N’UNGRIA (3)

RIO (faltam cinco) – Deu a lógica, assim será até o fim da temporada, mas não vamos ficar aqui nos lamentando. Estamos vendo a História com H sendo escrita por Lewis Hamilton, que será heptacampeão e possivelmente terminará a temporada como o maior vencedor de todos os tempos. Digo “possivelmente” porque a gente não sabe ainda quantas corridas terá este campeonato. Por enquanto, são dez. Faltam sete, e se ele vencer cinco delas iguala Michael Schumacher. Se forem mais — e serão, certamente, ainda que não muitas –, essa marca que pensávamos impossível de ser batida cairá. E lá na frente, num futuro distante, seremos gratos pela oportunidade de testemunhar integralmente uma carreira fabulosa.

Hamilton ganhou fácil, como se previa, o GP da Hungria. Fez a pole e a melhor volta, também. Exceto por uma, porque parou para colocar pneus slick antes que Verstappen, liderou todas as voltas da corrida — quase fez um novo Grand Chelem. A melhor volta veio quando a corrida já estava ganha. Com enorme vantagem para Verstappen, o segundo colocado, Lewis fez um terceiro (e supérfluo) pit stop para colocar pneus macios e levar o ponto extra.

A corrida foi legal, apesar da vitória tranquila do britânico mercêdico. Porque teve alguns personagens interessantes, e vou começar com a dupla da Haas.

A gente tende a zoar com quem anda atrás, e é assim mesmo, a zoeira é livre. Magnussen e Grosjean nos divertem com suas trapalhadas e a equipe americana é também vítima dos caras da Netflix, que nas duas temporadas de “Drive to Survive” gastaram rolos de filme com os comandados do impagável Günther Steiner. Sim, eu sei que ninguém usa rolo de filme hoje em dia, mas me deixem usar os clichês de antigamente, por favor. Afinal, eu sou de antigamente. Ainda falo “cair a ficha” e “voltar a fita”. E ninguém mais usa ficha ou fita, também. Alguns não sabem nem do que se trata.

Tinha chovido em Budapeste e arredores pela manhã, e a pista estava molhadona na hora da largada. Então, todo mundo colocou pneus intermediários para começar a prova, embora a chuva já tivesse parado. Todo mundo? Não! Magnussen estava de pneus para chuva forte! Loucura, loucura!

Aí os caras saem para a volta de apresentação e os dois carros da Haas, em vez de seguirem para o grid, correram para os boxes e colocaram slicks, largando do pit lane! Loucura, loucura!

E não é que deu certo? Até a quarta volta, todos fizeram a mesma coisa. E assim, gloriosamente, na quinta volta Magnussen era o terceiro colocado e Grojã, o quarto. Ok, o sonho de Cinderela não iria durar a corrida toda, mas se pagou. No final, nossa Magnólia Arrependida terminou na pista em nono, pontuando e salvando o ano da Haas. Grojã ficou só em 16º, que é onde ficaria, normalmente. Mas Kevin, e precisamos falar dele hoje, aproveitou a chance.

Pena que a nona posição de Magnussen, horas depois, tenha virado décima — levou um pontinho, pelo menos. Os dois meninos da Haas tomaram 10s de punição porque a equipe infringiu o artigo 27.1 do regulamento esportivo, que diz que os pilotos têm de dirigir sozinhos e não podem ser ajudados por ninguém. Ocorre que um dos estrategistas do time, Mike Caulfield (que estava na fábrica na Inglaterra, porque quebrou o braço andando de bicicleta na Áustria), chamou os dois para colocar pneus slicks durante a volta de apresentação. O chamado foi considerado “ajuda externa”.

“Ah, mas e o engenheiro do Norris que na Áustria ficou mandando ele apertar botão o tempo todo? E quando a equipe chama um piloto para o box para trocar pneus durante a corrida?”, perguntará alguém. Bom, em 2017, a Diretiva Técnica 011, uma espécie de adendo ao regulamento esportivo, determinou que a caminho do grid qualquer comunicação da equipe com o piloto pelo rádio só pode ser feita se envolver alguma orientação relativa a segurança. Qualquer outra coisa é considerada “ajuda externa ao piloto”. Pelo que compreendo do regulamento, durante a corrida pode. Na volta de apresentação, não. Consta que Gasly pediu para fazer o mesmo pelo rádio e a resposta da AlphaTauri foi um cri-cri-ci. Silêncio absoluto.

De qualquer forma, parabéns ao time ianque. Garantiu pelo menos meio episódio na Netflix.

E parabéns também para a — atenção, já avisei ontem, não vou escrever mais o nome inteiro dessa equipe, não; cansei, por isso usarei a corruptela já definida que me parece a de melhor timbre — Aston India. O carro cor-de-rosa já é, sim, o segundo melhor do grid. E só não vai chegar ao pódio toda hora porque tem um moleque chamado Max Verstappen que é muito acima da média para atrapalhar. Falaremos dele depois, porque hoje foi o grande nome da prova.

Stroll ficou em quarto. Pérez, em sétimo. A má largada do mexicano acabou sendo fatal. Mas o canadense “performou”, como gostam de dizer os publicitários. Só não levou um troféu porque a Mercedes corrigiu a largada igualmente ruim de Bottas com uma estratégia diferente de pit stop, fazendo o finlandês trocar seus pneus na volta 30, seis antes que o piloto da Force Martin. Essas seis voltas foram decisivas. Quando Stroll voltou à pista, já estava atrás. E lá ficou. “A gente demorou para parar porque esperava chuva. Mas ela não veio”, esclareceu o filho do dono da Point Racing. Tudo bem. Um quarto e um sétimo deixaram o time com 40 pontos em quarto lugar no Mundial de Construtores, ao lado da McLaren (que tem um pódio e fica à frente no critério de desempate). A Red Bull está à frente de ambas com 55 e a Mercedes sumiu com 121. A briga pelo vice será boa, muito boa.

Ah, a Renault lavrou novo protesto contra os carros da Force Martin. Como na Áustria, acusou o time de copiar o carro da Mercedes do ano passado — por enquanto, o alvo são os dutos de freio que, segundo a equipe francesa, são idênticos aos dos alemães. Estou achando que vão protestar ao final de todas as corridas. É melhor a FIA fazer algo logo, senão vai ficar meio esquisito esse negócio de resultado sub-júdice o tempo todo.

Agora vamos destrinchar um pouquinho este fenômeno chamado Max Verstappen. O cara bateu na volta de instalação, quando levava o carro para o grid. É daqueles vexames que quando acontecem levam qualquer piloto a um estado de profunda depressão.

Christian Horner contou às gargalhadas que ele “tentou três vezes até bater”, que já tinha dado umas derrapadas antes, e que depois da pancada tinha decidido voltar aos boxes para desistir e se martirizar. Mas acabou alinhando com o carro todo estropiado. Tinha lá uns 15 minutos para tentar arrumar o estrago — que não foi pequeno, principalmente na suspensão dianteira esquerda.

Os mecânicos da Red Bull, com o perdão do termo realmente chulo e desagradável, foram foda. Prefiro no singular. “Os cara são foda”, é assim que a gente fala. Raramente usamos “fodas”. Arrumaram o carro no grid e o resto Max fez. Recompensou o esforço Com uma grande largada, anulando a má classificação de ontem, e na sexta volta, depois que todos já tinham parado para colocar pneus para piso seco, já estava em segundo.

Ali ficou a corrida toda, tendo de conviver nas últimas voltas com a perspectiva de ser ultrapassado por Bottas, que fez um terceiro pit stop para atacar no fim com pneus novos. Só que quando o finlandês chegou, descontando 20s em 20 voltas, já não dava mais tempo. Veio a quadriculada e babau. O holandês ganhou a eleição de “piloto do dia”, claro.

E foi mesmo.

“Para mim, esse segundo lugar foi uma vitória”, resumiu Verstappinho.

E foi mesmo.

A classificação aí em cima está desatualizada porque as punições da Haas chegaram tarde e não estou a fim de trocar a imagem. Invertam as posições de Magnussen e Sainz e as de Gorsjean e Raikkonen. Obrigado.

Hamilton assumiu a liderança do Mundial com 63 pontos, contra 58 de Bottas. Valtteri largou com a velocidade de um ônibus e caiu de segundo no grid para sexto na primeira volta. Explicou que uma luz no painel o distraiu. Aí apertou todos os botões errados. Aí teve de reiniciar o computador. Aí precisou repetir o procedimento de largada. Aí o carro deu um pulo. Aí ele brecou. Aí engatou a marcha errada. Aí se estrepou.

Isso às vezes acontece comigo, quando acende a luz da reserva do tanque da minha perua Lada, ou quando pisca a luz do Lubrimat do meu DKW 67. Ambas amarelas. Luzes amarelas em painéis de carros de fato indicam perigo. No caso do Lada, é porque vai acabar a gasolina. No caso do DKW, é porque o óleo do Lubrimat está no fim. Em ambos os casos, o desfecho é um só: o carro vai parar. Então, no caso do Lada, corro no posto de gasolina e coloco cem mangos de Podium, V-Power ou DT Clean. No caso do DKW, estaciono e pego o frasco de Petronas Selenia Rational 2T no porta-luvas e encho o tanquinho cinza lá na frente. No caso do Bottas, ele não sabia direito o que fazer.

A foto abaixo mostra bem o tamanho do estrago feito pela luz no painel que distraiu Sapattos. Se procurarem bem, verão o carro dele lá no meio sendo ultrapassado por todo mundo, e se ampliarem a imagem 500 mil vezes, verão o reflexo da luz, que deve ser amarela, na viseira do capacete e seu olhar desesperado.

Hamilton, que aparece todo pimpão na imagem acima, venceu pela 86ª vez na F-1. Foi sua oitava vitória na Hungria, igualando mais um recorde de Schumacher, o de maior número de vitórias num mesmo GP. No caso do alemão, foram oito na França, todas em Magny-Cours.

Lewis queixou-se do pouco tempo que a F-1 deu aos pilotos para nova manifestação anti-racismo antes da largada. E reclamou também que Grosjean, que comanda a GPDA (Grand Prix Drivers Association), não colocou o tema em discussão no briefing antes da corrida, nem fez gestões junto aos organizadores para incluir o protesto na programação oficial do evento. “Tem gente que acha que aquilo que fizemos antes da primeira corrida já é suficiente. Não é, temos de fazer sempre, reforçar a mensagem. A F-1 diz que vai lutar pela diversidade e contra o racismo, mas precisa nos oferecer plataformas para isso. É uma correria antes da largada, tudo feito às pressas, e não pode ser assim.”

Lewis tem razão.

Caramba, este texto está ficando longo demais. Ninguém vai ler. Mas vamos em frente. Quem sabe daqui a mil anos, humanidade já extinta, meu laptop seja encontrado soterrado e ainda funcione, de modo que luminares da nova civilização dominante sobre o planeta, talvez capivaras, o encontrem e, pelo menos, terão um relato preciso dessa coisa esquisita que os humanos faziam, correr de carro.

E encontrarão também esta observação absolutamente irrelevante que farei sobre os macacões dos pilotos da Mercedes. Reparem na faixa lateral em verde-maravilha. Ela sai do peito, vai descendo e faz uma curva para trás na altura da barriga, o que gera um efeito muito desagradável. Parece que Hamilton e Bottas têm uma pança considerável. E esses caras são magros como vara-paus. Será que só eu percebi isso? Tá feio, tá feio.

Mas não tem nenhuma importância, eu sei. E registre-se também que o pódio foi mais ou menos como era antes. Desta vez, não fizeram na pista. E colocaram um robô humano para entregar os troféus. Gostei mais do carrinho da corrida passada. Ele tinha personalidade, coitado. Sentiremos saudades.

E chegamos à Ferrari.

Bom, Vettel ficou em sexto. Não é grande coisa, mas como ele mesmo disse depois da corrida “é onde estamos, quinto ou sexto, não mais que isso”. Já Charlinho, esse não tinha muito o que comemorar, não. Terminou em 11º, perdendo a posição no fim para Sainz Jr. depois de uma briga duradoura e encarniçada.

É claro que sair de uma corrida com apenas oito pontos, levando uma volta do líder, não satisfaz uma equipe do tamanho da Ferrari. Por isso mesmo, achei que seria proveitoso um contato com meu informante na equipe italiana, que vocês conhecem como Gola Profonda.

Fui direto ao WhatsApp. Gola pediu para não telefonar, porque as ligações poderiam estar sendo grampeadas pelo serviço secreto húngaro. Pra quê iriam grampear seu telefone, rapaz?, perguntei. “É que furei a quarentena e saí sábado à noite para comer caviar e tomar Unicum”, ele respondeu.

Faço aqui um parêntese para explicar o que é Unicum. É um troço que só tem na Hungria, fabricado pela família Zwack desde os tempos do império austro-húngaro, sei lá, no final do século 18. Quando alguém da família real tinha dor de barriga, tomava Unicum. Aí, em 1840, Jószef Wack resolveu comercializar a bebida para o povo em geral. É um licor amargo, mas ao mesmo tempo adocicado, feito com umas 40 ervas e envelhecido em barris de carvalho. Quando a gente toma pela primeira vez, é esquisito. Depois, fica gostoso.

A destilaria foi destruída na Segunda Guerra e a empresa, nacionalizada pelo regime comunista húngaro em 1948. Mas a família Zwack, pouco disposta a colaborar com o governo do povo, se mandou para os EUA e levou a fórmula secreta junto. Dizem que nessa época o gosto do Unicum fabricado pelo Estado era horrível, parecia gasolina velha. Acho que é mentira. Quando acabou o comunismo, os Zwack voltaram para a Hungria, recompraram a empresa do Estado e voltaram a fabricar o licor com a fórmula original. A fórmula secreta, me contaram, está num cofre. Nos EUA.

Está explicado.

E você tomou um porre de Unicum?, duvidei de Gola, já que é apenas um digestivo, ninguém enche a cara de Unicum. “Mais ou menos. Comprei umas caixas e escondi no caminhão para vender na Itália. Estou com medo que descubram, porque todo mundo na equipe tá me ligando e quer uma garrafa. Até o Vettel.” Vettel bebe, é? “Quando chega na frente do Charlito, sim. A gente ficou de tomar uma hoje à noite.” Você não gosta muito do Leclerc, né?, continuei. “Ah, cara, não dá”, ele começou a desabafar. “Veja só. Tinha de parar quando a pista secou, a equipe chamou e perguntou qual pneu ele queria. ‘Aquele fofinho’, ele respondeu.” Fofinho?, espantei-me. “É, ele chama soft de fofinho, médio de amarelinho e duro de branquinho. O pessoal na equipe não gosta muito disso, mas é o jeito dele. Aí, OK, colocaram o pneu fofinho. E foi uma merda. Aí ele começou a reclamar. ‘O fofinho tá ruim, eu queria o branquinho!’. Aí o Binotto entrou no rádio. ‘Charles, você pediu sof… fofinho. Agora quer har… branquinho? Dá pra se decidir?’, e aí ele começou a dizer que ia ligar para a mãe dele, e depois, quando o Sainz chegou, ele entrou no rádio e começou a gritar que tinha um laranjinha atrás dele. ‘Mandem esse laranjinha parar, ele tá querendo me passar, e o pretinho já passou e o rosinha é muito melhor que o nosso, eu não quero mais, eu vou em-bo-ra’, falou, separando as sílabas, e aí o Binotto desistiu de falar com ele. Mas o bom é que o Vettel, pelo menos, está colaborando. Quando acabou a corrida ele chamou os engenheiros e avisou que tinha a solução para Silverstone, principalmente se chover, e que ia mandar no grupo.” E qual a solução para Silverstone?, perguntei, curioso. “Vou te mandar a foto.”

E mandou a foto.

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