Volta à simplicidade

SÃO PAULO (cinza, fria e chata) – Pela última vez, até a próxima, um pouco de ludopédio.

Esta Copa deixou algumas lições. A principal delas, de que o Brasil tem de procurar ser um pouco mais Brasil. Em tudo.

A seleção que esteve na Alemanha não era brasileira, mas sim formada por atletas brasileiros-europeus. Apenas três jogavam aqui, e nenhum deles titular. O resto, em sua imensa maioria, joga e vive na Europa há muito tempo. Tem formação européia, não brasileira.

O técnico. O técnico passou a vida treinando times nas Arábias. Quando treinou clubes brasileiros, foi mandado embora de quase todos: Fluminense, Inter, Atlético. No Corinthians ganhou um título e foi convidado pela CBF para dirigir a seleção. Seleção por onde passara pela primeira vez em 1970.

É muito dos mesmos. Parreira, Zagallo, Lídio Toledo, Wendell, João Havelange, Ricardo Teixeira, muito dos mesmos. Tirando o hiato de 1982, com Telê, e de 1986, de novo com Telê, muito dos mesmos, sempre. Houve também a brevíssima era Felipão, um ano para classificar um time e ganhar uma Copa, ele foi lá e fez, e se mandou. Na base da simplicidade, sem ter nunca pertencido à patota carioca-militar-calçadão-Jardim Botânico.

Simplicidade é o que falta ao Brasil, e o futebol exemplifica bem esse desvio de rota. O time de celebrities, comandado por um sujeito sem diálogo e preocupação com relações humanas, os empresários nos saguões dos hotéis, os comerciais de bancos, postos de gasolina, cervejas, guaranás, a superexposição, o beicinho, as exclusivas para o Bial e para a Fátima Bernardes, os papos com o papagaio da apresentadora, os sorrisos globais “está tudo bem, somos o máximo, seremos sempre o máximo”, os treinos ao vivo, o Olodum, a Ivete Sangalo, a babaquice levada ao extremo, a falsa idéia de que somos esse país movido a tambores, o Galvão Bueno dizendo “agora vamos fazer o seguinte” o tempo todo, como a querer organizar nossos atos e pensamentos, paremos, escutemos do Galvão o que temos de fazer agora, ouvir o Olodum?, ouvir a dona Guilhermina?, ir a Belo Horizonte?, a que horas posso pegar meu churrasquinho, Galvão?, porra, nos transformamos num rebanho de babacas.

Muitíssimo bem representados pelos torcedores-CVC na Alemanha, que se manifestaram duas vezes na Copa, uma para mandar Zidane tomar no cu (porque Zidane acabou com a graça deles oito anos atrás em Paris) e outra para aplaudir Cicinho (ex-São Paulo, não é segredo para ninguém que tem muito são-paulino em Copa, o São Paulo é um time de elites e classe média que pode pagar carnê da CVC). E que de madrugada estavam, claro, atrás da Fátima Bernardes na porta do hotel, com celulares Samsung GSM na mão para avisar seus amigos babacas que estavam ao vivo na Globo.

Mas não somos um país só de babacas, há vida inteligente por aqui, e é preciso buscar um pouco do que somos no dia-a-dia, no café na padaria, no bom dia ao motorista do ônibus, na bola que rola nos campinhos. É preciso que o presidente da CBF desapareça da face da Terra, que rasguem o contrato com a Nike, que a seleção use camisetas feitas pela Finta ou pela Penalty, que o técnico tenha sentado no banco do Anacleto Campanella e da Ilha do Retiro, que tenha participado da Mesa Redonda da TV Gazeta, que os jogadores sejam daqui, aqui joguem, daqui se orgulhem, daqui se sintam, que tenham saudades, depois de uma epopéia de uma Copa, de voltar para a carninha na laje, de voltar a um domingo no Maracanã, de voltar a um Gre-Nal, que não se comportem como jogadores do Playstation, que não sejam seduzidos pelo castelo de Caras, que dirijam Palios e não Audis, que tudo seja mais simples, banal, autêntico, brasileiro.

Não fiquei minimamente chateado ontem. Aquilo que estava em campo não representava o lugar onde vivo, não tinha nada a ver com minha realidade, nunca vi aqueles caras jogando no Canindé.

Aquilo não é o meu país.

Comentários

  • Crônica de uma morte anunciada.

    O desfecho da “seleçãozinha européia” era mais do que esperado!

    Ainda mais com o trainee Dunga! O enterrado vivo!

    Esse timinho – sem nenhuma identificação com o povo brasileiro – não honrou as tradições brasileiras!

    A seleção tá parecendo os esportes adorados pelos norte-americanos na qual o que importa é o “business”!

    Se ganhar ótimo, se perder paciência!

    A identificação é tão pequena ou inexistente que o povo brasileiro só ficou um pouco triste e nem se abalou!

    Agora, torceremos para que o novo técnico renove completamente, aplique o verdadeiro futebol brasileiro e convoque jogadores que atuem no Brasil e aqueles em melhor momento!

    Além de voltarmos nossa atenção para o que realmente importa: os clubes!

    Abraços!

    Até mais!