O Anjo

Há 25 anos morreu Nelson Rodrigues. Existem alguns anos em que o mundo surta e começa a matar quem não devia. 1980 foi um desses, com Lennon e Nelson. 1994 foi outro, com Senna e Tom Jobim. Anos bestas.

Nelson era um reacionário de primeira e eu o odiaria, provavelmente, se tivesse 20 anos em 1970. Mas como tinha só seis, nem sabia quem era.

O tempo se encarrega do extermínio dos ódios, e por isso ler o que Nelson disse ou escreveu hoje só me causa admiração. Sua biografia, “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro, é uma obra-prima da literatura brasileira. Quando terminei de ler, anos atrás, estava apaixonado por Nelson.

Paixão estranha, porque assisti a algumas peças escritas por ele e não consegui gostar de nenhuma. Seu rancor com a esquerda, com figuras como dom Hélder, sua intolerância com a juventude e com as mudanças que o mundo viveu na virada dos anos 60 para os 70, seu mau-humor atávico, tudo compunha um perfil que me faria, fácil, detestá-lo. Ainda bem que não tinha idade para odiá-lo, quando vivo. Perderia a chance de conhecer e entender uma figura que jamais poderá ser entendida na estreiteza do maniqueísmo.

Nelson escrevia como poucos. E refletia como ninguém. Sua obra era a expressão da perplexidade diante de um mundo que se tornava a cada dia mais incompreensível.

Como hoje.

“Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.” Nelson Rodrigues (1912-1980)

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Jean von Stahl
Jean von Stahl
4 anos atrás

Saudações Flavinho

Estava eu pesquisando sobre o Nelson quando me deparei com esta publicação em seu blog, você difere muito dos seus pares no FSR, e para melhor. Continue com seu jornalismo de conteúdo, gostaria de vê-lo de volta na ESPN onde se faz jornalismo esportivo de verdade.

Um abraço

Felipe de Allmeida
Felipe de Allmeida
16 anos atrás

Flavio, já escrevi para você outras vezes e achei o seu blog genial, pois não precisamos falar só sobre f1.Mas tenho comentários a fazer sobre Nelson Rodrigues e Kombis.
Espanta-me você gostar de um carro que só tem mesmo razão de existir pelo conceito que ele representa. Pois de projeto ela é bem fraquinha. De mecânica não posso nem falar, pois acho que ninguém no mundo possui autoridade para tentar falar deste motor maguinifico.Mas mesmo assim eu sou da opinião que todas as coisas, mesmo as boas tem sua fase na vida. Nada fica tudo passa, até mesmo nós, passamos. Já imaginou se hoje conseguíssemos comprar um leite glória (Gordini-Dauphine) zerinho. Um carrão para sua época adorava vê-los envenenados, rebaixados, tala larga e com um roncão passando pelas ruas. E sobre o Nelson Rodrigues acho que o grande fato de sua grande obra incompreendida se deve ao fato de que muito do que ele escrevia não era tão ficção assim, sua obra tinha muita verdade, verdade existente até hoje e como tal não poderia ser aceita.
Desculpe o português e obrigado pelo espaço. Adoro o que você escreve, acho que você escreve muito bem. O que você escreveu do Nelson, Kombis e tudo mais e muito bom de se ler. Parabéns pelo seu BLOG.

Fabio RC
Fabio RC
16 anos atrás

Nao conheço muito do Nelson, basicamente as adaptaçoes que fizeram para tele (Engraçadinha, muito boa) e cine (Dama do Lotaçao, uma porcaria que só tinha sexo, o texto esqueceram de adicionar). A frase que eu mais gosto dele é: “Toda unanimidade é burra”. Me parece perfeita, pricipalmente se alguém discordar ;-)

E nao é que eu seja contra colocar assuntos fora de automobilismo aqui (que afinal é o que esperamos mais encontrar), mas ficar numa tecla só todo o tempo, ainda algo tao anacrônico como a Kombi, é de matar. Pra fechar essa tampa: me dei conta de que NAO EXISTEM Kombis onde vivo! Tampouco existe feira, como no Brasil! Os quitandeiros usam todos camionetes Ford ou Chevrolet. Mas já vi um Puma, uma vez, daquele dos anos 70! Me senti até orgulhoso. Só nao sei se era placa daqui ou do Brasil.

Abçs

Luiz Antônio Cavalca
Luiz Antônio Cavalca
16 anos atrás

Olá Flávio.

1980 tb nos levou Vinícius de Moraes. Aliás, vc já viu o documentário sobre ele? Está em alguns cinemas ainda (pelo menos aqui no Rio). Vale demais ir assistir.

Parabéns pelo blog.

Ludmila
Ludmila
16 anos atrás

Flávio, cada vez gosto mais e mais do jeito que vc escreve, muito legal mesmo!!! Está coberto de razão sobre Nélson Rodrigues. E como indicou acima, o colega Reynaldo, leia “A sombra das chuteiras imortais”, é demais!!!

Beijinhos

p.s. Li em algum lugar vc dizendo que tinha amado o livro “Budapeste” do Chico, e tô lendo….muito bom mesmo!!!Valeu!!!!

Hélio Filho
Hélio Filho
16 anos atrás

Ah… e no Google também serve digitar GOMES PATOCIDA e clicar em ESTOU COM SORTE.
Estou bem ocupado…

Hélio Filho
Hélio Filho
16 anos atrás

1 – Vocês defendem kombis? Deveriam defender este fusca: http://www.imagensdokibe.blogger.com.br/Fusca-amassado.jpg
2 – Alias… copiem e colem no google, SEM ASPAS: “patocida site:ig.com.br”

Luiz
Luiz
16 anos atrás

Como eu gostava de ler as suas crônicas esportivas no O Globo… Quem se lembra do “Sobrenatural de Almeida”? Parcial sim, eterno torcedor do Flu. Admirador da seleção canarinho, a “Pátria de chuteiras”. A expressão “óbvio ululante” é a própria essência do NR, pois ele decodificava a obscuridade da alma humana.
[]s
Luiz

Lintz
Lintz
16 anos atrás

Já vi que hoje não tem notícia nenhuma, né Gomes.

Roberto Brandao Teix
Roberto Brandao Teix
16 anos atrás

Flávio,
Como sempre, você continua escrevendo de maneira muito agradável.
Apesar de muito ligado às artes e adorar teatro, nunca consegui dar a ele a importância que lhe é imputada na dramaturgia. Quanto às ótimas crônicas esportivas que escrevia e seus comentários sobre futebol, achava-as bem escritas, agardáveis, porém parciais até o último pingo do i.
Ele não gostava do futebol paulista, por exemplo.
Além do mais, àquela época haviam outros comentaristas esportivos, como João Saldanha, por exemplo, que ainda tinha a vantagem de ser um excelente treinador e secretário do partido comunista. Na dramaturgia, preferia Gianfrancesco Guarnieri e Plínio Marcos, apenas para citar dois nomes, cujas peças eram mais relevantes e profundas dos que a de Nelson. Acho que existe até um pequeno marketing fluminense por trás disso tudo.
No mundo, pode haver lugar para reacionários como ele, nas minhas estantes, não.

antonio augusto purr
antonio augusto purr
16 anos atrás

Ainda bem que gostar e concordar são coisas distintas …
Gosto do Nelson porque ele choca as pessoas , e neste estado elas falam cada coisa… No fundo ( e na superfície ) ele era um reacionário , preconceituoso e que vivia estereotipando pessoas . Dificil concordar com ele . Mas que é divertido ler , ver e conversar sobre ele e suas obras , isto é fato .

Maurício Freitas
Maurício Freitas
16 anos atrás

Flávio,

Se há uma coisa que me leva a ler seus textos, é o fato de que você escreve o que eu gostaria de escrever. Assim como você, felizmente eu conheci mais profundamente a obra de Nélson Rodrigues depois que eu já havia me despido de vários preconceitos esquerdistas. Acabei virando um rato de biblioteca das obras dele, especialmente depois que li “O anjo pornográfico” e passei a entender como ele raciocinava.
Se você ainda não leu, procure pelo livro “A cabra vadia”, uma seleção de textos que ele escreveu em 1968. O livro é delicioso, não só pelo estilo literário, como também pela clareza dele em identificar todos os tipos de chatos que infestavam o país, especialmente o que ele descrevia como “o padre de passeata”.
A cabra vadia do título por sua vez, nada mais era do que a companhia dele para as “entrevistas imaginárias” que ele fazia à meia-noite, em um terreno baldio. Nestas entrevistas, os entrevistados falavam tão somente a verdade, o que jamais acontecia em situações normais.
As entrevistas imaginárias seriam muito curiosas no meio automobilístico, em que as pessoas são famosas em falar e nada dizer. Imaginem só uma “entrevista imaginária” com Rubens Barrichello.

Brasileiros, leiam Nélson Rodrigues e se deliciem!

André
André
16 anos atrás

Flavio, se gosta de Nelson Rodrigues vai gostar desta adaptação da peça Vestido de Noiva.
http://www.neo.design.nom.br/encenamidia/
Abraço

Henrique
Henrique
16 anos atrás

1994 foi realmente um ano besta, não esqueçamos que nesse ano também morreu o MUSSUM dos Trapalhões!
Abraços

Max
Max
16 anos atrás

– Fora do tópico 1 –
ô dó! O Briatore foi passado para trás pelo Ron Dennis e o Alonso. Até parece que o cara é santo e não é macaco velho. Só no “circo da F1 mesmo pra sair umas piadas desse tipo.
– Fora do tópico 2 –
Já que liberaram imagens de kombis vindo de terceiros (não tenho notícias de Kombi na minha família), assim que chegar o scanner mando uma que tenho em um livro.

Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues
16 anos atrás

Anão, fiquei comovido com suas palavras… obrigado!

Guilherme Corrêa
Guilherme Corrêa
16 anos atrás

Flávio,

Parabéns pelo texto. Fiquei emocionado. E é só. O que não é pouco.

Guilherme Corrêa

REYNALDO BALBINO MAC
REYNALDO BALBINO MAC
16 anos atrás

FLÁVIO

VOÇÊ QUE GOSTA DE FUTEBOL VAI ADORAR UM LIVRO DE CRÔNICAS DO NELSON RODRIGUES (A SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS) QUE TEVE
TAMBÉM A PARTICIPAÇÃO DO RUY CASTRO.
DEPOIS QUE LI ESTE LIVRO
PASSEI A ADMIRAR MAIS AINDA O NELSON.
NÃO LIGUE PARA QUEM “FALAR” QUE VOÇÊ ESTÁ SAINDO DO ASSUNTO AUTOMOBILISMO.

ELES AINDA NÃO CONHECEM O NELSON !!!

Sérgio Marcos Gomes
Sérgio Marcos Gomes
16 anos atrás

Ô Flávio,
Surpreendente vc tergiversando sobre Nelson Rodrigues. Eu aqui de cima do meus 50, cabelos brancos, arrepiei. Como não concordar com os bondes que nunca chegam. Acho que êle anteviu as Minardis e Aguris… Bem… voltemos aos carros.

Abraços eruditos

diogo
diogo
16 anos atrás

Flávio aí vai a minha reflexão :ACHO O REGULAMENTO DE HOJE BASTANTE CRETINO.AINDA CONSERVO OS DELEITES DO TEMPO EM QUE HAVIA TROCAS DE PNEUS ,PNEUS SLICK…..