N’UNGRIA (2)

RIO (vareio) – Acho que é melhor começar pelo fim, já que olhar para a ponta dá um certo desânimo — porque competição não há — e faltam elogios — o que a Mercedes e Hamilton fazem é notável, para dizer o mínimo.

Então falemos desta classificação para o GP da Hungria a partir dos sorrisos mais escancarados do dia, a saber: de George Russell, este menino-prodígio da Williams, e da dupla da Force Point India Aston Racing Martin, Lance Stroll e Sergio Pérez.

Russell é o garoto que a Mercedes está preparando para suceder Hamilton, acredito. É realmente espantosa sua capacidade de extrair tempos bons de um carro ruim — em que pesem, ainda, os erros da juventude, como no GP da Estíria na semana passada. Jorginho larga amanhã em 12º, tendo deixado para trás no Q2 um carro da Red Bull e um da Renault. No Q1, a combalida equipe de Frank Williams também superou, e com seus dois pilotos, as duplas da Haas e da Alfa Romeo, além de uma AlphaTauri.

Para um time que, no ano passado, se arrastava em ritmo de F-2, é um começo de temporada auspicioso. Quem sabe alguém se empolga e compra a Williams, mergulhada em profunda crise financeira e sobrevivendo às custas da grana do pai de Nicholas Latifi, o outro piloto.

O carro continua ruim, é bom que se diga, mas Haas e Alfa Romeo caíram do céu com suas carroças de 2020 para tirar a equipe inglesa da lanterna. E com um moleque talentoso como Russell num dos carros, dá até para sonhar com alguns pontinhos aqui e ali. Amanhã, Russell precisa buscar um lugar entre os dez primeiros de todo jeito. Pontos significam dinheiro. A Williams precisa. Desesperadamente.

Vamos agora aos meninos de rosa.

Antes de mais nada, cansei da mistureba de seis elementos distintos que titulam a India Martin Aston Point Force Racing no seu registro na Junta Comercial. É um nome de equipe muito comprido, e a partir de hoje passarei a chamar apenas de Racing Point. Pode parecer meio resumido e até um pouco sem graça — nenhuma equipe do mundo teria nome tão insosso –, mas não dá para gastar tantos caracteres com um time só.

Quando começou a pré-temporada, lá em fevereiro, chamou a atenção logo de cara a semelhança dos carros cor-de-rosa com as Mercedes do ano passado. Isso jé é de amplo conhecimento da nação, e por isso não precisamos mais tocar no assunto.

O que não se esperava era uma ascensão tão rápida à condição de segundo melhor carro da categoria. Hoje Stroll e Pérez ficaram em terceiro e quarto no grid, atrás apenas de Hamilton e Bottas. Quatro Mercedes nas duas primeiras filas é o que temos, sendo duas 2020 zero km e duas seminovas 2019, pouco rodadas e de único dono. E todos de pneus médios, para humilhar — fizeram seus tempos no Q2 com esse composto, o que indica uma parada tardia e um fim de prova em ritmo muito forte com os pneus macios. Se andarem direitinho, não resolverem tocar rodas ou disputar freadas, um dos dois vai ao pódio. Eu, se fosse o chefe dos rosinhas, teria uma longa conversa com a dupla no jantar de hoje para evitar surpresas desagradáveis.

Claro que está todo mundo arrancando os cabelos com o desempenho da Force Point na Hungria. A Ferrari, por exemplo, sabe que não tem como acompanhar os inesperados rivais. Até que Vettel e Leclerc não foram tão mal, ficaram com a terceira fila, mas as diferenças… Hamilton fez a 90ª pole de sua carreira com 1min13s447. Tião ficou em quinto 1s327 atrás. Charlinho, o sexto, a 1s370. Num circuito curtinho desses? Não dá, não dá.

Mas já volto à Ferrari, assim que Gola Profonda, meu informante de Maranello, telefonar. Por enquanto, que se dê o devido valor ao terceiro tempo de Stroll, um piloto que ainda não sei dizer se é bom ou ruim. Ele tem ótimos momentos, como o segundo lugar no grid para o GP da Itália em 2017, de Williams, e o terceiro lugar no GP do Azerbaijão, também em 2017, no seu único — e mui surpreendente — pódio na categoria. Às vezes ele faz umas besteiras, e ainda carrega o estigma de ser filhinho de papai, com a vantagem de o papai ser dono da Racing Martin. Acho que às vezes pegamos no pé do rapaz desnecessariamente.

Quanto a Pérez, o quarto lugar não é de se jogar fora, claro, mas o mexicano reclamou de tonturas durante o dia. “Vou ter de perguntar ao meu fisio o que está acontecendo”, foi o que ele falou. Espero que não seja coronavírus. E antes que alguém imagine que a Aston India possa desafiar a Mercedes amanhã: Stroll ficou a 0s930 da pole e Pérez, a 1s098. A distância é enorme.

(Como minha vida mudou agora que decidi chamar essa equipe pelo nome encurtado, putz… Era muito, muito longo. Force Point é muito mais fácil, até a sonoridade é boa, repitam comigo: Martin Racing, a gente enche a boca e sai bonito, India Aston, vejam que coisa linda!)

Hamilton, Hamilton… Noventa poles, sete delas na Hungria. Largou na frente em 2007, 2008, 2012, 2013, 2015, 2018 e agora. Em 2007, 2012, 2013 e 2018, converteu a primeira posição no grid em vitória. É muito difícil que isso não se repita amanhã. Sua volta em 1min13s447 foi quase perfeita, algo que, segundo ele mesmo, seria preciso para bater o tempo de Bottas — que ficou 0s107 atrás.

A Mercedes está em outro patamar, como diria o menino do Flâmêingo. É um abismo técnico e de desempenho em relação a todo mundo. Já é a sétima temporada seguida de domínio dos nero-prateados e não tem de ficar de beicinho. Os caras são bons e não têm culpa se a Ferrari é uma zona, se a Red Bull não engata, se a McLaren mudou de dono e perdeu o rumo. Como eu dizia na época em que Schumacher e a Ferrari colocavam todos no bolso, há beleza, também, nessas hegemonias. Elas expressam excelência. Do ponto de vista esportivo, claro que todos gostariam de ver mais gente brigando na frente. Mas as coisas são o que são. E, na F-1, domínios não são uma novidade. A novidade é durar tanto tempo.

Paciência. O negócio é bater palmas.

A decepção do dia foi a Red Bull. Verstappinho ficou apenas em sétimo e Albon não passou do Q2 e larga em 13º. Max reclamou o sábado inteiro e concluiu: “Alguma coisa não está funcionando aqui”. Já o jovem tailandês começa a ficar na marca do pênalti pela diferença de performance em relação ao companheiro — filme já visto no time. Em sua defesa saiu Russell. “Estão tratando ele como se fosse um idiota, mas Alex é um dos melhores pilotos do mundo, não é justo criticá-lo assim”, falou.

E a Ferrari?

Gola Profonda, meu espião vermelho, contou que Vettel saiu do carro e deu uma piscadela para Leclerc. “Charlito mostrou a língua e falou para ele parar senão ia ligar para a mãe. ‘Liga, uai’, foi o que disse o Vettel. Aí rolou um tumulto e sobrou um ursinho de pelúcia na cabeça do Seb.” Ursinho de pelúcia? “É, o Charlito sempre traz para as corridas, vou te mandar foto.”

Esperei alguns minutos e chegou a foto pelo WhatsApp. Ele leva isso para as corridas?, perguntei. “Desde o ano passado, me disseram. Diz que dá sorte. Mas este ano o Binotto proibiu o Charlito de levar dentro do carro porque aumenta o peso.”

Não acreditei muito nessa história e pedi a Gola que parasse com essas gracinhas. Perguntei se o pessoal da equipe estava preocupado com a falta de potência dos motores, porque os dois carros da Haas e os dois da Alfa Romeo ficaram no Q1, um vexame danado para quem leva a marca Ferrari no cabeçote. “Cabeçote? O que é isso?”, perguntou Gola, que aparentemente não entende nada de carro — e começo a desconfiar que suas funções no time são bem menos relevantes do que ele costuma dizer por aí. Esquece o cabeçote, só me diz o que estão pensando para sair da crise, implorei. “Ah, o Vettel já deu a letra”, começou Gola. “Na reunião depois do treino ele falou da Racing Point e disse que a gente não tem de ter vergonha de fazer alguma coisa parecida, tipo uma Mercedes rosa. Falou que iria mandar para o grupo de WhatsApp dos engenheiros sua sugestão, levantou e foi embora. Vou te mandar a foto.”

E chegou a foto.

Comentários