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sexta-feira, 7 de novembro de 2014 - 12:31F-1

S DA SALVELINA (6)

pitlanevazio

O pit-lane de Interlagos vazio: F-1 está perdendo sua alma.

SÃO PAULO (assim morre) – Pra começo de conversa, é o seguinte: o som dos motores da F-1 é inadmissível.

Oh, e você percebeu isso só agora, na 17ª etapa do campeonato?

Sim. Certas coisas a gente só percebe ao vivo, e já tem alguns anos que o único GP que vejo ao vivo é o daqui, porque a paciência para ir a lugares como Bahrein, Abu Dhabi, Xangai, Sepang e Cingapura inexiste. Índia e Coreia, então… No, thanks. Assim, o contato tátil, auditivo, olfativo e visual se dá aqui, em Interlagos.

Na TV não é a mesma coisa, como não era a mesma coisa ouvir o ronco de um V10 ou um V8 aspirado na telinha e, depois, ao vivo para estourar deliciosamente os tímpanos.

Isso que ouvi hoje é inaceitável. E não consigo compreender como, desde o início do ano, as pessoas envolvidas não se rebelaram contra essa bosta.

F-1 é uma experiência única (pareço comercial de cartão de crédito), e quem já teve a chance de estar num autódromo num GP sabe disso. Hoje eu chegava ao circuito pela manhã e exatamente às 10h01 estava na avenida Interlagos ao lado dos portões do Setor A, a reta dos boxes. Nessa hora os carros saem do pit-lane para as primeiras voltas. Até o ano passado, era um momento mágico. Do lado de fora se escutava o ruído assombroso, que fazia tremer tudo. Da casa do meu pai, a alguns bons quilômetros de distância, dava para ouvir aquele rugido épico ao longe.

Aquilo era essencial para a F-1. O carro, na pista, berrando como se fosse um monstro de vida própria, fazia arrepiar até os… bom, vou me comportar… Aquele som arrepiava os pelinhos do braço (melhor assim), deixava qualquer um hipnotizado, o estrondo dos motores era o que mais aguçava os sentidos, mais até do que o visual dos carros, a sensação de velocidade. Não, nada disso. O contato direto do corpo humano com um carro de F-1 se dava através do som que fazia os ouvidos doerem e permanecia ecoando por dias a fio, aquele zumbido gostoso que parecia não passar nunca.

Não sair surdo de um autódromo em dia de F-1, em resumo, é uma aberração.

Aí que passo na avenida Interlagos e escuto vindo lá de dentro um som de aspirador de pó abafado e metálico, um negócio horrível, motor batendo válvula, pior que qualquer carro que participa do nosso campeonato de velharias, e percebo que aquilo é a nova F-1. Uma merda completa.

Quando estacionei meu carro, fiquei ali no Sol vendo os caras passarem. Quem terá sido a anta que criou esse regulamento? Será que alguém realmente acha que a F-1 tem de dar exemplo de sustentabilidade, de reaproveitamento de energia, de economia de gasolina? Gente do céu, a população mundial hoje é suficientemente esclarecida para compreender que um carro barulhento que bebe gasolina loucamente não tem de servir de exemplo para ninguém, todos entendem que um carro de corrida é apenas um equipamento utilizado numa competição concebida para entreter as pessoas. A F-1 não tem de dar exemplo de nada a ninguém, é pretensão demais achar que está influenciando gerações a pensarem de modo mais sustentável só porque seus carros recuperam a energia das frenagens e do acionamento do turbo. As pessoas estão cagando um monte para isso. Não existe uma única alma no planeta que ligue a TV para ver uma corrida de F-1 imbuído do espírito de ser convencido do que quer que seja. O cara quer torcer para algum piloto e ver um bom espetáculo. E não existe uma única alma no planeta que, depois de ver uma corrida de F-1, desligou a TV convicto de que no dia seguinte teria de procurar algum carro com motor elétrico para ajudar a salvar a Terra.

Isso aí que vi hoje, desculpem, não é F-1. Não faz barulho. Não estoura os tímpanos. Dá para conversar na arquibancada. Não se pode conversar numa arquibancada de um autódromo. Entenderam?

E começo a achar que o baixo astral geral da categoria passa por isso, por sua descaracterização total. E isso se vê no rosto de cada um com quem cruzo aqui. Não há felicidade no ar. Os colegas jornalistas estão cansados. Tem corrida demais, e elas são distantes e em lugares sem graça e sem alma.

Uma passada pelo grid, e temos, na Red Bull, um Vettel emburrado e encostado, de mal com as pessoas com quem sempre conviveu desde molequinho, porque resolveu sair da equipe. O clima é ruim, fim de feira total, não vai ter nem bolo de despedida. Na Mercedes, Hamilton e Robserg, amigos de infância, não se falam mais. Qualquer que seja o resultado, vão sobrar ressentimentos por uma temporada duríssima e competitiva além da conta entre os dois.

Na Ferrari, o desânimo se nota até na menina que serve o café. Alonso está de saída, frustrado com o que não conseguiu em cinco anos. O time, por sua vez, se vê órfão do velho Luca di Montezemolo, estranha os métodos e o jeito de falar da turma que chegou para comandar a nau, e também está meio ressabiado com o espanhol — poxa, Schumacher teve uma paciência de Jó, e quando a coisa virou, foi o que todos sabemos; por que é que Alonso não faz o mesmo?

Na McLaren, Button se sente desprestigiado e desrespeitado por Ron Dennis, e seus sorrisos deixaram de ser sinceros para exalar ironia a cada declaração. Na Force India, imaginem o humor de Pérez hoje. Não vai poder treinar porque o novato Juncadella arrebentou seu carro no primeiro treino livre. Hülkenberg vive de bico porque achava que a esta altura da carreira estaria numa Mercedes ou McLaren da vida, mas tudo que conseguiu foi chegar na Force India e de lá não sai mais.

A Sauber tem dois pilotos putos da vida, porque sabem que serão demitidos no ano que vem. Na Toro Rosso, Vergne não engole a escolha de Kvyat para suceder Vettel na matriz, e se pudesse enterraria a cabeça num buraco. Na Williams, Massa é comparado a Bottas o tempo todo e os números acabam com seu espírito esportivo — o finlandês tem 155 pontos e cinco pódios no ano, e está em quarto no Mundial; Felipe tem um pódio, 83 pontos, e é o nono, apenas. A Lotus, tão bem no ano passado, ficou sem grana e prestígio e tem apenas dez pontos no campeonato. Sem dinheiro, não sabe como vai disputar o Mundial do ano que vem.

E das nanicas nem falo, porque não estão em Interlagos. A Marussia, inclusive, de acordo com as informações que chegam da Inglaterra, está fechando as portas depois de cinco anos de vida — contando os dois primeiros como Virgin. Já era. O que é o de menos, diga-se. Pior, bem pior, é a situação de Bianchi, internado no Japão sem perspectiva nenhuma de voltar. Isso para não falar da tragédia de María de Villota. A equipe se vai, enfim, sem deixar boas lembranças. A Caterham, idem. Alguém realmente acredita que o time conseguirá sobreviver? Quem comprou devolveu, e quem vendeu não quer aceitar de volta. Agora os administradores estão recorrendo a vaquinha na internet para levantar 9,6 milhões de dilmas para correr em Abu Dhabi. Pedem a ajuda dos fãs. Fãs? Alguém realmente acha que existem fãs da Caterham?

É o que eu disse no vídeo. A F-1 precisa recomeçar. Há várias saídas, mas é preciso desprendimento para olhar para o passado e tentar recuperar o que se perdeu.

Podem começar com o ronco dos motores.

211 comentários

  1. Airton da Silva disse:

    Talvez um remendo possível para salvar a situação seria subir a rotação do motor V6 para uns 15 ou 16 mil rpm, subir o fluxo de combustível de 100 l/h para uns 130 l/h e limitar o tempo de uso do Kers para uns 10 ou 15 s por volta em vez dos 30 s atuais.
    Só não sei o que fazer para acabar com o cuidado que os pilotos têm que ter para não patinar nas saídas de curva de baixa. É que eles jogam as marchas para cima logo na saída da curva para controlar o torque despejado nas rodas e isso diminui a rotação do motor V6, sendo que o almejado é provocar mudanças na forma de pilotagem para que a rotação do motor esteja sempre maior e, logo, mais atraente.

  2. Acarloz disse:

    Ainda temos a NASCAR ….

  3. Rodrtigo disse:

    Pois é Flavio, você não colocou a menor fé no crowdfunding da Caterham, pois eles já conseguiram metade do valor que precisam em DOIS DIAS. A Caterham não tinha fãs, acabou de conseguir dinheiro e vários simpatizantes, que agora se sentirão um pouco sócios. São as maravilhas que os novos modelos como crowdfunding podem proporcionar.

  4. Fernando Antunes disse:

    Flávio, eu entendo a sua frustração. De fato ouvir um F1 ao vivo é uma experiência única. Não vou repetir tudo o que vc já disse com muita propriedade no seu texto. Direi apenas que concordo com tudo o que vc disse a esse respeito.

    No entanto, motores movidos a combustíveis fósseis são extremamente ineficientes. Eles perdem a maior parte da energia produzida. Grande parte deste potencial de energia se transforma em calor e barulho. Isso quer dizer que o motor que produz a mesma potência com menos barulho, é um motor tecnologicamente mais eficiente, que aproveita melhor a energia produzida.

    A F1 surgiu como um esporte de vanguarda, um esporte de ponta na produção de tecnologia. O grande atrativo da categoria sempre foi o de construir o carro mais rápido, mais eficiente do planeta. Este é o brilho da F1. Por isso, na F1 o carro sempre foi e sempre vai ser mais importante que o piloto. Nenhuma outra categoria tem o prestígio de equipes como McLaren, Williams, Ferrari, Brabham, Lotus, dentre tantas outras que escreveram seu nome na história por serem os carros mais eficientes, mais tecnologicamente bem construídos do planeta em seus respectivos anos.

    Então são duas óticas diferentes. Ou vc pensa no som do autódromo, ou vc pensa na tecnologia. Eu sinceramente acho que o som proporciona uma experiência fenomenal pra quem assiste ao vivo. Mas considero que é uma característica secundária. Na minha opinião o hibridismo vai dominar o automobilismo de forma geral nos próximos anos. E, não nos esqueçamos, o Petróleo vai acabar em menos de 100 anos. Então é só uma questão de tempo pra que o automobilismo em geral abandone de uma vez por todas os motores movidos a combustíveis fósseis.

    Eu não vejo como uma questão ecochata. Vejo como uma questão de tecnologia mesmo. Motores movidos a petróleo já estão começando o processo de virar peça de museu. É o destino inevitável deles.

  5. André disse:

    Haters gonna hate, mas só vou escrever isso aqui: NASCAR!

  6. giancarlo disse:

    Amigos amantes da saudosa F1…… tenho 52 anos…… concordo que é outra F1.. Mas….
    como aceitar 40 nego no pit-stop, , peneus que duram 15 voltas, (vc compraria?),
    limite de treinos?, proibir reabastecimento?.Rádio? Não gosto.. Sou piloto de kart, defendo e ultrapasso, e bem. Digo isso por que, pela TV, consigo hoje sentir a neura da pilotagem.
    Sou audiência. Um dos 2 milhões pelo mundo. Poucos amigos tenho que se dão ao trabalho de ser audiência. . Sem Senna.
    Voltando, a asa móvel é reflexo do freio absurdo. Como é que se passa se o nego
    freia laaa dentro fácil? Hum ,.. Na saída ?, No torque?. Surpreenda-se com a aerodinâmica..
    Tudo isso é projeto. Regulamentos são assim.
    Sei lá o que a Mercedes fez de melhor no conjunto. Mas é líder inconteste.
    Willians quase.
    Mas o som…….. Assisti em Interlagos, a uma prova do turismo europeu, Alexandro Nanini, amputado (guiou muito) , Choveu, um brasuca acabou com a turma (descul-
    pem, não lembro quem) , os bolidos não faziam barulho. Era uma regra para a europa. Ha anos atraz..
    Morando em Moema , detestava vagabundo de Haley deyvison escape aberto de madrugada. Entende.
    Nas provas de Endurance,,, Hibridos, baixo ruído . É assim.
    Essa questão do som dos motores……. quem ouviu Matra V12, Ferrari V12, Reneut , Honda, Porche, Ford V8, Yamaha, Subaru, Hart, Saiba diferencia-los?.
    Escape aberto, berrando. lindo a um adolescente despreocupado..

    A F1 precisa de aprisionar custos para que garagistas existam. Distribuir conhecimentos . Dar valor as ideias possíveis. .
    O problema é muita grana. Acabam com meus argumentos.
    sofro com todos os amantes da F1. Alguem para conversar.
    Obrigado gente.

    .

  7. Mattheus disse:

    Até os carros da Porsche Cup fazem mais barulho que os F1 atuais. Aliás, eu fui ao GP do Brasil junto com o meu pai em 2013, e achei o barulho dos V8 sensacional. Meu pai me contava de como eram os V12 e V10, literalmente ensurdecedores. Entretanto, na primeira corrida desse ano, pela TV, deu para perceber: os carros emitem um barulho baixo e feio. Daí perdeu-se toda a vontade de ir ao GP desse ano, pois uma das principais coisas do automobilismo é deixada de lado na F1: o som dos motores. Lamentável. E sabemos que a tendência é piorar. Voltar para motores aspirados? Duvido.

  8. fabio disse:

    Esse cara ta velho! Esta ‘e a F1 moderna, saibam apreciar este ronco, as turbinas na reducao ‘e a coisa mais linda, parem de se amarrar ao passado. Bateram o recorde historico da pista, daqui 10 anos voces serao os choroes que nao aceitarao os carros eletricos nem nas ruas. A F1 ta demais, a tecnologia melhor ainda, nao gosta vai ver Stock Car que ‘e bem barulhenta…

  9. jORGE kNOLL disse:

    - Mexeram tanto na F1 que virou uma “bosta”
    Hoje é nada atrativa, as equipes pequenas não tem vez,
    e perdendo público todos os anos..
    DESASTRE ANUNCIADO

  10. Michael Rigo disse:

    A F1 está tão ruim que até caras como o Adrian Newey estão pulando fora por não aguentarem mais regulamentos cada vez mais estúpidos, sem falar do Brawn que já está curtindo o seu pijama e chinelo. Além dos motores ecochatos ainda tem a tal da asa móvel, pelo amor de Deus… santa artificialidade!

    Deveria ser feito um regulamento mais flexível tanto em chassis quanto motores, que liberassem toda a criatividade dos projetistas. No caso dos motores, por exemplo, especificar tetos máximos para determinadas configurações, não importando se são de 3 cilindros e dois tempos ou 16 cilindros em W…

    A qualificação poderia voltar ao que era nos anos 90, ou no máximo como era até 2002. Poderia ser liberada também a compra de chassis, o que poderia trazer de volta os velhos garagistas. A distribuição da renda oficial poderia ser mais ao estilo NFL (divisão igual) porém as verbas oriundas de outros meios (como exposição) seria proporcional à classificação no campeonato.

    Além de, é claro, voltar com os treinos no meio da temporada, o que garantiria o emprego de uma infinidade de pilotos de testes bem como também é o único jeito de consertar um carro mal-nascido, o que hoje em dia é impossível (é só ver o que anda acontecendo recentemente com a Ferrari e a McLaren…).

    E eu que achava que o Todt poderia fazer algo neste sentido, mas tudo o que ele vem fazendo é seguir à risca a cartilha do Max Mosley. Que decepção…

  11. Igor Serafim disse:

    Assino todas as palavras do Flavio Gomes, mesmo anônimo me considero purista em relação ao automobilismo, pra começo de conversa já discordo de ter uma regra para obrigar todos os motores a ter o mesmo nº cilindros, mais estão matando a formula 1 com todos estes regulamentos muito ruim e muito chato estão transformando este esporte numa merda ! as restrições deveriam ser nos custos e nada mais, uma categoria onde não se treina, cada vez mais os carros vão pra pista somente naquele horariozinho da transmissão da tv e pronto ! limitam tudo que diz respeito a correr por isso estou cada dia mais gostando das categorias americanas Nascar Rolex series e outras !

  12. Marcos Cury disse:

    Ainda tenho um protetor auricular da McLaren que comprei na lojinha deles, em 2008 se não me engano. Fico pensando se voltarei a usar um dia. É muito deprimente.

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