GRANDE DIA

RIO (tem coisa que não se compra no mercado) – Percebo, pelas análises de alguns de meus colegas do Grande Prêmio, de outros comentaristas e pelas redes sociais, que a volta de Alonso à Renault divide opiniões.

Surpreendo-me.

Por que a presença de um piloto de altíssimo nível seria ruim para uma equipe ou para a F-1? Porque no passado Alonso, como se diz, “fez escolhas erradas” na carreira?

Primeiro, discordo da tese. El Fodón fez o que lhe deu na veneta quando quis, e se há alguma decisão que pode ser questionada talvez tenha sido a de dar um pé na McLaren depois de apenas um ano, ao final de 2007, para não ter de se desgastar emocionalmente num time que claramente pendia para o lado oposto ao seu na garagem. Mesmo assim, quem somos nós para duvidar de seus motivos?

Voltou para a Renault, onde conquistou dois títulos, e depois foi para a Ferrari. O que havia de errado em correr na Ferrari? Foi três vezes vice-campeão, duas delas, em 2010 e 2012, lutando pela taça até o fim. Ficou o tempo que achou suficiente e voltou para a McLaren onde tinha deixado assuntos pendentes, num cenário que todo mundo achava muito promissor: reviver a parceria com a Honda, que ninguém poderia adivinhar que seria um fracasso. Deu errado, mas dizer isso agora é fácil.

Desagregador? Fala-se desse suposto traço da personalidade de Fernandinho sem conhecimento de causa. Ah, mas ele reclamava publicamente da Honda!, gritarão os defensores da moral e dos bons costumes. Senhoras e senhores, todo piloto reclama quando o carro é uma merda. Aliás, todo piloto reclama de alguma coisa o tempo todo. Ocorre que Alonso fez isso num momento da F-1 em que as mensagens de rádio tornaram-se públicas. Pelo peso que tem, suas queixas foram amplificadas. Ele queria, apenas, um carro bom. E sejamos honestos: a sequência de quebras da Honda, aliada à falta de potência do motor japonês, não era de tirar qualquer um do sério?

Tem gente que defende “os jovens pilotos do programa de desenvolvimento da Renault”. Ora, ora, ora… Quem, exatamente? Se a Renault tivesse tanta gente boa assim na base, por que contratou Ricciardo? Por que recorreu a Ocon? Por que ficou tanto tempo com Hülkenberg?

Tenham dó. Há uma certa antipatia por Alonso, normalmente ligada ao seu sucesso e a sua personalidade forte. O cara é muito, muito bom. Um dos melhores. Bateu Schumacher no auge. Duas vezes, e era um moleque, ainda. Foi buscar o leitinho das crianças em Indianápolis e quase conseguiu. Ganhou em Le Mans. OK, não era muito difícil, com a Toyota. Mas por que diminuir seu feito e não fazer o mesmo com os caras que dividiram o carro com ele? Aliás, alguém diminui os feitos de todos os pilotos da Audi que ganharam a corrida nos anos de domínio da marca alemã? De quebra, ainda foi correr o Dakar.

É um milhão de vezes melhor ver um sujeito como Alonso na F-1 do que jovens como Latifi e Stroll, ou pilotos medíocres como Kvyat, Grosjean e Magnussen. Ou ainda algum nome inexpressivo vindo da F-2 apenas para defender uma teórica “renovação” da categoria. Essa renovação já está acontecendo. Os bons da F-2 subiram. Se outros não o fizeram, é porque talvez não sejam tão bons. E com exceção de Verstappen, um talento extraordinário, quem vem sendo protagonista na F-1 nos últimos anos? Ah, os caras com mais de 30? Ah, OK, então.

Há uma história que deve ser respeitada, várias histórias, aliás, e a de Alonso é uma delas. Raikkonen voltou, ganhou corrida de Lotus e foi parar na Ferrari de novo. Schumacher voltou, subiu ao pódio, ajudou a construir a Mercedes que vemos hoje. Um pouco mais atrás, Mansell foi chamado de volta dos EUA pela Williams em 1994, sentou no carro e venceu o GP da Austrália.

Qual o problema de aceitar que um cara de quase 40 anos ainda pode ter ambições e desejos no esporte?

Vibrei com o anúncio feito hoje. E acho que há um pesado traço de preconceito naqueles que olham torto para a presença de um veterano como Alonso em meio a “gamers” que mal saíram das fraldas. Juventude não é sinônimo de qualidade. Além do mais, Alonso faz “stories” tão bem quanto qualquer outro.

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