SCHUMACHER

A “noiva” Schumacher: sempre sorrindo (crédito: Thais Lessa Carneiro)

SÃO PAULO(não percam) – Quase todas as vezes que vi Schumacher ele estava sorrindo. Não é muito difícil entender por quê. Nos primeiros dias, chegava à Fórmula 1 meio por acaso espantado, feliz, quase incrédulo. Logo depois estava com um carrinho melhor, e já no ano seguinte vencia sua primeira corrida, e um pouco adiante já era bicampeão mundial. Aí, desembarca na equipe mais popular do planeta, abraça um desafio que não era para qualquer um, tira o time da fila, conquista cinco títulos vestido de vermelho, vira um deus para a torcida mais apaixonada do mundo, e quando decide parar está plenamente realizado. Num gesto de gratidão, volta três anos depois para emprestar sua sabedoria a quem lhe deu a primeira chance, faz o que tinha de fazer e sai de cena sob aplausos calorosos de todos.

Para quem catava pneu usado no lixo para correr de kart na pista em que o pai era uma espécie de gerente-zelador, puxa vida… Era, sim, o caso de olhar para trás e dizer: acho que sou um cara feliz. E gente feliz sorri.

Essa foto aí no alto nunca tinha sido publicada antes. Aliás, se alguém for reproduzir, favor dar o crédito: Thais Lessa Carneiro. Não lembro direito o ano, acho que foi em 2003. O lugar eu sei. Era o hotel onde a gente ficava em Madonna di Campiglio, nos Alpes Italianos, que a Philip Morris fechava todo começo de ano para o Wrooom, evento de apresentação das equipes de corrida que patrocinava. Ferrari, basicamente. Às vezes aparecia alguém da MotoGP.

Algumas dezenas de jornalistas eram convidados para o Wrooom, que consistia em eventos oficiais — como entrevistas coletivas e promoções de patrocinadores –, outros de puro lazer — jantar no alto de alguma montanha para descer de esqui carregando tochas, aulas de snowboard, almoços soberbos com os picos nevados como cenário — e mais alguns fora do roteiro. Entre esses últimos, baladas épicas e fins de noite regados ao que tivesse no bar.

Foi em um desses finais de noite que nos juntamos num dos pequenos salões do hotel para mais uma dose, e mais outra, e mais outra, inimigos do fim que éramos, quando Schumacher apareceu vestido de noiva, colocou uma saia na cintura de Barrichello e tirou o parceiro para dançar, rindo sem parar, enquanto um amigo brasileiro do Rubinho tocava qualquer coisa no piano.

(Não eram tempos de celulares com câmeras, muito menos de redes sociais e aplicativos de transmissão ao vivo. Toda hora é preciso lembrar disso, porque muitas pessoas parecem acreditar que essas coisas sempre existiram, o que leva a uma certa indignação quando se deparam com imagens inéditas e “inexplicáveis” diante da lógica instagrâmica ou tik-tókica de enxergar o mundo.)

Caímos todos na gargalhada e a Thais, minha mulher na época, estava com uma pequena máquina analógica de filme 135. Tirou três fotos e continuou se divertindo, como todos nós. Era apenas o registro de um momento feliz. Eu nem reparei na hora que ela tinha batido as fotos.

No dia seguinte, porém, o assessor de imprensa da Ferrari, Luca Colajanni, me procurou no café da manhã com seu jeito urgente e dramático. “Flavio, Flavio, pelo amor de Deus, você fotografou Michael de noiva?”, perguntou. “Eu não, mas a Thais, sim”, respondi, caindo na gargalhada de novo, e ela também.

Luca estava morrendo de medo de que aquelas fotos fossem publicadas. Era a imagem dele, a imagem da Ferrari, oh, não!, oh céus!, o que vamos fazer agora?, e diante daquele desespero todo falei que já tínhamos vendido para os tabloides ingleses, era tarde, o que o deixou ainda mais apavorado. Então, com medo de que tivesse um infarto, dei a bronca sincera. “Luca, vaffanculo, você parece que não conhece a gente!”, disse, o que pareceu tranquilizá-lo. “Isso nunca será publicado, é foto pessoal, fica sossegado, não enche. Senta aí e come um croissant.”

Depois disso, e durante anos, sempre que queria atormentar Colajanni o chamava num canto e dizia que estava precisando de dinheiro, e por isso tinha vendido as fotos, e ele me mandava para o inferno, e creio que nem se lembra mais, faz muito tempo, Schumacher parou, ele mesmo saiu da Ferrari, depois foi trabalhar na FIA, voltou à equipe, faz tempo que não nos falamos. É um amigo querido.

Por que conto essa longa e desimportante história hoje? Para tentar dar algum sentido ao que vou dizer sobre o documentário “Schumacher”, lançado ontem pela Netflix, que vem sendo elogiado por uns, criticado por outros, submetido aos tribunais digitais com suas verdades definitivas e suas discussões descartáveis.

Schumacher estreou na F-1 em 1991, parou de correr no fim de 2012 e sofreu o acidente que o tirou do convívio público há oito anos, andando de esqui na França. Nesse intervalo defendeu Jordan, Benetton, Ferrari e Mercedes, ganhou 91 GPs, subiu ao pódio 155 vezes, fez 68 poles, liderou 142 dos 306 GPs que disputou, conquistou sete títulos mundiais, se casou com Corinna, uma mulher excepcional, teve um casal de filhos lindos, Gina e Mick, adotou uns cachorros, ganhou muito dinheiro e respeito de seus pares.

É uma vida e tanto, não é fácil resumi-la em menos de duas horas, e por isso me parece um pouco pueril assistir ao filme procurando nele defeitos ou lacunas de informação que estão disponíveis em outros arquivos, plataformas e publicações. Não é um trabalho que tenha a pretensão de esgotar o assunto, de se transformar no documento definitivo sobre a trajetória de Schumacher, e quem se propõe a realizar uma obra desse tipo acaba tendo de escolher um caminho para contar a história que lhe cabe.

No caso dos três diretores que assinam o documentário, Hanns-Bruno Kammertöns, Vanessa Nöcker e Michael Wech, deu para notar que não se preocuparam tanto com uma estrutura recheada de dados históricos e estatísticos que resultasse num filme laudatório para endeusar ainda mais o piloto, transformando-o em alguma espécie de mártir carregado de heroísmo. O fio condutor é cronológico e entremeado por depoimentos despojados de emoções ou pausas dramáticas que desaguem em lágrimas baratas para comover quem está assistindo. Quem chora é Corinna, no fim. Mick fica com os olhos marejados quando diz que não pode mais conversar com o pai, justo agora que eles teriam tanto para conversar. Esposa e filho. “Michael está aqui. Diferente, mas ele está aqui”, ela diz. É forte. É de chorar, sim.

Mas Flavio Briatore, Damon Hill, David Coulthard, Jean Todt, Eddie Irvine, Ross Brawn, Mark Webber, Luca di Montezemolo, Mika Hakkinen, Sebastian Vettel, Ralf Schumacher, Wili Weber, Bernie Ecclestone, Sabine Kehm, Rolf Schumacher, Piero Ferrari, e devo ter esquecido mais alguns entrevistados, não querem fazer ninguém chorar. Nem convencer os outros de que Michael era maior do que foi. Schumacher é mostrado como o que era de verdade: um piloto de enorme talento, perseverante, cheio de vontade de vencer, determinado e competitivo, tímido e afetuoso, que lutou muito para chegar onde chegou. E como sabia que só tinha chegado lá graças ao seu esforço e determinação, se sentia feliz e sorria.

Faltou um monte de coisa? Sim, faltou. Poderiam ter entrevistado Nelson Piquet, Rubens Barrichello, Felipe Massa? Sim, como poderiam também ter entrevistado Riccardo Patrese, Eddie Jordan, Jacques Villeneuve, Bertrand Gachot, Roberto Moreno, Martin Brundle, J.J. Lehto, Johnny Herbert, Jos Verstappen, Heinz-Harald Frentzen, Karl Wendlinger, Peter Sauber, Balbir Singh (seu fisioterapeuta indiano), Mika Salo, Juan Pablo Montoya, Fernando Alonso, Nico Rosberg, todos que passaram por sua vida como companheiros de equipe ou rivais nas pistas, ou que de alguma forma mexeram as peças do tabuleiro de seu destino, ou que contribuíram para seu sucesso. Todos teriam alguma coisa para falar.

Alguns episódios foram pinçados na linha do tempo de Schumacher, como a discussão com Senna na França, a primeira vitória com a Ferrari na chuva em Barcelona, o GP de San Marino de 1994, a batida em Silverstone, os acidentes com Hill e Villeneuve em disputas de título, o dia em que igualou o número de vitórias de Ayrton, o quiproquó com Coulthard debaixo d’água em Spa, a primeira aposentadoria depois de transformar a Ferrari, o retorno pela Mercedes, os testes em Fiorano de sol a sol, a solidão numa academia de ginástica montada para ele em Maranello, a obsessão pelo trabalho. Faltaram outros? Claro, eu mesmo poderia citar uma dezena, uma centena, talvez: a prisão de Gachot, a demissão de Moreno, as suspeitas sobre a Benetton de 1994, as punições impostas pela FIA, a volta na Malásia depois de quebrar a perna, os domínios absurdos de 2002 e 2004, o campeonato apertadíssimo de 2003, as perucas vermelhas, o churrasco com a gente em Magny-Cours, a vitória em Ímola no fim de semana da morte da mãe, as ordens de equipe na Áustria, os milhões de dólares entregues às vítimas do tsunami no Japão, as dificuldades na retomada da carreira na F-1, o último pódio, a vida depois da queda em Méribel. Mas como contar tudo? “Schumacher” não é uma biografia completa. Assim tem de ser visto. Com ternura, alguma nostalgia, admiração e saudade.

Há beleza nesse domínio, eu dizia e escrevia anos atrás, quando Michael vivia o auge e ganhava tudo, para desespero dos que ansiavam por uma F-1 mais competitiva e disputada. Havia, mesmo. Era bonito vê-lo vencer corridas de todas as maneiras possíveis, esmagar os adversários, fazer voltas inacreditáveis, buscar os tempos exatos determinados por seus engenheiros para conquistar posições nos pit stops, cumprir estratégias com precisão, reagir aos imprevistos. Era belo vê-lo guiando na chuva, fazendo uma ultrapassagem, caçando implacavelmente um carro à frente, regendo uma orquestra imaginária nos últimos acordes do hino da Itália no pódio.

E era bacana quando num fim de noite, saindo da sala de imprensa, o autódromo já escuro e silencioso, eu o via ao longe ainda no motorhome da Ferrari, tomando uma cerveja com os mecânicos, às vezes fumando um cigarrinho, e sempre sorrindo, como quase todas as vezes em que o vi.

Espero que Michael ainda sorria.

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