N’ABU DHABI (1)

RIO (lasts) – Alonso e Schumacher tiveram dias distintos hoje em Abu Dhabi. Enquanto o primeiro acelerou o que pôde seu Renault, deixando todos no autódromo boquiabertos, o alemão foi cauteloso com o motor Ferrari de seu carro e procurou não abusar muito no primeiro treino livre para a última etapa do Mundial.

Que saudades de escrever desses dois!

Mas não tem mentira nenhuma no parágrafo que abre o texto aí em cima. Alonso, o velho Fernando de sempre, El Fodón de Las Astúrias, e Schumacher, mas o Mick, filho do Michael, foram os personagens do dia na abertura dos trabalhos da corrida que marca o encerramento da temporada 2020.

O espanhol, já confirmado como titular da Renault para 2021, havia encerrado a carreira em 2018. Ou, pelo menos, havia desistido da F-1 para correr de Toyota no WEC, ganhar Le Mans, tentar a sorte em Indianápolis de novo, fez até o Dakar!

Mas não aguentou a saudade e estará no carro amarelo no ano que vem. Na próxima semana, inclusive, participa do “teste dos novatos” em Abu Dhabi, que a partir de agora pode ser chamado de qualquer coisa, menos de teste para novatos. Hoje, antes dos treinos em Abu Dhabi, teve a chance de dar umas voltas com o maravilhoso carro com o qual conquistou seu primeiro título, em 2005.

Sentou o pé. Mas sentou o pé com gosto, como se vê neste vídeo aqui (vai ter de clicar no link, se eu “embedar” ele some da página). Curiosidade é que o R25 nunca tinha andado com pneus “slicks”. Esse carro era dos tempos dos pneus com ranhuras, lembram?

A baratinha azul e amarela, compacta e com cara de brava, tinha uma aderência traseira absurda (resultado do trabalho da Renault com a Michelin, que deu numa suspensão muito particular), saía de frente como um capeta e só Alonso era capaz de lidar com isso. Um de seus truques em 2005 e 2006 era esse, usar a incrível capacidade que os carros da Renault tinham de tracionar em saída de curva, frear lá no deus-me-livre estragando a entrada, deixar a frente escorregar (o que também aquecia os pneus dianteiros, aumentando ainda mais o “grip” do conjunto), enfiar o pé e se mandar como um estilingue. Foi uma delícia escutar esse V10 depois de tanto tempo. Aumentem bem o som. Isso nunca mais vai existir na F-1.

Mick Schumacher no primeiro treino livre: difícil saber até onde vai o filho de Michael

Schumacher não fez tanto barulho. Ele também estará no grid em 2021, com motor Ferrari como seu pai nos melhores anos. Mas na Haas, equipe pela qual fez o primeiro treino livre, no lugar de Magnussen. Era para ter andado em Nürburgring, mas a neblina não deixou. Pode-se dizer que sua carreira na F-1, pra valer, começou hoje. Foram 23 voltas, nenhum problema, e uma aceitável e normalíssima 18ª posição na sessão.

Mick é da Ferrari. Ganhou a F-2 domingo passado e faz parte do programa de desenvolvimento de pilotos do time italiano. Aposta para o futuro. No que vai dar, impossível dizer. Pronto para a F-1 ele está. Se fizer um décimo do que Michael conseguiu, terá tido uma carreira vitoriosa. Mas não faz sentido arriscar qualquer prognóstico neste momento. Vamos deixar o tempo se encarregar de mostrar do que é capaz.

Ah, detalhe para não passar despercebido: a Haas completa em Abu Dhabi 100 GPs de sua breve história na F-1. Além de Mick, terá o russo Nikita Mazepin no ano que vem. Esse moleque é um idiota completo, postou vídeo nesta semana bolinando uma moça no carro, em claro ato de assédio sexual. Apagou a postagem, não pediu desculpas e foi alvo de todas as críticas possíveis — e mais do que justificadas — feitas pelas pessoas civilizadas do planeta. O certo era a Haas mandá-lo passear. Mas o frangote é filho de pai muito, muito rico. Espero — e talvez seja ingênuo nesse sentido — que a equipe suspenda o contrato e vá atrás de alguém que tenha caráter. Mas duvido que isso vá acontecer.

Hamilton de volta: “Parecia o primeiro dia na escola”

Hamilton, recuperado da Covid-19, reapareceu em Abu Dhabi depois de perder o GP de Sakhir domingo passado e ficou em segundo lugar hoje, atrás de Bottas. Estava todo animado. Disse que parecia “o primeiro dia na escola”. Rapidamente pegou o ritmo e terá um fim de semana normal — ou seja, vai brigar pela pole e pela vitória como fez o ano todo.

Os resultados de hoje já nem interessam muito. O GP de Abu Dhabi é daqueles cheio de despedidas, e por isso mesmo está sendo um festival de capacetes comemorativos. Dos que notei, Vettel, Leclerc, Norris, Bottas, Russell, Sainz e até Grosjean — que nem vai correr, por motivos óbvios — prepararam cascos para marcar o fim do ano, alguns, e o fim das passagens pelas equipes que defendem, outros. Vettel agradece a Ferrari no seu. Leclerc, por sua vez, homenageia Vettel. “Um gesto muito bonito dele”, falou Tião (ainda) Italiano. Abaixo, uma amostragem desses capacetes, mas certamente está faltando algum.

Outra notícia que causou algum impacto foi a renúncia de Louis Camilleri ao cargo de CEO da Ferrari. Aos 65 anos, Camilleri foi hospitalizado com Covid-19 e teve algumas complicações de saúde. Ele assumira em 2018 e foi o responsável pela ascensão de Mattia Binotto à chefia da equipe. John Elkann assume interinamente o posto.

Voltando às coisas mundanas da pista, Pérez, vencedor da última corrida, teve de trocar o motor de seu Aston India e já sabe que largará nas últimas posições domingo, o que praticamente sepulta qualquer chance de um bom resultado porque o circuito de Abu Dhabi é um porre e de ultrapassagens muito difíceis.

Amanhã sai o último grid do ano. Não devemos ter grandes surpresas nessa prova, mas como a temporada tem sido bem louca em alguns momentos, vai que…

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