ENFIM, UM CARRO NORMAL

SÃO PAULO (o que será o amanhã?) – Bom, não dava para esconder a vida inteira. Véspera de abertura dos treinos em Mônaco, e o novo carro da Mercedes finalmente apareceu. Em Ímola, onde deveria ter estreado semana passada, ficou dentro dos caminhões da equipe até a prova ser cancelada.

Dá para chamar de novo, embora os chassis sejam os mesmos usados desde o início do campeonato. É que os conceitos aerodinâmicos aplicados no ano passado e nas primeiras provas desta temporada foram, finalmente, aposentados. A ideia — original, diga-se — do “zeropod”, as laterais estreitas quase sem função aerodinâmica, foi abandonada. O que se viu hoje nas primeiras vistorias em Monte Carlo foi um carro mais… normal.

Não sei ainda se a Mercedes adotou a denominação W14B, mas vamos usá-la, por enquanto. O W14B tem mudanças, basicamente, em três pontos: sidepods (insisto na tradução: são as laterais do carro, a cobertura toda que começa na altura do cockpit e contorna o motor), assoalho e suspensão dianteira.

Os sidepods são visivelmente diferentes e lembram um pouco o conceito da Red Bull, com a lateral da carenagem inclinada para trás, como se formasse um túnel. No assoalho é mais difícil enxergar a olho nu o que mudou, mas sabe-se que a Mercedes trabalhou para deixar a gigantesca peça mais rígida. Por fim, a ancoragem do triângulo superior da suspensão dianteira foi bastante alterada, em busca de um efeito que — de novo — a Red Bull conseguiu em seus carros de 2022 e 2023, a saber: impedir que o carro “mergulhe” nas freadas, afundando demais o bico.

Vai dar certo? Só teremos alguma pista em Barcelona. Em Mônaco, todos sabem, não dá para concluir muita coisa. É um circuito de rua, travado, estreito, sinuoso, em que apenas 29,3% do tempo de volta é cumprido com o pé no fundo do acelerador. Pode ser até que a Mercedes vença a corrida. Como pode vencer também, sei lá, a McLaren, ou a Alfa Romeo. Mas isso não quererá dizer muita coisa. No Principado, ganhar é uma questão de oportunidade, mais do que de favoritismo. Olivier Panis, de Ligier, já venceu em Mônaco. Rubens Barrichello, numa estreante Stewart, chegou em segundo em 1997. Ayrton Senna, de Toleman, provavelmente venceria em 1984 se não parassem a prova por causa da chuva. Platitude repetida por todos, em Mônaco tudo pode acontecer.

Ainda assim, é claro que há candidatos à vitória mais fortes que os outros. Então, às caixinhas desta quinta-feira:

Sorriso maroto: Alonso acha que dá para ganhar

POR QUE NÃO EU? – Fernando Alonso, numa das entrevistas coletivas de hoje, falou que pode vencer domingo, claro. “Se eu disser que vim para cá sem considerar a chance de vitória, estarei mentindo. Esta é uma pista onde dá para vencer. Outra é Singapura. Vou atacar aqui mais do que em qualquer outro fim de semana do ano.

FIM PRÓXIMO? – O presidente do ACM, o Automóvel Clube de Mônaco, disse que teme pelo fim da história do GP mais charmoso, famoso e muitas vezes irritante do calendário. O contrato da Liberty com o Principado termina em 2025. “Se aparecerem mais países milionários do Oriente Médio com dinheiro infinito para gastar, corremos risco, sim.” Neste ano, pela primeira vez, as imagens da corrida não serão geradas localmente. Era uma das queixas da Liberty ao regime de exceção do qual os organizadores do GP monegasco sempre desfrutaram — com benesses, inclusive, para vender placas de publicidade na pista e mandar a grana para a conta da família do príncipe, dona do pedaço.

O “motorhome” da Red Bull em Mônaco: exagero

POR QUE SE FORAM? – Aboletado na “Energy Station”, a exagerada estrutura da Red Bull em Mônaco (esqueçam os motorhomes…), Max Verstappen não reagiu bem à notícia de que a Honda desistiu de desistir da F-1, o que havia comunicado que faria no início de 2021. “Eles disseram que iam embora, e não foram. É uma pena que tenham decidido ficar com outra equipe. É chato que as coisas tenham terminado assim.” Ontem a montadora japonesa anunciou que a partir de 2026 será parceira oficial da Aston Martin. Os motores que a Red Bull usa hoje foram concebidos e fabricados pela Honda, mas estão sob gestão da equipe e, oficialmente, se chamam Red Bull Powertrains. A Honda ainda fornece assistência técnica. Em 2026, eles passam a se chamar Ford, com quem o time dos energéticos assinou um contrato de longo prazo.

QUEM SE IMPORTA? – Ainda sobre a Honda, e voltando a Alonso, já citado na primeira caixinha. Claro que ele foi perguntado hoje o que será da vida se tiver de andar com motores Honda no futuro, depois de espinafrar os japoneses por três anos na McLaren, entre 2015 e 2017. “O que passou passou, eu não teria problema algum em trabalhar de novo com eles. Mas é cedo para falar de 2026”, disse o espanhol.

Hamilton: Ferrari e Vini Jr. na pauta

EU NA FERRARI? – Lewis Hamilton negou de pés juntos que tenha recebido alguma sondagem da Ferrari, como noticiou a imprensa inglesa no começo da semana. “Minha equipe está conversando com Toto [Wolff] e estamos perto de chegar a um acordo para um novo contrato”, garantiu o inglês, cujo compromisso com a Mercedes termina no final do ano. “É normal, quando estamos negociando, que surjam essas especulações. Talvez a imprensa tenha ficado entediada depois do cancelamento da corrida de Ímola.” A Ferrari também negou. Frédéric Vasseur, o chefe do time italiano, foi sucinto quando questionado se tinha procurado Hamilton. “Não”, respondeu.

QUANDO ISSO ACABA? – Hamilton também falou sobre os ataques racistas sofridos por Vini Jr. domingo na Espanha. “Ele foi incrivelmente corajoso. O que aconteceu me trouxe lembranças muito dolorosas. E é fundamental que continuemos a falar sobre o assunto.”

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Klaus
Klaus
8 meses atrás

Até que ia ser legal o Alonso vencer essa. Tanto ele quanto a equipe está fazendo por merecer.

Ron
Ron
8 meses atrás

Seria muito engraçado se, de uma hora para outra com esse carro novo, a Mercedes começasse a emparelhar com a Red Bull.
Brincadeira à parte, se for melhor que a Aston Martin, já melhora bastante e aumenta a esperança de um bom campeonato para o próximo ano.

Endrigo Cenzi
Endrigo Cenzi
8 meses atrás

Falando em carro novo, vi lá no Instagram que o glorioso Meianov já está dando seus berros. Avise-nos quando tiver corrida. Tenho umas milhas vencendo, seria legal ir assistir. Abraço.

Celio Ferreira
Celio Ferreira
8 meses atrás

Pelo que entendi, Max reclamou do acerto da Honda com a Aston,
mas quem acertou primeiro foi a Red Bull com a Ford, ou estou enganado ?

Cristiano
Cristiano
Reply to  Celio Ferreira
8 meses atrás

Acertou com a Ford pq a Honda tinha abandonado…

Paulo Leite
Paulo Leite
8 meses atrás

O fato de não deixar o assunto Vini Jr fora da pauta, Lewis prova pela milésima vez porque é um piloto e pessoa diferenciado dos demais.

murilo
murilo
Reply to  Paulo Leite
8 meses atrás

Tento sempre imaginar quais bandeiras o Senna defenderia se hoje vivo: Certeza de que hoje ele estaria defendendo a “liberdade de expressão” e que “a Espanha não é racista, futebol é assim” ou ainda: O Vini Jr. está se “vitimizando sem necessidade”.

Vinícius
Vinícius
Reply to  murilo
8 meses atrás

Eu tbm tenho essa sensação, que seria tão bolsomico quanto o Piquet.

Markonikov
Markonikov
Reply to  Paulo Leite
8 meses atrás

Eu acho q ele seria de centro-direita e não defenderia uns absurdos desses … ideias de extrema-direita nem entram em debate político, mas sim criminal …

Gustavo Castor
Gustavo Castor
8 meses atrás

Pela fala do Alonso eu já me preocuparia se fosse diretor de prova com a possibilidade do Stroll bater o carro.

Tales Bonato
Tales Bonato
Reply to  Gustavo Castor
8 meses atrás

Imagino que o Stroll tenha sido educado pelo seu pai com melhores princípios do que aquele ex companheiro de equipe do Alonso. Que é filhote de cruz-credo. rsrs