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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019 - 21:27DKW & cia.

DOCTOR HELIUS

heliof102

RIO – Será cremado amanhã no Rio o corpo do meu grande amigo Hélio Marques, que morreu segunda-feira de complicações renais.

O Hélio era um dos mais queridos fumacentos do Brasil. Por fumacentos entendam amantes de DKW.

Médico em Niterói, “Doctor Helius”, como eu o chamava, também fabricava próteses penianas. “Fabrico mas não instalo!”, gargalhava, para depois aprofundar a especialidade: “Sou um médico do caralho!”.

Ah, Hélio…

Tinha uma coleção inacreditável de DKWs com um F102, uma Schnellaster, vários sedãs e peruas nacionais, um Candango que foi personagem de filme (o carro aparece o tempo todo em “Marcelo Zona Sul”, com Stepan Nercessian, de 1970; a íntegra do filme pode ser vista aqui), um Belcar que transformou em conversível e dois deles, um 67 de quatro faróis e um Fissore, estão hoje no museu da Audi em Ingolstadt.

Ele não se apegava aos carros. Queria que fossem vistos e rodassem por aí. Se algum amigo se apaixonava por algum da coleção, vendia a preços camaradas. Às vezes nem cobrava. Quando convenci a Audi a comprar o Belcar 67 e o Fissore para se juntarem ao Malzoni no trio brasileiro do acervo da montadora, se prontificou a vender os seus pelo simples prazer de vê-los eternizados na Alemanha.

Era um doido, um maluco beleza que um belo dia foi de carro até o Peru para resgatar e trazer para o Brasil um 1000SP raríssimo por estas bandas. E trouxe, numa carreta puxada por uma caminhonete e enfrentando os maiores perrengues da história das aventuras automobilísticas da América Latina.

Eu não o via havia algum tempo. Coisa de uns oito ou dez anos atrás, dividimos epopeias inacreditáveis no Uruguai. Parecia uma criança quando via um carro diferente, ou quando um amigo fazia alguma maluquice parecida com as suas.

Em 2003, esteve no primeiro Blue Cloud, o encontro de DKWs que criei junto com Paulo Renato Arantes em Caxambu. Filmou e narrou, em dois vídeos (o segundo está aqui), a reunião que seria a origem dessa incrível “cena DKW” que temos hoje no Brasil — o último Blue Cloud, em Poços de Caldas, reuniu mais de 120 modelos da Vemag e da Auto Union argentina. Nas primeiras edições, montava uma extensa programação cultural e técnica com palestras e workshops para ajudar o povo nas restaurações, resgatar velhas histórias e orientar os donos de DKW que queriam aprender sobre a mecânica do carrinho.

O encontro tem sido realizado anualmente desde aquele de 2003 sem interrupções e já trouxe de volta à vida centenas de carros que estavam esquecidos em algum canto. Esquecido, Hélio também não será. Vai-se em meio a uma nuvem azul cheirando dois tempos, a mesma que um dia levará todo mundo. Mas nossos carros ficarão, Doctor, como a gente sempre sonhou.

10 comentários

  1. Renato Soares disse:

    Valeu , fumacento Dr. Hélio.

  2. Roberto Fróes disse:

    Pois é, lá se foi o Doktor Helius…
    Por esta hora, deve estar lá em cima, entre nuvens azuladas, abraçando os amigos que não via há tempos.
    Lettry, Norman, o xará Beltão, Jorge Amador, Roberto Nasser, seu Nizio, e tantos outros fumacentos mais apressados, que resolveram ir na frente…
    Deve estar rolando muita brincadeira, muita piada, enquanto nós, aqui, sentimos saudades e a falta desse grande amigo. Assim como sentimos dos outros.
    Inesquecíveis lembranças do Doktor, sentado no chão, com luvas cirúrgicas, regulando o ponto dos platinados da Catedral de Barcelona (meu 1º DKW).
    Isso uns 50 m à frente de sua clínica. Que é no térreo de sua casa.
    Aí chega um cliente, a secretária avisa pelo celular, ele entra pela escada da casa, veste o jaleco médico, e desce para a clínica pela escada interna.
    E eu entro pela porta da clínica, me fazendo de cliente, mas com vontade de rir…
    E foi a melhor regulagem de distribuidor que meu carro jamais teve!
    Ele sempre me dizia, “não compre peças de DKW sem falar antes comigo”, e realmente, meus carros tem muuuuitas peças from Nictheroy.
    Ele levava parabrisa, trazia caixa de marchas, voltava com uma roda diferente…
    Na Alemanha, encontrou uma roda para seu DKW F5 – onde faltava o estepe, mas como trazer no avião, já que era proibido trazer peças?
    Fizemos uma grande caixa de papelão – era a “pizza” do Helio, despachamos, mas ao chegar ao Brasil, veio a pergunta do fiscal:
    “- O que é isso?”
    E o Doktor, de improviso:
    “-Ah, é uma roda de carroça, para decoração!”
    Passou.
    E muitas outras, daria para escrever um livro.
    Pois é, mas agora esse livro já teria a palavra
    FIM
    Até um dia, Doktor Helius…

  3. Daniel Granja disse:

    Caramba, FG. Não estava sabendo. Não tenho participado do grupo de whatsApp. Sempre perguntava ao Fróes sobre ele, mas há alguns meses que não tinha notícias.

    Velho amigo, que vá em paz! Tenho boas lembranças com ele no meu DKW, lá em Itú. Na última vez, veio comigo de carona. Rimos muito de suas histórias.

    Grande cara! Esse mundo está ficando cada vez mais chato!

  4. rafaelle disse:

    A simplicidade da foto, diz um pouco a dimensão da pessoa. (Não o conheci, mas a foto deixa claro, nada forçado para parecer simples) Nada comum nos dias atuais.
    “pelo simples prazer de vê-los eternizados na Alemanha.” deixa de lado questões de fronteiras.
    Me faz pensar em Jesus, querendo nos eternizar pela paixão que tem.
    Obrigado Flávio Gomes, por mais triste o momento, compartilhar conosco essas lembranças.

  5. Clóvis 16 disse:

    Que histótria de vida legal, fez o bem e compartlhou com os demais o gosto pelas “Pequenas Maravilhas”.
    Soube aproveitar e vida e se aventurar pelos seus sonhos, que esses belos carros de motor “dois tempos” , continue se eternizam por muito mais tempo.

  6. Angelo Gomes disse:

    Pena a coluna no site Maxicar que conta a epopéia da viagem ao Peru não estar mais disponível.

  7. Carlos disse:

    Meus pêsames pelo seu amigo, Flávio.

  8. antonio stricagnolo filho disse:

    Nessa fiquei sem mais um cara pra “trocar figurinha” e esse era um dos melhores que eu tinha.

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