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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 - 20:16F-1

COPERSUCAR, 40

SÃO PAULO (melhor do que pensam) – Foi num dia 12 de janeiro, exatamente 40 anos atrás, que a aventura brasileira na F-1 deu seu primeiro passo. Em 23° num grid de 23 carros, Wilson Fittipaldi Jr. alinhava o FD-01 (Fittipaldi/Divila) com um tempo 11s pior que o de Jean-Pierre Jarier, da Shadow, que partiria na pole para o GP da Argentina, em Buenos Aires.

Parecia um abismo, era, mas não importava. Importava terminar a corrida com o primeiro carro de F-1 construído no Brasil, com apoio do regime militar, de uma cooperativa de produtores de açúcar e da Embraer.

Fazer um F-1 fora da Europa era uma maluquice, mas Wilsinho resolveu bancar. O carro prateado, com o número 30 na carenagem, era lindo, mas pouco competitivo. Depois de 12 voltas, o sonho da estreia virou fumaça. Literalmente. A quebra de uma peça da suspensão fez o piloto perder o controle e se espatifar no guard-rail. O FD-01 pegou fogo. Wilsinho não se machucou. Mas saiu ferido na alma.

Seu irmão Emerson acabaria vencendo aquela prova, pela McLaren. A história da Copersucar não terminou ali, longe disso. Persistiu até 1982, já com outro nome, Fittipaldi. No total foram 103 GPs e três pódios, todos eles históricos. O primeiro no Rio, em 1978, já com Emerson ao volante, segundo colocado — então bicampeão do mundo, o Rato abraçou a iniciativa familiar e foi para o time brasileiro, enquanto Wilsinho passsava a atuar fora das pistas. Em 1980, mais dois, ambos com terceiros lugares: Keke Rosberg na Argentina e Emerson em Long Beach, no dia em que Nelson Piquet venceu seu primeiro GP.

Primeira vitória de Piquet, último pódio de Fittipaldi, bastão definitivamente passado para a geração que depois teria ainda Senna como um de seus filhotes. Sim, os Fittipaldi, sem medo de errar, são os pais do automobilismo nacional contemporâneo.

Além dos irmãos Wilson e Emerson, pilotaram carros da Copersucar/Fittipaldi o já citado Keke, mais Arturo Merzario, Ingo Hoffmann, Alex Dias Ribeiro e Chico Serra. Com um sétimo lugar em 1978 (na frente de McLaren e Williams, por exemplo) e um oitavo em 1980 (à frente de Ferrari e McLaren), a Copersucar não pode ser considerada um fiasco na F-1. Seu maior problema, talvez, tenha sido a imprensa brasileira.

Formados basicamente nos campos de futebol, muitos jornalistas esportivos tiveram de ser deslocados para a F-1 no início dos anos 70, quando Emerson venceu seus primeiros GPs e conquistou o primeiro título mundial. No rastro dele veio Pace, igualmente bem-sucedido e potencial campeão. Habituados a cobrir um esporte vencedor, tricampeão do mundo, os jornalistas transferiram para a F-1 o mesmo tipo de cobrança que reservavam à seleção. Só interessava ganhar. Derrotas seriam tratadas com a crueldade aplicada no futebol.

Só que F-1 não é futebol, nunca foi, e quando a primeira geração de jornalistas realmente especializados em automobilismo passou a ganhar espaço e a ser compreendida, a Copersucar já era, destruída pela mídia sem dó, nem piedade.

Hoje, 40 anos depois, a maioria compreende o valor da equipe brasileira e sua importância para o desenvolvimento do automobilismo nacional. Enormes.

Anos atrás, já contei isso aqui milhares de vezes, encontrei dois Copersucar jogados numa oficina em Interlagos. Aquele material, publicado no diário “Lance!”, talvez tenha acelerado o processo de restauração dos carros, levado a cabo pela Dana. Há dois Copersucar restaurados hoje no Brasil. Outros, não sei exatamente quantos, estão pelo mundo, participando de corridas de F-1 clássicos.

Essa história, portanto, não acabou. Vive na memória de quem viu os carros correrem, daqueles que foram a Interlagos acompanhar os primeiros testes, de quem trabalhou nos projetos, de quem os pilotou. E nos modelos sobreviventes, felizmente salvos por quem sempre compreendeu o tamanho do desafio que os Fittipaldi encararam.

Longa vida à Copersucar.

116 comentários

  1. JAN BALDER disse:

    não foi a imprensa e sim a falha nos projetos, foram trocando de projetistas o tempo todo tentando correr atrás do prejuizo. Nem um modelo era sequencia dos erros do anterior, sempre era tudo novo. lembremos que a Copersucar era o maior patrocinador da F1, tirando a fabrica Ferrrari esta quando perde pode envolver seu pessoal infinitivamente sem medir custos. O melhor dos modelos acho que foi o F5 A em 1978 com o 10 lugar de Emerson na tabela do mundial.

    • Walter S. disse:

      Grande Jan Balder!
      O cara não só conhece tudo, mas tem a coragem de falar.
      Essa coisa de ir trocando de projeto a cada ano é exatamente a crítica que sempre fiz à Equipe. Eles começavam a compreender como acertar o carro direito – o que leva pelo menos umas oito corridas, e já jogavam tudo no lixo e começavam tudo de novo na temporada seguinte.
      Do zero…
      Aí tinham que começar a entender como o chassis se comportava, como a suspensão trabalhava (de fato, não no projeto), com qual calibragem de ar, de molas, de barra…de aerofólio…com era com muita gasolina…com pouca…qual a melhor posição dos radiadores…e aí, quando já sabiam o que melhorar, jogavam o carro no lixo e partiam para um projeto de carro diferente do que tinham nas mãos.

      Posso dizer que essa atitude era obra do temperamento do Tigrão. Ele fazia juz ao apelido! Nunca teve paciência para esperar. Quem o conhece sabe do que estou falando…é o jeito dele, sempre foi.
      Eu sei, eu estava lá em 1974-5-6…

      O melhor carro foi o F-05. Porque? Simplesmente porque usaram o projeto dois anos seguidos, levaram pro Caliri desenvolver, exploraram o potencial do bichão desenhado pelo Baldwin.

      Fico feliz de ver que um cara do calibre do Jan pensa como eu.

  2. Gustavo Leite disse:

    Flávio, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vX-AKNHyXx4 dá para dar uma voltinha on board no Copersucar F5A, o melhor de todos.

  3. Leo Valerio disse:

    FG, seus textos sao sensacionais! Você é incrivel! Parabéns!! (Sou seu fã).

  4. Giuliano SPFC disse:

    O que Emerson e seu irmão fizeram foi espetacular, eles estavam muito a frente de seu tempo, mesmo apoiado pelos militares e pela Embraer, só a iniciativa de montar a equipe já valeu mais dos que os resultados, estamos falando do meio dos anos 70, éramos um roça continental…..kkkkkk, estávamos no meio do “milagre econômico”, mas o Brasil nem de longe era o que é hoje, o país mudou radicalmente nesses últimos 40 anos, produziu muitos bilionários, temos multinacionais brasileiras, mas vê se alguém põe a mão no bolso e se habilita a fazer coisa parecida em pleno 2015??, e se os ingleses tivessem o pensamento pequeno dos brasileiros e de alguns que escreveram aqui, o coitado do Frank Williams, que fundou sua equipe na mesma época, estaria morto e sua equipe já teria fechado faz tempo!!!, e olhando para trás, analisando a trajetória do Brasil na F1, é até espantoso que tenhamos produzido tantos campeões num esporte caro e do 1º mundo.

  5. joel lima disse:

    Quis o Destino que o último ano da equipe brasileira fosse também o ano em que o Brasil teve a sua última seleção que encantou e na qual o povo brasileiro se identificava, mas que não conseguiu ser campeã na Espanha. Ê ano danado esse de 1982…

  6. Elvys disse:

    Flávio, aproveitando o gancho, tá sabendo da coleção de F1 de pilotos brasileiros que está para ser lançada? Na escala 1:43 e parece que inclui 3 modelos da Copersucar!

  7. Paulo disse:

    Prezado F&G.
    Irmãos Fittipaldi,fazem parte da história da F-1,tive a oportunidade de acompanhar, corridas em Interlagos e Jacarepaguá desde a primeira volta, o segundo -lugar com gosto de (vitória), até a despedida de Emmo no Rio.Simplesmente sensacional.

  8. Roberto Fróes disse:

    Tem um – não exatamente Copersucar, mas, digamos, Skol Fittipaldi, F6, eu acho, pendurado na parede do Museu de Tecnologia de Sinsheim, na Alemanha.
    Alguém me disse que havia outro, no mesmo museu, mas eu só vi esse.
    Sempre acompanhei e vibrei com os carros Fittipaldi, fossem Copersucar ou não.
    Tive até um canarinho amarelo chamado de Copersucar.

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