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domingo, 4 de dezembro de 2011 - 11:40Futebol

PORRA, DOUTOR

SÃO PAULO – Aí quando eu estava lá embaixo no meio daquele milhão de pessoas pedindo para votar para presidente, o cara sobe lá no palanque, em cima do viaduto, ergue o punho direito, ou o esquerdo, e grita que queria a mesma coisa. Do meu lado, gente de todas as cores e credos ludopédicos erguem seus punhos, também, e aplaudem o cara, que resolveu não jogar na Europa porque queria estar aqui para ver de perto o fim daqueles anos em preto e branco.

Não deu nada certo, não votamos para porra nenhuma, e dias depois, ou semanas, não me peçam para lembrar os quandos e ondes, mas acho que era no Morumbi, e o cara enfia a bica da intermediária, nosso goleiro sem pescoço pula e não pega nada, ele ergue o punho de novo e eu xingo o cara com todas as minhas forças, doutor do caralho, filho da puta, vai tomar no cu.

Antes, Copa do Mundo na Espanha, Brasil versus União Soviética. Estamos lá na zona leste, num puxadinho junto com um monte de gente que eu também não conhecia direito, uma TV com bombril na antena, umas brahmas, gol dele, o empate, se bem me lembro. Abraços e beijos, doutor do caralho, filho da puta, joga demais, vamos, porra.

Depois daquela Copa acho que não torci mais para seleção nenhuma, depois daquela ninguém mais nos representou, talvez em 1986, era um restinho daquela, o cara estava lá de novo, com faixa na cabeça, quatro anos mais velho, mais cabeludo e mais desgostoso, perdeu um pênalti, nem xinguei de doutor do caralho. Já tinha feito muito, tudo bem, entre uma e outra ele tinha ido e voltado da Itália, aí foi jogar no Rio, queria ficar junto do povo, do povo inteiro, jeitão de fim de carreira, mas era médico, ia parar e vestir o jaleco para cuidar do povo, e ele dizia povo com autoridade, sabia bem quem era o povo, e cada um para o seu canto. Eu, que o conhecia da TV, do estádio e do Anhangabaú, para cuidar da minha vidinha besta; ele, para cuidar do povo — no falar, escrever, pensar.

Avança a fita.

Ano passado, um velho e empoeirado e querido pub em Pinheiros, faz frio, as portas já fechadas, o dono não quer nem saber, quem quiser fumar, fume, fumem e bebam  antes que o mundo acabe, o amigo tocando violão, a gente ali, tentando entender o que estava acontecendo com nossas vidas, aí ele entra alto, forte, senta, pede um vinho, sorri, canta, sorri, bebe, sorri, fuma, e a gente tira foto com ele, e o mundo é um lugar até aceitável quando a gente vê que tem gente como ele, que jogava bola, que só vencia a timidez diante da multidão falando e tocando de calcanhar, e que sorria, e bebia e fumava.

Sócrates morreu de tanto viver, que é uma boa forma de morrer.

113 comentários

  1. Lemo disse:

    Trocou a medicina pelo futebol. Trocou a política da boa vizinhança para falar o que pensa. Trocou a cervja pelo vinho…

    Esse cara sabia das coisas…..

  2. jony knaglia disse:

    Eu entre dois gigantes: um grande e um pequeno, dois enormes cavalheiros! Porra, o mundo ainda tem jeito! Obrigado pela surpresa, Flavio.

  3. Maurício disse:

    Bacana o texto. Sócrates foi um exemplo de dignidade, consciência política. Poucos não sabem, mas foi até jogador de futebol, consagrou-se em um pequeno time paulista. Eu, como palmeirense, tinha grande admiração por esse Sócrates Brasileiro.

  4. Lemos disse:

    FG,
    Belíssimo texto . . . .
    Valeu . . .

  5. Belo comentário.
    Parabéns ao professor que ofereceu aos seus alunos.
    Certo ou errado, viveu como queria. Penso que morreu sem querer, pois gostava da vida.
    Parabéns ao autor.
    Víctor Hugo

  6. O mundo comporta cada vez menos Sócrates, Tons Jobins menos Henfis, menos Massaos Ohnos, menos Vinícius de Moraes….o mundo comporta cada vez menos gente de verdade e mais gente de plástico.

    Um brinde Doutor. Obrigado por ter sido um dos anti-heróis da minha infância. Sou de 1970 e uma da pessoas que me ensinou o que significa Democracia e Liberdade foi você.

    PS: posso estar falando merda, mas o estilo do Zidane não é totalmente inspirado no Sòcrates não?

  7. william disse:

    Puta texto bonito hein Gomes? Bela maneira de descrever o Magro. Tava pensando, com 25 anos não tenho um ídolo que se compare a essa brilhante geração de 70-80… Tristes tempos, mais tristes ainda quando perdemos pessoas como o Sócrates…

  8. Carlos Santista disse:

    Sempre admirei aqueles que falam o que pensam, sem papas na língua, inclusive os idiotas.

    O que não era o caso do Sócrates, que era ótimo de calcanhar e de cabeça ( cabeceando e pensando)!

  9. Karina Pierri Martins disse:

    Fla, impossível não fazer qualquer comentário sobre sua homenagem…nos faz pensar…você retratou o melhor deste, antes de mais nada, ser humano! Parabéns! Você é brilhante!

  10. pedro afonso scucuglia disse:

    Flavinho, a frase final da sua crônica é um poema. Eu gostaria de te-la escrito. Mas me basta saber que alguém escreveu. Tantos outros “morreram de tanto viver” e quantos morrerão sem jamais ter vivido?

  11. Rodolfo I. Vieira Filho disse:

    Belo Texto Flavio !! Tocante

  12. Lucas Fazzi disse:

    Porra, Flávio.

    Tens que voltar com um blog dedicado ao futebol! Pudemos ter o gosto na Copa, mas passou e acabou.
    Fica difícil catar as coisas atualmente…você, Mauro Cezar, um que outro posta algo decente e fim. Tamanha a facilidade da internet e a gente só vê neguinho falando merda.

    Grande texto! Grande Sócrates!

  13. Mozart disse:

    Gerou muita discursão, e nem pesquisando na net, conseguimos a resposta certa.
    Afinal…. qual foi a especialidade médica em que o Doutor Sócrates se formou ??
    Ortopedia ? Cardiologia ? Hemapatologia ? qual da gias ?

  14. Fernando Batista disse:

    Sou flamenguista e sempre admirei o jogador Sócrates.
    Na década de 80, durante a minha infância, não perdia um só jogo do Mengão e do Corinthians, só para ver o doutor jogar (o corinthians tinha uma grande time com Casagrande, Zenon, Biro-Biro). Finalmente, em 85 e 86, vi o Zico e o Sócrates jogarem juntos no Mengão. Foi uma grande realização. Vá em paz e que Deus o abençoe, doutor!

  15. renato disse:

    Flávio para dizer a verdade não gosto nem um pouco dos seus comentários e textos. Mas neste vc acertou a mão…parabéns !! Vá em paz Dr.

  16. Luis disse:

    Porra Flávinho….
    Você botou prá fuder….
    Grande texto….Emocionante!!!!

  17. Alex disse:

    Deus é phoda. Vive levando os bons e deixando as tranqueiras aqui. Valeu, “magrão”! Cara de atitude! Siga em frente na sua nova jornada. Divirta-se.

  18. Nestor 2T disse:

    Grande Flavinho,

    Sensacional post. Repassei-o aos meus alunos para discutirmos hoje em aula. Pena que vivamos em um mundo cada vez mais pasteurizado, babaca e sem graça. Olho para o meu filho e tenho pena dele, vai viver em um mundo sem o Magrão, não vai pular como um doido comemorando aquele gol dele em 82 contra à URSS, não vai chorar como nós todos choramos poucos dias depois no desastre do Sarriá. Cabe a nós honrarmos tudo que o Magrão e quis dizer e tentarmos deixar um mundo mais justo e animado para nossos filhos. Mas, convenhamos, tá difícil. Parabéns pelo texto e obrigado pelas lágrimas. Abraço.

  19. Sei que vc torce para a Portuguesa, mas quem conhece a história do Sócrates tem que dar o braço a torcer que o Corinthans nunca mereceu tanto um título como ontem, por ele unica e exclusivamente, ele mereceu ontem como um capricho do destino, se foi no dia em que o time que ele melhor representou se consagrou campeão…
    Valeu F.G.

  20. Marcelo Granzotto disse:

    Aquele time de 1982! Uma das grandes frustações de minha vida é não ter visto a melhor seleção de todos os tempos ser campeã.
    Sócrates deixou ótimas lembranças. Mas aposto que ele teria preferido morrer de viver e não de beber.

  21. thiago samuel da silva alves disse:

    Belo texto, para um belo jogador, belo ser humano, um ser raro.
    Sócrates vai fazer falta!

  22. Roberto Martinez disse:

    Um cara que eu admirava, como jogador e como personalidade.

  23. Excelente Flavio!

    Dá uma ajustada na ferramenta de compartilhamento no Facebook que os acentos estão todos errados.

    Abc,

    Fernando

  24. do amaral disse:

    foi emocionante este domingo, mais pelo passamento dele que o título do meu time de coração.
    emocionei-me revendo a presença dele nas diretas-já, única demonstração política de que tomei parte na minha vidinha que agora já conta 50.
    o gol dele na final de 79 do paulista eu vi ‘ de camarote’, foi bem em frente de onde eu estava – e foi a última vez que fui a um estádio de futebol.

    adorei aprender que o gesto celebrador de gol dele, o braço erguido com o punho em riste, ele criou a partir do gesto dos atletas Panteras Negras nos Jogos da Cidade do México em 68, o que ele mencionou, numa última aparição pública inda esta semana, derradeira de sua vida, foi o primeiro evento político de que ele compreendeu o significado – ou seja, foi através principalmente do esporte que ele formou consciência política, democrática. não mencionou como a origem do seu gesto, mas ficou claro então a genalogia – também da atuação política dele enquanto era profissional de esporte. muito legal, verdadeiramente especial, histórico.

    tendo acabado de saber disso, ver, mesmo pela TV, o time fazendo o gesto no campo hoje, no minuto de silêncio, me emocionou deveras.

    e. Gomes, suas frases finais do post são um belo pois respeitoso epitáfio.

    obrigado.

  25. Samuel da Cunha disse:

    Grande homem , que Deus o tenha!
    Infelizmente menos um homem de bem na terra, mas tenho certeza que ele vai para um lugar muito bom porque ele merece e também não vai mais precisar respirar este ar poluído.
    Vai com Deus.

  26. jaison disse:

    PORRA! Flavinho belo testo, como sempre…
    Ele tbm era o cara! Socrates você vai fazer muita falta por aqui, mas o sedam branco não quis mais esperar e o levou para uma outra viagem!

    abraços

  27. Alex disse:

    Obrigado pelo texto Flávio. Acho que pouca coisa definiria e homenagearia tão bem o Doutor como a última frase de seu texto.

    Sócrates, assim como Tostão, era uma figura única, notável em todos os aspectos: extraordinário jogador de futebol, o esporte das massas, médico formado em uma das melhores universidades do Brasil (uma condição própria das elites), extremamente intelectualizado e sábio. E tivemos o privilégio de testemunhar quase que simultâneamente Sócrates e Tostão atuando, tanto nos gramados quanto fora deles. Outro Sócrates, nem daqui a um milhão de anos.

  28. Fabio disse:

    Flávio, vc falou o que sempre tenho falado: a seleção de 86 foi a última que torci, com Doutor, Zico e cia, porque dali para frente aqueles jogadores não mais me representavam. Nenhum. 90, 94, 98, 2002, 2006, 2010, nada. NADA. Por ex, nunca me conformei com o ronaldo comemorando gols na seleção trotando e com o dedinho pra cima. Aquilo não merece minha atenção. Aí o cara veio ao corinthians, marca um gol acho que numa rodada do paulistão , e corre feito um louco se dependurar no alambrado. Ali apareceu o Ronaldo que me representaria. Tarde demais. A seleção já estragou. A gerência, os jogadores, o marketing, a imprensa que “endeusa’ jogadores medianos. Dane-se esse futebol, essa copa.

  29. FRANCIS disse:

    Uma pessoa SINGULAR podemos assim dizer. Tremendo atleta, acho que um dos melhores de sua época, se bem que a seleção de 82 só tinha craques. Cidadão de sentar no barzinho e tomar cerveja junto. Posso dizer que tive o prazer desse feito algumas vezes (não muitas) de tomar cerveja junto com o DOUTOR. Figuraça que vai deixar saudades, tanto pelo atleta pela pessoa que foi. VÁ COM DEUS DOUTOR.

  30. silva jr disse:

    O magrao foi demais….tenho uma camisa preta, com uma caricatura dele, e escrito apenas ‘Socrates’…….acho que sou o unico que tem essa camisa.

  31. galileu disse:

    valeu dr socrates por tudo o que você fez pelo futebol do seu país, não torço para time nenhum, não gosto do esporte, (nem da seleção brasileira), mas tenho muitos parentes corintianos. junte-se aos bons lá no céu e curtam boas peladas juntos, dê muitos passes de calcanhar que rea a sua marca registrada. paz a você e seus familiares.
    nada mais justo você partir feliz com o campeonato que foi dedicado à sua pessoa, pelos torcedores e pelo time.
    apesar de como já disse não torcer por ninguém fiquei feliz pelo titulo.
    chupa piquet senta em cima do mastro da bandeira do vasco, (nada contra o time), e sim por esse ser arrogante que não precisava fazer um gesto arrogante para com os paulistas desfilando com a bandeira por pura afronta e promoção, (vai chover porrada das amantes, mas não estou nem aí. mantenho a minha opinião até que eu resolva mudá-la.

  32. Pedro Giglio Salera disse:

    Parabéns Flavinho!
    Falou com o coração!

  33. Luiz Gomes disse:

    Flavio,
    É bom ver que tem bastante gente boa ou esclarecida o suficiente para reconhecer um cara como o Sócrates. Ídolo da minha infância / juventude, fui crescendo olhando para ele. O seu texto foi muito legal, mas fiquei mais contente ainda ao ler os comentários, quase todos uma demonstração de carinho pelo homem Sócrates. Infelizmente muita gente hipócrita falou bobagens sobre o Sócrates quando a saúde dele piorou, e isso vinha me causando tristeza. A perda foi grande e a vida dele muito curta, mas ele fez e deixou muito para nós, até para aqueles que não entenderam nada do que ele dizia..
    Luiz Gomes.

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