ANATOMIA DE UMA BATIDA

RIO (ô dificuldade que é editar vídeo!) – Muito bem. Faltou um relato sobre o fim de semana em Interlagos, a reestreia do Meianov agora pela Super Liga Desportiva de Velocidade na categoria Hot Classics.

Antes de mais nada, um elogio aos organizadores e participantes. Reencontrei, depois de anos, um ambiente de enorme camaradagem, alegria e entusiasmo. De todos. Ganhei uma família, e garanto que já não esperava encontrar isso de novo no automobilismo.

Rapidinho, as regras. Os carros largam todos juntos, mas são divididos em cinco categorias: A, B, C, D e M. Cada uma tem um tempo mínimo de corrida calculado a partir dos tempos mínimos de voltas previamente escolhidos pelos pilotos. Assim, a turma mais rápida (A) tem de calcular seu tempo total de prova com voltas em 2min05s. Como são 30 voltas, multiplique 2min05s por 30 e acrescente 10min do reabastecimento obrigatório para chegar a esse tempo total de corrida. A categoria B prevê voltas em 2min10s, a C em 2min15s, a D em 2min20s e a M (de “modernos”), em 2min15s.

Ninguém é punido se virar voltas abaixo do mínimo de sua categoria. Faz sentido. Se o piloto da categoria de 2min15s faz uma volta ruim em 2min18s, por exemplo, pode recuperar na volta seguinte virando 2min12s. Vale a média. Mas ninguém pode fechar a corrida abaixo do tempo mínimo para cada categoria. Isso acarreta desclassificação.

As 30 voltas da corrida, porém, só serão completadas pela turma da categoria A, de 2min05s. O cálculo para as demais é de 29 (B), 28 (C e M) e 27 (D). E cada uma tem um tempo mínimo de prova para os respectivos números de voltas. Parece complicado, mas não é.

Na classificação para definir o grid, voltas abaixo do tempo mínimo de cada categoria resultam em punição. Foi o que aconteceu com Meianov, que deveria virar o mais perto possível de 2min15s. Acabei fazendo 2min14s533 e depois de três voltas recolhi para os boxes sabendo que seria jogado para o fundo do pelotão. Fiz o 13º tempo na geral (eram 40 carros), mas acabei tendo de largar em 32º por conta da punição.

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Felizmente a classificação e corrida aconteceram no seco. No molhado, sábado no fim da tarde, Meianov deu algumas voltas com o Nenê, meu preparador, e virou 2min38s. Domingo de manhã, na segunda sessão de treinos livres, peguei o carro pela primeira vez. Basicamente, em relação ao Meianov de cinco anos atrás, quando foi aposentado, mudamos: 1) motor (agora um AP 2.0 com duas Weber); 2) pneus (agora Dunlop e aro 15); 3) suspensão (tudo).

Meianov tinha dois problemas crônicos. Falta de potência no motor Lada, por mais que a gente fuçasse, e destracionar demais por conta da bundinha muito mole. Lada tem tração traseira. As mudanças na suspensão socaram a traseira no chão, ele ficou duro que nem um pau, mas uma delícia de dirigir. Só que não em pista escorregadia como domingo de manhã, um sabão. Era despejar potência e a traseira dar uma rabeada. Virei 2min39s e não gostei muito do que vi.

A sorte é que secou, e já na classificação percebi o carro que tinha nas mãos: um canhão de reta e muito bom nas curvas de média, sobretudo. O câmbio ainda é uma dificuldade. Usamos o original soviético, de cinco marchas. Algumas curvas de Interlagos pedem segunda marcha, como o S do Senna, a sequência do S antigo mais o Pinheirinho, o Bico de Pato e a Junção. Mas a segunda do Laika é curta demais e a terceira, longa.

O jeito foi me adaptar e usar segunda só no Bico de Pato, saindo um pouco xoxo em terceira do S e do Pinheirinho, principalmente. Na Junção me virei, freava um pouco antes, não matava a curva, enfiava terceira e começava a encher o motor antes da subida. Deu certo. Fiz a primeira volta em 2min18s. A segunda, em 2min14s. É carro para virar abaixo de 2min10s em Interlagos, mas isso fica para o futuro.

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Fui animado para a largada, e como dá para ver no vídeo ela foi bem boa. Fechei a primeira volta em 13º, passando muita gente e contando com dois ou três abandonos de um acidente feio no Laranjinha.

Meus problemas começaram na segunda volta. Aos 3min21s, dá para ver no fim da Reta Oposta, à direita, a bandeira amarela no posto de sinalização. Isso porque à frente, no Laranjinha, os carros do acidente da primeira volta ainda estavam sendo retirados. No posto seguinte, à direita, já na descida do Lago (aos 3min33s), veem-se mais bandeiras amarelas agitadas por conta do mesmo acidente. Aquele trecho inteiro estava sob bandeira amarela. Mas o Fusca me passou (3min38s), mesmo com mais bandeiras sendo agitadas à esquerda (3min44s).

Eu até gesticulei, mas paciência. Tinha quatro carros à frente que passaria com facilidade: o próprio Fusca, um Chevette, um Karmann-Ghia e um Opala. Não eram da minha categoria e meu carro estava muito rápido. Tinha a corrida toda pela frente para depois pensar no cálculo das voltas.

Só que o Fusca não entendeu assim. Subi o Café com força, fui para o lado de fora da pista na Reta dos Boxes, iniciei a ultrapassagem com bastante segurança, ele deu uma leve jogadinha para a direita (5min09s) e, a partir daí, tudo foi muito rápido.

Dá para perceber pelas minhas mãos no volante que não mudei a direção um milímetro sequer ao emparelhar com o Fusca #19. Aos 5min10s, a ultrapassagem está concluída e vou tratar de frear e reduzir, para então tomar a primeira perna do S do Senna à esquerda. Só que, aos 5min12s, levo uma pancada na lateral. O Fusca, não entendi por quê, se apoiou na minha porta traseira e meu carro, a 165 km/h pelo que indicava o GPS, se desequilibrou totalmente, apontou para dentro e deu no muro. Eu nem tinha começado a fazer a curva.

Na porta traseira, abaixo do logo da Lada, a “prova do crime”: marcas do pneu do Fusca

A pancada foi bem forte. Felizmente minha equipe, a LF, é paranoica com segurança e o carro é um tanque de guerra. Não fiquei nem dolorido. Banco, cinto, HANS, tudo isso é muito importante. A frente do Meianov estragou bem. Não pegou motor, porém. A suspensão também se salvou. Vamos precisar de um Lada doador para arrancar a frente e transplantar para o Meianov, que vai voltar em abril com a carinha um pouco diferente. Os faróis redondos que deixavam ele meio zoiudo (do modelo antigo) serão substituídos pelos quadrados da versão exportada para o Brasil de 1990 a 1995. Capaz que a gente coloque um spoiler invocado, vamos ver… Tudo se resolve.

Quanto ao Fusca, ele perdeu o capô dianteiro quando rodou depois de me tocar, mas seguiu na prova. Algumas voltas depois, bateu de novo, agora num Passat, e o piloto teve de ser levado a um hospital com a bacia lesionada, mas felizmente está bem.

Ah, o áudio do vídeo está horrível. Foi a primeira vez que usei a câmera nova que comprei. Vou tentar acertar isso nas próximas gravações.

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Comentários

  • Putz… Não é legal bater nenhum carro, mas tem alguns que não podem…

    Vacilada braba do piloto do fusca. Deve ser novato.

    Que bom que saiu ileso, porque a panca foi forte. Boa recuperação pro Meianov.

  • Boa tarde, a mim parece que esse carro é muito pesadão, muita chapa de aço, não tem jeito de cortar metade do teto, arrancar os paralamas para fazer tipo antigas carreteras ( o Camilo Cristofaro com sua 18 faria todos comerem poera legal) ou não? Creio que com esse peso todo do carro, fica dificil “fazer bonito ” Para mim essas velocidades são muito, muito baixas. Me perdoe se estiver enganado. Abs a todos

  • Monta com pistão de ap 1.8 e biela de marea 2.0. Tem que retrabalhar alguma coisa na base do cilindro, as bielas ficam com folga lateral mas isso passa de boa. Retrabalho generoso do cabeçote em especial nos dutos de admissão. Fiz aqui, Resultado muito bom pra muito pouca coisa. Se vc rodar no alcool pode socar taxa. Tem como fazer tudo, eu mesmo fiz aqui em casa numa boa. Sim, eu me viro muito bem com usinagem e tenho uma retifica a disposição. Não tive saco de passar em dinamometro. Montei num sedan de sampa, vermelho troquei o eixo raseiro por um hibrido opala/chevette que alguém fez com relação 3,07/1 que o vc em pista é demais. Mas ele empurrava muito mais com o motor que eu fiz com eixo longo que outro lada que tinha aqui perfeito original. A medida do vira do lada std acaba sendo bom para fazer a adaptação e ainda ter 2 retificas a mais de sobra. Dá pra fazer mais pesquisa emcima disso, deixar com zero deck height, taxa a milhão pra usar alcool, usar coletor de fiat sevel 8V com pequenas modificações pra melhorar carburação e usar tensor da correia com mola pra num ter que ficar ajustando. Eliminei o biscoito de borracha do cardan, o apoio e pus um unico só com o deslizante. Se achou o papo bom e quiser falar mais a respeito e continuar a prosa, a vontade.

  • Que bom ver você se divertindo novamente.
    Estimo melhoras para o cara do fusca.
    Acidente de corrida, ou exagero do fusca?
    Se podia ser evitado, não parece que o cara atrás tenha sido malvado.

    Um grande abraço do fundo do meu coração vermelho de outubro de 1917,
    Atenágoras Souza Silva.

  • Acho q nem precisava olhar marcas das rodas do Fusca, pelo vídeo eh nítida a pancada por traz!!! Não conheço o piloto mas totalmente sem noção!!! E ainda causou outro acidente!!! Eh de se ter uma seria conversa com esse “piloto”. Não eh só comprar um carro e por p correr não.

  • Boa tarde, Flavio.
    Algumas perguntas:
    Todo mundo tem carteira de piloto, ou amadores também participam, mediante assinatura de termo de responsabilidade?
    O cara “não viu” as amarelas e ficou por isso mesmo?
    Houve uma conversa entre vocês depois da corrida?
    Com ao menos um pedido de desculpas?
    Bora agora arrumar a condução!
    Vai precisar colocar no “Cyborg” para alinhar o monobloco?
    Abraço.
    Zé Maria

  • Boa Flávio! Feliz que tenha voltado, te desejo mais sorte na próxima prova. Justamente agora que está de volta às pistas, eu pendurei o capacete. Me mudei para fora e tive que abandonar as corridas – o trabalho, sempre o trabalho…
    Abç,
    Alexandre Neves

  • Nunca entendi a dificuldade do pessoal em filmar bem de dentro do cockpit. Principalmente em se tratando de um jornalista Dr. como é o caso do Prof. FG e seus séculos de experiência.

    Na verdade não entendo a dificuldade simplesmente porque eu tive uma grande sorte de principiante amador: sempre usei uma pequena câmera Panasonic Mini DV no X do santoantônio. Ângulo de visão, qualidade de imagem, som perfeito… Resultado melhor que muita imagem onboard gerada em transmissões oficiais, com baixo custo.

  • Cara, muito bom voltar a ler os relatos de tua corrida. Que pena o que aconteceu com o teu carro mas ainda bem que saíste ileso. Esse cara do Fusca, sei lá, parece que aquelas pessoas que se tornam psicopatas quando assumem o volante acontece também nas pistas. Saudações.

  • O cara do Fusca nem te viu, e no vídeo dá pra ver que vc ainda deu uma tiradinha pro lado direito. Importante é que está todo mundo bem, ainda que o Meianov tenha que fazer um implante de face.
    O som tá ruim, mas tá parecendo o Enduro do Atari…

  • People,

    O Fla tem um ritual quando passa no S. Fala um sonoro palavrão (semelhante ao pessoal do teatro antes de iniciar uma apresentação), o que fica deveras evidenciado no áudio límpido do vídeo acima.
    Ouve-se, também, um “ui” no momento da panca, certamente emitido pelo rapaz do fusca, dado que o Fla não é chegado nesses gritinhos bibísticos.

    Bitoquinhas.

    Nick B
    (ao som de Belchior, Sujeito de Sorte, musicão do álbum Alucinação, disco antológico do Bigode, que tem ainda Como Nossos Pais, Apenas um Rapaz Latino-americano, Velha Roupa Colorida, Fotografia 3×4 entre outras obras-primas. Na bateria simplesmente o monstro
    Pedrinho Batera, do Som Nosso de Cada Dia. Essa música recentemente foi sampleada pelo Emicida, que fez o favor de apresentar o Belchior pra molecada).

    • Muito jóia o vídeo. Mandou bem pra caramba FG. Na batida o fusca deve ter desiquilibrado quando freou e encostou em vc. Talvez (falar depois é fácil), sua tomada de curva poderia ter sido como a da 1a volta, mais aberta. Quando correndo com pilotos amadores manter a maior distância possível, principalmente nas freadas, é importante. Mas sem dúvida alguma, o Fusca pisou no tomate (deve correr muito de simulador, meio inconsequente). Abraços e boa sorte na próxima! Para não 69, é legal ver/ler os materiais das suas corridas.

  • Este “piloto” do Fusca é o típico Psicopata do Capacete. É inconsequente na pista, faz todo tipo de merda e, principalmente, causa acidentes graves. É o tipo que, quando está por perto, é certeza que vai te bater. É só questão de tempo.
    E imagino que a ladainha do diretor de prova no briefing não seja pequena. Principalmente em prova com clássicos.

    O delinquente foi chamado à torre, pelo menos?

  • Certa vez, num campeonato corporativo de kart, um cidadão me fez rodar no fim da reta no kartódromo da Granja Viana, sei lá, a uns 60km/h se muito. Colega de trabalho. Não foi uma experiência nada agradável. Sei que o espírito competitivo de alguns sobressai em alguns instantes, mas o senso coletivo de preservação tem de ser maior. No dia seguinte todos temos de seguir nossa vida e buscar o pão de cada dia.