N’ISTAMBUL PARK (1)

N

RIO (deslizando) – O primeiro dia de treinos para o GP da Turquia foi marcado por uma rara unanimidade: todos os pilotos disseram que nunca, na vida, andaram numa pista com tão pouco “grip”.

(“Grip” é palavra que a gente traduz como “aderência”, mas que já tem cancha suficiente para ser aportuguesada. “Grip” tem sonoridade, é quase uma onomatopeia. Vocês não conseguem ouvir um pneu fazendo “griiiip” quando “cola” no asfalto? Eu consigo. E um anglicismo a mais ou a menos no automobilismo, que diferença faz? A gente já diz grid, pit stop, safety-car, pneu slick pitlane, stop & go, drive-through, nem aspas uso nesses termos… Acho que vou adotar o grip. Sem aspas. Apenas acho. Depois decido sobre isso.)

Alguns disseram ter tido a sensação de andar no gelo. Outros se espantaram com a absoluta falta de — vá lá — aderência apesar dos monstruosos pneus slick da F-1. Para piorar, na noite de ontem resolveram lavar o asfalto que foi refeito no circuito turco. Como fez frio e o dia foi nublado, com a temperatura mal passando dos 15°C, não secou direito. E o primeiro treino livre começou como se vê na foto abaixo:

Pista molhada no início: menos “grip” ainda…

OK, acontece, todos fizeram o melhor possível, mas podemos, sim, criticar os organizadores da corrida. Pelo exagero. Faço coro a Hamilton, que reclamou do desperdício de “milhões”, como disse, para recapear um circuito que poderia apenas ter sido lavado por causa dos anos sem uso. “Ficou uma merda com M maiúsculo”, resumiu o inglês.

Sim, por que gastar dinheiro com isso? Se havia algum buraco, alguma falha, um degrau, uma zebra lascada, algum ponto especialmente problemático, enfim, que fosse pontualmente arrumado. Tempo para vistoriar a pista houve. Asfaltar tudo de novo? Precisava mesmo? Para uma única corrida? Até onde sei, o autódromo tem sido usado nos últimos anos para feiras de carros usados e coisas do tipo. E, pelo jeito, vai continuar. A Turquia não está no calendário de 2021. E desde a última corrida lá, em 2011, nunca mais falaram num GP em Istambul. O que significa que está fora dos planos para o futuro.

O que é uma pena. O traçado é maravilhoso e as sete corridas disputadas lá, entre 2005 e 2011, deixaram ótima impressão. E muita gente nem se lembra delas… Do lote atual da F-1, apenas quatro pilotos disputaram GPs na Turquia: Hamilton (que venceu em 2010, de McLaren), Vettel (vencedor em 2011, pela Red Bull), Pérez e Raikkonen. Desses, Kimi não esteve nas duas últimas edições. Em 2010 e 2011, o finlandês foi se aventurar no Mundial de Rali. Mas já havia ganhado lá em 2005, com a McLaren, na prova inaugural de Istambul. Ricciardo também esteve em Istambul em 2011, mas apenas como terceiro piloto da Toro Rosso, para participar dos treinos livres da sexta — os titulares eram Buemi e Alguersuari.

O piloto mais bem sucedido no circuito turco até hoje é Felipe Massa, que venceu três seguidas com a Ferrari, entre 2006 e 2008. Sua primeira vitória na F-1 aconteceu lá, inclusive. E ele fez as poles nessas três edições, também. Felipe tinha uma relação muito especial com este ponto do planeta que separa a Europa da Ásia.

Raikkonen: vencedor em 2005 com a McLaren, na primeira prova na Turquia

A pista estava tão horrorosa hoje em termos de “grip” — ainda não me decidi sobre as aspas — que a maioria dos pilotos tirou coisa de 10 segundos entre os melhores tempos da manhã e os melhores da tarde. Raikkonen, por exemplo, fechou a primeira sessão tendo feito sua volta mais rápida em 1min41s035. Na segunda, virou 1min31s932. Kvyat saiu de 1min36s738 para 1min29s689. É muita coisa.

Quem não se dá bem nessas condições é a Mercedes, que tem dificuldades para atingir a temperatura ideal do funcionamento dos pneus. Como a Pirelli escolheu a gama mais dura para Istambul, sem saber direito o que iria encontrar em termos de piso, a coisa foi ainda pior. Resultado para os mercêdicos: terceiro e quarto lugares, com Bottas a 0s575 do líder Verstappen e Hamilton ainda mais distante, a 0s850 — Leclerc foi o segundo. A equipe alemã, como se sabe, não é tudo isso mais lenta que a Red Bull. Mas nessas condições esquisitas, pode acabar sendo. Azar dela e de seus pilotos.

Mercedes: dificuldades com os pneus no asfalto novo de Istambul

O quadro para a dupla que lidera o Mundial não é dos mais favoráveis para amanhã. A previsão é de chuva para o sábado, o que deixará as coisas ainda mais complicadas no escorregadio asfalto turco. E impedirá que a pista fique emborrachada para domingo, na corrida, que deve ser disputada com tempo seco, mas sem calor.

Resumindo, vai ser um fim de semana bem complicado, do ponto de vista da Mercedes. Pela primeira vez no ano, seus pilotos não são os favoritos absolutos num GP. Ao contrário, o favoritismo nessas condições recai ligeiramente sobre Verstappen, que anda muito bem no molhado e consegue se virar com a temperatura de sua borracha. Se Hamilton e Bottas conseguirem virar o jogo em cima de Verstappinho, será resultado de muito trabalho — deles e de seus engenheiros.

É bom lembrar que Lewis pode se consagrar heptacampeão neste fim de semana. Se ganhar a corrida, leva a taça e se iguala a Schumacher. Há muitas outras combinações, claro, que lhe dão o título — todas dependendo da posição final de Bottas. Mas para não ficar cansativo, fiquemos só com essa, que é mais fácil de lembrar.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

13 Comentários

  • Flavio Gomes,e um prazer sou assiduo do Fox Sports e de longa data o Edgar Mello,gostaria de entender que a globo nao quer renovar com a Liberty por 22 milhoes de dolares sendo que ela vendeu 5 cotas de patrocinio em 2020 e ganhou 498 milhoes de reais nas minhas contas sobra no minimo 350 milhoes.

  • O recapeamento da pista foi feito com asfalto comum, de estrada, aparentemente por uma empresa italiana especializada nisso. Porque eu nem imagino. É a causa da pouca, ou nenhuma, aderência. Para piorar – por questões de segurança -, acho que por causa daquela sequência de curvas velozes à esquerda, a Pirelli proibiu pressões de pneus abaixo de 20/23 psi, o que é muita pressão. Como se sabe as equipes abusaram muito de pressões perigosamente baixas no passado (Indianápolis, Silverstone), agora em certas pistas e/ou condições a Pirelli proibi a prática.

  • Sobre a desnecessária obra no circuito turco, a resposta é simples e direta:
    Foi tudo bancado pela F1, então tiveram a brilhante idéia:
    Remendar para que, se é possível recapear inteiro com custo zero?

  • Acho que a gente poderia reduzir ou eliminar os anglicismos. Para que “grid” se temos posições, para que “grip” se temos aderência, para que “pit stop” se temos parada, para que “safety-car” se temos carro de segurança, para que pneu “slick” se temos pneu liso (o brasileiro pensa que pneu careca é pneu liso), para que “pitlane”, para que “stop & go” se temos pare e siga, para que “test drive” se temos teste de direção e, por fim, para que “deletar” tempo se temos apagar! Acho que o povo brasileiro precisa de tomar uma dose de orgulho da Língua Portuguesa e aceitar menos anglicismos (só não precisa de fazer a besteira de dizer que, quando acabar a saliva, tem de mostrar a pólvora – só sendo muito ignorante, burro, inconsequente, etc. para isto).

    • Concordo 100% contigo. Acrescento somente que poderíamos abolir o termo “americanos” quando nos referimos aos estadunidenses, inclusive aqui no Grande Prêmio pelos seus redatores oficiais. Não é questão de ufanismo bobo e sim que não temos que colher a consequência de terem criado um país com nome genérico (Estados Unidos da América), nos fazendo perder nossa identidade continental (Sul-americano equivale a Europeu Ocidental ou “do sudeste asiático”, não é uma relação com nosso continente). Se houvesse um município em emancipação por aqui, sugeriria o nome “Terra” para essa nova cidade, somente para poder escrever algo como: “Nesta manhã uma paulista e um terrestre irão casar na igreja da praça” (para demonstrar como é ridículo um país americano escrever “que as eleições americanas estão quase terminando sua apuração”).

      • Quer dizer que se eu aportuguesar o “grip”, que significa aderência, e dizer que estou “gripado”, isso significa que eu estaria “colado ao chão”?

      • Angelo, apoiado. Existem 35 países na América (continente) e todos são americanos. Estadunidense é o termo mais apropriado para Estados Unidos. Por fim, gostei da sua ideia: uma cidade chamada de Terra! Apoiado.

  • F1 é para adultos ou para crianças??? O que essas crianças querem, modo “jogável” como no videogame?
    Se estão achando difícil, vão calibrar uma pilha de pneus de trator.

    No fundo eu acho que esses perebas estão se fazendo de ingênuos. Todo mundo sabe que a FIA mandou passar piche prá ficar mais divertido, igual Mugello, Portimão etc

Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
ASSINE O RSS

Categorias

Arquivos

TAGS MAIS USADAS

Facebook

DIÁRIO DO BLOG

novembro 2020
D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930