QUEM TEM BAKU… (1) – OH, CHARLES!

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No muro: Leclerc bateu e perdeu a chance de fazer a pole

SÃO PAULO (no fim, o mesmo de sempre) – Parece que Lec-Lec está condenado a ser o protagonista da temporada. E, por enquanto, o roteiro tem sido semelhante desde o início do ano: talentosíssimo, rápido, de personalidade forte, começa todos os finais de semana de GP brilhando e termina lamentando alguma coisa.

Mas sejamos justos. Até agora, culpa mesmo só pode ser atribuída ao monegasco hoje, pela batida no Q2 em Baku. Os perrengues das três primeiras etapas do Mundial devem ficar na conta da Ferrari, por suas ordens estapafúrdias e pelo problema de motor no Bahrein.

Charles vinha sendo o mais rápido em todos os treinos no Azerbaijão desde ontem (não teve análise dos treinos de sexta deste que vos bloga porque tive de fazer uma viagem-relâmpago para São Paulo e só me vi livre depois da meia-noite, com sono e cansado). Era forte candidato à pole, apesar da surpresa de ver Gasly em primeiro no Q1 — o coitado do francês, porém, terá de largar dos boxes porque ontem não parou para pesar o carro na vistoria. Mas acabou encontrando o muro na estreita curva do Castelo.

“Sou um estúpido”, falou duas vezes pelo rádio. “Passei vergonha na frente de todo mundo”, acrescentou depois. “Mas eu mereci o que aconteceu.” Ora, ora, Charlinho… Não seja tão duro com você mesmo. Acontece. Aliás, tinha acontecido um pouco antes com Kubica, que espetou o mesmo muro com a Williams, a lerda e deprimente Williams. É assim mesmo. Carro de corrida bate. Se não bate de vez em quando, é porque está andando devagar.

Essas pancadas levaram a direção de prova a interromper a sessão longamente em duas oportunidades, para refazer a barreira de proteção. E isso pode ter ajudado a Mercedes, porque a tarde foi caindo, a temperatura também, e nessas condições seus carros melhoraram de rendimento. Já a Ferrari, que ficou só com Vettel, perdeu performance enquanto o sol se punha na Cidade dos Ventos. Resultado: dois carros prateados na primeira fila mais uma vez. Detalhe: com Bottas na pole, pela segunda vez no ano e segunda consecutiva, oitava na carreira.

Sapattudo fez 1min40s495 na sua volta voadora, deixando Hamilton 0s059 atrás. Vettel e Verstappinho, o mais rápido no Q2, largam na segunda fila. A partir da terceira, algumas novidades — como escrevi outro dia, haverá um rodízio no segundo pelotão entre equipes muito próximas, que acabam indo bem em algumas pistas e mal em outras. A terceira fila, por exemplo, terá Pérez, da Ponto de Corrida, e Kvyat, da Touro Vermelho. Pérez é um especialista em Ku (ele chama a pista assim, na intimidade). É o único piloto que conseguiu subir duas vezes no pódio na cidade, terceiro em 2016 e 2018.

Em sétimo vem Mini Norris, da McLata, que vem se destacando como melhor estreante da temporada. Ao seu lado, em oitavo, Kimi Raikkonen, da FNM. A equipe tinha colocado Giovannetti (como é bom o Psicodélico!) no Q3 também, mas o italiano tomou dez posições de punição no grid. Não sei bem por quê. Ainda não li. Deve ter trocado alguma coisa.

Assim, Leclerc, que não andou na fase final da classificação, mas já tinha feito tempo suficiente para subir ao Q3, parte em nono. E Sainz Velocidad é o décimo no grid. No rodízio das equipes médias, foi a vez de Renault e Haas andarem mal. As duas duplas ficaram para trás e não devem conseguir grandes coisas amanhã, a não ser que a prova tenha muitos momentos de safety-car — o que é uma possibilidade sempre presente em circuitos de rua, especialmente aqueles que passam por castelos e muralhas medievais.

Dá para imaginar uma corrida melhor em Baku do que a chatice que vimos em Xangai há duas semanas. A Ferrari está bem, apesar de não ter conseguido ao menos um lugarzinho na primeira fila. Lec-Lec tem carro para chegar rápido na turma que tende a se distanciar um pouco nas primeiras voltas. E larga de pneus médios, podendo trabalhar melhor a estratégia. Não pode perder muito tempo, porém. É dia de mostrar que paciência nem sempre é uma virtude, se não quiser perder contato com os candidatos ao pódio.

Vettel, sem o companheiro ameaçador por perto, tende a fazer uma corrida, digamos, autoral. Seu maior aliado — desde que consiga mantê-lo atrás — será Verstappen, que não vai facilitar a vida de Charlinho quando fatalmente ele aparecer em seu retrovisor. Só espero que mesmo com todo esse otimismo a gente não veja mais uma dobradinha da Mercedes. Não, não torço contra ninguém, não é isso. Torço apenas por bons campeonatos. E se os prateados encaçaparem mais uma, este vai ficar muito chato. E ainda está muito no começo.

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