N’URSS (2)

N

RIO (quase) – São 96 poles agora para Hamilton, mas atenção: tem uma chance de ele perder amanhã em Sóchi, adiando a histórica marca de 91 vitórias para igualar Schumacher. Porque por pouco não ficou empacado no Q2. E por isso vai ter de largar com pneus macios, contra os médios de Verstappinho, segundo no grid, e Sapattos, o terceiro.

Já conto como foi. Antes, falemos do meu espanto com esse GP da Rússia cheio de gente nas arquibancadas. Notei que há uma certa disciplina, as pessoas separadas e tal. Mas será que já é a hora? Na Rússia de Putin, nunca se sabe. Fosse na gloriosa União Soviética, não teria ninguém e pronto. Mas as coisas mudaram por lá, virou tudo uma zona.

Na foto abaixo dá para ver o público, que começou a voltar em Mugello (apenas alguns gatos pingados convidados) e deverá estar também nas arquibancadas de Imola, Nürburgring, Portimão e Bahrein. Dá até medo — se bem que esses países têm sido menos cretinos que o Brasil no trato com a pandemia, inclusive são nações dirigidas por pessoas que acham que a Terra é redonda, vejam só…

Verstappen: terceiro surpreendente no grid, diante de público nas arquibancadas

Já identificaram o cabra acima, né? Max foi o nome do sábado, Hamilton à parte. Conseguiu colocar seu carro à frente de uma Mercedes, o que nos dias de hoje é uma façanha. Até então, a dupla do time alemão vinha enfiando 1s em todo mundo. O holandês (país-baixense?) conseguiu quebrar o padrão. Ficou a 0s563 de Hamilton e deixou Bottas na segunda fila, 0s652 pior que o pole.

Ah, o pole… Foi a oitava de Hamilton no ano, quinta consecutiva. Mas foi com emoção. No Q2, tudo parecia tranquilo depois que ele fechou uma volta em 1min32s085 com pneus médios, para largar com eles amanhã e adiar a primeira parada. Bottas e Verstappen fizeram o mesmo. Mas os comissários flagraram o inglês exceder os limites da pista numa curva X, que não lembro qual era, e anularam sua volta — vou resistir até onde puder a dizer “deletaram”.

Tudo bem, era só colocar outro jogo de pneus e mandar ver de novo. Mas…

Faltavam 2min15s para o fim da sessão quando a bandeira vermelha foi agitada por causa de uma panca de um carro também vermelho. Vettel bateu forte e quase uma tragédia se configura: Leclerc vinha bem atrás, desviou e por pouco não encheu o companheiro de lado. Foi bem perigoso.

Hamilton estava em sua volta rápida quando o sinistro foi registrado. Vettel, em 14º, lá ficou, por óbvio. Na lista dos que seriam eliminados naquele momento ainda estavam Albon, Stroll e Russell. Este último nem estava ligando. Pela sexta vez no ano, em dez corridas, passara ao Q2 e já estava de bom tamanho. Os demais, no entanto, tinham maiores pretensões na classificação. Principalmente Hamilton.

Fila para sair dos boxes: Hamilton quase dança no Q2

Recolhidos os destroços da Ferrari #5, 12 carros fizeram fila na saída dos boxes para salvar o dia. Stroll ficou na garagem com o motor superaquecido. Jorginho nem se preocupou em suar o macacão. Sabia que com a Williams não conseguiria superar os que estavam à sua frente e já tinha cumprido a missão de deixar para trás as duplas de Haas e Alfa Romeo, além de seu lerdo companheiro Latifi. Ficar na frente de uma Ferrari já era bônus — no caso, a de Vettel.

(Só para não deixar passar, no Q1 ficaram, pela ordem, Grojã, Giovanetti, Magnólia Arrependida, Lentifi e Kimi Dera Ter Um Carro Melhor Pra Igualar o Recorde do Rubinho de GPs Disputados. Quatro dos cinco com motores Ferrari. Como Leclerc foi 14º e Vettel 15º no Q1, é só fazer as contas: dos sete últimos, seis motores Ferrari.)

Lewis não tinha tempo registrado no Q2, por conta da sua volta cancelada no início. A segunda teve de abortar por causa da bandeira vermelha. Então, não arriscou. Até porque não tinha mais pneus médios novos, colocou os macios para se garantir nos minutos finais da sessão. Mas abriu a volta no talo, faltando décimos de microlésimos de milionésimos de pentelhésimos para a quadriculada. Ficou em quarto e passou ao Q3. E teve de aceitar o fato de que Bottas e Verstappen, que tinham feito seus tempos com pneus médios, largarão com alguma vantagem estratégica amanhã.

Russell: sexta vez no Q2, deixando Alfa, Haas e Ferrari para trás

O finalzinho do Q2 foi muito divertido, todos com pneus frios (ficaram uns cinco minutos na fila para sair dos boxes sem cobertores elétricos), tráfego, uma bela zona, e ao fim e ao cabo rodaram Leclerc, K-Vyda Dura, o já mencionado Strollvenga (parado nos boxes), o igualmente mencionado (e fotografado acima) Jorge Russo e o não menos mencionado Vettel, com o carro todo estropiado em cima de uma plataforma chamada pelo seguro.

Veio então o Q3 e Hamilton, na primeira tentativa, enfiou uma luneta de 0s793 em Bottas, meio que para humilhar. Na segunda volta, melhorou ainda mais seu tempo, estabelecendo novo recorde para Sóchi com 1min31s304.

Bottas: não entendeu como Lewis fez a pole e disse que terceiro é melhor que primeiro

Confesso que fiquei surpreso com o segundo lugar de Verstappen e com as voltas ruins de Bottas, que vinha andando bem nos treinos livres e costuma se acertar na pista russa. E não foi só Max que se destacou, não. O quarto colocado no grid foi Pérez, de saída da Force Martin sem direito sequer aos últimos pacotes de atualização do carro rosa. OK, ficou a mastodôntico 1s013 da pole, mas quem é que tem conseguido andar perto da Mercedes? Ótima classificação, a do mexicano, para júbilo de alguns dentro do time que ainda lhe dão “buenos dias” quando ele chega ao autódromo.

Depois de Pérez, na turma dos dez primeiros, vieram Ricardão, Sainz Carro em 2021, L’Ocon, Mini Norris, Olha o Gás-ly e All Bom. Engraçado foi ver Bottas, ao chegar no pitlane, estacionando seu carro na placa de segundo colocado. Não contava com a astúcia de Verstappen. Tentou racionalizar ao dizer que largar em terceiro é muito bom, porque tem uma retona enorme nesse circuito, porque tem vácuo, porque isso, porque aquilo.

Mas tem certa razão na história do vácuo. Hamilton disse que Sóchi talvez seja a pior pista de todos para largar na pole, porque quem vem atrás baba no traseira do outro até a primeira curva, e a chance de perder a posição é bem razoável. É no que Verstappen aposta para o início da corrida.

Ricciardo: ótimo quinto lugar e chance de bons pontos na Rússia

Não gosto muito desse circuito soviético, cheio de curvas de 90 graus e sem muitos pontos de ultrapassagem. Mas o fato de Hamilton largar com pneus macios pode oferecer algum movimento à corrida. É bom ficar atento também ao desempenho dos dois carros da Renault e da dupla da McLaren. Os motores franceses têm tido uma performance mais do que digna na Rússia, e por isso a disputa no segundo pelotão promete alguns arranca-rabos interessantes.

E a Ferrari?

Solução para Vettel: Leclerc que mandou

Foi com essa imagem que me deparei assim abri meu WhatsApp após o treino. A mensagem veio de Gola Profonda, meu informante em terras soviéticas abrigado desde sempre na equipe italiana. O que é isso, Gola?, perguntei de bate-pronto. “Tá rolando no nosso grupo, parece que esse cara aí no Brasil tem feito umas coisas interessantes e o Seb se interessou. Pediu até o link com mais informações e o Charlito, que anda bem colaborativo, mandou.”

Veio o link. Fiquei com medo de abrir, podia ter vírus, mas se vocês quiserem arriscar, é este aqui.

Assim, segui conversando no aplicativo de mensagens, prometendo ver o link depois. E como está Vettel, dolorido, chateado? “Nada, tá de boa. Assim que chegou nos boxes, pegou o laptop e ficou pesquisando coisas no Google.” No Google? Mas o que ele estava procurando? “Encostei atrás dele e fiquei espiando. Aí perguntei o que ele queria.” E o que era?, insisti, impaciente. “Na hora, não disse. Mas depois mandou no nosso grupo o resultado das suas buscas. Mandou a foto e escreveu: ‘Nossos problemas estão resolvidos, o cara faz serviço de todas as marcas, segue o contato. Não precisa nem polir’. Depois não o vi mais.”

A foto.

Vettel encontrou o que queria no Google: serviço especializado

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

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Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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