CAZUZA, 30

O texto abaixo foi escrito há exatos cinco anos.

Nada mudou.

SÃO PAULO(o tempo não para) – Ser jovem nos anos 80 não era muito fácil. A primeira metade foi vivida ainda sob uma ditadura militar já agonizante e caduca, tipo leão do Simba Safári, daqueles que não mordem mais ninguém, ridicularizada pelo andar da carruagem mundial. Apesar disso, da iminência daquilo tudo de cair de podre, a gente não falava o que pensava — porque ou não pensava, ou não sabia se podia falar. Era bem esquisito. A ditadura nos deixou ir às ruas pelas Diretas, mas no dia da votação um general fechou Brasília e saiu cavalgando pela Esplanada dos Ministérios até a porta do Congresso dizendo que quem mandava lá era ele. Do alazão para um tanque era um passo. Afinal, três anos antes eles tentaram explodir o Riocentro inteiro com milhares de pessoas dentro num show de 1° de maio. Quando parecia que os milicos preparavam a saída da tropa, pintava uma recaída como aquela — dois oficiais num Puma dispostos a mandar tudo pelos ares para que um novo golpe pudesse ser levado a cabo.

Era bem esquisito. Bem esquisito.

Já na segunda metade, mesmo com a derrota da emenda Dante de Oliveira, a sensação era de que alguma coisa iria mudar, finalmente. O presidente que preferia o cheiro de equinos ao do povo saiu bufando, deixou a faixa para ser entregue a Tancredo, mas Tancredo não apareceu, e no lugar dele veio Sarney, que era amigo dos militares, mas percebia que os ventos sopravam noutra direção, e de novo a gente não sabia direito o que ia acontecer naquela salada geral, presidente eleito morto, coronel do Maranhão no Planalto, inflação a mil, miséria por todos os lados, economia estagnada, dívida externa explodindo, desesperança por todos os lados.

Aí aparece um bardo muito louco, magrinho e desbocado, enchendo a cara todas as noites e mergulhando em todo tipo de experiência química, sensorial, sexual e literária, cantando que suas piscinas estavam cheias de ratos, que nenhuma ideia correspondia aos fatos, que seu cartão de crédito era uma navalha, e como ninguém mais conseguia calar voz alguma, a sede de liberdade era muita, saía gritando em praça pública as barbaridades que falávamos — e fazíamos — escondidos, e então estava dada a senha, nossa “Grândola, Vila Morena” coletiva.

Cazuza não se quis agente de revolução nenhuma, não pretendeu derrubar governos, nem doutrinar multidões. Mas foi quem melhor expressou aquilo que estava represado no peito de uma juventude castrada por seus pais, avós e professores. Seus versos despretensiosos eram o que queríamos dizer, só que não tínhamos talento algum para traduzir medos, angústias, incertezas. Ele tinha. Mentiras sinceras me interessam. Eu tô pedindo a tua mão, e um pouquinho do braço. Só um pouquinho de proteção ao maior abandonado. Nossas armas estão nas ruas, elas não matam ninguém. As crianças brincam com a violência nesse cinema sem tela que passa na cidade. Eu tenho tudo que você precisa e mais um pouco.

Eu ouvia essas coisas no meio de 300 mil pessoas numa noite quente e úmida nos confins da Barra em 1985, quando o Barão tocou no Rock in Rio, vindas daquela figura agitada e colorida, e tentava entender o que estava acontecendo com a gente, para onde estávamos indo, exatamente. Mamãe tá certa, eu me dei mal na escola, foda-se! Porra, o cara falava foda-se em público, para 300 mil pessoas. Isso tinha um significado, claro. Eu jamais diria foda-se na frente dos meus pais, embora tivesse vontade, muitas vezes. Mas aquele cara lá em cima falava, e até onde se sabia, estava passando na TV, meu pai e minha mãe ouviram aquele foda-se, outros pais e mães, também.

Já podia falar foda-se?

Isso, sim, era uma revolução.

E as coisas começaram a acontecer rápido a partir daquele foda-se. Desliga a razão da tomada, cantava Cazuza. Não se pode dizer que ele não fez isso. Namorou meninos e meninas, bebeu em quantidades industriais, o banheiro é a igreja de todos os bêbados, cantava, enlouqueceu no pó e no ácido, viveu como achava que tinha de viver, e morreu aos 32 anos num 7 de julho, em 1990, 25 anos atrás.

Daquele Rock in Rio até o dia de sua morte, Cazuza apresentou a Aids ao Brasil, encarou o capeta, espancou preconceitos, escancarou nossa hipocrisia. Do garoto que entendeu que podia falar foda-se no meio da multidão na Cidade do Rock, me transformei muito rapidamente num protótipo de adulto cinco anos depois, incapaz sequer de compreender na hora o que significava o fim da agonia daquele cara porque em 7 de julho de 1990 Argentina e Alemanha decidiam a Copa na Itália, eu era editor de Esportes do maior jornal do país e uma semana depois me casaria sem um tostão no bolso — meu patrimônio se resumia a um DKW e todo dinheiro que guardei preso no banco pelo presidente doido que ganhou a primeira eleição direta da minha geração. Como se vê, geração que teve de crescer rápido, sem tempo de ligar para as caras tristes que fingiam que a gente não existia.

A gente existia, e existe até hoje. Ainda assim, nosso futuro continua duvidoso.

O vídeo que acompanha esta breve lembrança dos 25 anos da morte de Cazuza foi gravado no Aeroanta em 1988, um show que hoje percebo ter sido histórico porque foi um dos seus últimos em São Paulo, fragilizado pela Aids, mas ainda em condições de cantar divinamente. Fui a esse show e é estranha a sensação de saber que entre aqueles braços que se levantam e as palmas que se ouvem estão os meus e as minhas. Cazuza soube que tinha Aids em 1987, e só foi assumir a doença em público em 1989, numa entrevista ao Zeca Camargo em Nova York. A gente trabalhava junto na “Folha”. Mas todos sabiam do que estava acontecendo. Cazuza não se escondeu, e não se escondendo não escondeu a doença. “A Aids é um complô contra a sacanagem e eu não admito acabar com a sacanagem em hipótese alguma”, disse ele em setembro de 1985. Cazuza não se rendeu ao complô, ainda que o preço tenha sido a morte. Que é bem menos perigosa que a vida.

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