SOBRE ONTEM DE MANHÃ

A imagem do fim de semana: mar laranja

SÃO PAULO(por partes) – Nada com mais cara deste GP da Holanda que a apoteose de Verstappen ao receber a quadriculada. Um mar de pessoas vestidas de laranja, fumaça da mesma cor, delírio absoluto. A corrida de Zandvoort vai ser lembrada, claro, pela vitória de um piloto da casa na volta da F-1 ao país depois de 36 anos. Mas jamais será esquecida por causa da festa da torcida. Foi impressionante.

E agora vamos acelerar porque hoje ainda tem post à parte sobre Valtteri Bottas, confirmado pela manhã como novo piloto da Alfa Romeo (eu achava que o anúncio de Russell sairia antes). Aliás, parabéns ao Fernando Silva e ao Grande Prêmio, que em 15 de junho, quase três meses atrás, anteciparam esse movimento no tabuleiro.

McLaren: um pontinho apenas, contra 16 da Ferrari

A McLaren foi uma das decepções do fim de semana, e o mau desempenho cobrou seu preço: a terceira posição no Mundial de Construtores. Com apenas um ponto, do décimo lugar de Norris, o time laranja viu a Ferrari marcar 16, com Leclerc em quinto e Sainz em sétimo. Resultado: a equipe italiana foi a 181,5 pontos, contra 170 dos ingleses. Tem jogo, ainda, mas não se pode negar que o salto ferrarista foi grande. A McLaren terá trabalho para recuperar o terreno perdido, mais ainda porque Ricciardo segue apagado sem grandes perspectivas de melhora.

Uma dado interessante nessa luta pelo terceiro lugar entre as equipes é a distribuição interna dos pontos. Na Ferrari, Leclerc marcou 92 (50,7%) e Sainz, 89,5 (49,3%). Na McLaren, Lando tem 114 (67,1%) e Daniel, 56 (32,9%). O australiano tem ajudado pouco. Precisa ser mais efetivo.

Lá na frente, bom lembrar, Mercedes (344,5) e Red Bull (332,5) seguem brigando ponto a ponto. A luta pelo quinto lugar também parece agora restrita a Alpine (90) e AlphaTauri (84) — a Aston Martin, com 53, ficou para trás. E é semelhante ao embate Ferrari x McLaren. No time azul, Alonso tem 46 pontos (51,1%) e Ocon, 44 (48,9%). São dois pilotos regulares que contribuem em pé de igualdade para que todos tenham um Natal feliz no fim do ano. Já na equipe B da Red Bull, Gasly marcou 66 pontos (78,6% do total) e Tsunoda, 18 (21,4%). Pierre corre praticamente sozinho contra os dois alpínicos. Ou alpinistas, como preferirem.

HOLANDA BY MASILI

A Holanda ganhou seu super-herói, sem dúvida, ainda que Verstappen não se comporte como tal. O que, na minha opinião, ajuda mais do que atrapalha. Essa coisa de virar personagem deve ser deixada para os torcedores. Eles que se divirtam com isso. A vida real é bem diferente, e Max sabe disso. De qualquer maneira, como sempre, nosso cartunista oficial Marcelo Masili fisgou a euforia que tomou conta do país.

Aliás, falei ontem en passant sobre as audiências expressivas da corrida na TV holandesa: 72,5% de “share”, como se diz, e 85% de pico. O que significa que no momento em que mais gente estava assistindo, 85 de cada 100 aparelhos de TV no país estavam ligados na corrida. Aqui no Brasil, a Bandeirantes teve média de 3,8 pontos no Ibope e ficou em terceiro lugar no horário, perdendo para Globo (6,9 com final do Sul-americano de vôlei) e SBT (4,1, passando sei lá o quê). No pico de audiência, 4,5 pontos, a emissora do Morumbi chegou à vice-liderança por alguns instantes.

O NÚMERO DA HOLANDA

17

…vitórias tem Max Verstappen na F-1, o que faz dele o piloto que mais venceu na história sem ter um título. Essa duvidosa honra pertencia a Stirling Moss, com 16 triunfos sem ter sido campeão. Mas tudo indica que o holandês vai ganhar seu campeonato logo. E tem tempo para isso. Max faz 24 anos no dia 30 deste mês.

Rolou treta, mais uma, entre Mick Schumacher e Nikita Mazepin ontem. O russo fechou o alemão mais de uma vez, mudou de trajetória à sua frente, pintou e bordou. É um escrotinho. Mick, cansado de reclamar, disse: “Não tem mais jeito, é assim que ele é. Esse cara tem alguma coisa na cabeça de querer ficar na minha frente de qualquer jeito. O que não justifica ficar me jogando no muro o tempo inteiro. Terei de lidar com isso”.

Os dois mal se falam. A Haas tem de engolir Mazepin porque o pai dele é quem coloca dinheiro na equipe. Mick não vê a hora de ir embora. A Alfa Romeo, que parecia um destino provável para ele em algum momento, ficou um pouco mais longe com a contratação de Bottas “por vários anos”, como informou a equipe ítalo-helvética. Seja quem for o nome escolhido para a segunda vaga também vai acabar assinando por mais do que uma temporada. A esperança de Schumaquinho é que Giovinazzi permaneça. Porque é um piloto, digamos, substituível.

Um alívio ontem foi ver que Hamilton não foi hostilizado pela barulhenta torcida holandesa nem vítima de gestos ou ofensas racistas — que, infelizmente, são comuns na Europa; ele passou por situações assim a vida inteira, e ainda passa. Por isso, ao final da corrida, foi bacana ver o piloto inglês se dirigir às arquibancadas para aplaudir o público, que retribuiu. Hamilton estava feliz no pódio e fez uma festa incomum com Verstappen, dando nele um banho de champanhe. Antes, trocou afagos com Bottas — já sabendo, claro, de sua saída da equipe.

E falou que Zandvoort já é uma de suas pistas preferidas. “A última volta, com pneus macios e carro leve, foi a coisa mais legal do dia para mim. É um circuito muito legal, um dos meus favoritos a partir de agora. E que festa, que fizeram! Foi um fim de semana maravilhoso”, resumiu.

Nem parecia que tinha chegado em segundo.

A FRASE DE ZANDVOORT

“Foi épico!”

Christian Horner a Verstappen pelo rádio
Max com o troféu reciclável: elogios do chefe

De fato tudo acabou revestido de um caráter histórico ontem, pela volta da F-1 à Holanda, pelo entusiasmo das pessoas, pelo ar de anos 70 que o autódromo proporciona, pela vitória de um piloto local que luta pelo título. Pena que a corrida não foi grande coisa, e esse circuito vai ser bastante espinafrado daqui até o fim dos tempos.

Paciência. São 23 corridas. Tem pistas para todos os gostos. Não dá para querer tudo. E perguntem aos holandeses se eles não curtiram seu GP…

Falando em “seu GP”, falemos do “nosso”. A corrida de Interlagos, pelo que aconteceu ontem em Itaquera no jogo entre Brasil e Argentina, corre riscos. Se não for revogada a tal portaria que exige quarentena para quem passou pela Inglaterra nos 14 dias anteriores ao desembarque aqui, não tem corrida.

Façam a conta comigo. O GP está marcado para domingo, 14 de novembro. As equipes começam a chegar na terça, dia 9. Ou seja: quem tiver passado pela Inglaterra a partir de 25 de outubro não pode vir para cá. Se vier, tem de ficar de quarentena num hotel. A prova anterior ao GP de São Paulo acontece no México uma semana antes, em 7 de novembro. Mas e antes do México? Tem a corrida de Austin, nos EUA, em 24 de outubro. No dia seguinte, todo mundo volta para a Inglaterra, para as sedes de suas equipes (apenas AlphaTauri, Alfa Romeo e Ferrari não mantêm fábricas na Inglaterra). Ninguém vai direto para o México para ficar dez dias sem fazer nada. Há trabalho em casa. Assim, enorme contingente do pessoal que trabalha na F-1 terá passado pela Inglaterra entre 25 de outubro e, pelo menos, 1º de novembro.

Quero ver como vão resolver isso. Afinal, a Anvisa comandada pelo milico alinhado ao corn…, digo, ao presidente, que em março do ano passado ficou fotografando o seboso junto ao seu gado dias depois de chamar a Covid-19 de “gripezinha”, ambos sem máscaras, que vive fustigando o Butantan, que liberou 118 agrotóxicos mortais e proibidos no mundo civilizado em menos de dois anos, se mostrou tão diligente e rigorosa ontem, que fico imaginando como será na hora de interferir num evento apadrinhado pelo governador do Estado, a quem o corn…, digo, o presidente trata como inimigo.

Briguem, desgraçados.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS da Ferrari, que acabou tendo um desempenho bem sólido com Leclerc em quinto e Sainz em sétimo. OK, o espanhol reclamou, disse que o carro foi lento o tempo todo, mas é preciso olhar, como se diz, para a “big picture”. A McLaren, rival direta no campeonato, foi muito mal e só conseguiu um décimo lugar. O saldo para os italianos foi positivo.

Leclerc e a Ferrari: não dá para reclamar

NÃO GOSTAMOS da Aston Martin, que nas últimas cinco corridas marcou apenas nove pontos, empacando no sétimo lugar na classificação. Zerou na Holanda. É verdade que se Vettel não tivesse sido desclassificado na Hungria, perdendo os 18 pontos da segunda colocação, a situação seria bem diferente. Mas pensem num time irregular em 2021. É a Aston Martin. Um interminável sobe-e-desce que tem irritado seus pilotos.

Aston Martin: zero ponto pela quinta vez na temporada

Comentários

  • Depois de três longas semanas sem corridas havia muita expectativa pelo retorno, principalmente pelas pistas, Spa e Zandvoort. E o que se viu? Primeiro um não GP e depois uma corrida bem meia boca.
    Quanto ao ocorrido em Spa, a FIA nada poderia fazer. O lado comercial da F1 hoje é gerido pelo grupo Liberty. À FIA cabe apenas a parte esportiva. Falaram mais alto os acordos comerciais, e a busca por lucro pela Liberty, em detrimento do lado esportivo. Aliás a Liberty está preocupada exclusivamente com isso. Depois dos prejuízos decorrentes do calendário mais enxuto da temporada 2020, o mandatário dos acordos comerciais tem buscado, a qualquer preço, a realização de um campeonato com 23 corridas. Essa é a origem das atuais dificuldades. Se houvesse um calendário menor, com um maior espaçamento entre as corridas, seria possível realocar o a corrida de Spa em outra data. Mas no atual cenário isso é impossível. A FIA nada pode fazer sobre esse aspecto. Mas não é de todo inocente nesse jogo. Afinal chancelou tal formato. Some-se a isso o fato de que uma boa parte do pessoal técnico das equipes ou tem pedido para ficar nas respectivas fábricas, ou mesmo pedindo demissão, diante de um calendário tão longo. E do ponto de vista esportivo, veremos mais corridas em autódromos questionáveis em terras questionáveis.
    Sobre a corrida em Zandvoort, ocorreu aquilo que se esperava. Domínio da Red Bull, em uma pista estreita que não permitia ultrapassagens. Bottas poderia ter oferecido uma resistência maior à Verstappen, mas não segurou uma única volta o piloto holandês. Hamilton minimizou as perdas. Mas a diferença entre os carros é hoje mínima. Sobre a pista, muito barulho por nada. Havia uma expectativa em relação às curvas inclinadas do circuito, mas a meu ver nada acrescentaram. Há que se notar a disparidade entre as equipes. Apenas os três primeiros colocados na mesma volta (Red Bul e Mercedes). Todos mais preocupados com o campeonato do próximo ano.
    Nessas mudanças de pilotos que estão ocorendo, Toto Wolff que além de chefe da Mercedes, tem participação na Aston Martin e certa influência na Williams, agora estende seus tentáculos sobre a Alfa, conseguindo um lugar para Bottas. Hamilton e Russell na Mercedes será interessante. Albon tem uma merecida segunda chance na F1, agora longe da Red Bull, o que pode se revelar um ambiente mais tranquilo. Vettel apesar de ter sido levado a peso de ouro para a Aston Martin parece não estar muito a vontade com o nepotismo na equipe. Aliás, o piloto alemão parece mais a vontade com o carro e tem feito provas muito boas e consistentes.
    E será que a Red Bull será campeão? Horner, Marko e Verstappen sabem que essa oportunidade talvez seja única. Próximo ano a equipe terá que cuidar também dos motores, tanto que saiu à caça de profissionais da própria Mercedes para suprir tal necessidade. A ver, será uma disputa muito apertada.

  • Esse GP da Holanda colocou Max Verstappen no seu lugar novamente de Líder depois do choque na Inglaterra com Hamilton premiando o torcedor local que nunca viu um compatriota seu vencer uma corrida na sua casa e ainda saindo Líder, se isso fosse contado uns 10, 15 ou 20 anos atrás seria uma completa mentira.
    Verstappen já tem 17 vitórias e já se torna o virtual campeão dessa Temporada, tudo indica que o seu primeiro Campeonato deve sair esse ano (ou pelo menos ano que vem) se ele não cair numa armadilha psicológica causada pelo adversário Hamilton e Mercedes.
    Gostamos: A Ferrari é uma equipe Coadjuvante só restando pontuar, além disso só vale se Deus for italiano, o quarto de Gasly da Alpha Tauri merecia mais destaque nessa coluna.
    Não Gostamos: Aston Martin foi mal, pior ainda a Williams que voltou a ser nanica ficando longe de lembrar do segundo lugar dado pela FIA ao Russell na Bélgica.

  • A simpatia pós prova do Hamilton assim como outras demonstrações recentes de comodismo após não vencer é uma reação de capitulação. Já ficou claro para ele que nesta temporada bater Verstappen e a RB será muito difícil.