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quinta-feira, 10 de novembro de 2016 - 21:23F-1

ENTRE OS LAGOS (7)

hamsenna

SÃO PAULO (agora, ao jogo) – Para fechar este primeiro dia corrido, pequeno relato de ontem à noite.

A Puma organizou um evento com Lewis Hamilton num prédio icônico (odeio a palavra!) de São Paulo, o edifício Mirante do Vale — que por 48 anos foi o mais alto do Brasil, sendo batido inapelavelmente pelo cafonérrimo Millennium Palace em Balneário Camboriú; um dos que lançam suas sombras sobre aquilo que um dia foi uma praia no litoral de Santa Catarina.

Como o Grande Prêmio ganhou cinco minutos para entrevistá-lo com exclusividade, acabaram me escalando para a tarefa e lá fomos para o centro da cidade.

Confesso que minha curiosidade maior era subir no Mirante do Vale, prédio feioso e com andares de pé direito muito baixo, um daqueles monstrengos de São Paulo erguidos nos anos 60 sem grandes preocupações arquitetônicas ou urbanísticas. Mas como fica no Vale do Anhangabaú, com uma vista espetacular, queria muito ir até o topo. Porque é o tipo de lugar pelo qual você passa a vida inteira e nunca entra. Então, quando tem a chance, que se aproveite.

O prédio é um barato, uma viagem no tempo, espetado ao lado do viaduto Santa Ifigênia, numa área decrépita da cidade. No térreo, uma galeria com lojinhas escuras e amareladas, restaurantes por quilo dirigidos por chineses e coreanos, luz fria no teto descascado, porteiros com gravatas mais largas e curtas do que deveriam, seus colarinhos puídos e seus paletós altivos.

Os elevadores são minúsculos para o tamanho do edifício, as escadas são acanhadas e envelhecidas, e lá do alto a cidade se oferece a quem ainda é capaz de olhar para ela com alguma ternura.

Eu ainda sou.

A entrevista seria apenas mais uma entrevista, em cinco minutos não se fala muita coisa, e deixo o relato (com o vídeo) para os meninos que foram lá cobrir o evento – tratava-se de um grafite em homenagem ao piloto, que seria concluído por ele com umas latas de spray. O que curti, mesmo, foi o terraço.

Choveu muito e ventou demais no final da tarde, e quase que tudo foi para os ares. Mas depois a água deu uma trégua, as luzes da metrópole lá embaixo se acenderam, serviram caipirinhas, cervejas, canapés e escondidinho de carne seca, apareceram jovens dançarinos de hip-hop, um DJ tocou as músicas que Hamilton gosta, acabou que tudo foi muito agradável e simpático.

Deram um quadro com o rosto de Ayrton Senna para Lewis, fã declarado do brasileiro — a foto acima, muito bonita, é do Rodrigo Berton. Não sei bem o que ele disse lá no palco, porque enquanto recebia o presente eu conversava com Max Wilson, que é uma figurinha rara — conheço o moleque há duas décadas, e ele de moleque já não tem nada, fiquei besta de saber que já tem 44 anos, achava que só eu ficava velho.

Hamilton foi muito cordial e solícito, tanto com os jornalistas, quanto com os fãs, convidados, artistas, músicos e bicões que sempre aparecem nesses lugares — e ainda bem que é assim, o mundo é dos bicões. Contei rapidamente que aquele era o prédio mais alto de São Paulo e se ele não pareceu impressionado, também não ignorou a informação. Amante da cultura popular, da música e da arte nascidas nas periferias das grandes cidades, tive a impressão que Lewis curtiria mais aquilo tudo se pudesse sair a pé pelo Centro, incógnito, para ver a molecada que anda de skate na Praça Roosevelt, a moçada na Galeria do Rock, as pichações e grafites reais espalhados pelas paredes dos velhos prédios da São João, terminando com um bauru no Ponto Chic do Largo do Paiçandu, ou até mesmo ouvindo um bolero no Bar Brahma.

Essas coisas, que são a verdade de uma cidade, um cara como o Hamilton não pode fazer. Em lugar nenhum do mundo.

Eu posso, e me senti meio aliviado com isso.

27 comentários

  1. William Gimenes disse:

    Nos anos 70, o Mirante do Vale abrigou um daqueles bancos extintos… meu pai trabalhou lá. Acho que era o “Geral do Comércio” ou o “América do Sul”, um desses… Também havia uma imobiliária.

  2. Diogo disse:

    Com relação a “cagar na cabeça” e arquitetura, não entendo porra nenhuma, mas acho que posso dizer o que é bonito e feio. E cara, quem caga na nossa cabeça hj em dia são os chineses. Xangai, que é aquilo, um mais bonito que o outro. Sei lá, sempre achei os prédios daqui caixotes horrorosos. Muita coisa do próprio ON, Deus o tenha, não me descia lá muito bem. Claro que nem tudo. Brasília é uma obra prima.

  3. Eduardo Britto disse:

    Putz! Hamilton (e você) no Mirante do Vale?? Numa época eu tinha que subir semanalmente nesse ´prédio, e ficava com o maior medaço! Os elevadores são sinistros, as escadas terminam num nada… Tinha o maior medo de ficar preso num elevador ou daquilo virar uma gigantesca tocha! Ainda bem que não vou mais lá! Mas falando em centro, o novo prefeito convidou o Jaime Lerner pra palpitar sobre a revitalização da área. O que acha?

  4. Saudades das suas crônicas de viagens pela F1. Gostei do texto.

  5. Felipe Montoya disse:

    É muito bacana quando vc se propõe a escrever bem… Maravilha! Maravilha de texto…

  6. carlos lima disse:

    Ótimo texto. O leitor agradece. Bravo!

  7. bruno cesar letra disse:

    ja foi no topo do martinelli? tem uma bela vista tb!!! abs

  8. Tiago disse:

    Ano passado o Hamilton foi para o RJ, visitou o Cristo e andou de skate em Copacabana, de boa, sem ninguém incomodá-lo e sem seguranças. Era apenas mais um… Pra ver como a F1 está sem moral mesmo, ninguém reconheceu o tri campeão.

  9. Marcelo disse:

    Ah, o centro de São Paulo…16 anos de saudade. Voltarei!!

  10. JP disse:

    Se espelharem o Mirante, ao menos ficaria com jeitão de sede da ONU….

  11. Renato de Mello Machado disse:

    Pior é não ter nada para perguntar para um cara desses, sobre F1,pois seu carro de corrida, Flávio é mais perigoso de correr e mais difícil de pilotar quê o dele. A noite de São Paulo é muito legal

  12. Mentecapto disse:

    Muito bacana esse post, e legal a sua conclusão. Só posso dizer que dá para refletir as vantagens e desvantagens de ser uma celebridade. Uma coisa é você ser rico e poder fazer o que quiser e ainda ser livre, e outra é ser perseguido por paparazzis e não poder fazer essas coisas simples que você citou.

    Acho que em algumas cidades dos EUA ele pode passar despercebido, mas nessas ele corre o risco de ser discriminado pela cor da pele.

  13. Batista Lara disse:

    Caramba e eu pensei que o mais alto fosse o Edifício Itália!

  14. Ragnar disse:

    FG sou Arquiteto e moro em BAlneário Camboriú, o Millenium foi uma farsa, no final foi aprovado com menos pavimentos, propaganda enganosa da construtora. Porém existem outros em andamento, por aqui, ainda maiores. e sim a arquitetura por aqui, tirando uma ou utra construtora é bastante cafona, é o tal neoclássico, porém eu chamo de ARQUITETURA FAMILIA ADAMS, é pra ser luxo, mas não tem nenhum sentido estético e passa longe do bom gosto. Parece que terá um edifício de 70, já em andamento, que por sinal tem design de fachada feito pelo studio Pininfarina, da itália.

    • Flavio Gomes disse:

      Os caras da Pininfarina devem se mijar de rir com essas encomendas.

    • Eduardo_SC disse:

      PQP, também fico impressionado como podem gastam dinheiro para fazer aquelas cafonisses. Você foi nas jornadas de edifícios altos que teve em BC? Os caras do Panamá e da Argentina cagaram na nossa cabeça em termos de concepção e arquitetura. No GP do Brasil de 2013, fiz um tour pelo centro de São Paulo só para contemplar os edifícios, BANESPA, Itália, Mirante do Vale laureado pelo viaduto Santa Ifigênia, etc. Quanta inspiração!

      • Eduardo Britto disse:

        Entra nova gestão, ressurge a esperança do centro paulistano revitalizado… Li que o novo prefeito vai convidar o Jaime Lerner pra palpitar nessa revitalização. Será que vai? A Praça da Sé pelo menos, como está, não pode continuar…

  15. Rodrigo disse:

    Já fui ao terraço também. 10 anos atrás.

    Voltei ao prédio recentemente e o segurança que dá esse acesso ainda é o mesmo – França é seu nome.

    Gosto do jeito que você vê a cidade. Me faz saber que não sou o único.

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