removiam o carro batido de Charles Leclerc. O pedido de revisão não vai dar em nada.
ADUO – Vocês vão ouvir bastante esse negócio nos próximos dias, especialmente da boca dos eruditos produtores de conteúdo que não sabem distinguir uma biela de um mancal. Trata-se do acrônimo para Additional Development and Upgrade Opportunities, ou “Oportunidades Adicionais de Desenvolvimento e Atualização”, em bom português. É o mecanismo que a FIA criou para que as fabricantes de motores possam fazer algumas modificações em seus V6 a combustão — os elétricos estão fora dessa brincadeira — caso seja constatada uma diferença de potência muito grande em relação ao motor mais potente de todos. E o mais potente de todos, por incrível que pareça, foi o Ford. Assim, os demais fabricantes (Audi, Mercedes, Ferrari e Honda) terão a chance de trocar alguns componentes, usar mais tempo de dinamômetro e gastar mais dinheiro para tentar melhorar seus produtos, aproximando-os da potência medida nos motores da Red Bull e de sua filial de bandeira VISA. Mas não se empolguem. Não vai mudar nada na relação de forças da temporada. Tem muita gente falando demais sobre o que não entende. Não é porque será incluída no ADUO que a Ferrari vai começar a voar de um dia para o outro. Nem a Audi. Nem ninguém.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… do terceiro lugar de Isack Hadjar, apesar dos chiliques pelo rádio — que fazem parte de seu show desde os tempos da F-1. O franco-argelino conseguiu seu primeiro pódio pela Red Bull depois de enfrentar diversos problemas no carro, o maior deles uma perda de potência que, se tivesse ocorrido em outra pista, tê-lo-ia jogado para a última posição. Mas, em Mônaco, eu de Gol bolinha não seria ultrapassado por Antonelli.


NÃO GOSTAMOS… dos freios de Charles Leclerc, que fizeram o monegasco reclamar a corrida inteira pelo rádio até bater no muro da Antony Noghès, praguejando contra o equipamento. A Brembo, que faz os freios de muita gente no grid, se apressou em divulgar comunicado no domingo mesmo, se dizendo “surpresa” com as críticas. “Trabalhamos com a Ferrari há 50 anos”, informou o texto da fabricante italiana. Charlinho falou que, quando bateu, só o freio da roda esquerda dianteira estava funcionando. Atrás, nada. Na dianteira direita, “um pouco”. O piloto garantiu que vai solucionar o problema em Barcelona, usando a mesma configuração de freios de Hamilton. Circulou por aí a “informação” de que o inglês usa discos de freio da Carbon Industrie, a fornecedora da Mercedes, com quem trabalhou por mais de 15 anos. É pouquíssimo provável que esses boatos correspondam à realidade. Os sistemas são complexos demais para se imaginar um freio com pinças e pastilhas Brembo e disco feitos pela CI. Seria como ter um bloco de motor Audi com virabrequim da Ford. As coisas não funcionam assim na engenharia de alto nível.