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Wednesday, 13 de February de 2013 - 0:05Brasil, Cultura

GÊNIO DA BAHIA

SÃO PAULO (saudades dele) – Conheci Raul Moreira nos anos 90. Ele vivia na Itália e cobria Fórmula 1 para alguns jornais e rádios do Brasil. Quando montei minha agência “Warm Up”, que fazia a cobertura do Mundial para 55 jornais brasileiros, dediquei a ele a primeira coluna daquela nova fase da minha carreira, pós-“Folha”. Imagino que meus novos parceiros devem ter me achado meio louco. “O Baiano” era o título do primeiro texto enviado a eles, que deveria tratar de carros e pilotos…

Posso afirmar que em sei lá quantos anos viajando e convivendo com jornalistas do mundo inteiro, nunca houve alguém como Raul Moreira na F-1. Um cara que nada tinha a ver com aquele mundo, e por isso mesmo sempre foi desconcertante na convivência com seus personagens. Culto, poliglota, libertário, viveu nos autódromos por algum tempo e, obviamente, se mandou quando percebeu que nada mais havia a descobrir por ali e foi fazer outras coisas na vida.

Raul voltou ao Brasil alguns anos atrás e passou a trabalhar com vídeo e cinema na Bahia. Neste Carnaval, fez uma série de cinco programetes para a TVE da Bahia na pele de Charles Molina, o personagem que criou — uma “celebridade” que passou a semana frequentando os camarotes de Salvador sem ter sido convidado para nenhum. Seu desafio era esse: um programa de cinco minutos por dia, durante cinco dias, para mostrar uma face da festa que não é conhecida por quem acompanha tudo pela TV — num formato plastificado e revestido de uma beleza que há anos, eu arriscaria dizer que há uns 15, pelo menos, é artificial, segregacionista e totalmente descolado daquilo que foi, um dia, o verdadeiro Carnaval de rua baiano.

O resultado está aí em cima (na página do primeiro episódio estão os links para os demais). Ver o Raul como ator-cineasta-videomaker e lembrar dele entrevistando pilotos e tentando entender o sentido daquela coisa totalmente despida de razão que é a F-1 me fez ter um orgulho danado do cabra.

Toca Raul. Grande Raul.

11 comentários

  1. Elson Aquino says:

    Simplesmente maravilhoso. E a entrevista com Gil então!

  2. Luiz Felipe Bruno says:

    Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila, ao abraçar à……..BASF (?!?!)

    “Samba-Business”. Já ouviu falar? É o novo-velho gênero “sambístico” que figura nas paradas de sucesso da Sapucaí, Anhembi e outras paragens carnavalescas por aí. Aquele que subsidia a existência de Paulos Barros e Rosas Magalhães e suas super-escolas de samba S/A, com mega-carros alegóricos, fantasias pirotécnicas (ou pirocópteras, ie, literalmente, os destaques saem voando pela avenida) e grana, muita grana. Não tem aquele samba da Portela? “Antes era Paulo da Portela, agora é Paulinho da Viola…”. Pois é, antes era samba-canção, samba-sincopado, samba-de-gafieira, agora é samba-business. Agora? Humm…

    Reza a lenda que a ligação do jogo do bicho com o carnaval remonta aos anos 30. Natal da Portela, um dos baluartes da azul e branca de Oswaldo Cruz, ao perder um braço em um acidente foi trabalhar como apontador do jogo do bicho, se tornando rapidamente o maior da região de Madureira. Com a morte de Paulo da Portela – patrono e fundador da escola – Natal passa a injetar recursos do jogo na agremiação, como forma de homenagem ao amigo. Surge aí a figura do bicheiro-patrono, ícone e folclore do samba desde que o samba é samba. A ação desses “investidores” torna-se mais evidente a partir da década de 70, quando o concurso passa a ter uma visibilidade maior no país por ser um ótimo divertidor de massas, bem conveniente com a realidade política da época.

    Nos anos 80 o desfile ganha um peso ainda maior, saindo das ruas e ganhando a Sapucaí. Os carros alegóricos não cabiam mais nas ruas. Transmissão ao vivo pelas redes de televisão em horário nobre. Manchetes de jornais. A injeção de capital do jogo do bicho é maior do que nunca! Castor de Andrade, Anísio Abraão, entre outros, passam a freqüentar o noticiário carnavalesco. Surgem os super-carnavalescos: Joaosinho Trinta, o maior de todos. Surgem ícones como Pinah, Luiza Brunet, Luma de Oliveira. Quem se lembra do enredo? “Super Escolas de Samba S/A, super alegorias, escondendo gente bamba, que covardia…bumbum praticumbum prucurundum…o nosso samba minha gente é isso aí…”. Aluízio Machado profetizou os dias de hoje em 1982, quando levou esse samba histórico e imortal pra avenida com a Império Serrano.

    Depois disso o business só tomou corpo, ganhou roupagem, melhor dizendo, pra alinhar com o tema. Ganhou mais patronos, novos interesses, novas perspectivas.

    Hoje assisti à apuração do carnaval do Rio. Na camiseta envergada pelos diretores da Vila Isabel um logotipo central, bem colocado, da BASF. O enredo da Vila desse ano foi patrocinado pela BASF. Pra quem não sabe, custou R$ 6 milhões.

    (…)

    E daí, pergunto eu? Quem não sabia? Está evidente, está escancarado, pra quem quiser ver, que é assim. Quem assiste, acompanha e comenta supostamente conhece as regras do jogo e as aceita. Simples. Quem é ingênuo de achar que esse concurso representa a “festa do povo”?. Isto é um negócio, um business como outro qualquer. Quando você opta por comparecer a um desfile sabe que aquele espetáculo alucinante não surge “do esforço e luta da comunidade, bla bla bla” mas sim dos bolsos da BASF, da Cacau Show , dos mangalargas manquitolas e sei lá mais de quem que patrocina o carnaval. O pobre-coitado do cara da comunidade até deve ajudar com algo, na boa vontade, coitado…

    Há escolas em que o componente da comunidade não passa nem perto. É o luxo do lixo – como dizia João 30. Isto está claro! Por favor, não cobremos a “pureza” das agremiações que carregam a história do samba, bla, bla, bla, e o morro que não tem vez e o barracão de zinco, e o céu no chão. Gente, isso acabou quando o Cartola fugiu do morro de Mangueira pra ir morar no meio do mato em Jacarepaguá por que não agüentava mais ver sua casa servir de ponto turístico para os gringos. Ou quando o Bezerra da Silva desceu o morro do Juramento e tomou um bico na bunda de um traficante qualquer que tava tomando uma na birosca da esquina dizendo que o malandro era ele. O romantismo acabou na prática. Ele ainda existe em nossos corações, e é por isso que o samba ainda não morreu. O que está aí, com raras exceções, e nesse “aí” você inclui Salvador, Rio, São Paulo, é um negócio enlatado, plastificado, emburrecido e que a gente ainda compra por teimosia, por tentar achar alguma coisa que valha a pena naquilo tudo como, por exemplo, ver um Martinho da Vila sorrindo ou um Paulinho da Viola dando de ombros pra essa merda toda e desfilando de peito aberto em cima do carro (macho pra caralho). Você acha que o Paulinho da Viola não sabe que tem dinheiro de empresa no samba e que aquilo tá totalmente corrompido? Mas pra ele foda-se, o amor pela escola é maior e ele peita tudo isso. Esse é o lance. É a grande sacada. Esses caras nunca vão desistir daquela essência que existia nos terreiros do século passado, nunca vão desistir do ideal deles, por isso é que o samba nunca morre. Esses são os verdadeiros “malandros” e não os “vendidos” que algumas pessoas querem pintar por aí.

    As escolhas estão aí. Na pratileira da cultura tem de tudo: pureza, produtos enlatados, criativos, tem verdade, tem alma, tem grana. Cada um consome o que quer. Não é a toa que o nome de um dos primeiros cordões de carnaval de que se tem notícia é “Vai quem quer”.

  3. leohora says:

    estou há 3 anos passando o carnaval fora de ssa e achando otimo!

  4. Anselmo Coyote says:

    Impagável. Não encontrei o 5.

  5. Basilio says:

    Abadás de 3 mil reais para ricos e turistas pagarem versus escolas de samba financiadas por bicheiros e traficantes, também para ricos e turistas pagarem pequenas fortunas para desfilarem nos carros alegóricos, restando aos mortais o privilégio de empurrar esses carros. Entendo o da Bahia como menos desonesto.

  6. Lui George says:

    Não é a toa que eu brinco que esse negocio todo de camarotes e blocos extremamente caros “pra inglês ver” não é o carnaval de Salvador e sim o carnaval em Salvador…

  7. carlos lima says:

    Sensacional! Raul Moreira na pele de Charles Molina revela o outro lado do carnaval de Salvador, aquele não “aparece” na TV.
    Raul Moreira lembra muito o Marcelo Nova da banda Camisa de Vênus, não é?
    Ótimo post, Flavio, Bravo!

  8. Hector says:

    “Seu desafio era esse: um programa de cinco minutos por dia, durante cinco dias, para mostrar uma face da festa que não é conhecida por quem acompanha tudo pela TV — num formato plastificado e revestido de uma beleza que há anos, eu arriscaria dizer que há uns 15, pelo menos, é artificial, segregacionista e totalmente descolado daquilo que foi, um dia, o verdadeiro Carnaval de rua baiano”.
    Como baiano q viveu o Carnaval de 30 anos atrás, que viveu os tempos do bloco do Barão e bloco do Jacú, ainda sem cordas, posso dizer que a precisão do seu texto é absoluta. Vinte anos atrás ainda tinha (muito) espaço para a irreverência e participação popular. Acabaram-se os trios sem corda. Tudo hoje é um grande negócio e o Carnaval de Salvador perdeu a baianidade, se tornando um Carnaval para Turistas e de Turistas. Os “novos” baianos são todos de fora.

  9. Flavio Seno says:

    Muito divertido. Pena que não consegui ver o quinto episódio… Valeu pela dica!

  10. Demerval Caixeta Jr. says:

    É a “pasteurização” do carnaval!!!

  11. Angelo says:

    Perfeita a sua colocação sobre o Carnaval de Salvador. Desde o final dos anos 90 que a máfia que se instalou na cultura baiana matou o que já foi o melhor carnaval do Brasil.

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