COM GELO E ÁGUA (1)

Salsichões na curva 2: estrelas do dia

SÃO PAULO(estou falando do drinque do Paul) – Numa região tão bonita, de culinária tão agradável e sofisticada, é uma heresia ficar falando de salsichão. Salsichão era no Joan Sehn, famosa choperia paulistana fundada em 1937 que, acredito, fechou de vez — a última casa de que me lembro ficava na Lavandisca, em Moema, construíram um prédio lá e acabou o “João 100”, como eu falava quando era pequeno, porque meu pai vivia indo ao “João 100”.

Os salsichões em questão aos quais me refiro são essas peças amarelas de plástico rígido aparafusadas (pode-se usar também “parafusadas”, mas prefiro “aparafusar”, verbo mais chique) ao lado das zebras na curva 2 cuja função é arrebentar os assoalhos dos carros.

Muitos ficaram lascados hoje nos primeiros treinos para o GP da França no chatíssimo circuito de Paul Ricard — nessa configuração atual, que fique claro, porque o antigo era até bacaninha, embora nunca tenha feito parte dos dez mais queridos da humanidade. Pode ser que tirem isso amanhã, mas o diretor de prova Michael Masi falou que já estavam lá em 2019 e que as equipes mesmas sugeriram barreiras físicas para evitar que os pilotos extrapolem os limites de pista.

O fato é que quando os carros passam em cima desses negócios voa pedaço para tudo que é lado. E pedaços de carros custam caro, os caras precisam economizar, agora tem limite de orçamento.

Bottas: chassi novo e confiança no carro

Paul Louis Marius Ricard, já contei aqui, ou em algum outro lugar, é o nome do criador da famosa bebida francesa Ricard, um pastis que ele inventou em 1932. Pastis é um licor à base de anis, para vocês que nada entendem de bebidas. No caso de Ricard, misture uma parte do licor com cinco de água bem gelada (NUNCA COM GÁS!) e algumas pedrinhas de gelo. É bem gostoso.

Em 1969 monsieur Ricard resolveu construir um circuito de corridas e batizou o autódromo com seu próprio nome — eu faria o mesmo. No ano seguinte estava pronto. Paul Ricard morreu em 1997. Desde 1999 o complexo, que inclui um pequeno aeroporto vizinho que também era dele, pertence a uma empresa de Bernie Ecclestone. Até onde eu sei, continua no nome do ex-dono da F-1.

Raikkonen com o aeroporto ao fundo: era tudo do Ricard

Paul Ricard foi a mais frequente sede do GP da França entre 1971 e 1990. Em 1991, a prova foi transferida para Magny-Cours. Em 1989, fiz minha primeira cobertura internacional nessa pista. Está tudo registrado lá no meu livro “Ímola 1994”, que se vocês não compraram ainda deveriam se envergonhar.

É um circuito muito liso e plano, com áreas de escape monstruosas. As duas corridas lá disputadas desde a volta da F-1, em 2018 e 2019, foram muito aborrecidas. Estou contando tudo isso para dizer que depois de duas provas em pistas de rua a Mercedes volta à posição de principal força do campeonato, apesar do primeiro tempo de Verstappinho hoje. Ele fez a melhor volta com pneus macios, 0s008 à frente de Bottas, que usou médios. E amanhã quem deve fazer a pole é Hamilton. Palpite.

Os tempos do segundo treino de hoje: Max na frente

Lewis não está muito satisfeito. Disse que tem alguma coisa errada com o carro dele. A Mercedes trocou os chassis dos dois pilotos, num esquema de revezamento que segundo o time é corriqueiro. Pebolim Wolff disse que é assim mesmo, que não tem diferença nenhuma, mas sei lá. Um carro nunca é idêntico ao outro. O finlandês, ao contrário do heptacampeão, falou que com esse chassi novo se sentiu “confiante”.

Hamilton também reclamou que a Pirelli mandou colocar a pressão dos pneus lá em cima — faz parte das discussões sobre a alteração da pressão mínima que algumas equipes estariam promovendo, o que segundo o fabricante pode explicar os furos de Verstappen e Stroll no Azerbaijão. É duro fiscalizar essas coisas, mas a FIA precisa encontrar uma forma.

Ocon, sexto colocado: Alpine andando bem em casa

Quem andou direitinho hoje foi a Alpine, com Alonso em quarto e Ocon em sexto. A Ferrari, que fez a pole nas duas últimas corridas com Leclerc, piorou um pouco. A McLaren também está patinando. Gasly, destaque em Baku, mostrou uma boa performance de novo. E a Aston Martin decepcionou. É um bom resumo das atividades deste primeiro dia no sul da França, que viveu um dia de sol e calor — o verão europeu começa segunda-feira.

Não tenho grandes esperanças de uma boa corrida domingo, mas nunca se sabe. OK, a Mercedes é favorita, mas Verstappen estará por perto. Pérez, que andou mal hoje, deve se recuperar amanhã na classificação e incomodar, também. A única pergunta relevante sobre o fim de semana é: quem sairá na liderança dos dois campeonatos domingo? É bom lembrar que Max e a Red Bull estão em primeiro em ambos. E que a Mercedes, desde o início da era híbrida, tem seu pior desempenho em pontos depois de seis corridas: 148. Para comparar: foram 240 em 2014, 242 em 2015, 188 em 2016, 179 em 2017, 178 em 2018, 257 em 2019 e 221 em 2020.

Hoje à noite, às 19h, falaremos de tudo isso no “Fórmula Gomes”, no meu canal youtúbico. Apareçam lá!

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