MONZEANAS (2): PASTELÃO ITALIANO

RIO (mas foi divertido) – A sequência de fotos acima ilustra o que aconteceu na classificação para o GP da Itália, agora há pouco em Monza. Na verdade, mostra o último capítulo da comédia em que se transformou o Q3. Da esquerda para a direita, a cambada chegando à Parabólica com o cronômetro quase zerado; Sainz e Leclerc passam antes das luzes vermelhas e os outros sete não conseguem abrir volta; Charlinho, com o tempo que já tinha da primeira tentativa, garante a pole; quando chega ao Parque Fechado para comemorar, fica sabendo que a direção de prova tinha decidido investigar todo mundo.

Tudo corria mais ou menos dentro da normalidade na sessão que definiria o grid da última corrida europeia da temporada. Depois da primeira saída da turma do Q3, Leclerc virou 1min19s307 e se colocou em primeiro, com Hamilton, Bottas e Vettel na sequência. Em tese, pelo que haviam combinado os pilotos da Ferrari, na segunda tentativa Leclerc sairia na frente para dar o vácuo para Vettel. Na primeira saída, foi o inverso. Quando Charlinho fez seu tempo, tinha à frente Vettel e os dois carros da Renault. Aproveitou muito bem o vácuo que, em Monza, é essencial: ganha-se meio segundo na volta quando se está atrás de alguém.

Mas aí Raikkonen bateu e causou uma bandeira vermelha — impedindo alguns pilotos de fecharem suas voltas, como Albon e Stroll. Bottas passou no limite, chegou a ser investigado, mas a direção de prova informou que ele fechou a volta antes de a equipe ter sido comunicada eletronicamente da bandeira vermelha — embora ela, a bandeira, já estivesse visível na pista antes de o finlandês passar pela linha de chegada.

Quando a pista foi liberada, ficou todo mundo nos boxes esperando alguém sair para encarar o vento (sequência abaixo) na segunda tentativa. Ninguém queria ser o primeiro a ir para a pista justamente pela necessidade de andar no vácuo de outro carro para conseguir uma volta boa.

Com o tempo no limite, sob o risco de ninguém abrir volta rápida antes da quadriculada, Hülkenberg saiu e puxou a fila. Faltavam menos de dois minutos para o fim do Q3. A galera veio atrás. Mas quando chegou na primeira chicane, o alemão da Renault, espertinho, saiu da pista pela área de escape para deixar os outros passarem. Stroll era quem vinha logo atrás.

Ninguém passou. Todos tiraram o pé reduzindo a velocidade a quase nada, para deixar o carro da Renault de novo à frente da procissão. E o tempo passando. Hulk voltou à pista, mas aí o que se viu foi uma confusão danada. Uns aceleraram, outros diminuíram, e quando o grupo chegou perto da Parabólica, o cronômetro estava quase zerado. Só Sainz e Leclerc passaram pela linha antes das luzes vermelhas. O resto ficou chupando o dedo.

E de nada adiantou para os dois únicos que puderam abrir volta. O espanhol da McLaren — que chamou a situação de “ridícula” — não tinha ninguém à frente para pegar o vácuo e não mudou sua posição. Charles já tinha o primeiro lugar garantido e tirou o pé. Assim, comemorou sua quarta pole no ano, segunda seguida.

Mas não sem críticas. As maiores, de Vettel.

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Leclerc, de fato, saiu dos boxes na frente de Vettel como havia sido acordado pelo time. Mas na redução de velocidade da primeira chicane, quase parou o carro. Sebastian não teve outra alternativa e passou. Só no fim da volta Charlinho se colocou à frente do companheiro, mas aí não havia mais tempo de abrir volta. Ele pode argumentar que cumpriu o combinado. Mas, digamos, o fez um pouquinho em cima da hora. Há um vídeo circulando com os áudios da equipe insistentemente pedindo para que ele passasse Vettel e puxasse o companheiro. Charles ignorou olimpicamente a orientação. De santo não tem nada.

“Ele deveria ficar na minha frente o tempo todo. É algo que temos de discutir internamente. Fiz minha primeira volta sem ninguém na frente, sem vácuo. Eu deveria estar atrás na segunda”, queixou-se Vettel. “Com o vácuo, talvez fizesse a pole.” Seu tempo na primeira saída foi 0s150 pior que o do companheiro.

“Eu realmente deveria estar na frente de Seb”, explicou Leclerc. “Mas ele me passou naquela confusão da primeira curva e só quando a gente chegou do outro lado da pista a equipe me falou para ultrapassá-lo. Só que aí não houve tempo para mais nada.”

Se não dá para afirmar com 100% de certeza que o monegasco fez tudo de caso pensado, os tais áudios indicam que sim. Ele jura que não, mas só se defendeu quando acusado por Hamilton, segundo no grid, de “matar” a segunda tentativa do Q3, atrasando todo mundo. “Não foi nada intencional”, falou o ferrarista, evitando comentar as queixas do companheiro de equipe. “Só vão mudar as regras quando alguém bater feio. O que aconteceu foi muito perigoso”, rebateu o líder do Mundial.

Mas Hamilton pode ter dirigido sua artilharia para o alvo errado, mesmo. Se alguém tinha de reclamar de Leclerc era Vettel, não ele. Hülkenberg, Sainz e Stroll foram os primeiros que tiraram o pé, atrasando o resto. Os comissários abriram investigação contra os três por reduzirem a velocidade de forma exagerada. Vettel também correu o risco de perder seu tempo de volta porque chegou a sair da pista com as quatro rodas na Parabólica em sua primeira tentativa. A direção de prova, porém, o inocentou porque as imagens não eram conclusivas para determinar que ele tirou vantagem de eventual irregularidade.

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O pastelão do Q3 pode ter ser encarado como um anticlímax, mas acabou sendo legal porque nessas horas a polêmica toma conta do paddock. “Nunca vi isso na vida, parecia coisa de categorias de base”, resmungou Toto Wolff. “Todo mundo fez papel de idiota. Isso não é Fórmula 1”, completou o chefe da Mercedes.

Christian Horner jogou a culpa toda em Hülkenberg. “Foi ele que cortou a chicane, não?”, perguntou. Foi, mas neste caso os comissários esportivos o absolveram, alegando ser impossível determinar se o alemão o fez de forma deliberada. Analisaram sua telemetria e concluíram que estava numa velocidade igual à da volta anterior e em terceira marcha. Hulk se explicou dizendo que se atrapalhou com os carros atrás e passou direto para evitar um eventual acidente. Colou.

A Red Bull de Horner, porém, não perdeu muita coisa. Verstappinho trocou tudo que podia no motor e terá de largar na última fila de qualquer maneira. Projeta um quinto lugar na corrida. Albon, sim, que se qualificou ao Q3, acabou não tendo chance de fazer tempo. Na primeira saída, pela bandeira vermelha. Na segunda, por não conseguir abrir a volta. Larga em nono.

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Ferrari e Mercedes dividem as duas primeiras filas com Leclerc, Hamilton, Bottas e Vettel. A Renault foi a surpresa do dia com Ricciardo e Hülkenberg em quinto e sexto. Sainz Jr., Albon, Stroll e Raikkonen fecharam o top-10. Daí para trás, nenhuma grande novidade. Giovinazzi, Magnussen, Kvyat, Norris e Gasly foram os degolados no Q2. No Q1, ficaram Grosjean, Pérez, Russell, Kubica e Verstappen.

Há uma boa possibilidade de chuva amanhã, de acordo com os serviços meteorológicos locais. Seja como for, pode-se esperar uma largada bem agressiva de alguns pilotos que estão razoavelmente putos com o que aconteceu hoje — a saber, Vettel e Hamilton. A primeira chicane é aquela balbúrdia que todos conhecem. Freios e pneus frios, neguinho tentando ganhar alguns metros, a turma de trás chegando embalada, receita perfeita para pancadas, toques e refregas de todos os gêneros.

Acho que teremos um GP da Itália dos mais interessantes.

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