N’ÁUSTRIA (4)

RIO (foi legal) – Lewis Hamilton vai lembrar desse GP da Áustria por um bom tempo. Duas punições discutíveis tiraram do inglês a chance de pelo menos lutar pela vitória na abertura do Mundial 2020. A primeira, na manhã de hoje. Segundo no grid, o inglês foi avisado de que perderia três posições porque, segundo os comissários, não tirou o pé numa bandeira amarela no fim da classificação, quando Bottas escapou da pista. Depois, já no final do GP, foi considerado culpado por um toque em Albon na relargada depois do terceiro safety-car da corrida e teve 5s acrescidos ao seu tempo de prova.

Resultado: a Mercedes recebeu a quadriculada em primeiro e segundo, como se esperava. Bottas, que largou na pole, se sustentou na ponta até o fim. Mas, no cronômetro, Lewis caiu para a quarta colocação. A punição levou Charles Leclerc ao segundo lugar e Lando Norris à terceira posição num desfecho de prova emocionante — na última volta, o inglês da McLaren conseguiu descontar o tempo que precisava fazendo a melhor da corrida. Com os tempos corrigidos, levou seu primeiro troféu por 0s198.

Foi uma prova bem tumultuada que teve nada menos do que nove abandonos, coisa rara nestes tempos de carros que não quebram. E, apesar do domínio, os carros pretos da Mercedes deixaram seus pilotos em estado de enorme tensão quando faltavam 24 voltas para o fim. Pelo rádio, o time avisou a ambos que um problema num sensor estava levando a uma “situação crítica” no câmbio. “Fiquem longe das zebras!”, pediram os engenheiros.

Eles ficaram, e fariam 1-2 tranquilamente se não fossem fatores sobre os quais não tinham nenhum controle: as quebras dos adversários. As entradas do safety-car mudaram a história da corrida, e as cartas foram embaralhadas freneticamente na reta final. Bottas, Leclerc, Norris, Hamilton, Sainz Jr., Pérez, Gasly, Ocon, Giovinazzi e Vettel foram os dez primeiros colocados. Sete times pontuaram — Williams, Haas e Red Bull foram as únicas que zeraram.

Tudo correu normalmente no início da prova, com Bottas disparando na frente e abrindo 2s5 para Verstappen em duas voltas e mais de 5s para Hamilton, em quinto. Na nona volta, Lewis já era terceiro, depois de passar Albon. Na 11ª, o primeiro grande momento da corrida: Verstappen ficou com o carro lento, se arrastou até os boxes e abandonou. Provavelmente problema eletrônico, porque mesmo a troca do volante não resolveu a parada.

A dobradinha, então, se desenhava com facilidade para a Mercedes. Bottas liderava com 7s3 para Hamilton na volta 15 e os demais se engalfinhavam mais para trás: pela ordem, Albon, Norris, Pérez e Leclerc nas seis primeiras posições. Lewis descontava a diferença com vontade e na 26ª ela era de 2s6 para o líder. Veio então o primeiro safety-car, quando Magnussen ficou sem freios e deixou seu carro em lugar perigoso. Todo mundo correu para os boxes e colocou pneus duros para ir até o fim da corrida — apenas Pérez espetou os médios.

A relargada aconteceu na volta 31 e imediatamente Vettel se enroscou em Sainz ao tentar uma ultrapassagem improvável, rodou e foi parar lá atrás, em 15º. A prova, então, viveu alguns momentos de tédio até a Mercedes avisar seus pilotos pelo rádio do problema no câmbio. Na volta 51, Russell ficou lento na pista, estacionou o carro e novamente o safety-car foi acionado. Nesse momento, seis pilotos correram para os boxes e colocaram pneus novos. Entre eles Albon (macios), Norris e Leclerc (médios para ambos), que brigavam na frente.

Bottas sustentou a ponta na relargada, na volta 55, e Albon partiu para cima de Pérez, que já estava em terceiro. Passou e devolveu a posição, porque na mesma volta o safety-car entrou de novo depois que a roda dianteira direita de Raikkonen se soltou, deixando seu pneu jogado na pista. Houve uma certa confusão para se saber se o tailandês da Red Bull tinha passado antes ou depois da bandeira amarela. Rapidamente os comissários concluíram que foi antes, ele voltou ao terceiro lugar e na relargada, na volta 61, partiu babando para cima de Lewis.

Alex tinha pneus macios novos, contra duros usados de Hamilton. O inglês virou presa possível e o garoto foi para cima sem medo. Tentou por fora e conseguiu. Mas Lewis deu uma espalhada, na opinião da direção de prova, e houve o toque, fazendo Albon rodar para, logo depois, abandonar. Repetiu-se algo semelhante ao que ocorrera no Brasil no ano passado, também valendo pódio. “Ele me tirou a chance de ganhar a corrida”, lamentou o tailandês. Mas Helmut Marko, guru da Red Bull, foi mais eloquente:

Hamilton arruinou a nossa corrida!

Também não demorou muito para a punição a Hamilton ser anunciada: mais 5s ao seu tempo total de prova, e o segundo lugar só seria confirmado se ele conseguisse abrir uma boa vantagem para os que vinham colados nele, dois deles com pneus novos: Leclerc e Norris.

As últimas voltas foram eletrizantes. Leclerc, em quinto, partiu para cima de Norris e ganhou a posição na volta 64. Na 66ª, foi para cima de Pérez, que tinha pneus bem gastos — não parou no safety-car — e assumiu a terceira colocação. No cronômetro, era segundo, já que Lewis não conseguia avançar muito com pneus duros e velhos e o problema no sensor que impedia uma pilotagem mais agressiva.

Pérez ainda foi punido com 5s por excesso de velocidade nos boxes e deu adeus a qualquer chance de pódio. “A gente perdeu tudo em dois segundos, mas pelo menos temos um pacote competitivo”, consolou-se o mexicano da Racing Point, a Mercedes rosa. Na última volta, avisado pela McLaren que havia a chance de terminar em terceiro, Lando meteu o pé, fez a melhor volta da prova e conseguiu descontar a diferença para levar o último troféu do dia. Hamilton ficou em quarto. Saiz Jr., Pérez, Gasly, Ocon, Giovinazzi e Vettel fecharam a zona de pontos. Apenas 11 carros viram a quadriculada. O último deles, do estreante Nicholas Latifi — quase que o cara belisca um pontinho.

Foi a oitava vitória da carreira de Bottas, segunda na Áustria. E Hamilton chegou a…


…corridas seguidas nos pontos, novo recorde na categoria.

Uma marca importante, sem dúvida. E Hamilton não saiu cabisbaixo do autódromo. Disse que no sábado a culpa pelo que aconteceu foi dele e que no lance com Albon, teve a impressão de que foi um “incidente de corrida”. “Nem acreditei que aconteceu com ele de novo…”, falou, referindo-se ao episódio de Interlagos.

Na Ferrari, Leclerc tinha muitos motivos para comemorar. “A gente tem de aproveitar as chances que vão aparecer”, resumiu. O carro italiano é ruim, lento nas retas e dificil de guiar. Mas o monegasco superou tudo isso com a decisão de trocar pneus no fim e ao partir decidido para cima de Norris e Pérez. Vettel, por sua vez, era só derrota. “Fiquei feliz de ter rodado só uma vez. O carro estava muito difícil de guiar e nada parecido com o que tive na sexta e no sábado”, justificou, desanimado.

E que ninguém espere muita coisa do time vermelho nas próximas provas. O chefe Mattia Binotto disse que as atualizações prometidas para a Hungria não têm nada a ver com velocidade em linha reta. “Esse motor não é bom como era antes”, falou. Os motivos, não deu. Mas nós sabemos quais são.

Antes da largada, na hora em que foi executado o hino da Áustria, os pilotos se alinharam na reta dos boxes vestindo camisetas negras onde se lia “end racism”. A maioria se ajoelhou repetindo o gesto que tem sido visto em todas as manifestações anti-rascistas pelo mundo depois da morte de George Floyd por um policial nos EUA. Seis deles permaneceram de pé: Leclerc, Sainz, Raikkonen, Giovinazzi, Verstappen e Kvyat. Ficou um certo mal-estar no ar e nas redes sociais o povo não perdoou. Max e Charlinho se explicaram, dizendo que o gesto de ajoelhar era uma decisão pessoal, que em algumas culturas tem outro significado, e que ambos, como todo mundo, lutam pelas mesmas coisas: igualdade e fim do racismo.

Aqui entre nós, não é porque não ficaram de joelhos que os seis pilotos devem ser chamados de racistas. Claro que não. Mas é o que Hamilton tem pregado há semanas: nos dias de hoje, não basta dizer que não é racista, é preciso ser anti-racista, demonstrar isso, tomar posição. O que fizeram foi, no mínimo, antipático.

O pódio foi do jeito que se vê na foto aí em cima. Pilotos de máscaras, distantes uns dos outros, sem muita festa ou gente. Uma mensagem que a F-1 tenta passar ao planeta: nada está normal.

Não mesmo. Nem a corrida, no fim das contas, que acabou com um resultado dos mais inesperados.

Quanto a Bottas, teve todos os méritos e, mais uma vez, começa um Mundial na frente de Hamilton. Será capaz de manter o pique? Vai saber… Os anos recentes mostram que não, mas esta é uma temporada diferente. Uma corrida em cima da outra, sabe-se lá quantas até o fim do ano, tudo pode acontecer. O fato é que ele tem 25 pontos e Lewis, 12. Domingo que vem é na mesma pista, e ele tem se saído bem na Áustria. Hamilton terá de reagir rápido, assim como a Red Bull — que, ao lado de Williams e Haas, saiu zerada da primeira corrida.

Não vai dar tempo nem de respirar.

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