SAGRADO CIRCUITO (2)

SÃO PAULO (tá vivo) – George Russell evitou uma nova botinada de Kimi Antonelli e larga na pole amanhã para as 66 voltas do GP de Barcelona-Catalunha, doravante chamado, neste blog, por decisão puramente pessoal e arbitrária, de GP da Catalunha. Porque é ruim repetir Barcelona o tempo todo. Nem em Barcelona é, essa corrida. Desde 1991 a gente fala errado. A pista fica numa cidadezinha chamada Montmeló, meio feiosa. Tipo Osasco, assim – mas não do mesmo tamanho, que Osasco é enorme e se orgulha de seu cachorro-quente monumental, e em Montmeló nem tem onde comer cachorro-quente. É uma cidade-dormitório, com algumas indústrias e galpões e uma igrejinha. Não tem nem dez mil habitantes, nenhuma agência do Bradesco, nem loja das Pernambucanas. Granollers, do outro lado da pista, é mais bonitinha e tem um bom restaurante onde, uma vez, nos sentamos com o pai do Jenson Button para tomar umas cachaças, que ele era bom disso.

Divago.

George Russell, eu dizia, fez a pole e, pelo menos até amanhã, recuperou um pouco da confiança em seu taco, fortemente abalada nas últimas cinco etapas do Mundial, todas vencidas pelo fedelho bolonhês que em agosto faz aniversário e pediu de presente um álbum da Copa e um Labubu. O inglês precisava de um resultado desses. Nova pancada poderia ter consequências graves, como abandonar a carreira e fugir para o Nepal sem celular.

Foi a terceira pole de Russell no ano e décima na carreira. Seu sábado se tornou ainda melhor ao final da classificação porque Antonelli ficou só em terceiro no grid e pela primeira vez no ano não estará na primeira fila. À frente dele se classificou Lewis Hamilton, que vive bom momento na Ferrari. Vem de dois segundos lugares em Montreal e Mônaco e pela primeira vez larga na primeira fila vestindo o macacão vermelho. Ao lado de Kimi, na segunda fileira, estará Lando Norris, da McLaren. Gabriel Bortoleto, brasileiro da Audi, ficou em 12º.

Vamos ao relato do sábado, porque daqui a pouco tem jogo e, como bom marroquino, preciso me preparar.

Como Russell vinha sendo mais rápido que Antonelli desde ontem, resolveu sair atrás do italianinho no Q1, para não ser copiado pelo moleque. Dona Veronica ligou para Toto Wolff. “Por que ele não ajuda meu filho? É mais velho, tem obrigação de ensinar!”, berrou, em italiano. Toto, que nasceu na Áustria, não fala direito o idioma. “Sì, signora”, respondeu. “Sì? Sì o quê? É o Piastri falando? Faça o que tem de ser feito, signore Toto!” “Sì, signora”, disse de novo o chefe da Mercedes, cobrindo o bocal do telefone com a mão e comentando com o engenheiro, baixinho: “Ainda estou no primeiro ano, mas estou aprendendo: signora é mulher, signore é homem. Pasta é macarrão e pizza é pizza, mesmo”

Russell fez uma volta melhor que Antonelli na primeira saída, coisa de 0s3 de diferença, mas quem começou bem o sábado foi Hamilton, cravando 1min15s625 em sua primeira volta rápida. Superou o inglês por 0s092 e pulou para primeiro.

Ninguém precisava gastar muitos pneus no calorão de 31 graus em Barcelona – 50°C no asfalto –, ou Montmeló, porque lá na rabeira as duplas de Cadillac e Aston Martin estavam pré-eliminadas, com seu desempenho, às vezes, constrangedor. Alguém da Haas e da Williams iria se juntar a Sergio Pérez, Valtteri Bottas, Fernando Alonso e Lance Stroll. Nos últimos minutos do Q1, os 11 primeiros estavam parados nos boxes, sem risco algum de eliminação.

Russell ainda no treino livre: décima pole na carreira

No final, Hamilton, Russell, Charles Leclerc, Antonelli e, oh!, Nico Hülkenberg foram os cinco primeiros. Bortoleto passou em 14º, mas sem riscos. Esteban Ocon, Alexander Albon, Pérez, Bottas, Stroll e Alonso foram degolados. Como previsto no parágrafo anterior – creiam: escrevo enquanto as coisas acontecem –, um alguém da Haas e um alguém da Williams se juntaram aos pré-eliminados. No caso, foram Ocon e Albon. Chamou a atenção, de qualquer forma, a ridícula dupla martiniana atrás dos estreantes cadiláquios. Uma situação triste para Alonso, último no grid. Treze anos atrás, na mesma pista, o asturiano ganhava um GP pela última vez, com a Ferrari. Desde o GP da Inglaterra de 2024 ele não era superado por Stroll em um grid de largada – 42 corridas. Andam falando que El Fodón de la Última Posición pode voltar à Alpine, que será rebatizada como Gucci (“Alpine” fica junto no nome, mas sei lá…), no ano que vem. Não sei direito de onde saiu tal boato, mas duvido. Puro palpite: ele pendura as sapatilhas no final desta temporada. Alonso não é Brad Pitt. E a F-1 não é filme sobre F-1. As coisas acabam. É preciso saber a hora de tirar o time de campo, sem mágoas ou ressentimento.

Na abertura do box no Q2, Antonelli saiu na frente de Russell outra vez. Tocou o telefone de Toto Wolff, que atendeu fazendo voz de gravação: “Diga seu nome e o país de onde está falando”. Ao que dona Veronica gritou: “Signore Toto! Questa è uma gravazione della Embratel brasiliana! No sono troccia!”. Não sei se é assim que se escrevem essas coisas, mas é como entendi e estou apenas transcrevendo. Toto desligou, assustado.

Barcelona é daquelas pistas que vão melhorando com a borracha, e o começo do Q2 mostrou isso claramente. Max Verstappen, Leclerc e Russell se alternaram na primeira posição. George fez 1min15s228, deixando Chaleclé e Kimi para trás, mas bem próximos: 0s053 para o monegasco, 0s067 para o líder do campeonato. Até ali as coisas caminhavam dentro do planejado para o #63, que não suportaria nova derrota para o filho de dona Veronica.

Na primeira bateria de voltas rápidas do Q2, os dois carros da Audi estavam fora dos dez primeiros, apesar dos bons resultados nos treinos livres. Teriam uma segunda chance. Novamente, a turma lá da frente poderia ficar na garagem sem medo. As diferenças de tempo para a zona de eliminação eram bem grandes. Mas tinha gente graúda correndo risco, como a dupla da McLaren, que por via das dúvidas foi buscar tempo para se garantir.

No final, nenhuma grande zebra, apesar de uma queda dupla da Alpine, que faz um bom campeonato. Arvid Lindblad, Bortoleto, Franco Colapinto, Pierre Gasly, Oliver Bearman e Carlos Sainz foram para o chuveiro mais cedo. Avançaram, pela ordem, Russell, Leclerc, Antonelli, Norris, Hamilton, Verstappen, Oscar Piastri, Liam Lawson, Isack Hadjar e Hülkenberg. A Audi, pelo menos, levou um carro ao Q3.

Para Russell, fazer a pole era mais do que uma questão de honra. Representava um recado: ainda estou aqui. (Já usei o título do filme outras vezes em textos anteriores. Mas como o blog não é mais lido por ninguém, só eu lembro; então posso usar quantas vezes quiser.)

Chaleclé: oh, dia, oh, vida!

Começa o Q3, Piastri faz uma volta boa, Verstappen vem logo atrás dele, mas faltando 8min30s para o final, bandeira vermelha na tela e nas mãos dos fiscais: uma pancada forte de Chaleclé na curva 4, uma curva rápida para a direita. Ele perdeu a traseira do carro, foi para a brita e bateu de frente na proteção de pneus. Tirando sua autoestima, ninguém saiu ferido. No momento da interrupção, Oscar tinha 1min15s176, o melhor tempo do fim de semana até então. Max estava 0s152 atrás. Eram os únicos com tempos registrados.

Bandeira vermelha em classificação trava o cronômetro. Quem estava na pista fechando volta, porém, gastou borracha à toa. Eram sete pilotos – fora Leclerc, que bateu. Teriam de fazer suas primeiras voltas rápidas com pneus usados quando os boxes fossem reabertos, ver o que dava, correr para a borracharia, colocar pneus novos e ir à luta de novo. Não daria tempo de respirar. Alguns iriam direto para uma volta só, com pneus novos. Piastri e Verstappen estavam um pouco mais sossegados.

Pouco mais de dez minutos depois da batida de Charlinho, a sessão recomeçou. Antonelli foi o primeiro a abrir volta: 1min15s414 o tempo dele. Russell fez 1min15s145 logo em seguida, assumindo a ponta. Hadjar e Hamilton fizeram voltas bem discretas com os pneus usados e se colocaram em quinto e sexto. Norris, Lawson e Hülkenberg deixaram para o fim, uma volta só com pneus novos e ponto final.

O grid de Barcelona: primeira fila com Hamilton de Ferrari

O braço de ferro final entre Antonelli e Russell foi bem legal. Voltas abertas, era setor roxo pra cá, setor roxo pra lá. Kimi fez 1min14s998, primeiro a baixar de 1min15s. E George, na sequência, cravou 1min14s679 – 0s319 melhor que o garoto imberbe cheio de acne, uma bela volta. Ufa, suspirou o britânico, já imaginando o que dona Veronica diria a Toto Wolff. Ainda faltava um candidato, porém: Hamilton. Abriu bem a volta, fez uma segunda parcial promissora, mas bateu a ampulheta 0s064 atrás de Russell, na segunda colocação. Kimi ficou em terceiro. Norris, Verstappen, Hadjar, Piastri, Lawson, Hülkenberg e Leclerc fecharam os dez primeiros.

“Primeiros”, reforçando: primeira vez que Antonelli ficou fora da primeira fila no ano; primeira vez de Hamilton na primeira fila com a Ferrari; primeira pole de Russell na Espanha.

E primeira chance de George de salvar o campeonato.

Subscribe
Notify of
guest

3 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Carlos Pereira
Carlos Pereira
30 minutos atrás

Do jeito que o mundo está, Laranjão do Norte, guerras e Bostas direita, pra todo lado, será que “abandonar a carreira e fugir para o Nepal sem celular.” é tão ruim assim?
Belo texto.

Rael Gugelmin Cunha
1 hora atrás

Teu “solzinho sem rostinho” que ninguém lê o blog! Aliás, texto muito gostoso de ler (as divagações são a melhor parte!). Impossível não preferir acompanhar as notícias da F-1 por aqui ao invés de qualquer site de notícias.

Zé Maria
Zé Maria
1 hora atrás

Já disse (na verdade, escrevi. . .) outras vezes, repito:
Ainda sou um leitor assíduo, embora comente pouco.
Comentário sucinto, porque como outro bom marroquino, também preciso me preparar.