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segunda-feira, 19 de abril de 2010 - 17:26Diários de viagem

DIÁRIOS, AUSTRÁLIA

SÃO PAULO (hoje, intermitente) – Vamos lá, a tchurma gosta de uns textos enormes, então vamos zerar o calendário. Já publiquei meus Diários de Viagem da China e do Bahrein, agora vai o texto escrito em março de 2004, quando da abertura do Mundial daquela temporada, em Melbourne. Texto revisado segundo as novas normas ortográficas. Argh.

Se estiver enchendo o saco, avisem que eu paro.

NÃO GOSTO DE QUIABO

Passei cinco dias na Austrália escutando uma rádio de viado. Só tocava “It’s raining man” e “I will survive”. O rádio do carro não pegava nenhuma outra estação. Era o dia inteiro essa bichice, com Boy George e Seal gemendo e um locutor viado cochichando e sussurrando e resolvendo os problemas dos amigos viados dele. Eu não gosto de aparelhos de rádio digitais. Nunca sei quando devo apertar “seek” ou “scan” para mudar de estação. Quando para numa que quero, não sei a qual botão recorrer para lá ficar. Os números ficam girando, e voltam sempre à rádio dos viados. Prefiro o dial com ponteiro, AM, FM e OC.

Aqui vale uma observação sobre viados. A palavra não existe. O certo é veado, com “e”, encontrável em qualquer bom dicionário tendo como alguns de seus significados “pederasta” e “homossexual”. Pois bem. Mas veado é um animal. Ninguém chama o outro de “veado”. “Seu veado!”. Não, usa-se “viado”, com “i”. “Juiz viado!”, grita-se nos estádios. “Deixa de viadagem!”, diz-se, aos amigos. Não se fala “deixa de veadagem”, acentuando a sonoridade do “e”. Prefiro viado. Para mim, viado é viado, veado é veado, e não se fala mais nisso.

Não foi uma jornada totalmente desprovida de infortúnios, esta à Oceania. A rádio dos boiolas foi o menor deles e em um certo ponto passei até a simpatizar com os perobos e suas crises existenciais. Aconteceu coisa muito pior. Perdi a carteira, mas achei, sem o dinheiro, e também um pé de tênis. Lamentei mais o dinheiro que o tênis, mas é claro que o desaparecimento do segundo foi bem mais intrigante. Como pode sumir um pé de tênis? Um só, de dentro do quarto do hotel? O que fazer com o pé que sobrou? É objeto de explícita inutilidade, não se pode sequer doar, a não ser que seja a um perneta, e imagino poucas coisas mais mórbidas do que guardar um pé de tênis para dar a um perneta. Corre-se ainda o risco de ser o pé, este que sobrou, o errado, e o perneta ficar puto. Deixei em Melbourne, junto com o mistério que envolveu o desaparecimento de seu par. Meu companheiro de quarto, provavelmente, foi o responsável pelo sumiço do pé faltante. No dia em que chegamos, num acesso de raiva, sem motivo aparente, uma viadagem qualquer, atirou-o ao banheiro. Lá ficou porque eu já estava dormindo, ou me preparando para deitar, e a única explicação plausível é que tenha sido levado pela camareira na manhã seguinte. Por engano, sem atinar para o que estava fazendo, ou por ser perneta, talvez, ou por conhecer algum perneta precisado. Que faça bom proveito e tenha longa vida, meu tênis.

Fazia tempo que não viajava e como sempre esqueci de colocar algumas coisas na bagagem, embora não tenha olvidado do essencial, como a pasta de dentes. Nunca tinha reparado com a devida e merecida atenção no tubo de pasta de dentes que tenho usado com mais frequência. Ele é trilíngue. Feito no Brasil, mas ao que parece vendido a vários países de língua espanhola e inglesa. Creme dental globalizado, Close Up Eucalyptus Mint Septibucal Max Protection. E em caso de necessidade, informa-me o espantoso tubo, há telefones de atendimento ao cliente em Honduras, Guatemala, El Salvador, Venezuela, Colômbia, Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile, Panamá, Nicarágua, Costa Rica, Trinidad Tobago e Equador. Saber que se um dia estiver em Trinidad Tobago e meu tubo apresentar algum defeito há um telefone para saná-lo é uma das grandes vantagens da globalização, quanto a isso não resta a menor dúvida.

Sem dinheiro, pois que o meu foi tungado da carteira, comi mal na Austrália. Um dia fui ao restaurante grego na esquina do hotel e experimentei um tal de suvacki, não tenho a menor ideia se a grafia é essa, um monte de carne cheia de gordura dentro de um pão sírio com salada, tomate e molho. É sobejamente difícil comer um negócio desses sem que o conteúdo despenque pela parte inferior do guardanapo que o envolve, emporcalhando tudo. Foi uma das coisas mais nojentas de que já tomei parte, o ato de comer o “suvaco”. Caiu tudo no balcão, voltado para a rua, com janela, as pessoas passando e testemunhando aquela briga insana entre minhas mãos e o “suvaco”, espirrando molho no vidro, uma meleca formidável. Na manhã seguinte saí para correr e passei pelo restaurante grego e as marcas da batalha estavam ainda lá, no vidro. A vigilância sanitária deveria fechar aquela chafurda.

Li três livros, dois muito bons, o outro uma porcaria que não merece sequer menção. O que não falta é tempo para ler quando se vai à Austrália. O primeiro deles foi escrito por um ex-chefe que resolveu pular de paraquedas, tomar Santo Daime, andar de submarino, fazer o caminho de Santiago de Compostela, trabalhar no teatro, cair na putaria e ao fim de tudo pensou em se matar. Li enternecido. É um belo livro de um cara com quem trabalhei oito anos e de quem todos tínhamos medo, por se tratar de uma quase esfinge. Mas não, é um cara cheio de dúvidas e problemas como qualquer um de nós, me surpreende e aborrece saber que por oito anos trabalhamos juntos e nunca dividimos nossas dúvidas e problemas, só porque eu o achava um doido de pedra, e nunca imaginei que ele seria capaz de ficar devastado por um caso amoroso que não deu certo, assim o confessa no livro, como é que algo de tal envergadura acontece a alguém tão próximo e não fazemos nada, não ficamos sabendo? As pessoas passam por nossas vidas e não nos damos conta. Cada um com seus problemas, e queremos é distância deles. Um equívoco.

O outro livro é de um tal de Fernando Jorge, sujeito muito louco, escrito lá pelos anos sessenta. Vocabulário riquíssimo e divertido, uma sátira dos políticos brasileiros que deve ter deixado neguinho muito irritado, na época. Não sei se o autor ainda é vivo. Um cabra que valeria a pena conhecer. Digo “um tal de” correndo o risco de ser chamado de ignorante, o que sou, mesmo. É que não o conhecia, portanto, muito prazer.

Além dos meus livros, que levei daqui, não trouxe nada da Austrália, fiquei sem dinheiro, já disse. No aeroporto havia pequenas pinturas feitas em ossos de canguru e bumerangues, cheguei a flertar com os curiosos objetos. Mas era tudo muito caro, e também não saberia o que fazer com um bumerangue, acho uma das maiores mentiras do mundo esse negócio de jogar um bumerangue para o alto e ele voltar para suas mãos, é uma mentira só não mais mentirosa do que as habilidades descritas dos pombos-correio. A única coisa que queria comprar, mesmo, era pneu pretinho em spray, acho que não preciso explicar o que é pneu pretinho, e reputo os australianos como os melhores de todos, só que não encontrei da marca que desejava, e é um pecado ir até a Austrália e não comprar pneu pretinho. Lamentável, essa viagem.

Registre-se, porém, que nem tudo foram agruras. Vi pelo menos quatro Variant e um Karmann-Ghia na rua, na Austrália, já contei isso uma vez, a garotada gosta de carros antigos e anda com eles, só não tirei fotos. E voltei com uma idéia interessante, contrabandear sandálias Havaianas para lá, eles vendem por dezenove dólares e noventa e cinco centavos, dá quase sessenta mangos, e aqui a gente compra por cinco, dez, se for daquelas mais chiques e coloridas. É uma boa perspectiva de negócios, embora eu deteste chinelos e tenha ganas de espancar quem anda de chinelos por aí, até em aviões. Nada pode ser mais deprimente do que entrar num avião de chinelos com as unhas expostas à visitação pública.

Não gosto também de mochileiros que vestem roupas cáqui cheias de bolsos e sandálias alemãs de sola grossa, e que andam erguendo o dedão a cada passo como se fossem antenas de um inseto a verificar o terreno à frente, e também não gosto de quiabo.

52 comentários

  1. Tarso disse:

    kkkkk
    Impagáveis esses diários!

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