20 NOS 20

abre-20-20SÃO PAULO – A equipe do Grande Prêmio e da Revista WARM UP coloca no ar hoje 20 depoimentos de pessoas que estavam em Imola, ou se envolveram de alguma forma com os episódios daquele fim de semana de abril/maio de 1994.

Fiz uma breve introdução, que reproduzo abaixo. Para ler todos, é só entrar na página “20 nos 20”. São depoimentos fortes, importantes, emocionados, relevantes. Ouvimos Hill, Newey, Reginaldo, Barrichello, Dennis, Williams, Cabrini… Espero que gostem.

Senna era tudo que a maioria das pessoas imagina que fosse, de alguma forma. E era, igualmente, um cara exagerado em tudo. Meu texto não tem título. Eu poderia chamá-lo de “Exagerado”. Que seja assim.

EXAGERADO

Herói, mito, lenda, inesquecível, ídolo, mágico, inigualável, imbatível, dedicado, o melhor de todos, as manhãs de domingo, perdeu a graça, parei de ver, depois dele nunca mais.

Nos últimos 20 anos, um pouco mais por estes dias de proximidade com a data redonda, o nome de Ayrton Senna raramente foi dito sem que alguns desses adjetivos e expressões viessem colados nele — como se fosse ofensivo, ou reducionista, citá-lo sem agregar algo que o exaltasse para além do que era, um grande corredor.

É compreensível. Resvala na obviedade dizer que Senna foi um sujeito especial. Não o único, porém. O esporte está cheio de heróis, mitos, mágicos, imbatíveis etc. É uma pena, porém, que a maioria de seus fãs/seguidores/devotos enxerguem nele apenas essa figura mitológica, colocando tal elenco de virtudes reais ou imaginárias acima da maior de todas: suas qualidades como piloto.

A morte trágica e a imagem construída durante anos por uma mídia sedenta de ídolos ofuscaram um pouco aquilo que Senna melhor fazia. Se é verdade que Ayrton gostava dessa aura sobrenatural — e que se comportasse como tal, com frequentes arroubos alegóricos —, era no dia a dia de sua profissão que ele revelava seu grande talento; era no chão de box que Senna conseguia se livrar das embalagens que o vendiam como uma espécie de divindade para exercer com maestria seu ofício.

Piloto excepcional, perfeccionista, decidido, rápido e arrojado, é na admiração de seus pares — outros pilotos, engenheiros, técnicos, mecânicos, donos de equipe — que se encontra o real valor do brasileiro morto aos 34 anos num acidente em Imola. Um acidente que, ao que tudo indica, poderia ter sido evitado. E que, ao que tudo indica, teve o desfecho que teve por uma infelicidade brutal, que pode ser medida em centímetros — se a barra da suspensão atingisse o capacete um pouco acima da fresta da viseira, Ayrton sairia de seu carro com o pescoço doendo e puto da vida, pouco mais do que isso.

Senna era uma figura não muito amistosa, porque optou por colocar à frente de qualquer outra característica a competitividade. Ao longo dos anos, incorporou esse papel de tal forma que passou a ver quase todos ao seu redor como inimigos. Aqueles que rivalizavam com ele no talento, como Prost, Mansell, Piquet e Schumacher, não mereciam mais do que o ódio reprimido quando se encontravam na pista. Era jogo pesado, o tempo todo.

Por ter escolhido esse caminho, Senna, nos seus anos de F-1, nunca me pareceu uma pessoa feliz. Sorria raramente, e parecia ter vergonha de mostrar algum sinal de alegria natural. Sempre me passou a impressão de que encarava o relaxamento como uma fraqueza.

Falo do que vi e observei em quase sete anos de convivência exclusivamente nos autódromos, no ambiente que me interessava — o da F-1. Se ele era totalmente diferente fora dali, em sua casa de Angra, passeando de jet-ski, junto com a família, com as namoradas e os amigos, não era algo que me dizia respeito. Senna, no habitat que também era o que lhe interessava, era um cara teso, eletrificado. Essa era a única forma que ele acreditava ser compatível com seus objetivos sempre muito claros: ganhar corridas e campeonatos, ser o melhor de todos.

Outros pilotos — e atletas — conseguiram tanto quanto Senna, ou mais, sem ter de assumir uma personalidade de esfinge. Não faço juízo de valor, aqui. Era o jeito dele, não há nada de errado nisso. Mas é inegável que esse estado permanente de tensão e rigidez fazia dele um homem próximo do atormentado. Não era fácil ser Senna como Senna achava que deveria ser. Ele só se libertava quando sentava num carro. Aí, desconfio, encontrava a felicidade. Especialmente quando vencia.

Nos últimos dois anos e meio de carreira, 1992, 1993 e o início de 1994, foi difícil encontrar tal felicidade. Ayrton tinha uma urgência de vitórias. E não era bobo. Sabia que todo seu talento, que considerava superior ao dos demais — e aí não há nenhum traço de presunção, ele precisava pensar assim para sustentar o nível necessário de autoconfiança —, não era o suficiente para se impor como o melhor de todos. Ele já tivera nas mãos um equipamento que lhe dava essa condição. Quando deixou de ter, passou a conviver com a derrota. Isso, para Senna, era insuportável.

E foi assim em seus primeiros anos de F-1. Com uma diferença: ali, na Toleman e na Lotus, ele tinha consciência de que era uma questão de tempo até engatar uma carreira parecida com a que construiu na Inglaterra, na F-Ford e na F-3. Soube esperar e se preparar. Logo no primeiro GP em que conseguiu ver a bandeira quadriculada, em Kyalami, percebeu que para ser um vencedor a habilidade e a garra não bastavam. Moldou seu corpo às exigências da categoria e transformou-se num touro. Estabeleceu metas e foi atrás delas. Não se pode dizer que não conseguiu atingi-las.

Ocorre que Ayrton se sentia muito diferente dos outros, quase que um detentor exclusivo das qualidades que propagava com seus frequentes discursos repletos de clichês de autoajuda. O público no Brasil comprava esse pacote e adorava o tom épico que imprimia a cada vitória. Um GP não era um GP, mas uma epopeia. Um embate entre o Bem e o Mal. Um confronto entre a Virtude e a Infâmia. Tudo em maiúsculas. Um exagero. Senna era um exagerado, como cantava Cazuza.

Mas era legal vê-lo guiando. Abstraindo-se toda a patacoada que normalmente contamina julgamentos e embaça a visão, Senna era alguém que valia a pena acompanhar de perto. Dirigia de forma exuberante e era um esportista de primeiríssimo nível, alguém que sabia estar escrevendo um capítulo importante da história do esporte que escolheu.

Carregava nas tintas, claro. Talvez não fosse o bastante fazer uma volta alucinante em Mônaco e ser reconhecido como grande piloto por isso. Era preciso ir além para reforçar sua “diferença”, e então dizia que tinha entrado num túnel e viajado para outra dimensão. Ganhar em Suzuka depois de uma largada desastrosa, despencar lá para trás, se recuperar espetacularmente e conquistar o título era pouco. Ficaria mais sensacional se dissesse que tinha visto Deus numa das curvas da pista japonesa. Bater a imbatível Williams na chuva em Donington não se resumia a uma demonstração de incrível habilidade no molhado. Se fosse resultado de uma ajuda enviada diretamente do Firmamento, melhor ainda.

Senna acreditava nessas coisas? Provavelmente sim. Seus torcedores, certamente. Poles, vitórias e títulos ficavam ainda mais saborosos se viessem acompanhados de um túnel tridimensional aqui, um encontro com o Todo Poderoso ali, um milagre acolá. Ayrton não tinha vergonha de expor esse lado, digamos, ungido. Quem haveria de questioná-lo?

Nada disso, no entanto, funcionaria se ele não fosse o grande piloto que era. Imagine-se um cara que se classifica em 17° em Mônaco e diz que entrou num túnel infinito, sendo conduzido por uma mão invisível. Ou que larga miseravelmente em Suzuka, termina em 20° e garante que viu um velhinho barbudo de bata e cajado no fim da reta. Ou ainda que roda e atola na brita em Donington e ergue as mãos para os céus, de onde um clarão inexplicável o abençoou.

Seria considerado um doido ridículo.

Senna virou o que virou porque ganhava corridas e conquistava campeonatos. Porque durante sua trajetória na F-1, sempre buscou vitórias e não se conformava com menos do que isso. Era um atleta admirável por seu talento e obstinação.

E porque morreu de um jeito muito triste. Exageradamente triste.

Comentários

  • Parabéns pelo texto! Muito bem escrito e pela visão de quem esteve acompanhando por muito tempo. Em relação ao Senna, além da parte “mística” dele, e do mal relacionamento com muitos pilotos para chegar as vitórias, a grande mensagem que ele passou ao povo Brasileiro é de que através da determinação se pode alcançar objetivos e que apesar de tanta coisa errada que existe no mundo pode-se vencer com justiça. Acredito que muitos outros atletas passam a mesma mensagem, porém neste caso a mídia ajudou bastante.

  • Acabou de passar videos corridas de Senna em Monaco 84 e Portugual 85 no sportv quem não viu agora sabe quem era essa fera de outro planeta e na chuva de outra galaxia, meteu 1m2s no segundo colocado era em media 2s mais rapido que o resto da tropa, que não era galinha morta tipos como Lauda, Prost, Piquet, Alboreto, De Angelis e muitos mais, só não enxerga quem é cego e ponto final.

  • Uns gostaram outros não. Só tenho a dizer o seguinte: sou o maior fâ do escritor Flavio Gomes, uma cadeira na academia de letras deveria ser dele(não estou brincando), pois é melhor do que muitos com cadeiras cativas por lá. Este texto então, na minha opinião é de uma clareza, objetividade, profundidade sem tamanho, a melhor obra sua. PARABÉNS !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Em tempo: quanto quer pelo seu teclado?

  • Não tem jeito, o Senna foi icônico
    Foi o Jimi Hendrix do automobilismo. Intenso, influente e o melhor já visto.
    Morreu no auge e foi o mais influente de toda uma geração de pilotos e campeões pós Senna.
    Basta conversar com Alonso, Hamilton e outros.
    Até hoje, é reverenciado por eles como o melhor piloto que já viram e é a referência deles.
    E de fato foi. Sua carreira é lembrada tanto pelos anos que foi campeão quanto pelos que não foi. Mesmo com carro inferior sempre deixava sua marca, seja nos treinos ou qualquer outra corrida.
    E carismático como ninguém. No mundo do esporte, acho que ninguém o igualou em carisma e capacidade de atrair torcedores. Basta ver o sucesso que fez no Japão.
    Fez, faz e fará muita falta ao nosso mundo esportivo.

  • Parabéns pelo texto Flavio!
    Sem nada a acrescentar, nem retirar! Perfeito!
    O Senna que conhecemos está aí! Sem máscaras!

    Se me permite, vou copiar para guardar para os netos!
    Darei os créditos corretos!

  • Flávio, seu texto ficou muito claro, idéias claras, objetivo alcançado com êxito.
    Mudando de assunto, ou melhor, continuando nele mas num nível bem rasteiro, às vezes acho que sou um daqueles malucos da Opus Dei que se auto mutilam. Li vários dos textos e tentei enxergar a essência de cada um. Até que cheguei aleatoriamente no do Luis Roberto. Cara, é de doer. É de doer, de doer e de doer. Esse cara não tem limites. Ele já deixou de ser esperto quando perdeu a noção de que estava sendo. Ele perdeu a linha completamente e está igual à barata tonta e ainda achando que está “abafando”.
    Putz!

  • Certa vez Frank Williams numa matéria sobre a personalidade dos pilotos, disse que todo piloto de alta performance e competitividade são egoístas, querem o melhor para eles, sejam os mecânicos, as primeiras peças que saem da fábrica após desenvolvimento dos projetos, prioridade de testes, e tudo o mais. Nessa mesma entrevista ( que tenho numa revista inglesa sobre os 50 anos da F1 ) ele chega à dizer ( aos risos ) que estes são verdadeiros “patifes”. E realmente são. Nessa mesma reportagem, Damon Hill se referindo ao Senna, alegou que Ayrton “não era nenhum santo” e o comparou em personalidade ao Schumacher. Num outro depoimento em outra matéria, Ron Dennis uma vez justificou que Formula Um “é um esporte milionário e muito difícil”, daí a tendência ao egocentrismo dos pilotos de ponta. Não conheci o Senna pessoalmente, já escrevi isso aqui diversas vezes, por isso acho estranho comentar sobre o homem, quando dele só vi o piloto. E o piloto que eu vi era um excelente profissional, atestado pelas suas conquistas, como muitos vieram depois e diversos existiram antes dele. No anuário Automotor de 1993, Flavio Gomes, num texto ali disse que “a história da Formula Um é a história dos vencedores” e assim, Senna faz parte da história da Formula Um. Nos deixou em 1994 de forma trágica, não sei como teria sido a continuidade do campeonato do resto de sua carreira na F1 caso sobrevivesse, sinceramente, nunca me interessou saber. Á revelia do que pudéssemos querer, o tempo seguiu e nos contou novas histórias.

  • acredito que o grande segredo do carisma de Senna esteja na autenticidade de suas atitudes, explico: apesar de todos seus defeitos, de muitas vezes não ter escrúpulos e jogar sujo com os adversários e outras pessoas, mesmo nestas situações, quando Senna tomava suas atitudes antidesportistas senna tinha o mérito de ser um cara autentico, quando buscava a bandeira do brasil com algum torcedor após a vitória era um gesto autentico, quando se referia a contatos com Deus, era autentico, sua expressão de horror quando viu o acidente de ratzemberger foi autentica, e mesmo quando saiu do carro feito um louco para ajudar Eric Comas arriscando a própria vida também foi um gesto autentico, e a meu ver é nisso que está o grande segredo de seu carisma: na sua AUTENTICIDADE, para o bem ou para o mal, e acredito que tenha sido esta sua qualidade que tenha cativado tanto as pessoas e contribuído de modo decisivo para a construção do mito e do herói….

  • Documentário muito bacana. Infelizmente o Brasil não só perdeu um ídolo, mas um motivador. O povo brasileiro perdeu o “tesão” pela dedicação. Mostrar que tem talento, mas não só para a velocidade. Ayrton era o melhor no que fazia, assim como existem milhares de “Ayrtons” que são os melhores no que sabem fazer. A época de Ayrton trazia ao povo a esperança do estilo Obama de dizer (Yes, I can too). Não precisamos pegar um carro e fazer a melhor volta, mas fazermos o que sabemos fazer desde que nascemos. Mas o mais importante o que Ayrton nos ensinou, dedicação. Seu legado é puro e simples, apenas um exemplo de uma pessoa que se dedicou muito ao que amava e sabia fazer. Nosso povo necessita resgatar essa mensagem que ficou gravada em nossa memória e passar a diante. A nova geração hoje não sabe quais os motivos que nós brasileiros adorávamos o domingo e o treino de sábado. Vejo as crianças, ainda assisto F1 e vejo, qual criança assiste com aquele brilho nos olhos que tínhamos? Perdemos este “brilho”. O Brasil ficou e sempre esteve de luto após aquele trágico dia. Infelizmente a mídia tentou “jogar no colo” de pilotos brasileiros a missão de Ayrton. Sucessor de Ayrton! Desculpe pessoal, mas talvez não tenhamos mais alguém parecido. Talvez por isso a cada dia menos pessoas assistem a F1. O que podemos fazer para mudar isto? Viver do passado? Assistir a VT’s de corridas? Não! Não mesmo! Devemos motivar a geração que vive o “pós-Ayrton”. Estes sim precisam de motivação. As crianças e adolescentes de hoje, não acreditam em sonhos. Não encontram mais seu talento. Preferem se desligar do mundo e viver um dia de cada vez. A esperança nesta sociedade que vivemos está sendo a cada dia mais apagada. Nós que vimos Ayrton, devemos usá-lo também para motivá-los. Experiência própria. Tenho um de 7 anos em casa e você não vê esperança nos olhos. Apenas algo mecânico. Casa > Escola > Tarefas > TV > Dormir. Algo tão sistemático que da até o sentimento de pena. Mas isto ficou rotulado em nossa sociedade. O país onde o povo não aceita mas não grita. Pode até sonhar mas não busca o sonho. Vivemos no conformismo. Conformismo do famoso “A”. A se eu saisse do meu emprego. A se eu fizesse tal curso. A se eu montasse um negócio. A se eu comprasse uma casa. Apenas “A”. Uma desculpa automática. Poucos brasileiros encaram seus sonhos. Profissionalmente mais raros ainda. Pode ser que seu talento seja fritar ovos. Mas se você é um Ayrton nisso, vai e faça isso sua vida. Não devemos anular nossos talentos. Nosso grande Ayrton (um parente para todos que o acompanhavam), reflita os seus sonhos e veja que você também algo que você é o Ayrton em alguma coisa.

    • Cara, nunca tive isso. Meus olhos sempre brilharam pelo simples fato de acompanhar o esporte, não esse ou aquele piloto. Claro que sempre tive minhas preferências em relação a esse ou aquele, mas nunca me interessou o país em que nasceu. Se tiver brasileiro ganhando, ótimo. Se não, ótimo também. A essência desse esporte sempre foi a competição entre marcas e homens, nunca entre nações.

  • Eu acho que o legado do Senna vai além também, não acredito que haveria ainda no Brasil cobertura de F-1 e mídias especializadas. Isso só com Piquet, Fittipaldi ou Piquet não continuaria. Se não tivesse o Senna na F-1 acredito que nada disso teríamos hoje.

    Tanto que ainda se vai na rabeira dos “pilotos do Brasil”, pra continuar alimentando as esperanças e manter a audiência.

    Em resumo, acho que o próprio Grandeprêmio não seria hoje o que é, se não fosse reflexo dos fãs de automobilismo que surgiram única e exclusivamente devido a presença do Senna nas pistas.

    • acredito que tudo o que você escreveu se aplica melhor a Emerson Fittipaldi, respeito sua opini~ao, mas tudo é relativo ao momento histórico que cada um viveu, sem Fittipaldi talvez nunca teríamos visto o grande Senna.

  • Como escreve bem o Flávio. Um monstro!!! Sem ironia alguma, (ok se preferir troque a palavra monstro por qualquer outra que expresse muito bem suas qualidades ao escrever.)

    Um ponto a qual todos concordamos (permitam me imaginar) é o que de alguma forma ou outra, nossas histórias de vida se misturam a história do Ayrton. Bastando para isso que, de alguma maneira tenhamos acompanhado sua trajetória…do modo de cada um é claro; como um mero expectador sentado em seu sofá em uma cidade do interior do Brasil (meu caso) ou como um expectador ativo, que pôde vivenciar toda essa atmosfera de perto e em muitas situações até exercendo uma certa … digamos assim… participação nos acontecimentos. E estes são apenas dois exemplos….dentre um domínio de muitos outros…centenas de milhares.

    Pois bem, essa grande variedade de possibilidades geram incontáveis formas de visualização e por consequência uma diversidade enorme de opiniões. Nada mais natural ao meu ver. O assunto Senna desde muito tempo tem se resumido a um embate. De um lado os que mitificam o ser e do outro os que se encomodam com isso. Perceba, que o foco passou a ser outro. Infelizmente pouco se discute sobre os fatos em sí… na verdade existe uma necessidade em usar os fatos para justificar argumentos nesse embate… apenas isso.

    Considerando esse cenário Flávio… voce vem há muito tempo sendo um contraponto nesse movimento. Tem se mostrado feroz em manter a discussão em torno do Senna no que tange a enfatizar os fatos de uma forma pura e simples..ou seja, sua trajetória como piloto. Este texto é o mais perfeito exemplo disso.

    Para concluir nem tudo são flores…. acho que em determinado ponto existe um deslize…se é que posso classificá-lo assim. Me refiro aos trechos, onde questiona as declarações que envolvem o conteúdo digamos “sobrenatural”…algo tão comum se tratando do Senna. A maneira com que você o fez é perfeita…senão pelo fato de que voce ignora totalmente a possibilidade de que tais coisas tenham realmente acontecido. Estas sâo as suas crenças… e o que de certo modo não é errado expressá-la …porém seria de bom senso deixar claro que isto é uma crença pessoal ou simplesmente dar espaço a que o eleitor julgue se isso é factível ou não..o leitor deve se questionar se alguém pode ou não ter uma experiéncia como essa.

    E porque isto é importante? Por que da forma como está no texto..o comportamento é o mesmo de quem tenta sugestionar Senna como mito sobrenatural. Sua necessidade de resposta para combater um comportamento que lhe encomoda tem lhe aproximado do mesmo comportamento. E aí cada vez mais o que vemos é um empobrecimento jornalístico sem tamanho…onde o que impera caxa vez mais são vaidades e sugestionamentos.. em detrimento aos fatos.

    Um grande abraço,
    De um fã que admira seu trabalho de longa data e que talvez por isso tenha se sentido em condições de lhe escrever.
    Regis

  • Simplesmente fantástico o trabalho de vocês todos. Sem palavras para descrever.
    Para mim Senna foi e continua sendo um herói. Heróis não é só aquele que salva vidas, mas também o que “inspira” vidas. E isso ele fez e continua fazendo. E não morreu verdadeiramente. Uma pessoa morre quando não mais lembramos delas, quando não são mais faladas. Até hoje se fala do Senna. Por bem ou por mal. Aliás: “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. Até que haja um ser humano na face deste planeta que saiba quem foi Ayrton Senna da Silva, que tenha recordações dele (mesmo que por livros, vídeos, …), ele não morreu. Está vivo e entre nós. E continua nos ensinando e nos dando orgulho, sendo um exemplo de superação.
    Sem mais.

      • Pois bem, quem disse que ele não salvou vidas? Eric Comas que o diga… Não necessariamente se salva uma vida mantendo o pulso da pessoa, mantendo o ser biológico vivo. Se salva vidas inspirando-as. Se salva a alma das pessoas…

      • Sim, claro, ele salvava almas. Tinha poderes divinos para isso. Entendo.
        Pensando bem, não duvido que realmente tinha tal poder, haja visto que foi o único a conseguir guiar um carro e ao mesmo tempo ver a figura de Deus subindo aos céus – como o próprio afirmou – sem perder a concentração. No mínimo, o Todo Poderoso operou “o milagre de multiplicação de olhos” ali, naquele instante, para que o piloto conseguisse tal feito sem bater, rodar, sair da pista, whatever…
        Vai ser abençoado assim lá longe, tá louco!

      • E sobre o Comas…
        Milagre!!! Não há expressão melhor.
        O cara estava ali, cara a cara com a morte, inclusive com esta já até fazendo cafuné em seu capacete, prestes a dar seu último suspiro nessa vida, sozinho, abandonado, não haviam enfermeiros(as) no circuito, tampouco médicos, sem nenhum fiscal de pista por perto – os que aparecem no vídeo não eram reais, e sim ilusão de ótica – para tirá-lo do carro, com esse já prestes a explodir – tal qual nos filmes de ação de Hollywood – quando, repentinamente, Deus mandou seu representante ungido aqui na terra para salvar o pobre homem. E aí, amigo, todos sabem o que aconteceu. As imagens não mentem. Bastou um carinho no capacete do acidentado para que este, inexplicavelmente, voltasse de seu “a um pentelho do coma eterno” para a vida novamente.
        O que ocorreu naquele momento continua um mistério até os dias atuais. Não se explica o inexplicável.
        Diz a lenda que o Todo Poderoso operou o “milagre da partilha de poderes” naquele momento, dando a Senna parte de seus poderes para que este pudesse salvar o Comas. Se é verdade ou não, nunca saberemos. Mas dizem as más línguas que depois daquilo o Todo Poderoso teria, inclusive, dado a Senna o apelido de “Ayrton, The Soulsavior.”
        Vai ser abençoado e salvador de almas assim no Vaticano, pelo amor…

  • Boa noite Flávio.
    Você, pelo que sei, vive deste esporte…
    E ainda bem que isto acontece, pois entende como poucos dele…
    Mas o que você, como jornalista, pensa que seria do automobilismo no Brasil se não houvesse o acidente que tirou a vida do Senna? Acredita que o automobilismo seria mais promissor?

  • Muito bom! Eu estava na 4-5 série, lembro que não acompanhava muito, gostava mesmo era de falar do São Paulo, nessa época então, moleque e o time do Tele apavorando tudo e todos! Mas lembro que gostava do Senna, em casa meus pais eram fãs. E lembro de como fiquei tocado com tudo o que cercou sua morte. Morava perto da Assembléia, vi o cortejo. Me marcou demais aquela multidão, gritando. Lógico que isso me fez ve-lo como o melhor de todos os tempos, ao menos durante muito tempo. Hoje acho que o cara foi mesmo foda, um dos grandes e que pode sem medo ser considerado o melhor, como podem Schumacher, Prost, Piquet, Vettel e outros; dependendo de como se analise. Mas a maneira como ele morreu e como se acompanhou, de fato faz com que se crie o mito e ai acho que nenhum vai conseguir isso (não que isso seja/foi objetivo de ninguem). Muito bom ler um texto falando “apenas” do piloto, do esportista. Ficou bacana mesmo!

  • “Está acontecendo agora com o carro da Red Bull e daqui a pouco ele corrige. A prova disso é que o Damon Hill, segundo piloto e anos-luz atrás do Senna, chegou à última corrida do ano disputando o título palmo a palmo com o Schumacher na Austrália. Você imagina se fosse o Ayrton Senna, se ele tivesse tido um pouquinho mais de paciência, se não tivesse que tomar as decisões que tinha que tomar apressadamente porque não agüentava mais perder – ele falou isso –, teria chegado três corridas antes da Austrália como campeão. Acho eu.”

    ….eu também acho!

    • Disputando o título palmo a palmo, onde?

      Schumacher foi:
      Desclassificado na Inglaterra, onde chegou em segundo e na Bélgica, onde venceu.
      Suspenso na Itália e Portugal.

      Palmo a palmo, onde? Hill correu em sozinho em quatro GPs!
      Palmo a palmo, que eu saiba, é quando os que disputam o título, disputam (também) todas as provas da temporada.

      Palmo a palmo? Quem falou, não sabe o que disse.

      • Vi as aspas desde o início. Sabia que não eram palavras do Sennafredo. Não sei se são do Reginaldo Leme, que considero um dos maiores jornalistas brasileiros em automobilismo.

        Se são dele ou não, continuo discordando totalmente.
        “Palmo a palmo” é uma expressão que significa uma disputa equilibrada. E a disputa em 1994, só foi equilibrada pela intervenção selvagem da FIA que, sabedora da limitação de Hill e para manter o campeonato aberto, puniu Schumacher seguidamente.
        E Reginaldo Leme sabe disso.

        Com todo o respeito que tenho pelo jornalista (se são palavras dele), mantenho a minha posição: ele falou e não soube o que disse.

      • Não estou desmerecendo o filho do velho Graham. Apenas digo que ele não era páreo para Schumacher.
        Numa disputa “normal”, o alemão “atropelaria” Hill sem tomar qualquer conhecimento.

        Aquele campeonato, devido aos acidentes terríveis e à perda de sua maior estrela, tinha tudo para ser um fiasco. E a FIA sabia disso. Era preciso “equilibrá-lo” de alguma forma.
        Tentaram a liberação de Mansell, que disputava a Indy, mas Carl Haas foi irredutível. Mansell conseguiu correr quatro GPs na F-1, porque não coincidiam com as provas americanas. E fez bonito: uma pole, convenceu o diretor da prova no Japão a dar a largada em movimento (devido à chuva), chegando em quarto e venceu a última corrida.
        Mansell foi chamado para tapar um buraco sem fundo…

        O que acabou dando um “colorido” naquele campeonato cinzento, foi a “vigarice” (que para os fãs, não passou de uma vingança) de Schummy em cima de Hill.