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sexta-feira, 25 de abril de 2014 - 18:18Gira mondo

25 DE ABRIL LÁ E CÁ

SÃO PAULO (linda) – Meia-noite e vinte, e a rádio católica Renascença toca a senha. A segunda, na verdade. Pouco antes das onze da noite, em outra emissora lisboeta, a primeira senha, também musical, foi ao ar. Uma, no dia 24. A outra, nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974, 40 anos atrás.

E assim um golpe militar destituía do governo o sucessor de António Salazar, que morrera quatro anos antes depois de tomar um tombo de uma cadeira. Salazar instituíra uma ditadura ultraconservadora, o Estado Novo, em 1933 — quando se tornou presidente do Conselho de Ministros de Portugal. Ficou no poder até 1968, quando caiu da cadeira. Bateu a cabeça, sofreu lesões cerebrais e ficou tchola. Marcello Caetano assumiu, mas Salazar, até a morte, achou que era ele que mandava, ainda. Nunca lhe contaram a verdade.

De 1933 a 1968, foram 35 anos no poder. Até 1974, 41 anos de ditadura salazarista num país tristonho e cinzento, incapaz de reagir à violência da PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, que prendia e soltava, batia e matava, censurava e oprimia qualquer sinal de oposição. Era ela que sustentava, na porrada, o fascismo de Salazar. Portugal demorou para reagir.

E só o fez porque os militares já não aguentavam mais as guerras de independência na África, que deslocaram mais de 1% da população do país para colônias como Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Eram 100 mil soldados e oficiais tentando evitar o inevitável, naqueles anos em que vários países europeus se viam às voltas com movimentos revoltosos em suas colônias. Comparando, é como se hoje o Brasil mantivesse um exército de dois milhões de soldados lutando em países distantes. Economia de país algum sobreviveria a isso. Menos ainda se fosse este um país pequeno e pobre, como Portugal.

A ditadura militar brasileira foi derrubada por civis, embora nenhuma revolução tenha acontecido por aqui. Lá, os militares derrubaram o ditador civil. E, depois, aos trancos e barrancos, instalaram uma democracia que se encarregou de colocar as coisas nos seus devidos lugares. A Revolução dos Cravos foi detonada por duas canções, “E depois do adeus”, na noite do dia 24, e “Grândola, Vila Morena”, à 0h20 do dia 25.

É pueril, mas foi assim. Quando a primeira música tocasse pelos Emissores Associados de Lisboa, as tropas deveriam tomar posição; na hora em “Grândola” fosse executada no programa “Limite”, da Renascença, a ordem era tomar o poder. O golpe foi organizado pelo MFA, o Movimento das Forças Armadas, que não disparou um tiro sequer. A população distribuiu cravos vermelhos para os soldados, que colocaram as flores nos canos de seus fuzis.

Nada pode ser mais bonito e poético.

Aqui, dez anos depois, em 25 de abril de 1984, a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso cercado pelos militares porque os deputados covardes da velha Arena, então PDS, ou votaram contra, ou não foram votar. As Diretas-Já não passaram e Tancredo Neves só seria eleito indiretamente pelo mesmo Congresso no ano seguinte. Há quem diga que o matreiro político mineiro até achou melhor que fosse assim. Seria mais fácil ganhar do candidato da situação, Paulo Maluf. Os militares já estavam mesmo tirando o time de campo, a ditadura tinha caído de podre. Tivemos de esperar até 1989 para votar para presidente de novo, 28 anos depois da última eleição direta no país, que colocou o doido Jânio Quadros no Planalto. O resto, como se diz, é história.

“Grândola, Vila Morena” virou um hino à liberdade. Tivemos os nossos, também — “O bêbado e o equilibrista” é o que me ocorre agora. Mas não sei se eles falam tanto ao coração dos brasileiros quanto toca o coração lusitano a canção de Zeca Afonso, que naquela madrugada do dia 25 de abril de 1974 fez Portugal sair das sombras.

49 comentários

  1. gustavo giroti disse:

    olá, uma pequena correção: a eleição do janio foi em 1960 (assumiu em 1961 e em setembro do mm ano renunciou) e a eleição pós-ditadura foi em 1989, portanto 29 anos (e não 28)….

    sim, tancredo achou melhor no colegio eleitoral do que diretas, pois a direita tinha o populista maluf, mas a esquerda tinha o brizola (assustava mais os moderados do pmdb do que o lula) devido a sua arrancada ao ganhar as eleições de 1982 no rio de janeiro (começara com 7% e ganhara com mais de 35%).

    Com a queda da emenda dante de oliveira, o PMDB viu que sozinho e com os aliados á esquerda não conseguiria sequer ganhar no colegio eleitoral (não sabiam, mas ganhou até com facilidade 400 x 180) mas na derrota da emenda assustou, e precisariam dos votos dos dissidentes/oportunistas do recem fundando PFL, mas esses exigiam o vice e um candidato moderado (portanto até ulisses guimarães era intragável para esses dissidentes)

  2. Luis Felipe disse:

    Bem, assim como é moda no Brasil falar mal dos militares ( sim, sim, eu sei que houve torturas, OBAN e o diabo a quatro por aqui ) devido aos 21 anos de regime militar, em Portugal adora-se falar mal do professor e ex-seminarista António de Oliveira Salazar, porque foi um, como é mesmo?, ditador-sanguinário-tirano-homicida-comedor-de-criancinhas-e-pasteis-de-belem-com-vinho-do-porto. Acontece que no Estado Novo do recluso Salazar Portugal foi saneado economicamente ( basta consultarem as estatísticas a respeito ), afastou e puniu corruptos e corruptores, investiu em infraestrutura, gerou emprego e renda aos portugueses, minguada esta última, é verdade, mas gerou. Acho muito contraditório, para não dizer outra coisa, que durante 40 anos de ditadura em Portugal o Exército lusitano não tenha torturado e matado ninguém. Nem uma viv’alma. Apenas a famigerada PIDE. É óbvio que os milicos portugueses fizeram estas coisas sim JUNTO com a PIDE, mas como o MFA viu a maçã podre do regime de Marcello Caetano prestes a cair do pomar resolveram tomar a iniciativa de “derrubar o fascismo e instaurar a democracia em Portugal”. Cascata. Mentira. Falácia. Só o fizeram por puro oportunismo e como uma maneira de limpar a barra da instituição junto ao povo. Sobrou a PIDE como bode expiatório óbvio de todos os males de Portugal desde a dinastia Avis. Os milicos no Brasil fizeram muitas coisas boas, mas ficaram tempo demais no poder, a metade do que Salazar ficou em Portugal, e… sim, sim, cometeram torturas e abusos contra muita gente inocente. Se tivessem punido a “tigrada dos quartéis” com rigor, como foi feito no caso Herzog pelo presidente Geisel, os militares gozariam de melhor reputação junto à História e ao próprio povo brasileiro.

  3. Paulo disse:

    Na sexta dia 25 houve no auditório do Ibirapuera um evento comemorativo pelos 40 anos da revolução dos cravos, foi organizado pela prefeitura, cantaram o fadista Carlos do Carmo, a fadista Carminho ficou adoentada e não pode cantar (fui num show dela uns 3 meses atrás e foi fantástico) e Ivan Lins. Um evento simples mas de grande significado.
    O auditório estava lotado, o que me alegrou.

    Abraços

  4. LUIS DIOGO disse:

    Obrigado irmão Flávio.
    Nem há assim tanto mar a separar-nos, como cantou o grande Chico Buarque.
    Um cravo para aí.
    Vicejante!

  5. John Barnard disse:

    Nada pode ser mais bonito e poético. Falou e disse.

    Sintomático ver como a efeméride não foi lembrada pela mídia mainstream. Ou foi? Não sei, não a leio mais.

    • Luiz disse:

      Eu ainda leio alguma coisa, não vi nada, nem na grande mídia, nem na independente, nem na chapa-branca, nem nos blogs, enfim, é claro que não é possível (nem desejável) ler tudo que se publica. Só vi aqui, num espaço automobilístico!

  6. Joel LIma disse:

    No caso da ditadura brasileira, o triste é saber que ela saiu do poder quando quis. Lógico que havia o setor mais organizado da sociedade que desde os anos 70 – desde o dia do enterro do Herzog, em SP – já demonstrava sua insatisfação com a ditadura e manifestava, dentro do permitido, o desejo da volta à democracia. Mas a ditadura planejou sua saída. E saíram na hora em que, devido à sua incapacidade administrativa, já tinham estourado economicamente o país e deixaram a conta pros civis. E ainda nem sequer temos o direito de saber quem foram os torturadores que agiam em nome do estado.

  7. Fernando Guzzo disse:

    Por aqui também tivemos a música ” Para Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré. Por essa música e suas convicções ele apanhou pra cachorro…

  8. carlos lima disse:

    Excelente post. Bravo!

  9. Pedro Araújo disse:

    Gomes, essa música tem algumas versões de boas bandas nacionais:

    Autoramas, uma excelente banda independente:

    http://www.youtube.com/watch?v=zvRwr1gMBb0

    365, uma antiga banda Punk de SP:

    http://www.youtube.com/watch?v=nDoNSXa0kSg
    http://www.youtube.com/watch?v=jLBEbipO3II

    Quanto a “músicas tema” da época do fim da nossa ditadura, tem a “Inútil” do Ultraje a Rigor, que até o Ulysses Guimarães chegou a citar na época, mas que acabou perdendo o lugar pra “Coração de Estudante” como a trilha sonora “oficial”. Mas dizem que o que mais tocava mesmo nos comícios era “Inútil”…

    A ironia da coisa é a postura direitista que o Roger assumiu atualmente…

  10. G. B. disse:

    Um dos poucos momentos históricos que me entusiasmam. O fato da votação da emenda das Diretas ter sido exatamente dez anos depois parece uma triste coincidência histórica.
    Ainda hoje não consigo compreender o que conduziu parte razoável do oficialato das forças armadas portuguesas a posições revolucionárias, como se percebeu nos meses seguintes ao 25 de abril de 1974. Acostumamo-nos a pensar nessa instituição como o baluarte do conservadorismo, mas nesse caso se mostrou como a vanguarda do progresso.

  11. Nuno Kopio disse:

    Um dos melhores textos que li acerca daquela que é sem duvida uma das datas mais importantes da história de Portugal, e uma chamada de atenção ao mundo. Para min como português e sabendo o que os meus pais, avós e muitos conhecidos passaram é uma data que me enche de orgulho e esperança, infelizmente a nova geração toma tudo por certo e esquece o que se sofreu para alcançar a liberdade de hoje nem que seja pra dizes besteira na internet. Obrigado Flávio e como está a nossa Lusa????

  12. Bem lembrado. Amo essa música, sobretudo na versão brasileira Herbert Richers, do 365.

  13. Juliana Heller disse:

    Arena, que virou PDS, mudou para PPB, agora é PP, hoje apoiando…

    • Flavio Gomes disse:

      Toleman, que virou Benetton, que virou Renault, que virou Lotus… Tyrrell, que virou BAR, que virou Honda, que virou Brawn, que virou Mercedes… São a mesma coisa?

      • Juliana Heller disse:

        A Tolemn não é mais do Ted Toleman, o Senna não pilota mais lá. O Ken Tyrrel não manda na Mercedes e quem dirige é carro é o Hamilton, não o Katayama.

        Já o Sr. Paulo Salim Maluf, Severino Cavalcanti, Pratini de Moraes e outros continuam no PP, apoiando…

      • Flavio Gomes disse:

        Essa política da “governabilidade” não foi inventada pelo PT.

      • perna quebrada disse:

        Juliana, F-1 foi dos 1.6 aos V12 há mais ou menos 25 anos atrás.

        Nem os 1.6 de hoje e os V12 do futuro serão os mesmos.

        Nem a política brasileira, vocês querendo ou não.

      • Paulo Pinto disse:

        Para não dizer que não falei de carros…

      • Luiz disse:

        O respeitável dono do espaço é quem decide que assunto deve ser postado aqui. Por ser jornalista e escrever muito bem talvez o blogueiro devesse postar a frase completa: Essa política da “governabilidade” não foi inventada pelo PT, o PT apenas prometeu acabar com ela, e mudar “tudo isso que está aí”.

        Este sempre foi o discurso do PT, desde o começo, assim ele cresceu e chegou onde chegou. Ao se locupletar com a forma de fazer política que prometeu combater, e até implementá-la, e também porque com todo o poder que tem não mudou uma vírgula sequer em relação a isso, demonstra ser feito da mesma matéria que “os que inventaram esta política da governabilidade”, decepcionando muito gente, eu inclusive. Prefiro automobilismo.

      • Leon Neto disse:

        Corrupcao tambem nao.

      • Pedro Araújo disse:

        ah, sim, como PDS que teve uma dissidência, que virou PFL, que hoje é DEM, que apoiou o PSDB na gestão FHC.

      • Mario disse:

        Foi o pt q vendeu a imgem de ser um partido q nao faria conchavps para governar seu trouxa… Papinho de idiota ficar justificando seus banditismos quetendo apontar o dedo para os outros… Bando de vendidos. Asduma a cagada e pronto.

      • marcelo cunha - rib preto/sp disse:

        boa Mário

      • Fabiano disse:

        Bem lembrado, Pedro.

      • Edu disse:

        E é bom que eles continuem apoiando. Quem sabe assim eles não aprendem alguma coisa sobre como governar para o povo, e não para as elites. Já a dissidência do PMDB que virou PSDB, com FHC, José Serra, Geraldo Alckmim, José Aníbal, Mendonção e outros próceres do metrô de SP, Banestado, Proer, Marka e Fonte Cindam, e hoje tem o quarto senador do Rio (ah, é sim) como candidato; bem como o ex-ministro do PSB (Edward Fields, como é conhecido em uóxinton), que virou governador governista, hoje candidato oposicionista junto com a ex-ministra, que queria virar REDE, e têm o apoio do Jorge Bornhausen, que era da Arena, foi pro PDS e hoje é do DEM, e do Roberto Freire, que foi do PCB e virou PPS…

    • Fábio Peres disse:

      Juliana, transformar nossa ditadura numa democracia foi um ato de coragem até dos que hoje xingamos: se não fosse o Tancredo ir até às últimas com um câncer lhe corroendo o estômago e o Ulysses mandar o Sarney assumir o poder a ferro e fogo (“eles não entregarão o poder para mim”) teríamos mais uns 25 anos de militares brincando de transformar o país em Cingapura e criar um povo perfeito para um país que não existia.

      Se você não acredita nisso, problema seu. Só sei, como diria Chicó, que é assim.

  14. Diego disse:

    Estou em Portugal a trabalho e participei do Desfile de hoje. Foi uma experiência única e incrível. Uma das mais bacanas que já vivi…#25deAbrilSempre #FascismoNuncaMais

  15. Rodrigo Moraes disse:

    Legal! Eu pesquisei essa história nos anos 80, quando ouvi pela primeira vez essa música na versão do 365 e fiquei curioso pra saber do que se tratava.

    A versão: http://youtu.be/nDoNSXa0kSg

  16. perna quebrada disse:

    A internet até que serve pra alguma coisa.
    Joan Baez cantando Grandola, Vila Morena

    http://www.youtube.com/watch?v=o_bYb-Mces4

  17. Eduardo Britto disse:

    Recomendo a leitura do romance Rio das Flores, do português Miguel Souza Tavares. Muito bem escrito, uma história daquelas que prendem. Revela o estado de espírito cinzento, taciturno, da sociedade portuguesa sob o regime salazarista.

  18. Silvio Gouveia disse:

    Pois é Flávio…e 40 anos depois aqui no Brasil que fala português, mas cuja elite judicial-futebolistico-financeira arrota arrogância, a Portuguesa é jogada na fogueira e NENHUMA voz se ergue para falar de injustiça ou de indignidade…Eu espero a volta da maré quando a seleção da CBF (não, não é Brasil e não me representa) for derrotada pelos hermanos!!!
    Abraço.

  19. Diogo Magalhães disse:

    Apesar de ter apenas 22 anos, como bom Português ainda me emociono com “Grândola” simplesmente o 2º Hino Português

    Parabéns por lembrar dessa data!

  20. Pelicioni disse:

    Ai sim…. menos conversinha e mais historia.

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