“FOLHA”, 100

SP 29.03.90

Da: Direção de Redação

Sobre: Editoria de Esportes

          Comunico que a partir da data de amanhã o editor-adjunto de Esportes, jornalista Flavio Gomes, está efetivado nas funções de editor.

Otavio Frias Filho

Diretor de Redação

O comunicado foi pregado com uma tachinha, como era praxe naqueles tempos, no mural de avisos que ficava no quarto andar do número 425 da alameda Barão de Limeira, região central de São Paulo, em cuja porta de entrada, afixada na fachada de pastilhas já pintadas de amarelo claro, uma placa de metal informava aos passantes que ali ficava a Empresa Folha da Manhã S.A.

As oito linhas do texto, incluindo cabeçalho e assinatura, ocupavam menos da metade da lauda de papel jornal, numerada verticalmente de 1 a 20 nas duas margens e, no alto, de 1 a 6 — encimados por sete blocos de números que determinavam a quantidade de toques por linha indicados a quem fosse datilografar alguma coisa naquela folha.

Acima dos blocos de números, um espaço exíguo para o autor escrever seu nome, a matéria e a numeração da lauda. No rodapé, as recomendações bem detalhadas: 1) Escrever à máquina em 3 espaços, bem em frente ao número das linhas e sem transpor os limites do retângulo. 2) Preencher os claros do cabeçalho da lauda e acrescentar um X (pé) à última delas, após a numeração. 3) Principiar os parágrafos a 5 espaços da margem esquerda e concluir todos eles, sempre que possível, na mesma lauda em que foram iniciados. 4) Evitar frase de mais de 5 linhas. 5) Em cada lauda, no mínimo 2, no máximo 4 parágrafos, e no mínimo 1 e no máximo 2 intertítulos. 6) Corrigir a matéria antes de entregá-la. 7) A máxima clareza nas emendas.

Já não se usavam laudas na Redação da “Folha” em março de 1990. O jornal estava informatizado e todos dispunham de terminais de computador com telas de fósforo, nos quais era possível apenas escrever e arquivar textos. Mas até pouco tempo antes, era das laudas que saíam as matérias datilografadas por repórteres e redatores que, então, passavam ao pessoal da digitação, os primeiros a usar computadores no começo da década de 1980 do século passado. Quando toda a Redação foi equipada com aqueles estranhos monitores e seus teclados semelhantes aos de uma máquina de escrever, as laudas foram sendo aposentadas aos poucos.

Digo aos poucos, porque devem ter sobrado pacotes e mais pacotes daquelas folhas numeradas e cheias de recomendações. E sendo assim, elas deixaram de ser usadas para a nobre missão de levar notícias ao mundo e foram relegadas ao ostracismo dos comunicados internos, ainda datilografados, e à serventia como rascunho. Laudalândia, o longínquo país de onde vinham as laudas, deve ter-se tornado um lugar muito triste com a decadência de seu mister. Ninguém mais se importava com sua graduação em linhas e toques, muito menos com as recomendações do rodapé.

Só que naquele dia 29 de março de 1990, a lauda presa ao quadro de avisos com suas oito linhas, incluindo o cabeçalho, era a confirmação por escrito que eu tinha virado alguém na vida. Aos 25 anos de idade, três anos e pouco depois de entrar naquele prédio pela primeira vez, passaria a comandar formalmente uma equipe de vinte e poucos jornalistas na editoria de Esportes do maior jornal do país.

Era uma quinta-feira, e eu tinha passado boa parte da semana anterior em Interlagos, que voltara a receber uma etapa do Mundial de Fórmula 1 naquele fim de semana. No dia 23, quando voltei do autódromo para o jornal, a Redação estava em polvorosa. Por volta das 15h30, agentes da Polícia Federal haviam invadido o prédio e queriam prender os diretores da “Folha” sob a acusação de irregularidades na troca de faturas emitidas em cruzados novos por outras em cruzeiros. Fernando Collor de Mello tinha acabado de assumir a Presidência da República e elegeu o jornal como um de seus inimigos.

“Considero a invasão de uma violência estúpida e ilegal. Por trás dos esbirros policiais está Collor de Mello, a quem não reconheço como presidente da República, mas como usurpador vulgar da Constituição”, declarou Otavio Frias Filho, nosso diretor de Redação, que passaria as horas seguintes debruçado sobre o teor do editorial que seria publicado na Primeira Página do sábado, 24, sob o título “A escalada fascista”.

Em dias como aquele, a iminente nomeação de um garoto de 25 anos como editor de Esportes não era exatamente o assunto dominante das conversas na Redação barulhenta, enfumaçada e vibrante da Barão de Limeira. Por isso, ninguém notou quando alguns dias depois retirei a lauda do quadro de feltro pregado na parede do hall de entrada da Redação, dobrei cuidadosamente e coloquei no bolso de trás da calça. Tampouco minha promoção era uma surpresa. Desde setembro de 1989 eu ocupava a função interinamente, porque nosso editor Alon Feuerwerker tinha sido deslocado para a editoria de Política para reforçar a equipe que fazia a cobertura das eleições presidenciais. E por lá ficara. Assim, acabei efetivado.

Gosto de estabelecer alguns nexos em episódios como esse, ainda que eles existam apenas na minha cabeça. Poucos dias depois de escrever o editorial mais eloquente da história recente do jornal, Otavio perdeu alguns minutos assinando o comunicado que me elevava ao cargo que eu imaginava o maior possível na hierarquia da “Folha” – nunca achei que tinha perfil para muito mais que aquilo.

Todos ficamos chocados com a invasão do jornal pela tropa collorida e no sábado, quando cruzei rapidamente com Otavio na Redação, disse a ele que Collor havia confirmado que iria ao GP e participaria da cerimônia de pódio, e que a única vez que isso tinha acontecido antes fora numa corrida extra-campeonato disputada em Brasília em 1974. O presidente, na ocasião, era o carniceiro Emílio Garrastazu Médici, que entregara o troféu a Emerson Fittipaldi, o vencedor. “E tem foto disso?”, perguntou. “Eu arrumo”, respondi. “Boa.”

“Boa” era a senha para “vai em frente” na “Folha”. Não foi difícil encontrar a imagem no Banco de Dados, e ela foi publicada abaixo da retranca que informava que Collor iria a Interlagos. A associação entre ele e Médici carregava alguma sutileza, mas era clara. Por isso Otavio falou “boa” quando dei a ideia, embora aquilo fosse irrelevante diante da crise entre o governo e o jornal – era apenas uma alfinetadinha, uma maneira que encontrei de, de alguma forma, mostrar que o caderno de Esportes não estava alheio a tudo que vinha acontecendo.

A “Folha” fez 100 anos hoje, e passei oito deles dentro daquele prédio. Não posso reclamar. Se minha carreira tivesse se resumido àqueles oito anos, seria alguém plenamente satisfeito com o ofício, apenas por ter feito parte daquele momento do jornalismo brasileiro. Profissionalmente, nunca trabalhei tanto. E nunca fui tão feliz.

Quando folheio meus arquivos, uma dezena de pastas com recortes de cada palavra que deixei impressa nas páginas da “Folha” entre novembro de 1986 e maio de 1994, organizados por data e editoria, mês a mês, com estatísticas inacreditáveis (em Educação e Ciência, por exemplo, onde fiquei até janeiro de 1988, publiquei 606 textos), volto no tempo com uma alegria e um orgulho infinitos.

Sinto o cheiro do papel, sujo meus dedos na tinta que parece nunca secar, escuto o ruído ensurdecedor das rotativas que ficavam no andar térreo expondo suas entranhas através de uma enorme parede de vidro, me vejo parado ali observando o jornal rodando, como fiz tantas vezes, para pegar os primeiros exemplares, conferir se estava tudo no lugar, eventualmente voltar correndo ao quarto andar para corrigir algum erro para o segundo clichê, e depois caminhando até o estacionamento nos fundos do prédio onde meu pequeno Gol branco – carro cedido aos editores – me esperava entre kombis abarrotadas com pacotes de jornal amarrados com barbante, e saía pela Barão de Limeira já escura e deserta, dobrava à direita na rua Aurora, passava em frente aos cinemas e teatros pornôs, contornava a Praça da República, pegava a avenida São Luís, encostava no meio de outras kombis que se preparavam para distribuir o “Diário Popular” saído das oficinas da Major Quedinho, sentava no balcão da lanchonete Estadão, pedia um sanduíche de pernil e um guaraná, e devorava o jornal do dia seguinte com uma satisfação de literatura – eu me sentia assim, um personagem dos livros que lia e que um dia talvez pudesse escrever.

O jornalismo é o rascunho da História, e por oito anos rascunhei um pedaço dela naquelas páginas que hoje completam um século. Nunca mais voltei ao prédio da Barão de Limeira, mas sonho frequentemente com ele, sonhos estranhos em que subo ao quarto andar por um elevador de carga que nem sei se existe, e quando entro na Redação me vejo desorientado, procurando a mesa onde me sentava, que tinha uma Olivetti Lexicon cinza embutida na qual, valendo-me das laudas de rascunho, escrevia as pautas e os relatórios diários, e as imagens vão se esfumaçando e tudo aquilo desaparece, como em qualquer sonho recorrente que nunca termina.

Alguém me contou um dia que numa das reformas pelas quais passou o quarto andar fizeram uma galeria com Primeiras Páginas históricas do passado, algumas delas devem ter sido aproveitadas entre as que ficavam penduradas na sala de reuniões – lembro de uma, não sei por quê, que anunciava que o divórcio havia sido aprovado no Brasil –, mas é claro que de 1994 para cá muitos outros eventos marcaram o jornalismo, como o 11 de setembro, a eleição de Lula, o 7 a 1 da Alemanha, as notícias vão se sucedendo, umas substituem as outras, e assim é.

Mas tem uma delas que permanece intocada, a da edição de 2 de maio de 1994, cuja manchete é a mais direta e objetiva possível, “Acidente mata Ayrton Senna”, e o texto da capa leva a assinatura do enviado especial a Imola, o menino que de alguma maneira, pois, continua lá dentro depois de tanto tempo.

Parabéns, “Folha”, pelos seus 100 anos. E obrigado por tudo.

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Comentários

  • Que coisa linda ver que ainda existe gente que sabe escrever. Daria para continuar lendo esta história por muito tempo, se você quisesse contá-la. O melhor de tudo é vê-lo contando uma história sua, sem que você se considere e se coloque como o centro do universo, ainda mais num universo em que orbita este planeta, cada vez mais plano, de ideias cada vez mais rasas. Sou seu fã. Parabéns!

  • O texto tem tantos detalhes preciosos que a viagem de volta ao passado é inevitavel. Nāo acredito ter lido todos os 606 textos de Educação e Ciência mas cheguei perto. Mas tenho cacife para apostar 1 bilhão que cheguei a ler todos os seus textos de Esportes. Morava em Recife na década de 80, a programação de domingo era fixa, curar a ressaca do sábado pegando uma praia em Boa Viagem em frente ao Hotel Vila-Rica, tomando cerveja na barraca de Rafael. Um longo cochilo em casa a tarde até a hora de acordar para voltar a Boa Viagem para pegar a Folha de domingo, disputada a tapas na Banca Conselheiro Aguiar. Eu lia o calhamaço da Folha de domingo de cabo-a-rabo, classificados, tudo. A Folha da segunda também. A primeira conversa no trabalho na segunda-feira de manhã, era escutar opiniões sobre os editoriais, reportagens, resenhas da Folha. Ei, que achou da coluna de Janio de Freitas? Eita, nem li ainda mas lerei de noite. Eu só jogava fora a Folha de domingo, na terça. Eu sinto uma sensação de dever cumprido por ter lido tanta Folha na decada de 80. Imagine a sua sensação, então, por ter feito a Folha. Tenho certeza que li A Escalada Fascista, preciso achar para re-ler pois deve estar mais atualizado do que nunca, não é ? Obrigado pelo ótimo texto.

  • Mais um texto absolutamente brilhante como tantos outros seus. Sou muito seu fã, Flávio e eu comprava a Folha única e exclusivamente pra ler as suas matérias. Parabéns por este texto e por toda sua incrível carreira

  • Lembro que quando o Otavinho morreu, você, o Luis Nassif e poucos outros da esquerda souberam tratar do assunto com serenidade. Muita gente da gente optou por sambar na vingança. Méritos maiores para o Nassif que foi mais machucado nos episódios acontecidos depois que o Frias Filho assumiu no lugar do “seo” Frias.

  • Parabéns sim Folha! Que nunca acabe o jornal impresso, que pego às 6h na portaria do meu prédio na Vila Mariana, já com a história do jogo que acabou 23h30 da noite anterior. Acho isso um assombro de tecnologia! Bem, faz muitos anos que prefiro o Estadão. Acho que você já disse que não seria cronista do Estadão, né FG? Eu gostaria de te ver ao lado de Eugênio Bucci, Flavio Tavares, Loyola Brandão, Sérgio Augusto, Eliane Cantanhede…

  • Parabéns, meu amigo! Parabéns pela história, e obrigado por fazer parte da história e compartilhá-la conosco. Quem já folheou um jornal um dia, sabe o prazer que dava virar cada página, saber dobrá-las para ler, e mais que isso, o prazer que sentíamos ao ler linhas tão bem escritas. O que nos fazia escrever, se não tão bem, ao menos certo, ao contrário dessa juventude que escreve “concerteza” tudo muito errado pela falta do hábito da leitura dos nossos antigos jornais. Abraços!

  • Texto delicioso que me fez voltar no tempo, em uma São Paulo que nos permitia caminhar nas ruas de madrugada. Você realmente é um craque na distribuição das palavras. Parabéns pela promoção. Abraço