ANÍSIO, 86

anisiosefoi

RIO – O homem-carro se foi.

Anísio espalhava alegria por onde passava, ainda que alegria não houvesse.

Foi em 2006 — já contei aqui. A cidade sitiada, toque de recolher, mandaram que todos ficassem em casa.

Não tinha ninguém na rua e eu seguia para uma reunião de trabalho que nem sabia se iria acontecer. Na larga e reluzente avenida vazia olho no retrovisor e vem um TL azul. O que faz um TL azul na rua num dia como hoje?, me perguntei.

O TL azul emparelhou. Ao volante, um homem de longos cabelos brancos esvoaçantes de posse da cidade. Olhei para aquilo com espanto. Era o Anísio. Ele olhou de volta e falou: Flavinho, olha o que eu comprei!

Fiquei mais espantado ainda. O que você está fazendo aqui, Anísio?, perguntei, e a pergunta na verdade era: Anísio, o mundo está acabando, o que você está fazendo na rua com um TL azul, você é louco? Estão explodindo delegacias, matando todo mundo!

Acabei de comprar!, ele falava com exclamações o tempo todo, ignorando meus temores e todos os medos do mundo. Não é lindo? Sim, é lindo, mas…

O sinal abriu. Ele ainda teve tempo de dizer que tinha algumas coisas para fazer no carro, mas que ele era lindo, a cor era linda. Tudo era lindo. Engatou a primeira e foi embora, a cidade vazia apenas para que o Anísio pudesse passear com seu TL.

Vai em paz, menino dos cabelos brancos. E divirta-se.

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