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terça-feira, 22 de março de 2016 - 1:08#69, Classic Cup

CURITIBA, DIA #2 (E FINAL)

SÃO PAULO (valeu muito, no fim das contas) – Quando uma corrida é decidida praticamente na última volta, em geral a tristeza de quem perde é maior que a alegria de quem ganha. Bom, ao menos é o que penso sempre que vejo alguma coisa assim acontecer. De primeira, sem puxar muito pela memória, lembro de umas 500 Milhas recentes em que o moleque, JR Hildebrand, “rookie”, viu a glória escapar por seus dedos na última curva de Indianápolis. Dan Wheldon herdou a vitória.

Bem, fui o Dan Wheldon de domingo em Curitiba, com todo respeito à memória do piloto inglês — que viria a morrer naquele ano mesmo, numa tragédia em Las Vegas. Ganhei graças à quebra de Rafael Gimenez, que estourou o motor no fim e deu adeus a uma vitória certa na nossa categoria. Outros também quebraram, ao longo da prova. Em certo momento, me senti como Olivier Panis em Mônaco, 1996. Todo mundo foi ficando pelo meio do caminho, o francês ganhou com a Ligier.

É o que fica para a história, enfim. Na minha medíocre história de piloto amador de carros velhos, uma vitória, afinal. Deve haver algum mérito em se manter na pista, fugir de eventuais confusões — houve pouquíssimas, na corrida –, cuidar do carro para não quebrar nada. Mas, na prática, caiu no colo, mesmo.

Larguei em 12º num grid de 28 carros, graças à posição final na corrida de sábado. Que foi boa, afinal larguei em 23º depois de fazer apenas um treino, o de classificação — não cheguei a tempo de fazer nenhum treino livre nem na sexta, nem no sábado. Na minha categoria, a Turismo N, terminei a prova em segundo, e essa era minha posição no nosso grid particular, que tinha seis carros. Fisicamente, estava alinhado atrás do vencedor da primeira prova, o Voyage #53 de Milton Vieira, que é do pedaço.

Larguei muito mal, cauteloso demais, sem atacar ninguém e sem me defender de um monte de carros que estavam atrás no grid por circunstâncias, apenas — eram de outras categorias, mais velozes, que tiveram problemas na primeira corrida e só por isso largaram atrás. Mas tudo bem. Num estilo declaradamente de “corrida de resultados”, estava preocupado apenas com meus colegas de Turismo N, para tentar terminar no pódio de novo.

Tais pretensões acabaram já na primeira volta, porque fui ultrapassado pelo Uno da dupla Nodari/Pacheco antes mesmo do “S” no fim da reta dos boxes, e pelo Rafinha, que largara em último, no cotovelo que acho que se chama Pinheirinho — não sei direito os nomes das curvas de Curitiba. Como não conseguia alcançar o Voyage #53, me vi em quarto lugar sem muitas chances de chegar num piloto bem acostumado com a pista e que provavelmente guia bem melhor do que eu.

Assim, fiquei quietinho no meu canto sabendo que os outros dois da categoria estavam bem para trás — um deles o valente Escort de Luc Monteiro, colega jornalista de Cascavel que conheci quando ele tinha 15 anos, hoje consagrado locutor de corridas de várias categorias pelo Basil. Fui tocando o barco e ganhei uma posição de brinde com a quebra do Uno, logo no começo. OK, um podiozinho razoavelmente garantido, se não fizesse nenhuma cagada — e não estava disposto a virar herói, sequer fui buscar o melhor tempo do fim de semana, estava mais concentrado em ficar na pista torcendo para não se repetirem os probleminhas da prova de sábado, quando algumas marchas teimavam em não entrar e, no fim, me custaram a vitória.

A cinco voltas do final, quem ficou foi o Milton do Voyage da casa, depois soube que quebrou a bomba de álcool. Um segundo lugar no bolso, estava bom demais, bem melhor que a encomenda. Fui levando, procurando não atrapalhar os líderes que já me encontravam como retardatário (foram seis), até a penúltima volta, quando saí do tal Pinheirinho e vi o Rafinha encostado na grama.

Fiquei muito chateado por ele, um parceiro de primeira hora nas nossas corridinhas, cara dedicado, que trabalha no carro como poucos, e guia como ninguém. Claro que meu altruísmo durou apenas o tempo suficiente para me dar conta de que estava em primeiro e que, como diria Téo José, não perderia mais — faltava uma volta, precisa ser muito burro para deixar escapar uma chance assim. Tirei o pé, fiz a última volta como uma tiazinha indo à feira de Aero Willys, liguei a ventoinha mais uma vez para baixar a temperatura de tudo, passei a trocar as marchas a menos de 6 mil rpm, tratei de receber a quadriculada sem maiores sustos.

Ganhar deixa a gente feliz, e fiquei feliz — em tempo, fui 13° na classificação geral, em prova vencida de novo pelo já imbatível Caio Lacerda, com um Passat que melhora a cada corrida. Afinal, foi um fim de semana esquisito, sem treinar, pouco tempo de pista, mal vendo o pessoal por conta das madrugadas de F-1, alguma solidão, sono interrompido, diferente das corridas fora de São Paulo que costumamos fazer e que são festivas e divertidas.

Voltei para casa com dois troféus, e foi a segunda vitória do Bon Voyage — a outra foi na estreia em Londrina, no fim do ano passado. É um carrinho simpático, me entendi com ele desde o dia em que o vi na oficina da LF, minha incrível equipe, e mais ainda depois que sentei nele pela primeira vez. Estamos longe de formar uma dupla espetaculosa, mas nos viramos dentro de nossas possibilidades. Com um time tão forte e azeitado por trás — Nenê, Finottão, Marcônio, Léo e Cláudio, nesta corrida –, as coisas fluem e acabamos conseguindo um ou outro bom resultado, apostando na fórmula “cuidar do carro + não fazer bobagens”. É algo que venho aprendendo com o tempo, depois de bater cabeça de DKW e de Lada, sempre tentando fazer mais do que eu e os carros éramos capazes de realizar.

E assim me despedi do autódromo de Curitiba, onde tinha estado apenas uma vez, em 2002, para comentar corrida de Fórmula Renault ao lado do querido Luciano do Valle. Soube hoje que a venda do terreno foi finalmente formalizada e homologada pela Justiça de São Paulo — não me perguntem por quê não foi a do Paraná a cuidar disso. Vai virar condomínio, ou centro empresarial, ou cemitério, ou terminal ferroviário de carga, ou usina de asfalto, sei lá. De certa forma, o pequeno Voyage #69 rabiscou algumas linhas na história do circuito, ainda que não tenham sido memoráveis. Mas deixou sua marquinha, o que já é alguma coisa.

23 comentários

  1. Marlo Gomes disse:

    Meio fora do tópico, mas não vi comentários seus a respeito das duas fatalidades com pilotos de turismo que ocorreram recentemente. Qual sua opinião sobre os acontecidos? Realmente fatalidades, falta de segurança dos carros, dos autódromos ou outro motivo?

    • Robertom disse:

      Dois acidentes fatais com carros do Marcas 1600, um em Cascavel e outro em Tarumã, em 3 semanas.
      Deveria haver uma investigação séria das Federações Paranaense/ Gaúcha e CBA com foco em 4 aspectos, Segurança do Carro, (Banco, Cinto, Gaiola de Segurança), Seg. do Piloto (Estado físico, Capacete, HANS, macacão), Dinâmica do Acidente (Análise dos Vídeos) e Segurança da Pista.
      Não é para apontar culpados, é para evitar a repetição de uma tragédias como estas.
      Infelizmente a tendência é que oficialmente sejam considerados como “fatalidades”, sem apuração do que efetivamente deu errado.
      O efeito imediato é que a FASP já comunicou que realizará uma rigorosa vistoria nos itens de segurança para a próxima etapa do Paulista, dias 2 e 3 de abril em Interlagos.

  2. Antonio disse:

    Parabéns, uma vitória é sempre algo marcante.
    Se os outros quebraram, problema deles. Você e o carrinho fizeram suas partes.
    Está ficando craque na edição de vídeos. Só faltou o estouro da champagne.

  3. Marcelo Pacheco #49 disse:

    Parabéns. Chegou, não importa se é o mais forte ou melhor piloto. Nosso carro com o Nodari a bordo cuspiu a correia dentada na 2a volta em 4a marcha chegando no Pinheirinho, quanddo ele, após largar atrás de vc, já pressionava o Milton, que visivelmente já fazia um traçado defensivo. O 2º era coisa de tempo. Buscar o Rafinha seria outra história. Tenho um abandono com este carro em quase 7 anos, infelizmente ali foram 2 mas q
    Agora vamos viabilizar o projeto Londrina, GP do Café na preliminar das 500…Gostamos de correr com a turma de Sampa…Caslline, Stites, Nenê que eu jáconhecia de Tarumã, mais o Kfouri, o Grosso e vários outros mto gente boa.
    Marcelo Pacheco/Ike Nodari – Floripa/SC

  4. Garlet disse:

    Parabéns pela vitória FG.

  5. Celio ferreira disse:

    Pilotagem tipo Emo , cuidadosa e vitória ni final , enquanto que adversários
    ficando pelo caminho . Parabens vencer é sempre bom para o ego….

  6. Flávio Francisco disse:

    Não consegui assistir a corrida da Austrália domingo, nem na segunda pelo sportv. Alguém sabe uma outra opção?

  7. Tuta Santos disse:

    Com tanto carro lindo, deixa passar nem que seja pra admirar a beleza.

  8. Adelson disse:

    Parabéns pela Vitória.

  9. Valmir Lopes disse:

    Quando as vitórias são honestas, elas tem grande valor. Pelo que me conta a parti do que li, a sua foi. Portanto, meus sinceros parabéns. Como gosto de assistir corridas, (especialmente formula 1), pergunto se as corridas da Classic cup são transmitidas por alguém? Felicidades na próxima corrida,

  10. Pablo Vargas disse:

    Valeu a frase : “Para chegar em primeiro, primeiro é preciso chegar”.
    Acho que era do Piquet, sei lá.
    Parabéns, fez a despedida do circuito em grande estilo.

  11. Marcelo Melo disse:

    Parabéns, FG.

    Sei muito bem o que é isso. Ok… não vamos comparar com o que aconteceu comigo. Em uma das 3 vitorias que conquistei eu estava no kart indoor e a duas curvas do fim… o líder e o segundo se enroscaram e a vitória caiu no meu colo. Mas comemorei como se tivesse feito “a pilotagem”. Vitória é vitória. Lamentamos pelo Puma… mas comemoremos pelo #69.

  12. Hay que endurecerse siempre pero sin perder la posición jamás! (Y sin sacar paragolpes). Bien dicho sea el diós rompedor de tapas de cilindros, en esta fecha más efectivo que el diós rompedor de cajas de cambios.

    :)

  13. Hamilton disse:

    Demais, Flávio. Parabéns!!!
    Você parece estar se divertindo muito com o novo carro, e isso é muito legal!
    Desculpe a petulância do comentário, mas eu sugeriria que você revisse a posição de fixação da ancoragem do strap de ombro do seu cinto de segurança. Por favor, este não tem intenção de ser um comentário derrogatório em relação ao Nenê, que é SUPER competente. É apenas por preocupação pela sua segurança. Do jeito que ele está fixado o cinto: 1) não pode ser ajustado à contento (como é possível “inferir” no vídeo, já que ele parece solto); 2) em caso de colisão, numa eventual movimentação do banco, a angulação adotada na ancoragem do cinto permitírá uma grande movimentação do seu corpo.
    A ancoragem deve ser feita numa angulação de no máximo 45* ou cerca de 10cm abaixo da linha do ombro. No seu caso, como a fixação dele é bolt-on e não strap-on, experimente ancorá-lo onde seria fixado o cinto do banco traseiro.
    Desculpe a intromissão. Novamente, a ideia não é “cornetar” ninguém, apenas preservá-lo.
    Abraços

  14. TARCISIO FRASCINO FONSECA disse:

    1º PARABÉNS!
    2º Que veículo era o #17 vermelho (ou laranja, passou rápido)?

  15. Luis felipe disse:

    Caraca! A reaçao efusiva do público…o pessoal da sua equipe te arrancando d carro, ate os fiscas de pista para cima de voce , tentando te carregar!!! Que sensaçao!!
    Agora serio…kkkk.. Parabens Flavio..independente disso, ou daquilo , me ponho em seu lugar e imagino que fantastico deva ser..Pergunta: é a ultima corrida de Curitiba? É isso?

  16. Paulo Fonseca disse:

    Prezado F&G : Bon Voyage lhe deu o maior presente de sua vida,uma vitória com uma boa história,com quebra do líder e outros competidores, quando Fangio profetizou “Carreras são Carreras”, você pode ter certeza de que, essa vitória nunca mais você vai esquecer, o VW Bon Voyagede surpreendeu, pois em poucas corridas está evoluindo e você está aos poucos pegando os macetes da boa condução com esse carro, agora é só alegria,bom divertimento.

  17. Davi Ribeiro disse:

    Parabéns!
    Pilotagem competente, sem fazer besteiras, tirando o melhor do maquinário que tinha em mãos. Fez direitinho o dever de casa!

  18. Fábio 77 disse:

    Tem ideia de quanto estava chegando (km/h) no final da reta?

  19. Raimundo Baudet disse:

    Olá gomes… Meus respeitos pela sua vitoria (o traductor de español me faz a vida difícil) … Achaba belo circuito, lembro de uma corrida legal alí que foi de o TC2000 argento ó 2005 com uma briga muito boa entre corollaôs e chevroletes até a última curva. Eu assisti daquele tempo do Chile pela tv e fiquei maluco Pela corrida… Por favor Gomes pesquisa o vídeo “spattaro vs fontana londrina 2005″… Corrida pra valer … Abraço do Chile

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