ENTRE OS LAGOS (11) | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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sexta-feira, 11 de novembro de 2016 - 21:41F-1

ENTRE OS LAGOS (11)

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SÃO PAULO (odiei) – Lá embaixo eu disse que ia subir ao paddock, e que explicaria depois por quê “subir”, e não “descer”.

A vida toda, em Interlagos, descemos ao paddock. Desde 1990 que a sala de imprensa neste autódromo ficava num lugar que sempre agradou a todo mundo que trabalha na F-1: exatamente sobre os boxes.

Envidraçada, com janelas em toda sua extensão voltadas para as duas laterais do edifício dos boxes, tínhamos uma visão deliciosa deste circuito. De um lado, a reta dos boxes. Diante de nós ficavam as tribunas cobertas, as equipes na mureta dos boxes, as faixas dos torcedores, o público nas arquibancadas do Setor A. Víamos o diretor de prova dar a largada e a bandeirada. Víamos os pit stops sob nossos narizes.  Víamos a largada e a freada para o S do Senna.

Do outro lado da sala, as janelas se voltavam para a Reta Oposta, a descida do Lago, a entrada do Laranjinha, o S antigo, o Pinheirinho, o Bico de Pato, o Mergulho. Víamos tudo, absolutamente tudo. Quando saíamos para o terraço, que na verdade nada mais era que a plataforma onde desembocava a escada metálica que nos levava à sala — acanhada, de certa forma, sem luxo, com seus velhos aparelhos de ar-condicionado barulhentos, o piso emborrachado, o jeitão de coisa meio improvisada –, tínhamos a visão de tudo isso, mais o paddock inteiro, as pessoas passando lá embaixo, pilotos pra cá, mecânicos pra lá, meninas bonitas, homens vistosos, pneus, mesas, comidas, bebidas, a F-1 concentrada naquele corredor atrás dos boxes.

Era a sala de imprensa menos luxuosa do calendário.

E era a melhor de todas.

Só que, neste ano, tiraram a sala de imprensa de lá.

Provavelmente nosso antigo reduto virou camarote para alguma empresa alugar, levar convidados, encher o espaço de gente que não sabe nem quem está correndo, que não entende picas de nada, que vai lá só para comer e beber de graça. E deslocaram o espaço dos jornalistas para uma espécie de bunker, uma estrutura que fica abaixo do nível do paddock e que era usada como administração do autódromo. Nem sei como definir isso aqui. Não é um prédio (tem um andar), não é um porão (tem janelas), sei lá o que é. É um negócio que fica encravado no barranco da antiga Curva do Sol, para quem conhece o traçado antigo. De frente para o estacionamento. Com vista, vá lá, para a Reta Oposta.

Só que as janelas estão vedadas. Como sua situação era precária, vidros trincados, esquadrias de alumínio velhas e feiosas, resolveram colocar um tapume interno, preto fosco, que faz com que nos sintamos enfiados num buraco dentro da terra. Não se escuta nada. Nada se vê. Tem ar-condicionado e piso laminado no corredor, divisórias de repartição pública e carpete de escritório no chão. O grande diferencial é uma máquina de pipoca.

Uma máquina de pipoca.

Tudo que conseguiram fazer com essa decisão desastrosa de mudar a sala de imprensa foi 1) desagradar todos os jornalistas e 2) desconectar a imprensa do evento.

Ver a corrida aqui é a mesma coisa que estar num hotel, ou em casa, num boteco, num night club animado. Tendo TV, está bom. Aliás, melhor ainda se for em outro lugar, porque WiFi é grátis até em puteiro, e aqui custa 75 euros. Basta ligar o laptop numa rede, pegar a página de cronometragem, ligar a TV e abrir uma cerveja.

Lá em cima, estávamos com tudo sob nossos olhares. Opa, olha lá embaixo o Alonso chegando puto e batendo boca com o japonês da Honda! Corre lá na Sauber e veja o que aconteceu com o Nasr, que acabou de sair do carro esbravejando! Viu o Massa discutindo com o Verstappen na porta do banheiro? Porra, olha o que está entrando de gente lá no G, vai encher essa merda! Meu, a faixa xingando o Rosberg é muito engraçada, e o cara é de Piracicaba! Putz, começou a chover, está todo mundo colocando capa! Cara, o Hamilton passou aqui na frente com um barulho estranho demais no motor! Gente, tá fumando o carro do Vettel! Não acredito, o Pelé não tá dando a bandeirada! Caramba, olha lá o abraço do Button no pai, que coisa mais bonita! Puta que pariu, enroscou o pneu do Pérez no pit stop! Rapaz, a fila do macarrão na Ferrari tá dando a volta no quarteirão! O Bernie tá passando lá embaixo com a Gisele Bundchen!

Isso tudo e muito, muito mais, a gente via lá de cima dos boxes. Bastava colar na janela, sair no terraço, acender um cigarro e olhar. Ali, estávamos no GP. Fisicamente. Ali, sentíamos o GP. Na alma. E é absolutamente necessário que um jornalista se inunde com a alma do evento que está cobrindo. Caso contrário, nem precisa ir.

Ah, mas então por que você vai, já que é a mesma coisa que ficar em casa?

Virei sempre. Para entrevistar as pessoas, precisa estar aqui. Para ouvir as coletivas, encontrar os colegas, trocar ideias.

Mas, instalado neste buraco, percebo que o maior encanto de Interlagos se perdeu. Continuaremos a ouvir os pilotos — sempre com hora marcada –, a acompanhar as coletivas — idem –, a encontrar os colegas — cada vez em menor número –,  a trocar ideias — cada vez mais irrelevantes.

Mas, daqui, já não se vê mais nada, nada mais se observa, se nota, se repara, se percebe, se espreita, se contempla, se presencia, se testemunha.

Daqui, não se vive mais o GP.

Meninos e meninas da organização e da Prefeitura, que erro monumental vocês cometeram… Por que não ouvem as pessoas antes de fazer uma coisa dessas? Por que estragar algo tão essencial a um ofício cada vez mais mutilado e vilipendiado?

Daqui deste bunker de onde vos escrevo, meninos e meninas, simplesmente não me sinto em Interlagos. É a sensação mais esquisita do mundo.

38 comentários

  1. André disse:

    É nisso que o mundo está se transformando: num buraco que substitui os olhos por monitores (tv, computador, celulares etc.).

  2. Eduardo_SC disse:

    Onde falta dinheiro, sobram ideias de girico.

  3. Roberto disse:

    Então Flávio, é por essas que sou a favor da privatização do autódromo e conta a gestão atual da prefeitura que está saíndo, que deve ter tomado essa decisão aí com vcs.

  4. Cyro Ferraz De Cicco disse:

    Que decadência! Estou triste e estou com medo. Medo de não termos nenhum brasileiro na F1 no ano que vem. Medo de não termos Interlagos na F1 no ano que vem. Medo!

  5. Eduardo Britto disse:

    Putz! Sem imprensa não existe evento esportivo… Lamentável! Imagino tua dor…

  6. Müller disse:

    Então pra que existe a SPTuris (e qualquer órgão/autarquia pública de fomento ao turismo no páis), né? Se todo evento onde há o dedo do governo é considerado pelo pessoal aí “gasto público”…

  7. Julio Felix disse:

    Flavio,

    Tenho sentido você distante na cobertura do GP de Interlagos esse ano, sinto um certo desânimo.
    Não tem mais o mesmo tesão?
    Escrevo isso, pois, em anos anteriores você estava na pilha, na adrenalina, pingando notícias, curiosidades, histórias engraçadas a todo momento no blog.
    Você era os nossos olhos,Confesso que o grande barato de ter o GP do Brasil, é acompanhar pelo seu blog, por tudo que escrevi acima.

    Então, se for desanimo, tenta resgatar as lembranças dos anos anteriores , toma um energético, fuma um cigarro, e vamos escrever, pois

  8. Yeshua disse:

    Parabéns Haddad!

  9. Alexandre Cheque disse:

    Caro F.G

    Pessoas experientes com toda certeza questionariam alguns profissionais da área jornalística para alteração de local, infelizmente não houve.
    Muitos (as) agem como total conhecedores do assunto, talvez por egocentrismo, sei lá. Atitude das pessoas com o passar do tempo, agem em somente olhar para o próprio umbigo, esquecendo que existem pessoas ao seu redor para troca de informações, ajuda etc.
    Infelizmente, Interlagos através dos seus administradores, estão cavando sua própria cova. Será muito triste ver nosso país com enorme tradição no passado, ficar sem sediar o famoso GP Brasil de F-1 e também ficar sem um piloto representando nosso país.
    Vamos aguardar por uma nova geração como Sette Câmara, Pietro Fittipaldi e Pedro Piquet, entre outros Brasileiros.

  10. Charles disse:

    Flávio, pode esquecer, esse grande prêmio não vai acontecer mais, talvez já no próximo ano, mas a F1 vai embora, nunca a cidade vai conseguir atender ao que pede a FOM, seja hoje ou daqui a 5 anos, o nível de exigência sempre vai ser astronômico, além do mais com a iminente distância da Globo, que vai ser adiantada com oi fim dos pilotos brasileiros no grid, (o que podemos dizer que já acontece ano que vem, pois o Nasr no fim do grid é o mesmo que não termos pilotos, isso se ele ficar), sem o “impulso” imenso dado pela platinada à corrida, a Spturis e a Prefeitura não conseguirão fazer um evento que se pague (parece que já estão perto de não conseguir fazer), isso se o nosso Trump Dória não resolver privatizar a pista de vez. Independente de exigências da FOM, Berine, Globo, presença de piloto nacional, Dória ou o diabo a quatro, Interlagos já estará condenado assim como o Canindé da sua Lusa, embora no início por motivos diferentes, mas no fim por conta da mesma coisa: a localização, São Paulo é cara demais, grande demais, e superlotada, saturada, o espaço físico aqui vale quase ouro, daí qualquer local público ou particular que se situe aqui (quanto mais próximo mais caro, embora a carestia tenha chegado às periferias mais distantes), vai sofrer pressão se não para ser vendido e virar uma dúzia de prédios residenciais (abomino), como parece ser o destino do seu Canindé, vai sofrer pressão para virar algum tipo de Ibirapuera ou espaço público para lazer ou algo assim, porque vai chegar um ponto que custear atividades automobilísticas num espaço assim vai ser inviável (lembro que no cemucan aqui perto de casa tinha, até 2003, uma pista de aeromodelos à gasolina, foi desativada porque o entorno do parte de casas/mansões), e cada vez mais a Prefeitura vai fugir sequer de gerir essa coisa, daí já era. Em cidades menores, menos inchadas e condenadas, como Goiânia, Porto Velho, por exemplo, ainda dá para encontrar espaços baratos (são abundantes) no entrono para de repente se fazer um autódromo, particular ou não, mas São Paulo e Rio já era, não tem jeito mais

  11. Leonardo F. disse:

    Desde os anos 60 vou quase todos os fins de semana em Interlagos . Já trabalhei muitos anos nas organizações das corridas . A visão do público , no setor A , era quase 90% do circuito antigo dos quase 8 km . Devido essas reformas anuais desde 1990 , quem vai assistir ou quem trabalha , ex: jornalistas , a visão dos 4,3 km atuais de pista está muito pouco . Devido a F.1 , o tempo por volta foi reduzido com a diminuição do circuito pela metade para passar mais vezes o carro na TV . Mas a visibilidade do público tinha que ser prejudicada ? Que planejamento e progresso é esse ?

  12. ags disse:

    Vai chover.. na classificação.. e na prova..
    resumo..
    o pigmeu fica na casa da rola.. e mas vai dar 10 voltas.
    Hamilton vence e o naziboy fica em 11 na prova. Ô vida rsssssssss

  13. Antonio disse:

    Isso reflete a esmagadora derrota que Haddad teve em São Paulo.
    Espero que com a privatização do autódromo gente competente e do ramo faça um trabalho decente e dê a Interlagos o valor que ele merece, e o melhor, com dinheiro privado.

    • Flavio Gomes disse:

      Verdade, é por causa da sala de imprensa que o Haddad perdeu a eleição. Como sempre digo, a burrice é endêmica.

      • Anselmo Coyote disse:

        É cada uma… Viva a camisa da CBF.. Uhuuuu!!! Viva o Trump… Uhuuuuu!!!
        Foda. Mas, ok.
        Flávio, segundo o seu relato, só uma palavra para expressar o que fizeram com vocês. FODEU!
        Abs.
        PS. Com vcs não. Conosco, afinal o que vcs terão para nos contar?
        Abs de novo.

  14. Ricardo Neves disse:

    Mas Flavio…desculpa perguntar, pois só estou sabendo agora justamente através deste post seu. O pessoal do meio automotivo e jornalístico (você incluso) só ficaram sabendo de como seria a sala agora, no GP do Brasil? Não ficaram sabendo antes? Sabendo antes, não teria como tentar reverter a mudança? Abraços

    • Gabriel P. disse:

      Exato
      Parece que ninguém do automobilismo esportivo se importa com Interlagos, quase 1 ano reformando e só agora , às vésperas da F1 é que Flávio foi descobrir a mudança na sala de imprensa?
      Ué, todo este tempo ele não foi nenhuma vez até lá, não viu nada, não soube de nada, era tudo feito em sigilo absoluto?
      A idéia de Dória poderia até ser boa, não fosse o mau caratismo do empresariado nacional, que só querem ganhar sem investirem nada..
      Como sempre digo – Essa gente odeia o Brasil e seu povo,
      A ordem é explorar, maltratar, roubar e gastar (ou enviar a grana para) longe daqui.

  15. José Brabham disse:

    Li o texto sentindo uma tristeza crescente. Espero que consertem para 2017

  16. Gabriel disse:

    Normalmente, quem fazia esse trabalho sujo de tornar precário o que é público para depois ter uma desculpa para vendê-lo barato para os amigos, era uma certa turma de azul que zumbizava em fins dos anos noventa. Como muito bem pontuou o Vladimir Safatle em artigo publicado ontem, em matéria de gestão da política econômica e das coisas públicas, já não há diferença perceptível entre os de azul e os de vermelho. Haddad cobrando escanteio para o descendente de senhor de escravos que assumirá a prefeitura ano que vem cabecear. Saudades de Senna, Raul, Erundina, Lula, Cazuza, Elis, Ulysses, Paulo Francis, Nelson Rodrigues. A gente chamava as coisas pelo nome e os nomes faziam algum sentido porque se referiam a alguma coisa substantivamente diferente. Hoje em dia dá igual, Dória ou Haddad, Hillary ou Trump, Sarkozy ou Le Pen, o mercado engoliu tudo.

  17. Fernando disse:

    Sacanagem meu parceiro, texto maneirão!!!

  18. Johedy disse:

    Hmmmm. Eu tenho de pagar 500tao pra assistir a corrida. Os caras vão trabalhar e ficar de camarote.
    Pimenta no rabo dos Outros é refresco.

  19. Julio Cesar Ruthes disse:

    Cretinice. isso dá em gente. Logo, logo vai ser mais fácil um jornalista cobrir uma guerra que um evento esportivo. Escrevo isso por experiência própria. Faço cobertura de jogos do Campeonato Brasileiro e neste ano a CBF restringiu até o uso de boné para repórteres de campo. Mas uma coisa é certa, Flávio Gomes. O texto dizendo que o “GP Brasil foi um sucesso” já está pronto para entrar na página da prefeitura assim que a corrida acabar. E o camarote do prefeito deve ter uma vista ótima da pista!

  20. Renato de Mello Machado disse:

    Poxa! era para se igual a uma torre de aeroporto,com visão total da pista e vocês ainda de binóculos.Só pode ser má fé.

  21. Luiz disse:

    Bizarro. Cobrir um evento sem vê-lo? Será que eles querem que vocês vão para arquibancada? Vai ter que pagar ingresso?

  22. Impressionante a tendência das coisas mudarem para pior. Não sei onde está a tal evolução pela qual deveríamos estar sentindo exatamente agora.

  23. SOMATER HANNEKOL disse:

    QUE SACANAGEM COM A IMPRENSA!!!
    SERÁ QUE FOI COISA DO DORIA JÁ????

    De qualquer modo é uma mais um desserviço ao mundo de F1, desse jeito BYE BYE F1 no Brasil, lamentavel!

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