MENU

segunda-feira, 15 de abril de 2013 - 14:29F-1

PINGOS NOS IS

inter40

SÃO PAULO (chega de tontería) – Vamos colocar os pingos nos is de Interlagos. O jornal “O Estado de S.Paulo” publica hoje entrevista com Bernie Ecclestone que começa assim:

São Paulo está fora do calendário da Fórmula 1 em 2014. E dependendo da evolução dos fatos até mesmo o GP do Brasil. É o que afirmou Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, ao Estado, ontem em Xangai, em entrevista exclusiva. “As promessas de reforma de Interlagos não foram cumpridas. Agora chega. Não fosse a relação antiga e os sentimentos que me ligam ao Brasil a Fórmula 1 já não estava mais lá.”

Assina a matéria o correspondente do vetusto diário, Livio Oricchio.

A primeira frase é mentirosa. São Paulo não está fora do calendário. São Paulo tem um contrato com a FOM até 2014 inclusive. A corrida será disputada neste ano e no ano que vem. E neste mês, no máximo em maio, as partes interessadas se sentam para discutir um novo contrato de mais cinco anos.

Mais da matéria:

A equipe do ex-prefeito Gilberto Kassab realizou um projeto, definido junto com integrantes da FIA, para reestruturar o autódromo, com a criação de nova área de boxes, salas, banheiros e paddock no início da Reta Oposta. Tudo segue o padrão de exigência da entidade. E incluiu o valor da obra no orçamento da Prefeitura deste ano, estimado em R$ 120 milhões.

O atual prefeito, Fernando Haddad, contudo, não iniciou os trabalhos. “Este ano não espero mudanças. Mas se o autódromo não estiver na condição que a Fórmula 1 necessita em 2014 não iremos a São Paulo”, garante Ecclestone.

É mentira. O prefeito anterior, Kassab, não incluiu o dinheiro no orçamento da Prefeitura para 2013. Pode até ter dito que iria incluir, mas não incluiu. Por isso os trabalhos não podem começar. E o atual prefeito, Haddad, está estudando como e se vai fazer essa reforma no ano que vem. Para, quem sabe, estar pronta em 2015.

Eu, pessoalmente, sou contra a Prefeitura fazer um paddock novo que só servirá para a F-1. Quando alguém vai rezar uma missa ou fazer um show em Interlagos, se encarrega de montar o altar e o palco. Se a F-1 acha os boxes de Interlagos feios e cafonas, que faça outro por sua conta. A estrutura serve perfeitamente ao automobilismo nacional e internacional. Não fosse assim, a F-1 não correria lá desde 1990.

OK, os autódromos mais novos são lindos e exuberantes. Mas e daí? Desde quando lindeza e exuberância, luxo e extravagância, sofisticação e frescura devem ser padrão para o planeta inteiro?

O GP do Brasil pertence à TV Globo, que comprou a International Promotions, empresa que organizava a corrida. Assim, a Globo que construa seus boxes novos, e que cuide deles. Há outras prioridades na cidade para os estimados 120 milhões da reforma orçada por Kassab e, repito, não incluída no orçamento de São Paulo para 2013. Eu prefiro que esse dinheiro seja usado, por exemplo, em uniformes escolares. Ou em corredores de ônibus. Ou em urbanização de favelas.

Agora, uma espetada sem meias-palavras no autor da reportagem do “Estado”, o jornalista Livio Oricchio. Conheço-o muito bem e o que vou escrever não tem nenhum caráter pessoal. É, mais uma vez, uma reflexão sobre o jornalismo que se pratica hoje no Brasil. Neste caso específico, é ele o personagem, mas poderia ser qualquer outro.

Oricchio cobre F-1 há muito tempo e, como acontece com frequência no futebol, acha que virou um agente atuante no esporte que é pago para cobrir. Acha que pode atuar sobre seu destino. Misturou as coisas. Já ofereceu até “projeto” de mudança do traçado de Interlagos para não sei quem. E há anos, sempre que pode (e quando não deve, como se verá adiante), espezinha Interlagos comparando o autódromo com os demais da F-1. Tudo porque não gosta dos boxes, se sente desconfortável, acha que têm de ser iguais aos que ele conhece em suas viagens, que a F-1 “merece” mais, porque a F-1, oh, a F-1 é demais e não pode ficar apertadinha num autódromo antigo e acanhado como Interlagos.

Exemplo dessa perseguição tola (e inútil, obviamente)? Vejam o primeiro parágrafo da boa reportagem que Oricchio fez sexta-feira com Raikkonen na China (a íntegra está aqui).

Jamais espere ouvir um “boa tarde”, por exemplo, de Kimi Raikkonen, ao se apresentar para a entrevista. Ou um aperto de mão e “até logo” depois de encerrada. O finlandês de 33 anos, campeã do mundo de 2007, pela Ferrari, chegou e saiu quieto de óculos escuros nesse encontro exclusivo com o repórter do Estado, ontem, na área reservada da Lotus no Autódromo Internacional de Xangai, em meio a belíssimos jardins, em completa oposição ao que Interlagos oferece.

O negrito é meu. Faz algum sentido a última frase? Por que colocar uma referência a Interlagos numa entrevista feita com Raikkonen na China? Para “preparar” o leitor para a reportagem da segunda, “tirando” Interlagos do calendário com esse lobby ridículo por novos boxes no autódromo de São Paulo? É como, sei lá, escrever “Bono Vox chegou ontem a Los Angeles e deu entrevista na bela sala de imprensa do aeroporto, em completa oposição ao que Cumbica oferece”.

É tão tosco e infanto-juvenil que me espanto. Claro que um editor minimamente preparado cortaria a última frase, sobre Interlagos, do texto sobre Raikkonen. Mas no jornal em questão, duas a três vezes por ano são demitidos 30, 50 jornalistas. Pode-se imaginar o cuidado com os textos publicados nesse ambiente de permanente tensão e ameaça de perda de emprego. O jornal, como muitos, está virando uma porcaria irreversível e acaba servindo de tribuna para lobbies dos mais distintos, sem o menor controle. É o destino dos impressos: acabarem. Não porque são impressos. Porque são ruins, mesmo. Portais de internet ruins também estão condenados à extinção. Como sempre digo, não é a internet que mata os jornais; é o mau jornalismo.

É tosca e infanto-juvenil essa “estratégia”, porque não é possível que alguém ainda acredite que essa imprensa velhaca e carcomida tem alguma influência na realidade. Ecclestone sempre usou muito essa arma — que, hoje, é apenas um estilingue, no caso do jornal em questão. Usa a mídia como instrumento de pressão para atender seus interesses. “Planta” na imprensa, junto àqueles que lhe são mais permeáveis, as notícias que quer. Uma vez, de brincadeira, inventou um GP em Cuba. Saiu em tudo quanto era jornal e ele morreu de rir.

Há uma chance de o GP do Brasil sair de São Paulo e ir para Santa Catarina? Sim, se fizerem um autódromo lá. Se o povo catarinense aceitar uma despesa da ordem de milhões de dólares para construir um autódromo que será usado duas ou três vezes por ano. Está sobrando dinheiro em Santa Catarina? Não sei, não me diz respeito. Não faço lobby nem a favor, nem contra corrida em lugar algum. Não é esse o papel do jornalista. Se a F-1 deixar Interlagos, paciência. A Prefeitura continuará tendo a obrigação de manter seu autódromo em boas condições para tudo que acontece lá. São Paulo, a cidade, não vai morrer por causa de uma corrida. Qualquer bom show de rock traz mais gente à cidade do que o GP. É uma falácia essa história de que entra uma fortuna nos cofres públicos graças à corrida. É apenas mais um evento, para 50, 60 mil pessoas, que acontece todos os anos. Legal, claro. Eu adoro e me orgulho, como paulistano, de ver a F-1 aqui. Mas não quero pagar a conta para que ela aconteça. Quem ganha com o GP que se encarregue de viabilizar sua permanência.

E, sinceramente, prefiro o calor humano e a bagunça de Interlagos aos jardins de Xangai. Caguei para os jardins de Xangai.

396 comentários

  1. Gustavo Cologni disse:

    Ja havia ouvido falar de vc e pelo pouco que lí desta reportagem vc passou a ser mais um dentre os poucos jornalistas que eu admiro.

    Hoje em dia quem não é PELÊGO com vc bem explicou é o que eu pessoalmente denomino irônicamente de JORNALEIROS.

    Profissionais de inventar notícias pra vender jornal.

    PARABÉNS.

  2. PA disse:

    Sou fã de F1 mas acompanho muito pontualmente desde ’94. O fantástico circuito de Interlagos trocado por Xangai??! Ecclestone brinca com o dinheiro do grande “circo” e esquece rápido um país que o ajudou a conquistar visibilidade. É fácil, assim também ficou o Estoril, onde o tricampeão Ayrton Senna venceu o seu 1º Grande Prémio debaixo de um dilúvio e as razões, argumentos, os mesmos. Contudo, muitas equipas de F1 não dispensam de fazer testes no Estoril e com certeza não será apenas pela meteorologia.
    É estratégico mudar para a Ásia, certamente que sim e compreende-se mas haverá alguém no seu perfeito juízo que “caia” neste tipo de discurso? Respeito irmãos brasileiros sem “papas na língua”. Se o Brasil foi trocado pelo de Xangai o Estoril foi trocado por qual?
    É por “simulações” destas que fui aprendendo que a F1 é viciada em cada jogada e que aqueles que contribuíram para que ela fosse “jogo limpo” estão do lado de fora. Onde há biliões investidos, indústria aeronáutica de topo, tecnologia e eletrónica experimental o restante é prescindível a qualquer momento.

    E o Mónaco? Pode ele ser trocado pelas ruas de uma outra cidade? O Mónaco é inflacionado imobiliariamente pelo negócio das corridas, muito em especial da F1. Se não se correr lá mais um único grande prémio fica conhecido como o Estado dos bilionários e do Jogo de Casino. O que mais lhe resta?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>