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quinta-feira, 8 de julho de 2010 - 19:18Diários de viagem

7 DO 7 DE 2005

SÃO PAULO (é…) – Putz, cinco anos, já. Só descobri isso ao ler o blog do Fábio Seixas, que está fazendo a viagem mais louca que qualquer ser humano já realizou. Cinco anos do atentado de Londres. Estávamos lá. Foi o último “Diário de Viagem” que escrevi.

Bom, se interessar a alguém, e como foi às vésperas de um GP da Inglaterra, lá vai a bobagem que escrevi. Essa não está no livro, que a Alessandra Alves continua vendendo alegremente pelo [email protected].

LONDRES, 2005

Desembarquei em Heathrow às 10h. No caminho para pegar as malas, vi ao longe, no andar de baixo, a imagem na TV e a legenda enorme, letras brancas sob fundo vermelho. Breaking news. Ônibus explode no centro de Londres. Peguei a mala, entrei no ônibus que me levaria à locadora de carros, um sujeito recebe uma ligação no celular, fala alguns palavrões, desliga, vira-se para mim e diz: “Estão explodindo tudo, já morreram quatro”.

Bem, vida de repórter é isso aí. Enquanto pego o carro e assino a papelada, chega meu colega da “Folha”. Nem tem muito o que discutir. Silverstone saberá esperar. Vamos a Londres.

Foram quatro explosões, entre 8h51 e 9h47. As três primeiras em trens do metrô; a última, num ônibus de dois andares. Londres acordou cheirando fumaça, sangue e carne queimada. Morreram 37 pessoas e mais de 700 ficaram feridas. Os alvos estavam todos na região central da cidade. A primeira bomba foi detonada entre as estações de Aldgate e Liverpool Street. A segunda, na linha Piccadilly, a mais movimentada de todas, entre King’s Cross e Russell Square. A terceira, na estação de Edgware Road. O “gran finale” ficou para um “double decker” vermelho, um dos símbolos da capital britânica. Na altura de Tavistock Square, o teto do ônibus foi pelos ares e ele se abriu como uma lata de sardinhas.

Imediatamente, o centro de Londres foi evacuado e fechado pela Polícia Metropolitana e pelos serviços de emergência, que desde 2001 fazem exercícios simulados para atender a catástrofes como as de ontem. A cidade estava sob ataque. O metrô foi paralisado, os ônibus deixaram de circular, as ruas foram bloqueadas, as linhas de trem foram interrompidas e o atendimento aos feridos em hospitais da região foi considerado “rápido e exemplar” pelas autoridades locais, que pediam, pelo rádio, que ninguém viesse a Londres. Aos que se encontravam no centro, o pedido era para que ficassem quietinhos e não fossem a lugar algum. No panic, please.

Da Escócia, onde participava da abertura da cúpula do G8, o primeiro-ministro Tony Blair mandou avisar que seu país não iria se dobrar a ameaças terroristas, “bárbaras e cruéis”. Já ouvi esse papo antes. Pegou um helicóptero e logo depois do almoço estava em Downing Street, 10, a sede do governo britânico. Quase ao mesmo tempo, num site da internet, um grupo autodenominado Organização Secreta Al Qaeda na Europa assumia os atentados. Terrorismo globalizado é isso aí. A Al Qaeda tem filiais no Ocidente.

Esperava-se o caos, mas ele não veio. Na periferia da cidade, a vida seguia normalmente. Comércio funcionando, crianças nas escolas, gente trabalhando, serviços funcionando, trânsito ruim, mas não muito pior do que de costume. A tomada da região central pela polícia foi ordenada e, dentro do possível, tranquila. Os locais das explosões foram cercados com fitas e policiais se encarregavam de dar informações, educadamente, aos pedestres. Vai por aqui, entra ali, segue em frente, dobra à direita, sir.

Foram sete mortos na primeira explosão, 21 na segunda, sete na terceira e dois no ônibus. Aliás, acredita-se que um deles tenha sido um homem-bomba, marca registrada do terrorismo islâmico. Homem-bomba e burro, já que o ônibus tinha pouquíssimos passageiros e explodiu bem em frente ao prédio da Associação Médica Britânica. O que não faltou, claro, foi gente preparada para atender às vítimas.

Sem poder usar o “tube”, que é como os londrinos chamam seu metrô, saiu todo mundo andando. O centro da cidade foi ocupado por gente de terno e gravata e mulheres bem vestidas que resolveram voltar para casa a pé, ou usando o serviço de barcos do Tâmisa. No rosto de cada um, não se viam traços de terror, como em Nova York, quatro anos atrás. Ao contrário. No caminho para casa, há pubs aos montes. O dia estava agradável, o sol saiu de tarde, depois de uma chuva fraca e gelada, e muita gente parou para seguir a crise pela TV tomando cerveja.

Consumiu-se muita cerveja e amendoim na tarde dos atentados de Londres. Ninguém chorava ou demonstrava desespero. Executivos de vários escalões e pessoal do mercado financeiro anteciparam o happy hour batendo papo animadamente, com seus “pints” nas mãos, a poucos metros das estações de metrô estouradas por terroristas barbudos algumas hora antes. “Não há o que fazer, é como uma loteria, você tem uma chance em um milhão de ganhar. No caso de atentados como esses, tem uma chance em um milhão de estar perto de uma bomba. É tudo uma questão de sorte”, filosofou Terry Buckman, que trabalha perto de Aldgate.

“Alegre-se nação islâmica. Os heróicos mujahidin empreenderam um ataque sagrado a Londres e agora a cidade queima em medo e terror, de norte a sul, de leste a oeste”, dizia o comunicado da Jihad européia na internet. Na verdade, indiferente ao drama de quem estava entubado na hora das explosões, a cidade estava mesmo era enchendo a cara. De noite, a BBC mostrou um documentário sobre elefantes na TV. Se a Al Qaeda quis apavorar alguém nesta quinta-feira, 7 de julho, fracassou.

8 comentários

  1. lorente disse:

    Mr Gomes,,,,e a vida apos o atentado com fatalidades,,,continua a mesma de sempre,,,,,o que acontece ontem se torna passado,,,,e aqui ninguem tem tempo p relembrar o passado,,,e incrivel,,,,os dias, as semanas,, os meses,,,os anos,,,passam demasiadamente rapidos,,,,nao da tempo nem de lembar o que teve p comer no almoco,,,,,dela p ca,,mesmo,,,,apesar dos blas blas politicos ,,,a vida continua a mesma,,,,,,pegamos o metro,,,o red bus,,,,e andamos pela cidade sem medo,,,apesar de serem humanos aqui,,,,os sentimentos afetam apenas superficialmente..london.,…london

  2. Mentes pequenas e burras que matam em nome de Deus. Mas, antes disso, são incapazes de compreender que cada um é responsável por sua tragédia, não seu vizinho, Buda, Alá, Cristo, Geová, nem mesmo o grande ou o pequeno Satã. Que os homens aprendam a cuidar das crianças, ensinando-as a amar e respeitar, não porque Deus mandou, mas apenas porque é o certo e pode nos trazer felicidade.

  3. JOSE RENATO disse:

    E o Ringo Starr, daquela banda que esqueci o nome, nasceu em 7/7 há 70 anos atrás….. Grande baterista e pessoa!!!! Peace and love…..

  4. Jose San Pedro disse:

    Muito boa essa cronica, show de bola!!!

  5. ¿? disse:

    Epic fail dos terroristas (em conseguir aterrorizar), hein??

    Hehehe

  6. Emerson Pippi disse:

    Também estava em Londres nesse dia. Acordei às 10 da manhã. O celular estava sem sinal.
    Peguei um ônibus normalmente e quando entrei em uma Lan House o proprietário somali disse que estava “off”. Quando perguntei o motivo ele me disse: “- Você não sabe o que está acontecendo?”. Somente assim fique sabendo dos atentados.
    A família no Brasil estava desesperada tentando telefonar, mas a vida em Londres seguia normalmente.

  7. Maran disse:

    Graças a esse espiríto que os britânicos não sucumbiram frente à mão pesada da Alemanha nazi.

  8. Vanessa Prates disse:

    Adoro seu ‘Diário de Viagem’…’Bob e os preletores’ é o meu texto favorito!

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