INTERLEWIS (3): O QUE VAI PEGAR

I
Camboatá: F-1 não vai querer se associar a destruidores do meio-ambiente

SÃO PAULO (garoando, 17°C) – Talvez pouca gente tenha percebido que a F-1 deu nesta semana o golpe de misericórdia na alucinação de se fazer uma corrida no Rio de Janeiro onde andam dizendo que será construído um autódromo — a Floresta de Camboatá. E o fez sem citar a cidade, Deodoro, minas & granadas, consórcio não sei das quantas, JR ou o Bozo do Planalto.

No início da semana, a categoria apresentou um ambicioso plano de alinhamento às demandas ambientais (daqueles que acreditam que a Terra é redonda, claro) estabelecendo metas bem claras sobre adoção de biocombustível ou combustíveis sintéticos, redução das emissões de CO2 até chegar a zero em 2030, eliminação de determinados materiais na construção dos carros, conversão dos GPs em eventos 100% sustentáveis e introdução de parâmetros de funcionamento das fábricas, também visando objetivos ligados à preservação do planeta como um todo.

É claro que não serão 25 corridas por ano — esse é o plano da Liberty para os próximos campeonatos — queimando gasolina, óleo e borracha que vão levar o planeta à bancarrota. Estudos demonstraram que as atividades de pista em si representam um percentual ínfimo daquilo que a F-1, digamos, produz em termos de poluição ambiental. Nessa conta têm de entrar o transporte de equipamentos pelo mundo — via aérea, terrestre ou marítima –, a produção de resíduos não-recicláveis por parte de milhões de torcedores nos autódromos, a operação das fábricas e muito mais.

Mas é preciso dar exemplo, e é isso que a categoria pretende fazer nos próximos anos de uma forma radical. Sendo assim, alguém realmente acredita que a F-1 vai chancelar a construção de um autódromo que para sair do papel demandará a derrubada de pelo menos 200 mil árvores e a destruição completa de um ecossistema de imenso valor ambiental como é a Floresta de Camboatá?

A área de quase dois milhões de metros quadrados em Deodoro é Mata Atlântica pura, contendo espécies raras ou em extinção de centenas de plantas e animais. Qualquer obra ali, por mais que o capitão esbraveje e o dono do consórcio com sua fala mansa garanta que não tem problema algum, precisa de ser aprovada por instituições que zelam pelo meio-ambiente no Rio de Janeiro, e elas existem e estão atentas.

São necessárias licenças ambientais, estudos de impacto, aprovação dos órgãos competentes no Executivo e Legislativo, e mesmo que isso tudo aconteça — é Brasil, afinal — há o obstáculo de uma Fórmula 1 engajada e militante, que vai se afastar de qualquer iniciativa antiecológica como o diabo da cruz.

Nesse sentido, as declarações de Hamilton anteontem — criticando a ideia de se fazer um autódromo na floresta — vêm ao encontro da imagem que os donos da categoria querem difundir globalmente de seu produto. Seus dirigentes não vão querer se associar a destruidores do meio-ambiente que, nos últimos meses, tornaram-se conhecidos internacionalmente pelo patrocínio das queimadas na Amazônia e no Pantanal, além de uma atuação desastrosa na identificação e contenção de um vazamento de óleo que contaminou as praias e a fauna de boa parte do litoral do Nordeste — apesar da inteligência dos peixes.

Deodoro, para além de ser uma mentira, é uma bomba-relógio ambiental. A F-1 não vai colar seu nome a isso.

Isso para não falar nas questões óbvias como a desconhecida fonte de financiamento, os buracos no edital de licitação, a estranheza sobre o risível capital social do tal consórcio e as espantosas garantias bancárias oferecidas por um portentoso banco com sede num sobradinho de Bauru — não autorizado pelo Banco Central a realizar tal operação, diga-se.

Agora, isso garante a continuidade do GP em Interlagos? Não. A verdadeira questão hoje é saber se a F-1 segue no Brasil — e não se vai para o delirante autódromo que não existe em Camboatá. A negociação é dura, as taxas são altas e o país corre, sim, o risco de deixar o calendário em 2021. Mas, por outro lado, o Liberty sabe que o mercado brasileiro de TV e internet tem enorme representatividade — em números absolutos, as audiências das corridas no Brasil são as maiores da temporada, pelo fato de o país ter uma população muito grande.

No momento, em resumo, o que os promotores do GP do Brasil têm como preocupação é buscar formas de realizar a engenharia financeira necessária para manter a corrida no calendário. E não dispender energia num embate frívolo com a insensatez verde-oliva trombeteada pelas milícias cariocas.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

22 Comentários

  • Flavinho, meu nobre ex companheiro de equipe.
    Vou te explicar como ´seria a “pedalada” do autódromo do Rio, o cara quer comprar um terreno publico no RJ para fazer um empreendimento imobiliário que deve estar avaliado em R$ 600 milhões, e como ele pretende pagar ?
    Construindo um belo autódromo “que ele diz” que vai custar R$ 600 milhões e que vai ficar para ele, tendeu ?

  • Puxa, é a segunda vez no ano que entro neste blog, que gostava bastante há algum tempo e era leito assíduo, dado o conhecimento do dono do espaço sobre automobilismo… mas, realmente, a coisa desandou por aqui. Fato é que o negócio descambou para o lado político.
    Paciência…. infelizmente, não dá mais para ser leitor.
    Uma pena…. o cara até é bom na profissão que escolheu, mas na questão política…. não dá para defender presidiário, né?!
    Abs e boa sorte.

  • Quantas pás de cal serão necessárias pra acabar com essa falácia do “otódro”?
    Só aqui já foram várias. Um argumento mais robusto que o outro.
    Tem muito lugar no Rio em que não se precisaria derrubar árvores (algumas talvez, mas jamais milhares e milhares de mata nativa) e que certamente não têm minas que ainda podem explodir.
    Já foi citado inclusive Deodoro, mesmo. Poderiam mudar o local do otódro e não precisar mudar a plaquinha, só mudar de lugar.
    E aproveitar e fazer um processo conforme manda o figurino, não essa patacoada que se desenhou até agora.
    Repito. Adoraria ter um autódromo na minha cidade Natal. Mas odiaria com todas as minhas forças se fosse desse jeito que foi “jeitado” por essa “tchurma” aí, o pastor, o juiz e o capitão.

  • Primeiro, você está sendo relapso sobre essa questão ambiental, Todos sabemos que não somente os peixes, mas também os passáros são inteligentes e voariam para outras florestas se o autódromo fosse construído na floresta. E não venha me dizer que pássaros não são intelijudos, tive um vizinho que tinha um papagaio que falava, o que prova minha tese. Segundo essa é a terra do Senna e o Brasil deveria ter pelo menos a metade das corridas da temporada só por isso. Senna acima de tudo, braziu acima de todos. Terceiro, o país vive um bom momento econômico e parafraseando Ronaldinho traveco não se faz corrida de automóveis em Hospitais.

  • discordo da terra redonda se o master mega guru falo que é chata é uma pizza e acabou.
    Mas ai surgiu outra duvida como o clã ficou tão fã assim do guru ?
    Assistindo videos no you tube ? Porque não me parece que já leram algum livro na vida

  • Esse tal de TRC. Nao podia comentar. Talvez se fosse posssivel um outro autodromo no BRASIL. APROVEITANDO ALGUM JA EXISTENTE E AMPLIADO PARA Formula UM. SERIA INTESSANTE SE TIVESSEMOS DUAS CORRIDAS EM DOIS FIM SEMANAS SEGUIDOS. UM EM SAO PAULO E OUTRO CHAMADO DE (“” ABSURDO “) OU 51 KKK. BOA IDEIA. MAS NAO TEREMOS OUTRO (GENIO) IGUAL A ((( HAMILTON))) QUE NAO ACEITA ORDEM PARA TROCAR PNEUS…. SABE ECONOMISAR e GANHA CORRIDA COM MAIS DE 50 VOLTAS.. HONTEM ELE HAMILTON TREINOU PENSANDO NO ANO QUE VEM QUANDO VAI VENCER EM INTERLAGOS BRIGANDO PELO TITULO COM LECLER E VESTAPEN. . HAMILTON… HAMILTON… HAMILTON… HAMILTON.. HAMILTON .. HAMILTON. ABRACOS. 21 99425 4478..
    .
    .

  • Saudações Flavinho! O pseudo Autódromo, ficará cercado por uma complexa região, onde o estado pouco aparece…Temos que pedir a publicação do livro REC CARD e saber como são feitas as coisas no Brasil…abs

  • Do outro lado da Av. Mal. Alencastro há uma área muito boa para construir um autódromo. Só perder uma grana para os moradores dalí caírem fora, tirar o Parque Radical — que está fechado por falta de segurança, já que o povão iria para lá arrumar confusão e dizer que era do C.V., do T.C., do A.D.A, etc, deixando a PM revoltada da vida, pois tinha que dar uma de “babá de marmanjos” — e remover a clínica da família. É possivel levar o projeto até o estande de tiro do Exército, que é próximo da TransOlímpica. Fora que continuaria próximo da estação de trem de Deodoro e do futuro corredor de ônibus TransBrasil. Totalmente incompreensível a construção devastando a floresta.

    Para quem não sabe, a Av. Mal. Alencastro é a via que divide a floresta das casas construídas ao centro na foto acima.

    • De fato, o melhor terreno em termos de já estar ocioso e desmatado é onde foi feito o Parque Radical de Deodoro, na parte das pistas de Montain Bike. Ali dá pra montar um autódromo com relevo e com menor agressão ao meio-ambiente do que destruir a mata do Camboatá, vizinha ao Complexo do Chapadão. Uma estação de trem entre Ricardo e Deodoro, na porta desse novo empreendimento facilitaria o acesso, que também poderia ser feito pela Av. Brasil, que ficaria mais próxima também. Além disso, a TransOlímpica, via expressa que sai dali até Curicica (a famosa “região olímpica”), de onde se divide entre Barra e Recreio, garante acesso dessa região hoteleira ao local em 15 minutos, fora do trânsito pesado da cidade.

      Mas, sendo realista, minha torcida é pra que Interlagos siga como nossa pista na F1 e que o Rio busque uma pista de rua que possa servir de autódromo pra receber especialmente as categorias nacionais e pra servir ao desenvolvimento do automobilismo e motociclismo estadual, que hoje renascem graças a uma pista inaugurada no ano passado na cidade de Campos dos Goytacazes.

  • F1 “sustentável”: igual/aproximadamente a FE

    Considerando este discurso ecologicamente correto da Liberty e o curso natural e inescapável da história, pergunto: levará quanto tempo para haver a fusão das duas categorias?

  • Perfeita análise, Flávio. Mas vai aparecer alguns dizendo aqui, o que já disseram do Hamilton, que a Fórmula 1 está ficando chata, que é tudo hipocrisia, etc. Ou seja as ideias que tornam qualquer debate impossível graças ao obtusos de plantão.

  • Quando se olha ao redor, os fatos atuais e notícias, só uma conclusão é possível: No Brasil, a ignorância venceu. Minha filha que hoje tem 2 anos ainda vai me perguntar onde estávamos com a bunda sentada enquanto esse bando de milicianos ignorantes destruíam o país onde ela nasceu.

Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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