N’ESPANHA (2)

RIO (não falta mais nada…) – Hamilton fez agora há pouco a 92ª pole da sua carreira. E pela 150ª vez larga na primeira fila de um GP. E pela 200ª vez um motor Mercedes — motor, gente, não equipe — parte da primeira posição do grid. Como Hamilton nunca guiou um carro com outro motor na vida, conclui-se rapidamente que quase metade das poles mercêdicas na categoria vieram pelas mãos do inglês.

O calorão continuou hoje em Barcelona, e todos estão achando meio esquisitas essas temperaturas acima dos 30°C porque, historicamente, o GP da Espanha é realizado entre o final de abril e o início de maio, com clima mais ameno — exceção para a primeira corrida no circuito catalão, em 1991, que aconteceu num 29 de setembro. A pré-temporada, que há anos é realizada em Montmeló (afinal, é Barcelona, Catalunha ou Montmeló? Os três, é apenas questão de estilo literário), também acontece com temperaturas bem mais baixas, no inverno europeu. Por isso pilotos e equipes estão tendo de aprender a lidar com o asfalto escaldante e reações um pouco diferentes de seus carros e, principalmente, pneus.

Nada disso, porém, incomodou a Mercedes até agora neste fim de semana. O time dominou todos os treinos e cravou 1-2 de novo, invicta em classificações na temporada. Foi um sábado de poucas surpresas e algumas confirmações em Barcelona. Surpresa, surpresa, a passagem de Kimi Raikkonen para o Q2 — tirando a Alfa da primeira degola pela primeira vez no ano. As confirmações vieram do lado de cima da tabela: Point Martin bem de novo, com Pérez em quarto e Stroll em quinto, Gasly mais uma vez fazendo milagre com a AlphaTauri e Vettel mostrando que tristeza não tem fim, empacando no Q2 com chassi novo e tudo.

Ah, e tem o Grojã, que não sabia como tinha ficado tão à frente ontem, e vai continuar sem saber. Degolado no Q1, larga em 16º, atrás de Magnussen, o 15º. Atrás deles ficaram na primeira fase da classificação Russell, Latifi e Giovinazzi. Tudo normal. O Q2 ceifou Vettel, Kvyat, Ricciardo, Raikkonen e Ocon. Decepção danada, a Renault.

Hamilton fez 1min15s584 na sua primeira tentativa de volta voadora no Q3 e, como a maioria dos que lutaram pela pole, não melhorou na segunda. O tempo da pole de Bottas no ano passado foi ligeiramente melhor, 1min15s406. Desta vez o finlandês ficou atrás, uma diferença minúscula de 0s059. Verstappinho, o terceiro, fechou o cronômetro a longínquos 0s708. Na sequência vieram Pérez, Stroll, Albon, Sainz, Norris, Leclerc e Gasly.

Bottas sabe que para tentar alguma coisa amanhã precisa apostar tudo na largada. A distância até a primeira curva é enorme e geralmente o pole-position tem alguma dificuldade para manter a posição. Precisa fazer um traçado defensivo que dá uma estragada na primeira sequência de curvas, mas se o sujeito consegue se segurar em primeiro até lá, as coisas se acomodam rapidamente. Barcelona não é uma pista muito divertida para quem gosta de ultrapassagens.

O que pode oferecer alguma emoção é a questão dos pneus, de novo. Vai largar todo mundo de macios, portanto para duas paradas — falo dos dez primeiros, claro; a turma de 11º para trás tem a chance de escolher compostos mais duros para o primeiro stint, podendo arriscar até um único pit stop. Os carros da Mercedes, como se sabe, não curtem muito asfalto quente e sua borracha costuma se degradar mais rapidamente.

Mas o time andou estudando depois dos problemas de Silverstone e fez ajustes aerodinâmicos para minimizar o problema. Na sexta, as longas sequências de voltas em simulação de corrida não foram ruins. O favoritismo amanhã é claro.

Ruim foi o dia da Ferrari, com Leclerc a 1s5 da pole e Vettel em 11º. Gola Profonda, meu informante, disse que o clima nos boxes era de conformismo. Mesmo Seb?, perguntei, sempre aplicando o golpe da falsa intimidade com o piloto. “Seb, como você o chama, tem sido muito colaborativo”, respondeu Gola, com incomum elegância e vocabulário pouco habitual.

Gostei do estilo, farejei notícia, e tentei aprofundar o tema. Colaborativo como? Tem feito sugestões de acerto, estratégia, essas coisas? “Mais do que isso, meu caro. Sebastian tem visão corporativa. Na nossa reunião pós-classificação, mencionou os novos rumos da indústria automobilística, indicou que o grupo tem de aproveitar as oportunidades, explorar o intercâmbio de tecnologia com as recentes fusões entre as fábricas, extrair o que de melhor cada uma tem. Até Charles parou de jogar Candy Crush para prestar atenção.”

Que interessante, prossiga, pedi — nos falamos por mensagens de WhatsApp, vocês sabem. “Pois então, Vettel foi ao seu motorhome, uma Kombi Safári que comprou de um cara de Osasco, e pegou um aparelho diferente. Charlito nunca tinha visto, mas eu conhecia, era um retroprojetor CSR novinho em folha, você sabe que conheço essas coisas porque fui monitor em escola pública nos anos 70 e a gente usava muito isso.” Retroprojetor? Quem ainda usa retroprojetor? Não era melhor aquele negócio chamado PowerPoint? “Sebastian disse que vai usar essas modernidades no momento apropriado. Parece que está preparando uma denúncia séria, mas não posso falar sobre isso agora.” Eita, falei. “Eita?” É só uma expressão, Gola. Mas continue, o que ele mostrou no retroprojetor? “Fez uma apresentação bonita sobre a história de fábricas de automóveis que se uniram no passado, de como essas fusões renderam frutos para várias marcas, grandes sucessos de mercado, evolução tecnológica, novos sistemas de produção, desenvolvimento de peças e componentes, para então mostrar o que, segundo ele, os engenheiros daquela empresa americana que a Fiat comprou mandaram para ajudar no carro do ano que vem.” Ah, o pessoal dos EUA está colaborando, é?, perguntei. E você tem esse projeto? “Te mando em seguida.”

Aí chegou a foto.

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