PINHEIRINHO

Foto Reuters publicada no Último Segundo/iG em http://goo.gl/InPCc

SÃO PAULO(já deu) – O Pinheirinho é um bairro de São José dos Campos, uma das cidades mais ricas do Brasil. Aparece em 19° lugar no ranking nacional do PIB por municípios, à frente de nada menos que 18 capitais estaduais (Goiânia, Vitória, Belém, São Luís, Campo Grande, Natal, Maceió, Cuiabá, Teresina, João Pessoa, Florianópolis, Aracaju, Porto Velho, Macapá, Boa Vista, Porto Velho, Rio Branco e Palmas).

Nessa relação, aparecem diante de São José as dez capitais mais ricas do país e apenas duas não-capitais que não fazem parte de nenhuma macrorregião metropolitana: Campinas e Santos. É um polo tecnológico de 640 mil habitantes, a sétima maior cidade do Estado de São Paulo (segunda maior cidade do interior do Brasil), com o 11° melhor IDH estadual.

Quem passa pela Via Dutra cortando o Vale do Paraíba nota a presença, em São José, de indústrias do porte de General Motors, Johnson & Johnson, Panasonic, Monsanto e Embraer, entre outras. É sede, igualmente, do INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o que faz dela o maior centro de pesquisas aeroespaciais do Brasil. Lá fica o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica, que tem a fama de realizar o vestibular mais difícil do país.

Apesar disso, São José tem muita gente pobre. Que não tem onde morar, vive no subemprego, sofre das mazelas que todos conhecem. Em 2004, alguns desses pobres começaram a montar seus barracos num terreno de 1,3 milhão de metros quadrados que pertencia, sabe-se lá comprada como e quando, a uma certa Selecta, holding das empresas do especulador libanês radicado no Brasil Naji Nahas.

Nahas foi acusado, no fim dos anos 80, de quebrar a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Virou símbolo da infâmia que é o mercado financeiro, esse monstro invisível que nada produz de útil ou relevante, exceto lucros para alguns às custas dos prejuízos de muitos. Foi condenado mais de uma vez, depois inocentado, e mais recentemente acusado novamente de crimes financeiros depois das investigações da Polícia Federal na conhecida Operação Satiagraha. Preso pela última vez em 2008, confesso que não sei se está solto.

A Selecta quebrou depois das travessuras de Nahas (tem tanta gente que acha essas coisas engraçadinhas e sorri ao comentar suas peripécias…) e o terreno de 1,3 milhão de metros quadrados passou a integrar a massa falida da empresa. Claro que lá em 2004 as primeiras pessoas que começaram a montar seus barracos na área, conhecida como Pinheirinho, não se preocupavam demais com Nahas, com a Bolsa, com as especulações do mundo financeiro. Procuravam um lugar para morar, no más.

Oito anos depois, o Pinheirinho virou um bairro onde, segundo a Prefeitura de São José, vivem 1.600 famílias e cerca de 6 mil pessoas. Ao longo desses oito anos, advogados de Nahas se divertiram com o processo de falência da Selecta e alguns meses atrás saiu uma decisão a um pedido de reintegração de posse da área. Recurso vai, recurso vem, na semana passada a coisa foi evoluindo nos tribunais até que um juiz determinou que os moradores fossem expulsos do Pinheirinho para que o terreno voltasse para o seleto Naji Nahas. Consta que a Prefeitura é credora da Selecta. Portanto, teria interesse na desocupação do terreno para que ele possa, sei lá, ser vendido para que a dívida seja quitada.

A batalha de papéis, que tanto excita magistrados, advogados, desembargadores e similares, chegou à Justiça Federal, que suspendeu a reintegração de posse através de uma liminar. Mas uma juíza estadual mandou que a operação fosse adiante.

As reações à decisão da juíza estadual entre os que se dizem defensores do Estado de Direito mostram sem retoques a pobreza moral do ser humano. Discutem-se pormenores técnicos, se a Justiça Federal pode se opor à Estadual, se a autonomia de uma foi ferida pela outra, se a liminar pode ser derrubada, se o tribunal pode emitir uma contraordem de madrugada ou se precisa esperar o sol nascer, uma punhetação insuportável. Em nenhum momento essa gente se atém ao que é essencial: as pessoas que vivem no Pinheirinho. Como são pobres, pretos e putas, que se fodam. O que interessa é a discussão que deve deixar homenzinhos de toga de pintinho duro e mulherzinhas idem molhadinhas diante de seu profundo conhecimento acadêmico.

Ontem, domingo de manhã, um contingente de 1,8 mil policiais militares armados chegou ao Pinheirinho. A Prefeitura de São José dos Campos, comandada pelo tucano Eduardo Cury, determinou a desocupação da área. A ordem é expulsar as seis mil pessoas do Pinheirinho. O governador do Estado, Geraldo Alckmin, usa o discurso de que “decisão da Justiça não se discute, se cumpre”. Que é a maior muleta dos amorais que têm o poder de fazer alguma coisa, mas optam pela omissão mesmo diante de casos como esse — que dão trabalho, exigem tomada de posição, podem representar algum ônus político quando da possibilidade de enfrentamento entre poderes.

Segundo a OAB, houve mortes na invasão policial. A PM, o Estado e a Prefeitura não confirmam. Um jovem blogueiro me escreveu para dizer que sua mãe, que trabalha num hospital da região, relatou conversas entre médicos que falam de pelo menos quatro pessoas mortas pela ação de guerra da polícia paulista — que tem agido com vigor semelhante em episódios como o da higienização da Cracolândia, ou na invasão da Reitoria da USP por estudantes contrários à presença da PM no campus e também à gestão do atual reitor, chamado pela burlesca revista “Veja” de “xerifão da USP”. (Chique, não? Antigamente, era orgulho de qualquer reitor ser chamado de “grande cientista”, “brilhante pensador”, “professor talentoso”. Hoje, o cara é chamado de xerife e fica contente. Faltou posar para uma foto com um Colt no coldre e estrela polida no peito. Se é que não o fez.)

Os desabrigados estão sem chão. A Prefeitura armou barracas sobre a lama, não dá comida a ninguém, não oferece nenhuma opção decente de moradia, abrigo, futuro. Estamos falando de 6 mil almas, entre elas crianças, idosos, homens e mulheres que trabalham. E também, certamente, de criminosos, desocupados, traficantes, proxenetas e cafetinas — toda a malta que se pode encontrar no Pinheirinho, no Soho, em Nova York, nos Jardins, em São Paulo, ou no Quartier Latin, em Paris.

Os pertences dessas 6 mil pessoas continuam dentro de suas casas. São TVs de 20 polegadas, fogões de quatro bocas, beliches comprados nas Casas Bahia, geladeiras enferrujadas, máquinas de lavar que fazem barulho e vivem quebrando, colchões mofados, gaiolas com passarinhos, garrafas térmicas, panelas amassadas, bujões de gás, roupas, armarinhos de cozinha e banheiro, guarda-roupas, garfos, facas e colheres, copos de requeijão, chuveiros elétricos, cadernos escolares, mochilas de crianças, bonecas sem um braço ou um olho, carrinhos com rodas faltantes, videogames velhos doados pelos filhos da patroa. Não se tem notícia de algum planejamento por parte do poder público para que a vida dessa gente toda, representada pelo pouco que tem, seja transferida para algum lugar onde haja um teto, esgoto, água corrente, eletricidade. Muitos dormem em ginásios de esportes, outros em salões paroquiais.

São 6 mil pessoas da 19ª cidade mais rica do país que ontem de manhã foram enxotadas na porrada de suas casas e barracos, montados num terreno de 1,3 milhão de metros quadrados reivindicado pela massa falida da empresa de um especulador condenado por crimes financeiros, cujo pleito foi atendido pela Justiça e prontamente executado pela Prefeitura e pela PM. Elas não têm para onde ir.

Há quem argumente que propriedade privada é sagrada, que os moradores do Pinheirinho não passam de “invasores” que tomaram o que não era deles. Estiveram lá por oito anos e o poder público, os que ocuparam os gabinetes da administração de São José dos Campos, jamais se importou com eles. Que se fodam, são pretos, pobres e putas que incomodam nossa sociedade branca e cheirosa, maloqueiros e favelados que deveriam “ser devolvidos em pau-de-arara ao lugar de onde vieram”, como escreveu um parvo no Twitter cujo nome, infelizmente, não anotei.

O Estado de São Paulo é um feudo curioso. No Litoral Norte, há algumas dezenas de condomínios de alto padrão e casas de luxo erguidas em áreas discutíveis, resultado de invasões de terrenos públicos ou de propriedade duvidosa, grilagem cabocla de grandessíssimo nível, cujos empreendimentos ferem legislação ambiental e desrespeitam normas de construção. Algo que se verifica no Brasil inteiro, na verdade. Dia desses a TV Globo mostrou como essa gente é desenvolta quando se trata de se apropriar do que é público para exibir em festinhas privadas.

Não se tem notícia, nos casos dessas invasões promovidas por gente dourada e montada na grana, de reintegrações de posse ordenadas por juízes ou juízas preocupados com o Estado de Direito, ou de prefeitos que convocam a PM para dar tiro de bala de borracha em menininhas que frequentam os clubes noturnos de Maresias, ou ainda lançar bombas de efeito moral pelos janelões de vidro voltados para a placidez do oceano Atlântico.

Bombas de efeito moral não funcionam para quem não tem moral alguma.

Comentários

  • Prezado Flavio Gomes, peço a gentileza de excluir meu comentário de seu blog, pois a nova política do Google prioriza aquilo que uma pessoa comenta nas redes sociais e blogs em detrimento de sue conteúdo profissional e acadêmico. A busca do Google virou uma fonte de fofocas universal e eu não quero fazer parte disso. Me desculpe, seu blog é muito interessante e teria prazer em comentar, se eu não fosse alvo das escolhas inapropriadas das ferramentas do Google. Atenciosamente, Layla Fiusa. laylaf@uol.com.br

  • Decisão do STJ indica que havia outra saída na disputa
    “Uma ordem judicial não pode valer uma vida humana.” A afirmação do ministro Fernando Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (hoje aposentado), consta de decisão tomada pelo tribunal em agosto de 2009, na discussão de um caso idêntico ao do bairro Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos (SP).
    A decisão do STJ indica que a reintegração de posse do Pinheirinho, feita pela Polícia Militar de São Paulo no domingo passado (22/1), não era a única alternativa para resolver a disputa judicial travada em torno da propriedade do terreno que há oito anos foi ocupado por famílias de baixa renda. No julgamento de um pedido de reintegração de posse do terreno onde hoje há o bairro Renascer, em Cuiabá (MT), o STJ decidiu que o emprego de força policial para a retomada da área poderia ser a medida necessária, mas não era a mais adequada.
    Os ministros tomaram a decisão em um pedido de intervenção federal no estado de Mato Grosso feito pela massa falida da empresa Provalle Incorporadora, dona da área de quase 500 mil metros quadrados onde nasceu o bairro na capital de Mato Grosso. Como em Pinheirinho, a empresa obteve na Justiça estadual, em 2004, a ordem de reintegração de posse. Mas a ordem não foi cumprida pelo então governador Blairo Maggi — hoje senador pelo PR. E o STJ deu razão ao governador.
    Leia a íntegra do acórdão e do voto do ministro Fernando Gonçalves
    INTERVENÇÃO FEDERAL Nº 92 – MT (2005⁄0020476-3)
    RELATOR: MINISTRO FERNANDO GONÇALVES
    REQTE: PROVALLE INCORPORADORA LTDA – MASSA FALIDA
    ADVOGADO: MICAEL HEBER MATEUS
    REPR. POR: POLIDORA DE MÁRMORES GOIÂNIA LTDA – POLMATGO – SÍNDICO
    UF: ESTADO DE MATO GROSSO
    EMENTA
    DIREITO CONSTITUCIONAL. INTERVENÇÃO FEDERAL. ORDEM JUDICIAL. CUMPRIMENTO. APARATO POLICIAL. ESTADO MEMBRO. OMISSÃO (NEGATIVA). PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE. PONDERAÇÃO DE VALORES. APLICAÇÃO.
    1 – O princípio da proporcionalidade tem aplicação em todas as espécies de atos dos poderes constituídos, apto a vincular o legislador, o administrador e o juiz, notadamente em tema de intervenção federal, onde pretende-se a atuação da União na autonomia dos entes federativos.
    2 – Aplicação do princípio ao caso concreto, em ordem a impedir a retirada forçada de mais 1000 famílias de um bairro inteiro, que já existe há mais de dez anos. Prevalência da dignidade da pessoa humana em face do direito de propriedade. Resolução do impasse por outros meios menos traumáticos.
    3 – Pedido indeferido.
    http://www.saraiva13.blogspot.com/

  • olá…!!! flavio! parabéns…!! pelo texto!

    Existe uma sindrome de nobre na elite que governa nosso país eles acham que estão no poder para se servir dele não p/ servir a população menos favorecida, até porque o pobre não tem como pagar advogado. Alias tem é muita gente sem consicencia social pra apontar o dedo e acusa los….e levantar a pseuda bandeira do ( estado de direito)

  • http://colunistas.ig.com.br/poderonline/2012/01/27/soninha-chama-moradores-do-pinheirinho-de-criminosos/

    SEXTA-FEIRA, 27 DE JANEIRO DE 2012
    NOTA ANTERIORTODAS AS NOTASPRÓXIMA NOTABrasil | 13:15
    Soninha chama moradores do Pinheirinho de criminosos

    Pré-candidata do PPS a prefeita de São Paulo, a ex-vereadora Soninha Francine afirmou em seu perfil no twitter que os moradores do Pinheirinho são criminosos:

    – Esses são criminosos se aproveitando da situação, não apenas pessoas comuns lutando por suas terras.

    A mensagem, em inglês, foi em resposta a um post de um de seus seguidores, que publicou uma imagem da ação com a seguinte legenda:

    – Imagem de pessoas defendendo suas terras com escudos de barris cortados, bastões improvisados ​​e capacetes.

    Soninha tem 64 mil seguidores no twitter.

  • Estão inventado historia falando que o Pinheirinho pertencia aos Alemão mais isso não é verdade o pertencia a eles era o Campo dos Alemães e o Rio cumprido, depois muita dessas pessoas que estavam la deveriam voltar para seus estados afinal eles vieram para cá apena para invadir la, direito de moradia tem que ser prioridade para os filhos da terra nascido aqui, pois cada estado tem que ser responssavel pelo seus filhos e não jogar o problema para outros. Concordo inteiramente com esta dessocupação os unicos inocentes ai são as crianças todos fora eles tinha plena conciena e não tem nem um direito aqui em São José.

    • Silvia,
      Além dos problemas bastante graves que é visível enfrentares em relação à instrumentalização da língua portuguesa, visto os erros de escrita gritantes; fica claro que tem muito apreço pela propriedade privada e pouco pela humanidade. Quem deveria voltar para casa? Os que foram para São Paulo, território brasileiro como qualquer outro dentro dos limites de nossa fronteiras e, portanto, espaço de ação para qualquer um de nós?
      Francamente, sua xenofobia evidente somente não se tornou ofensiva porque é bastante óbvio que você não tem a menor idéia do que está falando. Sem os imigrantes, sobretudo nordestinos, São Paulo não existiria. Ou você ainda acredita na historiografia paulistana que remete aos italianos sua grandeza e aos bandeirantes sua história? São Paulo construiu-se com braços negros e nordestinos como todo o restante deste país que é sugado pelos adidos da privataria tucana.
      A rigor, lendo seu texto senti alguma coisa piedade por você.

  • Agora me pergunto aonde estão os partidos politicos nessa hora? Cadê o PSDB, o PT e aquele lá o PCO? Gosto desse último…

    Por que construtoras como aquela que colaborou com apenas R$15 milhões para a campanha da atual presidente não pode fazer uma pequena doação para essas familias, não seria uma causa mais nobre? Já que sempre fatura alguma obra pública… Ou bancos como o um grandão que está com o faturamento explodido que também colaborou com R$ 4 milhões para a campanha da presidente também não pode fazer nada?

    É tanto dinheiro sobrando que as MESMAS construtoras e bancos fizeram doações parecidas para o partido concorrente como PSDB na mesma eleição. É muita gratidão, não acham? Nesse momento não existe rivalidade, todos ganham menos a população como sempre.

    Enquanto todo mundo briga para defender esses partidos que tanto fazem por esse País, lá vou eu acordar cedo amanhã para pagar uma maldita faculdade sem falar na contribuição para o sindicato dos metalúrgicos, no qual eu sou OBRIGADO a contribuir caso contrário simplesmente perco uma parte da participação dos lucros da empresa, que é conseguido porque eu tenho que trabalhar mais.

    Nem vou mencionar no restante das taxas tributárias e agora no aumento do ônibus dado pelo prefeito boiolão.

    E a galera do Pinheirinho vai levar um pé na bunda, como todas as pessoas honestas que trabalham neste País.

  • Flávio,
    Espero que os seus esclarecimentos possam dar alguma luz ao que acreditam que
    os governos daqui agiram certo.
    Moro aqui na Zona Sul de São José dos Campos e digo a você que temos muito a
    nos envergonhar dos governantes que escolhemos.
    Na próxima eleição vou repensar meus conceitos.
    Esse políticos não merecem representar meu estado e o meu município.
    Grato

  • Flávio,
    Brilhante seu artigo, numa web povoada de arautos do pensamento conservador, da ‘Lei e da Ordem’. Em outro artigo, postado em http://armadacritica.blogspot.com/2012/01/direito-estado-e-terror-no-caso-do.html, o articulista afirma que um professor de direito na USP, disse: “O direito tem uma função: destruir as pessoas”. Esse sistema, esse ‘estado’ não é democrático, muito menos de ‘direito’.
    É de assustar o pensamento retrógrado de vários dos leitores que postaram aqui, para falar um monte de merdas contra os pretos, os pobres e as putas. Anos atrás vi uma reportagem que denunciava o maior latifundiário do Brasil, um tal de Cecílio Rego de Almeida (já morreu e o diabo o carregou), que demarcava suas ‘terras’ por satélite, em plena Amazônia, mandando matar e expulsar populações ribeirinhas e indígenas que viviam ali por gerações.
    Que País é este? Certo estava Jesus, que expulsou os vendilhões do templo a chicotadas, e deixou a puta Maria Madalena lavar seus pés com os próprios cabelos. Tá cheio de anti-cristo cristão espalhado pelas igrejas, tribunais e palácios, como o dos Bandeirantes, na terrinha da garoa. Explodam todos!
    Márcio Amêndola – Jornalista e Historiador (Sem religião, só pra constar)

  • Dois reparos, Flávio.

    Primeiro, o Alckmin não se omitiu. Ele ESCOLHEU premeditadamente esse curso de ação, dentre um monte de alternativas. Ele quebrou um acordo, aproveitou que a juíza “esqueceu” de despachar a suspensão da ordem, e mandou a PM invadir em segredo.

    Foi caso pensado, pra provocar toda essa celeuma e mandar um belo dum recado. Foi um manifesto, não um acaso.

    Segundo, na verdade a lei está do lado das pessoas que foram despejadas. A Constituição impõe que a dignidade humana deve ser observada como princípio, e protege o direito social à moradia e uma vida digna. E limita o direito de propriedade ao cumprimento de sua função social.

    A “grande imprensa” continua a chamar aquelas pessoas de “invasoras”, e a direita continua a dizer, maliciosamente, que essas “invasões” são iguais à invasão da casa de uma família.

    Não são. Invasão é ilegal e ocorre apenas quando o imóvel invadido está cumprindo sua função social, ou seja, quando é produtivo ou está habitado. Se a propriedade cumpre sua função social, ela merece guarida do Direito.

    A ocupação se dá nas terras improdutivas, desabitadas. Elas não cumprem o requisito da função social e não recebem a mesma guarida do Direito. O proprietário de um terreno ociupado NÃO tem direito a reaver a posse, ou de vender o imóvel. O que ele tem é direito a exigir uma indenização do Estado por uma desapropriação indireta.

    O direito de propriedade dele NÃO pode justificar deixar um imóvel parado à espera de valorização, enquanto tanta gente precisa de um lugar pra viver.

    Assim, a ocupação de Pinheirinho, ou qualquer outra, não é semelhante à invasão da casa de uma pessoa, como tanto os direitistas dizem, com seus argumentos infantis.

    A direita SEMPRE se apoiou no medo infundado da clase média de ter seus bens, suas propriedades, tomadas por um Estado de esquerda. O que nunca disseram é que não são os bens dessas pessoas que correm risco, mas esses, que pra nada servem além de dar lucro a alguém que já é rico, enquanto tantos moram nas ruas.

  • Flavio Gomes,

    Moro próximo ao local e o que aconteceu mostra mais uma vez a inoperância dos que deveriam governar e legislar ( independente de opção partidária ou de qualquer tipo de ideologia, isto não cabe no momento), em pró, principalmente deste pessoal que não tem acesso, principalmente a educação, saneamento básico, saúde, aquilo que a gente já sabe. Se as pessoas estavam morando ali, nas condições em que o local se apresentava ( eu passo ali todo dia e realmente está longe de ser um conjunto da Cohab, por exemplo ( eu fiz estagio na Cidade Tirandentes ), é porque não tinham condições de estar em outro lugar, certo? Foram oito anos onde seria possível, com um planejamento não tão complexo e vontade política, o remanejamento a locais com infraestrutura básica ( a oito anos se sabia que mais cedo ou mais tarde teria que se remanejar o pessoal lá alojado ). Mais uma vez o que se apresenta é uma falta de capacidade de ação e vontade,pois não consigo imaginar ou até aceitar que este pessoal que governa é bandido ao ponto de deixar idosos e crianças amontoados em tendas e escolas sem as mínimas condições e na TV falar que não há casas para alocar este pessoal, pois não se levanta uma casa em 24 h . PÔ, não foram oito anos?

  • Vc diz:(…) Claro que lá em 2004 as primeiras pessoas que começaram a montar seus barracos na área (…) Por que que brasileiro faz tudo errado???? Por que que brasileiro não respeita a Justiça e o que é dos outros??? Não importa de quem é, não é seu!!!!!!! Enquanto gente quiser fazer justiça pelas próprias mãos, o governo não vai se mobilizar… Uma coisa não justifica a outra… Todos querem ser muito espertos e acham que só tem direitos… Na hora do “vamos ver” todo munto é “coitado”… Mas bem que sabiam que a área invadida não era deles!!!!!! Será que são tão coitados assim?????????? Não tem nada a ver com a invasão policial, estou falando de princípios!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Tudo dá errado, porque começou errado… Este pessoal acreditou em políticos que prometiam dar um jeitinho, pagam milícias para lhes dar proteção… Ninguém, respeita o Estado de Direito!!!!! Porque os invasores do Pinheirinho tem mais direito que aqueles que foram lesados???? O Estado, para quem a justiça deu ganho de causa no processo, vai leiloar o terreno e fazer casas populares! isto as pessoas do Pinheirinho não querem, afinal “eles tem mais direito do que outros”, é o que eles dizem. Eu pergunto por que, uma vez que são invasores e cometeram um crime frente a lei?????????????? Layla Fiusa laylaf@uol.com.br

    • Interessante é observar q “O estado, para quem a justiça deu ganho de causa no processo, vai leiloar (!), o terreno e fazer casas populares…”

      Porra, por acaso essas 6 mil pessoas devem ter residências no Jardim Europa em São Paulo!

      Aos conservadores qualquer tipo de argumento parece justificável…até aqueles q não tem nem pé nem cabeça.

  • Vamos aso fatos como realmente são:
    -USP: Revolta de filhinhos de papai contra a PM que foi chamada a proteger os mesmos das gangues de assaltantes que invadiram a USP nos últimos anos e já estavam matando. Motivo da revolta: Não podiam mais comprar e usar drogas dentro do campus por que a PM tava de olho.
    -Pinheirinho/Cracolandia: área grilada por pessoas pobres. Concordo com vc que houve excessos e atabalhoamento. Como na cracolandia, a ação foi feita as pressas, nas coxas. Resultado: Aquilo que se viu e ainda se vê.
    Por favor FG! Menos paixão e mais objetividade.

    • Neste caso devemos cobrar competÊncia das nossas autoridades.
      CompetÊncia para evitar que tais situações ocorram, não importa se a grilagem é de gente endinheirada ou pobre, ambos são criminosos.
      A ação social do governo deve sim ser feita com responsabilidade e não com o pensamento imediato no resultado das proximas eleições ou como um favor (meians clientelismo) entre iguais.
      Neste aspecto o Brasil está ainda na idade da pedra.

  • Flávio, venho parabenizá-lo pelo excelente texto e pela coragem de publicá-lo em seu blog.

    São de brasileiros como você que o país precisa. Se 10% dos “formadores de opinião” tivessem o seu caráter, clareza de raciocínio e sensibilidade, certamente absurdos como estes deixariam de acontecer.

    Só lamento pelos “monstros” que ainda vêm aqui tripudiar desta tragédia humanitária.

  • Porra Flávio, por mais descrente que esteja, se encontra numa fase ”lírica” eplendorosa, nessas férias do Lùcio (que encontrei teu blog), aqui foi meu refúgio pra começar o dia com alguma esperança de que existem pessoas que ainda vão contra o ‘status quo’, parabéns!