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sexta-feira, 10 de setembro de 2010 - 13:23Diários de viagem

DIÁRIOS, ITÁLIA

SÃO PAULO (será mesmo?) – “Vamos, publique seus textos antigos, ajuda a vender livros!”, ordena minha editora Alessandra Alves. “Mas como as pessoas vão comprar, ninguém acha em lugar nenhum”, respondo eu, e ela ordena de novo: “Publique meu e-mail para os pedidos”. O e-mail é aalves77@hotmail.com . Ela não tem 77 anos, é que é corintiana, e parece que em 1977 aconteceu alguma coisa na história do time dela, talvez a apresentação da maquete de um estádio, sei lá o quê.

O texto abaixo foi escrito em 2004 ou 2005, não sei bem. Um desses GPs da Itália.

O POSTO

Este é um tratado sobre objetos. Sua perenidade, diante de nossa fragilidade. A tremenda injustiça universal que se verifica na constatação de que uma ânfora de barro confeccionada há dois mil anos continua firme em sua existência terrena e, ainda por cima, se der sorte, é admirada em museus, enquanto que eu estarei debaixo da terra em poucas décadas sem ser admirado por ninguém e sem poder admirar ânfora nenhuma.

Há um embate silencioso no mundo: almas versus coisas. As coisas estão ganhando. Elas sobrevivem soberbamente, enquanto somos corroídos por vírus e bactérias. E quando vírus, bactérias, fungos ou cupins atacam as coisas, lá vamos nós socorrê-las, e a recíproca não é verdadeira.

Temos, apenas, a vantagem da mobilidade. Saímos do lugar com nossas próprias pernas ou de carona a bordo de coisas nas quais metemos rodas. Os objetos, sejam eles quais forem, estão condenados à estagnação espacial. São uns fodidos. Só saem do lugar se a gente resolver movê-los. Nós nos movemos, como dizia Galileu. Bem, ele se referia a outra coisa, e nem foi bem essa a frase, mas tenho absoluta certeza que Galileu também deve ter se enlevado num momento qualquer ao observar uma linda estátua de mármore, perfeita e musculosa, invejá-la por um instante, sabedor de sua quase eternidade, ameaçada apenas por algum doido disposto a destruí-la a marretadas, e exclamado, diante dos olhos frios da escultura: “E no entanto, nós nos movemos. E meu pinto é grande”. E mandou-lhe uma banana.

Tudo isso, tais reflexões, profundas e quase definitivas acerca da pugna Almas versus Coisas, adversários que já merecem maiúsculas, as elaborei dentro do carro ao passar diante de um posto de gasolina quando me dirigia a uma pequena cidade perto de Milão para comprar peças de lambreta. Parênteses: usarei lambreta como substantivo feminino comum, e não a versão substantivo próprio “Lambretta”, com dois tês e ele grande no início, como conviria a um nome, porque as Lambrettas foram e são objetos tão espetaculares que, como gilete e cotonete, deixaram de herança aos dicionários vocábulos incorporados ao idioma. Não é qualquer objeto que logra tal façanha, estes são de fato privilegiados, na escala hierárquica das coisas estão acima de Nescau ou Telefunken, que nunca foram bons o bastante para virar verbete de dicionário.

Dito isso, seguia eu para comprar as peças de lambreta na pequena cidade perto de Milão quando passei diante do posto de gasolina, na pista oposta, à minha esquerda, cuja localização registrei porque na volta precisava encher o tanque senão a locadora me cobraria os tubos. Ei, já conheço esse posto, notei, e comecei a refletir sobre o embate silencioso entre Almas e Coisas. Aquele posto estava lá no ano passado e no ano retrasado, ele jamais saiu do lugar e jamais sairá, eu vou morrer e ele vai continuar lá.

Bela merda, meu lado menos lúdico e reflexivo reagiu. Grande descoberta, que observador sagaz, continuou. A estátua do Borba Gato também está no mesmo lugar há anos e nunca lhe despertou pensamentos regados a Galileu, prosseguiu, sem me dar tempo de abrir uma discussão. A bicicletaria do japonês perto de casa, idem. Por que essa viadagem de só elaborar essas teorias ridículas quando está sozinho num automóvel na bela Itália, fazendo ares de dândi solitário?

Meu lado menos lúdico, que pode ser chamado também de Bom-senso (cópia descarada de personagem vital de “O Homem Duplicado”, de Saramago; mas acho que todos temos, Saramago apenas o colocou no papel divinamente, como sempre), é um pentelho. Mandei-o às favas e prossegui em meus pensamentos sobre Coisas versus Almas, observando, por exemplo, que se não fossem algumas coisas eu não conseguiria achar a loja de peças de lambreta que fica em Rodano, a pequena cidade perto de Milão.

Como vou todos os anos, tenho lá minhas referências, mas a melhor de todas é mesmo a placa que indica Rodano. O posto apenas sugere que estou no caminho certo. Depois dele ficam faltando a placa, a plantação de milho e a caixa d’água, nessa ordem. Saindo da estrada principal e entrando à direita, seguindo a placa, é só esperar pelo milharal, virar o carro de forma que as espigas fiquem à minha direita e mirar na caixa d’água que vem a ser a edificação mais elevada de Rodano. Pouco antes dela, à esquerda, depois da rua que tem o nome de um famoso comunista italiano, Gramsci, está a rua das lambretas. O dia em que derrubarem essa caixa d’água, ou se resolverem plantar figos em vez de milho, não acho mais a loja.

E voltam-me as reflexões sobre Almas e Coisas. Sem a caixa d’água, nada de lambreta, o que me fará mal à Alma. Mas, felizmente, aquela caixa d’água nunca vai sair de lá, o que me garante muitos anos de visitas ao milanês que vende as peças e as lambretas propriamente ditas, caso houver interesse. O mesmo não se pode dizer do milharal, sempre sujeito aos ventos da agroindústria, um dia pode ser que os repolhos sejam mais rentáveis, e lá se vai minha referência rumo às lambretas.

Compro as peças, tomo meu caminho de volta, e é fácil: agora, a caixa d’água tem de ser vista apenas pelo retrovisor, e se o milho estiver à minha esquerda, ótimo sinal, é só seguir em frente e procurar as placas indicando Milão, onde fica o aeroporto. Mas não nos esqueçamos de quem ensejou este compêndio, o posto de gasolina, ei-lo desta feita à minha direita, paremos e abasteçamos.

É um postinho de merda, para dizer a verdade, acho que o escolhi por piedade de sua existência medíocre, daqueles que ninguém nota, pequeno, acanhado, sujo, sem néons, lojas de conveniência, restaurantes. Um verdadeiro postinho de merda. Eu poderia ter sido mais criterioso para eleger o representante das Coisas que será eternizado nestas letras, mas agora é tarde, Galileu que me perdoe, “e no entanto nos movemos” saiu de sua boca diante de uma estátua de mármore de pinto pequeno, no meu caso, diante de um posto de merda.

Parei ao lado de uma de suas quatro bombas barulhentas, o frentista encheu o tanque, fui pagar no pequeno escritório encardido e quando o que parecia ser o gerente passava o cartão de crédito, pedi um café de uma máquina que se apresentava como único serviço extra aos clientes. Sei operar bem essas máquinas, mas o gerente, mal-educado, com um cigarro no canto da boca, me mandou nem tocar na distinta. “Faço eu”, disse. Aproveitando um momento de distração do gerente, ele de costas fazendo o café, sorrateiro apossei-me de um cartão do posto. Cartão de visitas, mesmo, poderia ter pedido em vez de usar meus dotes de mão-leve, mas o gerente iria ficar ressabiado, o que esse imbecil está querendo com um cartão de um posto de merda na periferia de Milão, perguntar-se-ia, e como não gosto de responder a perguntas cujas respostas não tenho, peguei o cartão sem pedir e sem ser notado.

Está aqui na minha frente, um pedaço de papel subtraído das entranhas do Posto, agora com maiúscula também, que ele merece, afinal foi o eleito como Coisa para falar de Coisas & Almas. O Posto tem nome, Serella, e pertence aos irmãos Ivo e Flavio Rossi, vejam que impressionante coincidência, um dos donos do posto se chama Flavio. O Posto tem endereço e telefone, Via Nuova Rivoltana, km 3,730, jurisdição de Limito di Pioltello, que pertence à Grande Milão. Vende produtos Agip, o telefone não darei para evitar congestionamento da linha.

Saí do Posto com a certeza de que no ano que vem ele estará lá, e no outro, e no outro e no outro. Um dia o Flavio Rossi vai bater as botas, assim como seu irmão Ivo, e eu também, mas o Posto seguirá em sua saga de encher tanques de gasolina ou diesel e completar a água de radiadores para todo o sempre, ou até o dia em que resolverem ampliar a Via Nuova Rivoltana, o que parece improvável, mas nunca se sabe. No dia em que isso acontecer, essa Coisa, o Posto, será demolido e se igualará às Almas de Flavio e Ivo Rossi, e nesse caso, eu diria que a vitória na partida entre tais específicas Almas e Coisas terá sido das Almas, afinal elas se moveram durante suas vidas, como preconizava Galileu, saíam do Posto à noite para suas casas, suas mulheres e filhos, para os bares e cafés, para uma pizza com amigos, um jogo de bocha, uma aventura num prostíbulo, uma viagem para a praia, Flavio e Ivo se apaixonaram, amaram, choraram, sofreram, traíram, foram traídos, viram e viveram o que o Posto, a Coisa, neste caso, não viu e não viveu.

Ainda assim, é uma disputa injusta, do meu ponto de vista. Um posto de merda não deveria perdurar mais do que os irmãos Rossi.

14 comentários

  1. Wagner Neves disse:

    Flávio,
    Me faz o favor de parar de publicar esses maravilhosos textos. Eu já comprei o livro. Não precisa mais fazer propaganda.
    Um abraço para você e também para a Alessandra que foi muito atenciosa nos emails.

  2. Daniel Amorim disse:

    Uai, como Nescau não entra na mesma categoria de lambreta? O único problema é que o Nescau tem um concorrente de peso, o famoso Toddy. Mas nunca vi ninguém dizendo que comprou achocolatado em pó. Ou compra Nescau ou compra Toddy, dependendo do gosto do freguez. Nescau e Toddy, entendo, são sim verbetes de dicionário, estão na mesma categoria das lambretas. E olha que conseguiram isso com essa concorrência que vem desde que me entendo por gente. Há até quem chame gente chata de “Toddy quente”. Muito bom o texto, mas injusto com o Nescau. E até com o Toddy, cujo nome não foi citado no texto…

  3. Andre disse:

    Flávio, postos de gasolina quebram ($$$) também e desaparecem, como ocorreu com milhares no Brasil nos últimos dez anos.

    A seleção natural no mercado de gasolina, como em todos mercados, e’ implacável.

  4. Gabriel, o Pensador disse:

    Uma das melhores leituras que fiz na minha vida. Não me arrependo nem um pouco de ter comprado o livro!

    Que venham outros!

    Abraço!!

  5. Achei o texto do Flavio bastante sensível sobre a impermanência das coisas e pessoas talvez ele estivesse numa fase meio budista, meio carente porque ele disse que não será admirado por ninguém??? Existe um filme chamado Nada É Para Sempre que traduz bem essa idéia. Mas ele pode viajar nesta história e pensar que o Flavio e o Ivo poderiam ser primos do Valentino Rossi????

  6. Júlio Willich disse:

    *Devia lançar outros livros.

  7. Júlio Willich disse:

    Esses textos são ótimos. Comprarei o livro.

    Fui procurar pela net, descobrir se tu tinha lançado algum outro livro e me deparei com um artigo na wikipedia:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Gomes

    Destaque pra essa informação: “Em 1994 passou a ser comentarista da Rádio Jovem Pan. Em, 2002 foi para a Rádio Bandeirantes. Desde 2005 está na Rede Globo.”

    Na Globo hem! Ah, garoto!

    Devia lançar outros livres, escreve muito bem.

    Abraço!

  8. Silvana Castro disse:

    Achei o texto do Flavio bastante sensível sobre a impermanência das coisas e pessoas talvez ele estivesse numa fase meio budista meio carente porque ele disse que não será admirado por ninguém??? Existe um filme chamado Nada É Para Sempre que traduz bem essa idéia. Mas ele pode viajar nesta história e pensar que o Flavio e o Ivo poderiam ser primos do Valentino Rossi????

  9. Danilo A. disse:

    Eu até ia comprar o seu livro, Gomes, mas sou pontepretano e com 1977 não se transige.

  10. Luciano disse:

    Flavio, depositei o dinheiro do livro faz algumas semanas, agora só falta a Alessandra mandá-lo para mim. Espero que a leitura dele como um todo seja agradável como as dos últimos posts.

  11. Érico BSB disse:

    E eu pensando que ela era uma linda e saudável jovem com 33 anos nascida no ano de 77.

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