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SÃO PAULO (aqui, P2) – E o dia chegou. Hamilton igualou Schumacher hoje e prestou suas homenagens ao heptacampeão mundial. E o destino quis que o recorde de 91 vitórias fosse igualado na Alemanha de Michael.

Mais tarde, tem textão da corrida. Por enquanto, fiquem com a crônica sobre o melhor de todos os tempos já no ar no Grande Prêmio, que reproduzo aqui. E comentem à vontade! Agora tenho um avião para pegar…

cada um COM seu MELHor

Na Fórmula 1, a discussão sobre o melhor de todos os tempos é permanente. Fangio? Senna? Schumacher? Prost? Hamilton? Clark? Lauda? Piquet? O que vale? Número de títulos? De vitórias? Velocidade absoluta numa única volta? Percentuais de triunfos, poles e troféus sobre GPs disputados?

Cada um escolhe seu critério. Eu me sinto muito privilegiado de ter acompanhado muito de perto as carreiras de alguns desses nomes – Fangio e Clark são as exceções. Dos demais, poderia elencar façanhas, proezas, realizações e talentos transbordantes. Não faltam feitos a cada um deles.

O argentino Juan Manuel Fangio ganhou cinco títulos na F1 (Foto: Reprodução)

Senna era rapidíssimo em voltas de classificação. Em velocidade pura, muita gente garante, nunca houve ou haverá alguém como ele.

Prost era um relógio. Inteligente, calculista, preciso, dava aulas a cada GP – daí a alcunha de ‘Professor’. Nunca houve ou haverá alguém como ele.

Schumacher ganhou campeonatos e corridas de todo jeito. Na chuva, no seco, saindo de trás, com quatro paradas, sem trocar pneus, de todo jeito. Além do mais, abraçou a missão impossível de recolocar a Ferrari nos trilhos da glória. Como ele, nunca houve outro e jamais haverá.

E Lauda? O que dizer de sua volta às pistas depois de quase morrer queimado? E de Piquet, o que falar de Piquet? Inventivo, criativo, capaz de ganhar campeonatos com três motores diferentes e batendo de frente com um companheiro inglês numa equipe inglesa! Nunca mais veremos um Lauda. Nunca mais conheceremos um Piquet.

Nunca mais, nunca mais…

Schumacher, o homem que venceu 91 vezes e conquistou sete títulos mundiais

Quando Schumacher encerrou a carreira pela primeira vez, no final de 2006, pedi um autógrafo a ele. Sendo mais exato, dois: um numa camiseta, outro numa credencial. Afinal, nunca mais haveria um heptacampeão. Nunca mais alguém ganharia 91 GPs.

Bem, Hamilton fez isso. Falta o hepta. Questão de semanas. No mais, superou o alemão em tudo. Vitórias, poles, pódios, GPs na liderança, e blábláblá.

Alguém imaginaria isso em 2007, quando ele estreou dando uma coça em Alonso, bicampeão vigente, estrela maior de uma F1 já sem Schumacher? Não, não dava para imaginar. OK, foi campeão no segundo ano, 2008, mas nos cinco seguintes, não. E ficar cinco anos sem título pesa em carreiras que não são tão longas assim quando se olha para alguém que precisaria ganhar sete para igualar outro alguém.

Lewis Hamilton, Mercedes, Fórmula 1
Com 91 vitórias, Hamilton caminha para ser o maior da história (Foto: Reprodução)

Pois Hamilton o fez. Porque, como Schumacher, espreme a hegemonia imposta por sua equipe até a última gota em proveito próprio. Mas e essa hegemonia? Seria a mesma se o piloto fosse outro e não Lewis? A Ferrari dominaria a F1 de 2000 a 2004 do jeito que dominou se Schumacher não estivesse lá? Quem faria tantas poles com a Lotus se não Senna? Quem derrotaria Mansell depois de dar uma pancada na Tamburello? Quem voltaria a ser campeão depois de ver a morte debaixo de uma Ferrari em chamas?

Tendo a dizer que não para todas essas perguntas. Grandes pilotos amplificam a capacidade de uma grande equipe. Alguém questiona o papel de Vettel no tetra da Red Bull entre 2010 e 2013? Webber faria igual? Barrichello faria o que Schumacher fez? Rosberg e Bottas fariam o que Hamilton faz?

De novo, tendo a dizer que não. Um puxa o outro, o outro puxa o um. Quantas vezes não vimos a Mercedes claudicar nos últimos anos para, na corrida seguinte, dar a volta por cima? Quanto de Hamilton pudemos ver nessas reviravoltas?

Sendo assim, sim: Hamilton, no momento em que igualar o número de vitórias de Schumacher, e com o sétimo título no bolso e mais um monte de GPs pela frente, passará a ser o maior de todos os tempos. E que bom que estamos vendo isso acontecer no nosso tempo. Porque não pudemos ver Fangio – a maioria de nós. Porque não pudemos admirar Clark. E outros tantos, que por um motivo ou outro não alcançaram números e conquistas tão impressionantes.

Lewis Hamilton, Mercedes, Fórmula 1
Hamilton é o melhor de todos os tempos? (Foto: Reprodução)

Mas tenho plena consciência de que o título de melhor de todos não será acoplado ao nome de Hamilton por todo mundo. Eu mesmo tenho o meu melhor de todos os tempos, e ele nem na F-1 correu – chama-se Bernd Rosemeyer e morreu em 1938 aos 28 anos num carro prateado a 400 km/h numa estrada alemã; é o meu melhor de todos os tempos e pronto, posso?

Claro que posso. Como você que venera Senna e o tem como um herói que ganha corrida com uma marcha não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que admira Piquet e sua incrível capacidade de dar nó nos adversários não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que passou a vida suspirando por Schumacher numa Ferrari flamejante não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor. E você que enxerga em Lauda um exemplo inigualável de superação não precisa mudar de opinião, agora que Hamilton se tornou o melhor.

E principalmente você, que vê em Hamilton um piloto quase infalível, dedicado, engajado, carismático, relevante, velocíssimo em uma volta rápida, arrojado em corrida, preciso como um relógio, que dá nó em seus adversários, que é capaz de vencer uma prova com pneu furado, e que além de tudo milita sem medo por causas essenciais para a humanidade, principalmente você, não precisa mudar de opinião. Para você, ele sempre foi o melhor.

Agora é mais ainda.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

81 Comentários

  • Um grande campeão também é medido pelos seus adversários e, infelizmente, não foi o caso de Schumacher e Hamilton.
    Talvez foi até mérito deles que se sobressaíram de tal forma que não houve mesmo ninguém capaz de bate-los.
    Quando me lembro de Senna, me vem a cabeça o Prist, de Piquet vem a cabeça também Keke Rosberg, de Fitipaldi vem Stewart e por aí vai… E no caso de Schumacher e Hamilton me lembro, de forma generalizada, de corridas vencidas de ponta a ponta.

  • Meus caros, os melhores sempre estarão nos melhores carros. Porque as melhores equipes querem e podem ter os melhores. É simples assim. Fangio ganhou com vários carros diferentes pois podia sempre escolher o melhor carro do ano. Foi assim com Senna, Prost, Piquet, Schumacher, Vettel, e também com Hamilton. Será com Verstappen, Leclerc, etc.. Há também a capacidade de aglutinar as melhores “peças” dentro de uma equipe, Schumacher foi mestre nisso. Não adianta apenas ser um ótimo piloto, precisa de algo a mais, poucos tem, e entre estes poucos há vários “melhores”.

  • Não acho que Senna era o melhor. Na verdade não sei quem foi o melhor, mas é fato que Senna, Prost, Mansel, Piquet correram em mesma época, ou seja, mais difícil de fazer o que Hamilton faz hj e mesmo o que SChumacher fez.

    Para mim Hamilton é um fora de série, mas tb corre sozinho.

  • Orgulho demais de ver toda a ascensão desse cara… de longe o melhor de todos os tempos. Desde o primeiro ano calando a turminha do chororô com resultados. Sem bairrismo, pachequismo, viuvismo do senna ou qualquer outro velho grande piloto, sem chororô e racismo… o cara é foda pra chocalho! Só tem que voltar pra McLaren pra correr do lado do Norris. No mais: texto lindíssimo, Flávio! Obrigado!

  • Realmente difícil comparar épocas. LH é o melhor da sua, indiscutivelmente. Comparar com qualquer outro que correu em condições tecnológicas, regulamentos, pistas e principalmente SEGURANÇA diferentes, fica difícil. Quem quiser assumir que o melhor é o que tem os maiores números, LH já levou.
    Quem quiser imaginar o que era correr sem nem proteção para a cabeça, em pistas assassinas, com carros que eram projetados apenas para correr e não proteger, e ainda assim ser multicampeão, tem obrigação de diferenciar MAIOR de MELHOR (este segundo pra mim só seria possível constatar com todos em seus auges no mesmo equipamento e mesma pista)

  • É isso aí, cada um têm o seu melhor; o meu é pré-F1 pelo que pude ler: Tazio Nuvolari, o homem que fazia o impossível, que se destacava de tal modo de todos os outros que não havia termo de comparação.

  • 1
  • 2
Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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