SCHUMACHER, 30

O repórter engajado em Spa: prisão resultou na estreia de Schumacher

SÃO PAULO (sim, já) – Hoje, 24 de agosto, faz 30 anos que Michael Schumacher se mostrou de verdade para o mundo, fazendo o sétimo tempo na sessão que definiu o grid para o GP da Bélgica, pela Jordan. Ele correria no lugar de Bertrand Gachot, preso em Londres. Toda essa história está no meu livro, “Ímola 1994”, e abaixo publico um extrato do capítulo “Spa-Francorchamps, 1991”. A foto acima é, digamos, autoexplicativa para quem já leu.

A estreia do alemão, no dia seguinte, durou poucos metros. Sua história na F-1, no entanto, foi muito além disso.

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SPA-FRANCORCHAMPS, 1991

A prisão de Bertrand Gachot dez dias antes do GP da Bélgica de 1991 não causou grande comoção na imprensa brasileira. Na edição da “Folha” de 17 de agosto, uma pequena nota informava que ele tinha sido detido dois dias antes num “box” da matéria principal, que falava sobre o esforço da Ligier para contratar Alain Prost para 1992. O piloto da Jordan havia sido condenado à prisão na Inglaterra depois de se envolver numa briga de trânsito em dezembro do ano anterior em Londres. A caminho de uma apresentação de patrocinadores da Jordan, sua nova equipe – que estrearia na categoria na temporada seguinte –, houve uma batida com um táxi e o motorista teria agarrado o piloto pela gravata e lhe dado um murro na cara. Para se defender, o franzino Gachot sacou de um frasco de gás paralisante e borrifou seu conteúdo no rosto do indigitado. A noiva do piloto, Kate Palmer, estava junto. O carro era dela.

Tal equipamento de defesa pessoal era proibido no Reino Unido na época, e o taxista Eric Court acabou entrando com uma ação criminal contra Gachot. Quando a sentença foi proferida, ele foi atirado às masmorras de Brixton, prisão perigosíssima ao sul de Londres, um prédio construído em 1820 que abrigava bandidos de todos os tipos e irlandeses do IRA acusados de terrorismo, assassinatos e outros crimes pesados.

Naquele ano, fui para Spa a partir de Paris, depois de fazer o leasing de um Renault 19 direto com um representante da montadora francesa no Brasil. Eu ficaria mais de um mês na Europa e era mais barato “comprar” o carro do que alugar um para devolver em outro país. Meu plano era cobrir quatro provas seguidas do final de agosto até o final de setembro sem voltar ao Brasil, a saber: Bélgica, Itália, Portugal e Espanha. As taxas de devolução das locadoras quando se entregava um carro em país diferente daquele onde ele era alugado eram altíssimas, e a modalidade do leasing permitia que ao final da viagem eu devolvesse o carro em qualquer concessionária Renault do continente. No caso, seria em Barcelona. Suas placas vermelhas francesas, então, seriam substituídas e o automóvel poderia ser vendido normalmente.

Eu já tinha feito um GP da Bélgica, em 1990, e o jeito mais fácil de ir para aquela corrida era pegar um voo da Vasp para Bruxelas, uma rota deficitária na qual a companhia aérea paulista usava aviões MD-11 novinhos em folha. Eram voos ótimos para os passageiros e péssimos para a empresa. Saíam vazios de Guarulhos e a gente podia se esticar nas fileiras centrais com quatro assentos e dormir feito criança nas quase 12 horas de viagem. Além do mais, as aeromoças tinham tempo de sobra para atender os poucos viajantes com atenção e carinho – e o serviço da Vasp era muito legal.

Mas eu ia ficar mais de quatro semanas viajando, e feitas as contas achei que a ideia de estabelecer Paris como ponto de partida não era ruim. E também economizaria uma bela grana para o jornal, que não precisaria gastar com mais duas passagens de ida e volta e quatro locações de carros – tudo sempre cotado em dólares. Generosíssimo que sempre fui, me dispus a pagar o leasing para a Renault em troca de alguns dias de folga. O cara do caixa da “Folha” adorou. Nem carro precisaria pagar. Quando se fala em cortar custos, as empresas aceitam qualquer coisa.

Nas coberturas em que viajava na terça ou na quarta-feira da semana de uma corrida, o dia da chegada era geralmente dedicado apenas ao deslocamento para o local do GP, a não ser quando algo muito importante acontecesse. Assim, ao desembarcar em Charles de Gaulle e passar na primeira livraria do aeroporto para comprar os jornais locais, vi que não havia nada muito relevante que justificasse mandar alguma matéria para o jornal. Era quarta-feira, dia 21 de agosto. Liguei de um telefone público para a Redação, avisei que passaria o dia na estrada e informei que a Jordan já tinha escolhido o substituto para Gachot para a corrida de Spa. Soletrei mais de uma vez “Michael Schumacher”, expliquei quem era, de onde vinha, que pito tocava e o redator que me atendeu se encarregou de produzir o texto. “Jordan coloca alemão no lugar de Gachot” era o título da matéria publicada na quinta-feira, dia 22. Foi a primeira vez que o nome de Michael Schumacher foi impresso na “Folha”. O texto era assinado “Das agências internacionais” – padrão quando as informações são fornecidas pelos serviços mundiais de notícias.

De fato, Gachot não era exatamente a pauta da imprensa brasileira naquele momento da Fórmula 1, muito menos do noticiário geral, que pegava fogo com a tentativa de golpe na URSS aplicado pelo vice-presidente Gennadi Ianaiev no dia 19. O sabichão aproveitou uma viagem de Mikhail Gorbatchev à Crimeia e afastou o líder da “glasnost” e da “perestroika” do cargo, alegando que ele tinha problemas de saúde. A resistência veio de Boris Ieltsin, presidente da Rússia, a maior república soviética. Ele despachou os golpistas no grito e dois dias depois “Gorba” estava em Moscou reassumindo o comando do império comunista. Em dias como aqueles, quem se importaria com um piloto obscuro detido em Londres?

Na Fórmula 1, o campeonato estava sendo disputado ponto a ponto por Ayrton Senna e Nigel Mansell, depois de um início de temporada arrasador do brasileiro. Nas quatro primeiras corridas, ele fizera a pole e vencera todas – Phoenix, Interlagos, Ímola e Mônaco. Era um massacre de tal monta que, depois da terceira vitória, meti na manchete do caderno Esporte algo como “Senna já não tem adversários na Fórmula 1”. Além da disputa intensa entre o inglês da Williams e o brasileiro da McLaren, era assunto também para nós o futuro de Nelson Piquet. Às turras com Flavio Briatore e com a Benetton, o tricampeão dava sinais de que não ficaria no time no ano seguinte.

Piquet já tinha vencido uma prova naquele ano, em Montreal – sua última vitória na categoria. Foi, simplesmente, a sétima seguida do Brasil naquele período particularmente virtuoso de seus dois maiores pilotos na Fórmula 1. Nelson havia vencido as duas últimas de 1990, em Suzuka e Adelaide. Senna abriu 1991 com mais quatro consecutivas. Piquet levou outra em Montreal. Por isso se discutia tanto o que ele faria em 1992 – não era um qualquer. Especulações apontavam para a Maranello, mas ele tinha chamado o comendador Enzo Ferrari, alguns anos antes, de “gagá”. A imprensa italiana não perdoava essas coisas. A Ligier despontava como destino possível, porque já tinha definido a troca dos pesadões e ineficientes motores Lamborghini pelos fantásticos Renault que dominariam a categoria nos anos seguintes – com títulos em 1992 (Mansell, na Williams), 1993 (Prost, na mesma equipe), 1995 (Schumacher, na Benetton), 1996 (Hill, na Williams) e 1997 (Villeneuve, também pelo time inglês).   

Por esses vários motivos, voltando à vaca fria, ninguém estava muito preocupado com Bertrand Gachot naqueles primeiros dias de cobertura da prova de Spa-Francorchamps, para onde segui a partir de Paris pela autoestrada A4 em direção a Reims, pegando depois a A34 que me conduziria depois à fronteira com a Bélgica pelo sudoeste do país. O destino era Malmedy, pequena cidade onde nos hospedávamos graças a um acordo entre o hotel Val d’Arimont, um conjunto de chalés alpinos numa região belíssima a poucos quilômetros do circuito, e a Philip Morris, dona da marca Marlboro, que repassava os quartos para os jornalistas a preços camaradas.              

Mesmo com a cabeça jornalística concentrada na disputa Senna x Mansell e no futuro de Piquet em agosto de 1991, não pude deixar de notar, quando cheguei a Spa na quinta-feira, o quanto a prisão de Gachot tinha mexido com aquele GP. Embora tivesse nascido em Luxemburgo, Bertrand tinha cidadania belga e disputava o Mundial com a bandeira do país. Por isso, trechos do asfalto da pista amanheceram pichados por torcedores, que clamavam por sua liberdade e chamavam os ingleses de hooligans, que não tinham o direito de encarcerar um pobre belga depois do que haviam feito anos antes em Heysel – a briga generalizada no estádio de Bruxelas na final da Copa dos Campeões de 1985 entre Liverpool e Juventus, cujo placar final apontou 39 torcedores mortos.

Piquet, com Briatore na garupa: liberdade para Gachot (foto: Flavio Gomes)

E não eram só eles, os torcedores, que pediam a soltura do piloto. Pelo paddock, muita gente desfilava com duas versões de camisetas brancas distribuídas por seus amigos. Uma delas dizia simplesmente “Free Gachot”. A outra perguntava: “Gachot why?”. No domingo, quase todos os pilotos usaram as camisetas. Ganhei a minha e me juntei aos protestos, solidário. Mas ficou nisso, porque minhas primeiras matérias enviadas para a Redação nem mencionaram o caso, muito menos dava algum destaque ao já definido substituto do detento na Jordan. Isso porque a grande discussão da véspera da abertura dos trabalhos em Spa era se a McLaren iria, finalmente, estrear seu câmbio semiautomático no carro de Senna, algo que a Williams já usava e lhe conferia grande vantagem de desempenho. O crescimento da equipe rival preocupava demais o brasileiro, que mesmo assim optou pela troca de marchas convencional, na alavanca, com medo de alguma quebra num equipamento pouco testado.

O piloto escolhido dias antes por Eddie Jordan para substituir Gachot, Michael Schumacher, vinha se destacando no Mundial de Marcas pela equipe Sauber-Mercedes, mas não me chamara tanto a atenção no paddock. Do trio que fizera sucesso com os esporte-protótipos do time suíço-alemão, dois subiriram para a Fórmula 1 – Karl Wendlinger e Heinz-Harald Frentzen. Se esses dois eram os mais cotados para correr com motores Mercedes, era lícito depreender que o terceiro não fosse nenhum fenômeno – embora ostentasse o título alemão de F-3 em 1990 e uma vitória na categoria em Macau que vale por um campeonato.

Mas a Mercedes tinha planos ambiciosos para a Fórmula 1, de longo prazo e com passos bem definidos. Eles começaram a ser dados com a Sauber, e logo chegaram aos títulos da McLaren em 1998 e 1999 como fornecedora de motores. No fim, desembocariam na equipe própria formada em 2010 que, a partir de 2014, passou a dominar o Mundial. E esses planos incluíam pilotos jovens a quem a fábrica queria dar experiência, para usar no futuro. Por isso, quando a vaga na Jordan se abriu com a prisão de Gachot e colocaram preço naquele cockpit, os alemães foram até o dirigente irlandês e pagaram o que ele pedia para colocar seu pupilo na corrida: US$ 300 mil. Na terça-feira, Schumacher fez o banco na fábrica da equipe e deu algumas voltas em Silverstone com o carro verde patrocinado pelo refrigerante 7Up. Eddie Jordan lhe perguntou se conhecia Spa, uma pista longa e difícil, e ele mentiu dizendo que sim. Na verdade, só foi ter o primeiro contato com os quase 7 km do circuito na quinta-feira, véspera dos primeiros treinos para o GP. E de bicicleta.

Michael era o único piloto que, compreensivelmente, não vestia a camiseta pedindo a liberdade de Gachot no domingo. Tímido, mas com aquele ar confiante que seria uma de suas marcas registradas, era o tempo todo acompanhado por seu empresário Willi Weber, com quem dividiu o quarto de um hotel ordinário na cidade de Spa. Pela conta de hospedagem a Jordan não se responsabilizava – dava macacão, uniforme e um carro, e nada mais. No primeiro treino oficial (era assim que chamávamos na imprensa brasileira a sessão classificatória de sexta-feira, que valia para a formação do grid), cravou um oitavo lugar.

O dia de atividades em Spa foi o assunto dominante da capa do caderno de Esporte da “Folha” no sábado, 24 de agosto de 1991. A manchete, em duas linhas, dizia: “Contente com o carro, Ayrton Senna pulveriza os Williams na Bélgica”. O brasileiro fizera a pole provisória com 1min49s100, deixando Mansell em terceiro lugar com 1min50s666. Um pouco abaixo do “abre” (a principal matéria de uma página, em jargão jornalístico), um segundo texto informava: “Honda reage e consegue melhorar seu motor Spec 3”. Por fim, no que chamamos “pé” da página, uma terceira retranca trazia o título em duas linhas e três colunas: “Michael Schumacher surpreende no seu primeiro treino na Fórmula 1”. Pela primeira vez, o nome do piloto alemão aparecia inteiro no título de uma reportagem nas páginas da “Folha de S.Paulo”.

O texto contava como ele havia chegado à Jordan, destacava o resultado no primeiro treino classificatório, trazia algumas declarações protocolares, deixava claro que eu tinha ficado impressionado e arriscava: “O garoto de 22 anos, que tem nome de goleiro, mas não é parente de Toni Schumacher – o melhor arqueiro alemão dos anos 80, que abandonou o futebol recentemente –, possui um currículo que o credencia a assumir a condição de melhor piloto germânico dos últimos tempos. A ascensão de Michael é a alegria de Bernie Ecclestone – louco para que a Alemanha produza um ‘top driver’ capaz de popularizar ainda mais a Fórmula 1 no país”.

O desafortunado piloto belga trancafiado na prisão de Brixton seria lembrado novamente por este repórter na edição do domingo, 25. Em texto de quatro colunas com o título “Passeata pede libertação de Gachot”, eu contava que as já famosas camisetas haviam sido distribuídas por uma entidade criada para centralizar as ações ligadas ao movimento que pedia sua soltura. E informava que estava marcada uma caminhada de protesto em Bruxelas para o dia 10 de setembro – da sede da Comunidade Econômica Europeia até o prédio da embaixada da Inglaterra. Muitos pilotos participariam da manifestação. A situação de Gachot era dramática, relatada por carta de próprio punho à Jordan. A sentença proferida dez dias antes pelo juiz Gerald Butler o condenava a 18 meses de cárcere por “posse e uso ilegal de arma”. E fora ele mesmo, Gachot, quem chamara a polícia depois do incidente com o motorista de táxi!

Confinado numa cela de dez metros quadrados, o piloto só podia receber visitas a cada duas semanas, e por apenas 30 minutos. Compadecido por sua condição miserável, Court, o motorista, retirou a queixa após algumas semanas. Dois meses depois da prisão, em 15 de outubro, Bertrand teria sua liberdade concedida pela corte que o condenara. Voltou à Fórmula 1 no final daquela temporada pela Larrousse, por quem correu em 1992. Em 1994 e 1995, disputou o Mundial pela pequenina Pacific.

Senna venceu o GP da Bélgica de 1991, sua sexta vitória no ano, 32ª na carreira e quinta em Spa-Francorchamps. Graças ao abandono de Mansell, que teve um problema elétrico, abriu 22 pontos de distância na classificação, faltando cinco provas para o fim do campeonato. Praticamente garantiu o tricampeonato. Gerhard Berger, seu companheiro na McLaren, ficou em segundo e Piquet, de Benetton, em terceiro. Moreno terminou em quarto. Foi o último dos 60 pódios de Nelson, e o último dos 16 que dividiu com Senna desde o GP da Itália de 1985, quando corria pela Brabham e Ayrton, pela Lotus. Naquela prova, Piquet foi o segundo e Senna, o terceiro.

Quanto ao substituto, de Gachot, bem… Em sétimo no grid, no domingo, o jovem e imberbe Michael Schumacher andou poucos metros e abandonou a prova na primeira volta, com uma quebra de embreagem. Na corrida seguinte, em Monza, já estava de equipe nova, fisgado por Flavio Briatore para correr na Benetton no lugar do demitido Roberto Pupo Moreno. Pela equipe colorida, seria bicampeão em 1994 e 1995. Contratado pela Ferrari em 1996, ganharia mais cinco campeonatos entre 2000 e 2004 e penduraria o capacete pela primeira vez no final de 2006. A gratidão à Mercedes permaneceu adormecida até 2010, quando foi chamado de volta da aposentadoria para um contrato de três anos, período no qual ajudou a montar a estrutura vencedora que explodiria em vitórias e títulos nas temporadas seguintes.

Gachot se aposentou das pistas em 1997. Virou empresário e criou uma marca de bebidas energéticas muito bem-sucedida, a Hype. A camiseta que eu tinha, branca com letras pretas pedindo sua liberdade, essa não sei onde foi parar.

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