BELLA CIAO (2)

Bottas: medalha (feia) no peito, último no grid

SÃO PAULO(bem feito) – É o que dá querer adivinhar o futuro. Ontem escrevi aqui que Lewis Hamilton ganharia a Sprint de Monza, empataria com Max Verstappen na classificação se o holandês não ficasse entre os três primeiros da minicorrida e largaria na pole para o GP da Itália para vencer a prova com facilidade. Restaria à Red Bull tentar reduzir ao máximo o prejuízo numa pista onde a Mercedes é muito favorita.

Mas o jogo virou. Deu tudo errado hoje para a Mercedes e Hamilton, e tudo certo para a Red Bull e Verstappen. A ponto de, logo depois da Sprint, Lewis sacramentar o prognóstico: “Max vai ganhar fácil amanhã”. E aquele que a esta altura poderia ser um empate na classificação, se Hamilton tivesse obedecido o roteiro mais provável para o sábado de Monza, virou um aumento na diferença de pontos entre ele e Verstappen na tabela, de três para cinco: 226,5 a 221,5.

Valtteri Bottas venceu a Sprint a partir da pole-que-não-é-pole de ontem, fazendo os três pontos que a corridinha dá ao ganhador. Max chegou em segundo e ficou com dois. Daniel Ricciardo, da McLaren, terminou em terceiro e levou o último pontinho. Hamilton chegou em quinto, atrás ainda de Lando Norris. E, para piorar seu dia, a Mercedes trocou tudo no motor de Bottas, que terá de largar em último. Assim, a pole-position para o GP da Itália foi herdada por Verstappen, o segundo colocado na Sprint. Por isso que o holandês, que pela 11ª vez na carreira larga na pole, “vai ganhar fácil”, de acordo com seu grande adversário na temporada.

Como se sabe, a Sprint determina o grid para a corrida de verdade, do domingo. Analisando seu resultado final depois de 18 voltas, pode-se dizer que Hamilton foi o maior perdedor do dia, caindo do segundo lugar original para a quarta colocação no grid amanhã. E não marcou nenhum ponto. Considerando que Bottas, o primeiro de ontem, teria de largar em último de qualquer jeito pela troca de motor, a coisa foi ainda pior para Lewis. Se terminasse a Sprint em segundo, por exemplo, herdaria a pole do companheiro e teria sua vida bem facilitada para vencer mais uma na temporada. Agora, terá à frente na largada de amanhã, além de Verstappen, mais dois carros da McLaren para atrapalhar.

Teve gente que despencou ainda mais em relação às posições obtidas ontem na classificação, mas não lutam pelo título. Daí considerar Hamilton o grande derrotado do sábado quente e ensolarado de Monza. Isso só aconteceu porque a largada de Hamilton na Sprint foi um desastre. E os planos de colocá-lo na ponta logo no início, com a ajuda de Bottas, foram por água abaixo nos primeiros metros da corrida.

Marcell Jacobs no grid: largou melhor que Hamilton

O medalhista de ouro nos 100 m rasos em Tóquio Marcell Jacobs, que aparece na foto acima pronto para “largar” à frente do grid em Monza, provavelmente teria partido melhor que Hamilton. A pé. Jacobs, que nasceu no Texas (EUA) mas é filho de mãe italiana, compete pela Itália e foi uma das grandes surpresas das últimas Olimpíadas. Depois dos salamaleques costumeiros às celebridades convidadas para um GP, a miniprova começou.

Patinando loucamente quando as luzes se apagaram, Hamilton caiu para a sexta posição de cara, sendo ultrapassado por Verstappen, Norris, Ricciardo e Pierre Gasly. Tentou se defender de Lando pela direita e viu os outros três passando pela esquerda. O francês da AlphaTauri foi outro que se deu mal. Na primeira chicane, tocou a asa dianteira na roda traseira do McLaren de Ricciardo, a peça quebrou e ele foi direto para a barreira de pneus na Curvone. Sexto lugar ontem, o que seria uma ótima posição de largada, Gasly abandonou e terá de partir em 19º, ou dos boxes.

O safety-car foi acionado e na relargada, na quarta volta, Bottas disparou na frente e nada de mais interessante aconteceu. Não foi uma boa Sprint, embora o propósito inicial da novidade tenha se cumprido. Das 20 posições determinadas pela classificação de ontem, apenas duas se mantiveram: Vettel em 11º e Schumacher em 18º. O resto do grid foi embaralhado. Veja abaixo as posições originais e as novas, após a corridinha de hoje –em negrito, aqueles que avançaram no grid:

  1. Bottas > 20
  2. Hamilton > 4
  3. Verstappen > 1
  4. Norris > 3
  5. Ricciardo > 2
  6. Gasly > 19
  7. Sainz > 6
  8. Leclerc > 5
  9. Pérez > 8
  10. Giovinazzi > 7
  11. Vettel > 11
  12. Stroll > 9
  13. Alonso > 10
  14. Ocon > 12
  15. Russel > 14
  16. Latifi > 13
  17. Tsunoda > 15
  18. Schumacher > 18
  19. Kubica > 17
  20. Mazepin > 16
Hamilton: da pole que seria herdada a quarto no grid

Nem todo mundo largou com pneus macios para a Sprint, como se imaginava. No fim das contas, os médios foram a opção preferida — e cautelosa — da maioria, incluindo os que estavam na frente, como a dupla da Mercedes e Verstappen. A McLaren arriscou e se deu bem com os dois pilotos optando pela borracha mais aderente.

Ricciardo, que parte do segundo lugar amanhã graças à punição de Bottas, não largava na primeira fila desde o GP do México de 2018. Ele fez a pole para aquela prova e curiosamente teve ao seu lado o mesmo Verstappen, então seu companheiro de Red Bull. A McLaren, em segundo e terceiro, terá sua melhor posição de largada desde o GP do Brasil de 2012, que teve Hamilton e Button na primeira fila em Interlagos.

Ricciardo e Verstappen: primeira fila como no México/2018

Max vai precisar tomar alguns cuidados na largada amanhã. Ricciardo está louco por um pódio. Por uma vitória, então… Mas ninguém deve esperar nenhuma maluquice do australiano, que é um dos pilotos mais limpos e éticos do grid. O holandês disse que não se assusta muito com a McLaren, especialmente se conseguir passar em primeiro nas curvas 1 e 2. “Nosso ritmo é melhor. Mantendo a liderança depois da primeira chicane, acho que não temos de nos preocupar com eles. Mas é óbvio que Daniel não tem nada a perder numa luta por posição ali”, falou o líder do campeonato.

As poucas disputas, com nada de muito interessante acontecendo na pista na meia hora da Sprint, reacenderam a discussão sobre a validade do formato introduzido neste ano, que já teve uma edição em Silverstone e terá a terceira — e última — em São Paulo. Ross Brawn, diretor-técnico da Liberty, falou que em conversas com os pilotos percebeu que alguns gostariam, pelo menos, que mais gente fizesse pontos na corridinha. Outros comentaram sobre uma certa esquizofrenia estatística, lembrando que Bottas, mesmo tendo feito a pole ontem e ganhando hoje (o que lhe daria a pole-position real para amanhã), não incluiu pole alguma em seu currículo porque terá de largar em último após a troca do motor. “Não serve pra nada”, resmungou Pérez. Alonso, por sua vez, disse que está ótimo desse jeito, e que apenas chamaria a corrida de sábado de Q4.

Bottas festeja na mureta: duas poles que não valeram nenhuma

Alguns ajustes podem ser feitos no futuro, é o que concluiu Brawn. Mas é recomendável que se espere pela terceira edição da Sprint para, então, avaliar o conjunto da obra. De qualquer maneira, para o bem ou para o mal, a Sprint de hoje serviu para inverter o favoritismo de uma corrida. Até a hora do almoço, era todo da Mercedes. No fim da tarde, mudou de mãos para a Red Bull. Hamilton que se vire, agora. E Verstappen, que aproveite.

Sobre tudo isso e mais um pouco falaremos hoje à noite na nossa live, que volta ao horário tradicional das 19h no meu canal youtúbico. É só entrar aqui, ativar as notificações e pronto!

Comentários

  • Sérgio Maurício chegou a errar ao falar na décima vitória do Bottas. Verstappen parece ser o homem mais sortudo do Mundo agora depois de ficar com duas vitórias seguidas (uma em casa na Holanda) e levar a Pole depois da penalidade do Bottas.

  • Flávio, olá. Se for possível, dê um esclarecimento. Ontem você escreveu ” Foi o de sempre em Monza em classificações: todo mundo atrás de um vácuo”, hoje, na matéria “Corrida sprint é dispensável, mas muda GP da Itália e expõe dilema de Red Bull e Mercedes”, do Grande Prêmio, tem o seguinte “e essa condição ampliou a turbulência de quem vem atrás”.
    A dúvida é: quando é vácuo, e quando é turbulência? Esse tipo de situação já apareceu outras vezes, de cabeça lembro uma largada do Vettel e do Leclerc, pela Ferrari, em que o Vettel pegou o vácuo, depois ficou difícil para o Leclerc por causa da turbulência.
    Grato.

    • Vácuo se pega em reta, menos resistência do ar porque o carro da frente abre um “túnel”. Em curvas, esse ar fica turbulento e prejudica a ação sobre as asas, deixando o carro instável.

  • Essa corridinha foi patética: após a briga por posições na largada cada um manteve-se na pista poupando o equipamento.
    Uma mudança na classificação poderia ser a eliminação do Q2: rifem-se 10 pilotos no Q1 (em vez de 5) e mantenha-se o Q3 como atualmente.

  • Patrão ainda deu sorte que o coitado do Gasly se ferrou por causa do bico quebrado. Tinha tudo pra levar a corrida tranquilo, mas, provavelmente, terá que ver o Verstapen sumir lá na frente.

  • Se não me engano as Sprint foram criadas para o que aconteceu hoje. Criar uma situação que o acaso pode gerar grande surpresas. Podemos chamar de acaso de “embreagem do Hamilton”.

    Obs.: Hamilton não pode reclamar de nada, principalmente depois de Silverstone e Hungaroring… quem pode falar que ele não foi o maior privilegiado pelos “acasos” acontecidos por lá… no mínimo seriam mais 25 pontos a serem creditados no placar do Max.