PATRIOTÁRIOS (5)

SÃO PAULO (me engana) – Vamos por partes, para que vocês não digam que é implicância minha. Tudo que será lido a seguir foi-me enviado por e-mail. Quase todos começam com um “Oi Flavio, tudo bem contigo?”, na maior intimidade. Aí vem o texto cheio de clichês e baboseiras. Possivelmente escrito por IA. A mesma IA, tamanhas as repetições. No fim, o pedido: “Conseguimos um espacinho aí?”. E um beijo, claro. São sempre de mulheres, as assinaturas desses e-mails. Ou de nomes de mulheres.

Comecemos:

SHELL RESPONDE – Lembram das revistinhas respondendo às perguntas dos clientes? Ah, que bons tempos… Agora a Shell me avisa que inaugurou uma “loja temática” na avenida Interlagos. “Projetada para reproduzir o clima das pistas”, informa. Como, como? Ora, ora… “Com elementos visuais e sonoros que remetem à atmosfera dos autódromos”, claro! E qual o objetivo, amigos? “A imersão dos visitantes e a conexão com…” Depois da imersão, parei de ler. A loja é a Select, aquela onde a gente compra cigarro, chiclete e água. E os coiós de carro rebaixado ficam tomando cerveja.

NÃO TINHA FALIDO? – “A Americanas iniciou uma ação de retail media em parceria com a Nestlé para marcar o período do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. A iniciativa apresenta uma experiência imersiva na loja do Shopping Interlagos, em São Paulo, disponível até o dia 10 de novembro”, alerta novo e-mail. Experiência imersiva. Parei de ler. E nem quis saber o que é “retail media”.

HELLO, MOTO – “O espaço da Motorola na F1® Fanzone receberá convidados para uma experiência imersiva  que conecta o melhor da velocidade, com o melhor da tecnologia móvel que a Motorola oferece, sempre alinhada com o novo portfólio de smartphones, que além de performance e inovação, traz cores assinadas pela Pantone, design diferenciado e lifestyle.” Uau. Segue: “Na ativação Turbo Power, o visitante recarrega o celular e as energias. Enquanto relaxa em poltronas confortáveis, pode conectar seu dispositivo para um carregamento ultrarrápido e explorar o edge 60 fusion em uma área interativa. A experiência reforça o ritmo dinâmico da tecnologia Motorola”. A incrível experiência de recarregar o celular numa poltrona confortável. Não posso perder essa.

BUS STOP – “Uma réplica do carro de Fórmula 1 da equipe Stake F1® Team KICK Sauber poderá ser vista nesta semana no terminal de ônibus de Pinheiros, em São Paulo. A iniciativa é uma parceria da RZK Digital, empresa de mídia Digital Out of Home (DOOH) baseada em ciência de dados e o PicPay, um dos maiores bancos digitais do país e patrocinador oficial da equipe de Gabriel Bortoleto. A ação tem como objetivo ampliar o acesso dos brasileiros a um dos eventos esportivos mais desejados e exclusivos do Brasil. Igor Puga, executivo de Growth e Marketing do PicPay: “Essa é uma forma de fazer com que milhares de pessoas sintam orgulho de torcer pelo Brasil com o PicPay. E, se nem todos podem ir ao GP, o PicPay leva o GP até os brasileiros”. Hum… Continuem. “Essa é a maior ação de ativação de marca da RZK em 2025 e reflete nosso propósito de ir além das telas digitais para entregar experiências imersivas, que unem marcas e tecnologia para impactar o público de forma direta, com amplo alcance e engajamento”, comenta Paulo Queiroz, CEO da RZK Digital. A fantástica experiência de pegar um busão em São Paulo. Imersiva.

ATUALIZAÇÃO/ERRAMOS – E eis que recebo hoje, terça, em tom urgente e letras maiores e em negrito, a seguinte mensagem da mesma assessoria acima: “Caro (a) jornalista, pedimos imensas desculpas pela noticia divulgada ontem “Réplica de carro da F1 da Sauber, de Gabriel Bortoleto, pode ser vista no terminal Pinheiros”. Houve um equívoco interno sobre a continuidade da exposição do carro de F1. O fato é que a exposição já terminou no Terminal Penha e ainda não há previsão definida para a exposição no Terminal Pinheiros. Portanto, pedimos a gentileza de excluírem as notícias que vocês já deram sobre o assunto.” Sendo assim, essa experiência imersiva do busão pode ser descartada.

FALARAM COM A FAMÍLIA? – No Wyndham São Paulo Ibirapuera Convention Plaza Hotel (que caralho de nome de hotel é esse?), apareceu uma réplica da Lotus que Senna pilotou na sua primeira vitória. Hóspedes e “passantes”, informa o e-mail, poderão ver o veículo na recepção. Que não é um veículo, é uma réplica de um veículo. “A montagem e reprodução da peça são atribuídos (sic) ao artista e designer automotivo Adhemar Cabral”, segue a mensagem. Atribuídas? Não é certeza que foi ele que fez? Hum… Que mais? “Cada detalhe foi pensado para resgatar a essência daquele momento histórico.” Certo. Que mais? “Quem passar pelo hotel durante esta semana, além de poder ver e fotografar a raridade criada por Cabral, ainda terá a oportunidade de saborear o drinque comemorativo Pole Position, criado pelo premiado mixologista Marcelo Prantoni para o YPÊ Lobby Bar, localizado no próprio empreendimento. Essa criação traz combinação perfeita de sucos de laranja e abacaxi, licor Saint Germain, cointreau, vodka e aperol.” Dica aos desavisados: em São Paulo, por esses dias, é melhor ficar longe dos destilados, tá bom?

RECICLA? – A Heineken mandou texto menos empolado. Avisou apenas que um lote de garrafas de alumínio da cerveja que patrocina a categoria foi enviado para o Brasil direto da Holanda. São “colecionáveis”, de acordo com a empresa — que ainda não foi comprada pela Ambev. Não sei onde encontrar.

BIGMÉQUI QUE FALA? – Por fim, as últimas experiências imersivas da semana: dar um pulo nas lojas do McDonald’s, tomar Red Bull e participar de um campeonato de pit stops ou algo do gênero. Não serão todas que terão “ações”, deve ter o endereço em algum lugar. A rede de lanchonetes fez uma parceria com a marca de energéticos e quem quiser pode levar uma miniatura do carro de Verstappen. É só pagar: 119,90 reais. Aí é aquele negócio: ou come ou compra carrinho. É o que eu diria aos meus filhos, se eles fossem pequenos. Mas eu não levava os meninos no “Méqui”, levava no Chicohamburger.

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PATRIOTÁRIOS (4)

SÃO PAULO (só chute) – Semana passada, mal acabou o GP do México, veio o locutor: e a previsão pra Interlagos é de chuva! Aí os emocionados influencers e produtores de conteúdo, feito papagaios, repetem: e a previsão pra Interlagos é de chuva! Aí os neo-fãs para terem o que colocar em suas redes sociais, replicam: e a previsão pra Interlagos é de chuva!

Aí venho eu, na segunda-feira, no famoso “Bem, merdinhas”, o programa da família desajustada brasileira, e pergunto: quem é que falou que domingo, daqui a duas semanas, exatamente às 14h, precisamente ali na avenida Teotônio Vilela, ali entre as duas represas, vai chover?

Essa venda barata de previsões inexistentes é um pé no saco.

SÓ SÁBADO – Hoje já é segunda, agora dá para ter alguma ideia do que vai acontecer no fim de semana com um pouco mais de precisão. De acordo com a meteorologia, a sexta-feira em São Paulo será abafada com máxima de 28°C e sem chuva. No sábado, a temperatura cai (mínima de 14°C e máxima de 26°C), com chances maiores de chover entre 4h e 8h. A se confirmar, se os volumes de água não forem indecentes como no sábado do ano passado, não atrapalha a F-1 em nada — Interlagos seca rápido. Domingo esfria (máxima de 19°C) e na hora da corrida, 14h, as chances de precipitação são mínimas, 17%. Agora, a ciade é grande. Sempre pode pintar uma garoinha. A vó do Barrichello dizia isso. O que não dá pra engolir é narrador afirmar que há previsão de chuva duas semanas antes. Quando não havia, não há.

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PATRIOTÁRIOS (3)

SÃO PAULO (e nós com isso?) – A Williams vai mudar de nome, avisa o press-release, em inglês. Pô que merda. Vai chamar como?, me pergunto. Dorilton Racing? Vowles Motorsport? Ah, já sei! Será comprada por Christian Horner e vai virar HF1 Team!

Nada disso. Hoje chamada de Atlassian Williams Racing, já que a empresa de softwares comprou os “naming rights” do time — as dez equipes da F-1 hoje comercializaram seus nomes, até a Ferrari –, vai passar a se chamar Atlassian Williams F1 Team em 2026. Oh. Sai o Racing, entra o F1 Team.

E daí?

FRANQUIA VALIOSA – Daí que a marca criada por Frank Williams há mais de meio século já tinha mudado de nome antes, como mostra a foto distribuída pelo próprio time. Era Williams Grand Prix Engineering. Passou por muitas mudanças, com associações com Canon, Honda, BMW, Martini, Rothmans e mais um monte de marcas. Portanto, continuaremos chamando a Williams de Williams e não se fala mais nisso. Mas há uma razão para a troca de Racing por F1 Team: o direito de usar a marca F1 hoje não é de qualquer um, não. As equipes são franquias. Por isso, essa associação direta no nome da empresa “agrega valor”, como se diz. Ninguém, como já mencionado, pode usar o sagrado nome da categoria em vão. Se você abrir uma oficina em Macaraú chamada Mecânica F1, provavelmente será processado. Cuidado, então. Outra coisa que a Williams mudou: o desenho do W da Williams, lembrando o original. Algum publicitário mordeu uma grana para fazer isso daí. Ou talvez tenham pedido para alguma ferramenta de IA. O time fez o anúncio dessas mudanças hoje, chamando a atenção para seu crescimento recente. Neste ano fez 111 pontos, mais do que nas últimas sete temporadas juntas. Ainda está longe daquela Williams multicampeã dos anos 80 e 90, mas já é alguma coisa. A equipe estava morrendo.

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PATRIOTÁRIOS (2)

SÃO PAULO (melhorem) – Entendo, é marketing. Ou publicidade, como queiram chamar. Então, na semana do GP no Brasil — “no” Brasil e não “do” Brasil, porque agora é GP da Capital Paulista, segundo as mocinhas da rádio; gente, como elas gostam de falar “capital paulista”! — todo mundo tenta tirar uma lasquinha. Todo mundo que pode, claro. Antigamente, qualquer empresa espalhava outdoors, metia um anúncio nos jornais e mesmo na TV usando o nome “Fórmula 1”, ou fazendo referências explícitas à corrida. Lembram desses aqui?

Agora, é preciso algum vínculo formal com a categoria. Ninguém mais fala “Fórmula 1” de graça. Está acontecendo algo parecido no futebol. Já perceberam que a Libertadores agora é “Conmebol Libertadores”? E Copa do Mundo virou “Copa do Mundo da Fifa” etc.? Pois é. Para se associar à categoria, é preciso abrir o bolso.

Neste e em alguns dos próximos posts, sempre em caixinhas coloridíssimas, vou mostrar algumas dessas iniciativas. Muitas são ruins. Outras, bem ruins. Outras tantas, péssimas. Todas que usam a expressão “experiência imersiva” merecerão nosso mais profundo desprezo.

Comecemos com essa bosta aí embaixo.

ROTO & ESFARRAPADO – OK, o Mercado Livre é demais. Sou usuário há anos, desde quando era um site de leilões. Compro tudo nesse negócio, acho o máximo. Melhor que a Amazon. Mas precisavam ter escolhido garotos-propaganda tão… ruins? Neymar não joga. Colapinto não corre. E o comercial, diferentemente daquele que colocaram no ar quando o argentino fechou com a Alpine (ele recebe um capacete em casa, algo assim), é incompreensível. Ruim demais. Péssimo. Um horror. Aliás, Mercado Livre e Shopee disputam quem faz os filmes mais toscos. Acho que é de propósito.

ELE FICA – Apesar de tudo, Colapinto deve ficar na Alpine no ano que vem. Sua campanha nesta temporada é lamentável, mas a equipe é mais ainda. Está num fim de feira triste, querendo ser vendida, uma tristeza só. Em 2026, a boa notícia é que vai usar motores Mercedes. E Franco fica porque nem é tão ruim assim, e a grana que o Mercado Libre coloca na sua carreira é considerável. Sim, Libre. Para quem não sabe, a origem dessa gigante do e-commerce é argentina. Lá, é Libre. Aqui, é Livre. E vamos em frente. Só melhorem esses filmetes. E parem de impulsionar a audiência no YouTube, esses números de visualizações são ridículos.

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PATRIOTÁRIOS (1)

SÃO PAULO (só verdades) – Esta é, provavelmente, a última cobertura de F-1 no Brasil deste blog. Tenho avisado, há meses, que minha ideia é congelar a página no dia 5 de dezembro, quando se completam 20 anos de sua estreia. Mas terei de mudar os planos de cara por causa da final do Mundial, que acontece no dia 7. Sendo assim, depois disso vou decidir o que fazer. O projeto é passar tudo para cá:

Um conto erótico por Flavio Gomes

Entre tiros e corpos na cidade maravilhosa

Leia no Substack

Vejam só, tem até contos eróticos… Na verdade, essa é a minha página no Substack, plataforma global de newsletters. Que, na real, nada mais são do que… blogs! Com a diferença de que as pessoas assinam essas newsletters e recebem em seus e-mails avisos cada vez que o autor posta alguma coisa. Há modalidades de assinaturas. Quem paga recebe tudo, lê tudo, tem acesso a arquivos, pode comentar como aqui. Quem não paga recebe apenas extratos dos textos, com liberação da íntegra a partir de uma assinatura paga.

Jornalistas do mundo inteiro estão migrando para o Substack, visto que as redes sociais praticamente extinguiram os veículos de comunicação, e nós jornalistas que vivemos de escrever precisamos ser remunerados de alguma forma.

Assim, voltando aos planos, o que vai acontecer é que minha produção ESCRITA mudará de endereço. Vai migrar desta plataforma, o WordPress, para o Substack. O blog não será apagado da internet. Tudo que foi escrito e publicado aqui, por mim e por vocês, permanecerá no ar. Mas congelado, que é a palavra que escolhi para substituir “desativado”. Sendo assim, já corram no link do Substack e ASSINEM A PÁGINA COM UM PLANO PAGO. Minha cobertura de F-1 com meus textos fantásticos, os melhores do mundo, passarão a ser publicados lá. A não ser que eu mude de ideia, mas não acho que mudarei.

A cobertura do GP de São Paulo, ex-Brasil, começa hoje. Vou retomar as notas curtas, como fiz durante anos na corrida de Interlagos. Com muitas cores e alegria. À primeira delas, então.

Cadeirinhas para todos

SENTA – Olha, pode ser que eu esteja enganado, mas acho que é a primeira vez que o Setor G terá cadeirinhas. Não me parece que os lugares serão marcados, porque as fotos que recebi não mostram numeração nenhuma. Me contem depois. Vocês que frequentam essa pocilga (desculpem o termo, mas desde 1990 o Setor G nunca passou de uma pocilga horrorosa e perigosa, e quem se sentir ofendido, bem, paciência…) já tiveram o direito a cadeirinhas antes? Fiquem felizes, porque não vão sentar em qualquer cadeira. Essas foram compradas do espólio da Olimpíada de Paris. Vieram 41 mil assentos, e 29 mil deles foram montados no Setor G.

MUDOU? – Essa arquibancada, em passado não muito distante, sempre foi refúgio para ogros mal-educados, incivilizados, agressivos, misóginos, hostis, violentos e homofóbicos — meu público, como costumo dizer, o tal público do automobilismo, e se alguém se sentir ofendido de novo, foda-se. Já me disseram que de uns anos para cá, uns três ou quatro, as coisas melhoraram um poucos — mulheres, por exemplo, já podem assistir ao GP sem correr o risco iminente de estupro. Tomara. Espero vossos depoimentos. Ainda sobre as cadeiras, elas vieram em 220 contêineres e começaram a ser montadas em agosto. Uma empresa que faz eventos que trouxe. Não sei para onde vão depois da prova.

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AGENDINHA PATRIOTÁRIA

Semana de corrida em Interlagos, vamos à agendinha da semana! Vejam os horários do FÓRMULA GOMES, serão um pouco diferentes!

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BANDINDY

SÃO PAULO (bom filho à casa…) – A Bandeirantes anunciou hoje que assinou com a Indy para transmitir as próximas três temporadas da categoria. O release da emissora não diz se as 17 etapas serão transmitidas ao vivo em canal aberto ou se estarão no seu canal a cabo, o BandSports. Nem faz qualquer menção à equipe de transmissão. O canal tem tradição na Indy desde os anos 80 com Luciano do Valle. Nas últimas temporadas, as provas da série americana foram mostradas pela TV Cultura.

Uma coisa é certa: o tema musical das transmissões não será mudado. Se na F-1, nos últimos cinco anos, usaram o antigo da Indy para economizar, não há motivos para que seja diferente agora…

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NÃO ENTENDI NADA

O troféu do GP de São Paulo: “brasilidade”

SÃO PAULO (mas é bonito) – Eu adoro as explicações que nos dão para algumas coisas… Esse aí em cima é o troféu do GP de São Paulo, ex-Brasil. Foi revelado agora há pouco. O pessoal de imprensa da corrida acaba de mandar o release, detalhando seu processo de criação e descrevendo seus significados. Como não entendi nada, reproduzo abaixo, com uma ligeira edição para encurtar o texto:

O novo troféu do Formula 1 MSC Cruises Grande Prêmio de São Paulo 2025 é uma verdadeira ode à brasilidade. O troféu foi concebido pela Furf Design Studio, dos designers Mauricio Noronha e Rodrigo Brenner, e traduz o encontro entre a tecnologia, arte e emoção, com formas que remetem à pluralidade do Brasil e à paixão nacional pelo automobilismo. “Tivemos a missão de materializar a identidade brasileira nos quatro objetos mais desejados e sonhados pelos pilotos e suas equipes. Ainda mais nessa reta final da temporada, onde tudo ainda está em aberto, dá uma sensação mais especial podermos, enfim, revelar esse projeto que está sendo pensado desde abril deste ano. Todos os mínimos detalhes foram pensados para transparecer e comunicar a cultura vasta e plural do Brasil que serão mostradas ao mundo todo consagrando campeões”, disse Alan Adler, CEO do GP São Paulo.

Produzido em impressão 3D sem resíduos e alumínio fundido, com acabamento metalizado e envernizado, o troféu é feito de dez camadas de folhas, representando as dez equipes de F-1 que competem. Mas quando olhado de cima, são 12 folhas, representando o relógio e a corrida contra o tempo dos pilotos na pista. A textura em movimento mistura referências como mantos Tupinambá, louros da vitória, escamas, pétalas e o skyline de São Paulo, criando um mosaico que reflete a diversidade e a energia do país. “O troféu é uma metáfora da pluralidade tupiniquim. Penas, folhas, escamas, pétalas, prédios, tudo junto e misturado, assim como São Paulo é! Ele tem movimento, tem ginga. São dez fileiras de louros compostas por doze folhas cada: as dez equipes correndo contra o relógio. E sua forma, inspirada na curva do S do Senna, remete a uma ampulheta, analogia à conquista do piloto como se tivesse dominado o tempo”, explica Rodrigo Brenner, cofundador da Furf Design Studio. “Queríamos criar um ícone profundamente brasileiro, com reverência ao passado e um olhar para o futuro. O povo brasileiro tem uma relação emocional única com o automobilismo. É parte da nossa história, da nossa identidade. O brasileiro não só assiste, ele vibra, lembra, sonha, sente. Criar o troféu do GP São Paulo é tocar esse sentimento coletivo e dar a ele um corpo, um símbolo.”, complementa Mauricio Noronha, seu sócio.

O acabamento final da peça foi feito por Alan Mosca, sócio da Sid Special Paint e filho do lendário Sid Mosca, referência no automobilismo. “Foi uma honra ser convidado a participar de uma parte tão importante e significativa de um evento de nível mundial, como o GP de São Paulo. Representa um momento marcante na minha trajetória. Estou há 50 anos nesse universo do esporte a motor e agora tenho a oportunidade de completar a arte de troféus que fazem parte da história da temporada de 2025. Para a Sid, é um grande reconhecimento e uma demonstração de confiança em nosso nome, resultado de muito trabalho e expertise”, afirma Mosca.

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SOBRE ONTEM À TARDE

A IMAGEM DA CORRIDA

Ollie, feliz como uma criança que é: o melhor do GP do México

SÃO PAULO (migrando em breve…) – Foi lá mesmo no México, em 1991 ou 1992, não lembro bem.

Minto. Lembro, sim: 1991. Porque foi minha primeira corrida no México, e foi naquele ano que fui incumbido de arranjar um restaurante para toda a tropa de jornalistas brasileiros jantarem na sexta-feira, depois dos treinos. Foi no ano em que o Senna capotou na Peraltada e todo mundo achou que ele iria partir desta para a melhor, porque dias antes tinha já rachado a cabeça num acidente de jet-ski. Ayrton era meio vida louca.

Aí, mesa cheia, cerveja descendo, tequila correndo solta, quase todo mundo já sentado decifrando o cardápio, chega o último colega, um gaúcho empedernido de sotaque carregadíssimo, e estávamos todos muito excitados falando sobre a capotada do Senna, sua cabeça rachada, a comida apimentada que recomendava alguma cautela, falávamos sobre vários assuntos e todos ao mesmo tempo, e o gaúcho, com seu vozeirão, pediu a atenção de todos, interrompeu todas as conversas, dirigiu-se ao mais afamado da mesa, que provavelmente, naquela ocasião, era o Reginaldo Leme, e disparou: “Viste as Minardi?”.

Ninguém queria saber das Minardi, os protestos foram imediatos, todos gritando com o gaúcho, que Minardi o quê!, foda-se a Minardi!, e outro colega, igualmente gaúcho, que conhecia melhor o recém-chegado, cochichou no meu ouvido: “Esse aí é um ‘outrista’”.

“Outrista” é palavra que não existe no dicionário, creio, mas passou a existir desde então, sendo a definição do sujeito que resolve introduzir “outro” assunto, notadamente irrelevante, numa roda em que todos estão falando sobre temas completamente diferentes. No caso, na populosa mesa daquele restaurante na Cidade do México, estes eram Senna, a Peraltada, Mansell, Williams, Piquet, jet-ski, McLaren, Telê campeão brasileiro, Pablo Escobar, colapso da União Soviética, assuntos não faltavam, e se surge alguém, nesse contexto, perguntando “viste as Minardi?”, eis um “outrista”.

Elimino as aspas do termo para me autoproclamar um outrista hoje, após a vitória de Lando Norris no GP do México, o que fez dele o novo líder do campeonato, agora apenas um ponto à frente de seu companheiro Oscar Piastri. Foi uma ótima corrida, Charles Leclerc terminou em segundo, subiu ao pódio pela 50ª vez, Max Verstappen se virou nos 30 e terminou em terceiro, Piastri foi só o quinto, mas eu, o outrista, chegaria na mesa mexicana hoje e pediria a palavra para perguntar ao primeiro que me desse atenção: “Viste o Bearman?”.

Oliver Bearman, 20 anos, da pequenina Haas, ficou em quarto na corrida e repetiu o melhor resultado da história da equipe, um quarto lugar de Romain Grosjean na Áustria em 2018. O menino que ainda tem umas espinhas no rosto e dentes tortos foi o grande nome do GP do México na visão outrista deste que vos escreve. Por isso, é dele a imagem da corrida deste rescaldão. E tem mais algumas aí embaixo.

Ótimas fotos, não? Nada como a alegria genuína de um piloto jovem que ainda não foi contaminado pelo proverbial mau humor da Fórmula 1. E isso acontece ou com os mais jovens, ou com os mais velhos. Se tem alguém que tem sabido rir de si mesmo nestes dias bicudos é Fernando Alonso. Vejam aí embaixo. No desfile dos pilotos, o espanhol, 44 anos no lombo, meteu uma máscara de “lucha libre” e ficou o tempo todo zoando a molecada.

Com viseira e tudo.

Alonso libre!

Como sempre fazemos neste “Sobre ontem…”, vamos dar uma olhada nas classificações dos dois Mundiais, de Pilotos e Construtores. Entre os dez primeiros, troca de posições apenas entre líder e vice-líder. Um ponto de vantagem para Norris sobre Piastri, como já dito. O que a McLaren pode fazer, agora? Nada. Estão empatados, na prática. Solta os caras e que vença o melhor. Verstappen descontou alguma coisa em relação ao australiano, mas perdeu dez pontos para o inglês — ele mesmo fez questão de dizer isso, para jogar água na fervura dos que acreditam que é capaz de um milagre nessa altura do campeonato.

Sim, milagre. O fato é que a diferença para o líder caiu de 40 para 36, mas agora tem uma corrida a menos para tirar o atraso. E Max já não depende só dele, como a gente fala no futebol. Se vencer as quatro provas restantes e as duas Sprints, perde para qualquer um dos dois que chegar em segundo em todas elas. A tarefa é bem complicada.

Mas tem jogo, ainda. Aprendemos muito nestes anos. Afinal de contas, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo. Nada de correr da raia. Nada de morrer na praia.

Entre as equipes, a Ferrari voltou à vice-liderança, agora um ponto à frente da Mercedes. Foram 22 pontos anotados por Leclerc (terceiro) e Lewis Hamilton (oitavo), contra 14 de Kimi Antonelli (sexto) e George Russell (sétimo). Dez pontos separam o time italiano da Red Bull, que está em quarto e, claro, muito viva na briga. Vale uma boa grana.

A Haas subiu para oitavo graças ao ótimo quarto lugar de Bearman e ao nono de Esteban Ocon. Passou a Sauber. Aliás, por conta disso houve um momento hilário ao final da corrida. Pelo rádio, Gabriel Bortoleto perguntou o resultado da prova e quando soube que Ollie tinha terminado em quarto, comemorou — são muito amigos. “É, mas foi ruim pra gente no campeonato”, corrigiu com algum azedume seu engenheiro. O brasileiro ficou meio sem graça.

Mas foi sincero e ficou feliz pelo amigo, o que tem muito mais valor que a espanada do outro lado da linha.

O NÚMERO DO MÉXICO

50

…pódios na F-1 alcançou Leclerc, sete deles neste ano. Empatou com Jenson Button nas estatísticas, na 17ª colocação. Com mais um, iguala o bicampeão Mika Hakkinen. O recordista é Hamilton, com 202. Companheiro do monegasco, o inglês ainda não ganhou nenhuma taça nesta temporada, porém.

“Fui salvo pelo VSC”, disse Leclerc depois da corrida. VSC é “virtual safety-car”, ordem dada pela direção de prova para todos tirarem o pé até um limite máximo de velocidade para clarear alguma situação na pista. Que, no caso, foi uma rodada de Carlos Sainz na penúltima volta. Mas o espanhol estacionou o carro em lugar seguro. O VSC desnecessário impediu Verstappen de atacar Leclerc pelo segundo lugar. O holandês nem reclamou. “Às vezes a gente dá sorte com essas coisas, às vezes dá azar. Hoje dei azar”, conformou-se.

Quem estava inconformado era Liam Lawson.

A FRASE DO HERMANOS RODRÍGUEZ

“Cara, que merda! Vocês viram isso? Eu podia ter matado eles!”

Liam Lawson, da VISA etc.

Foi na terceira volta do GP mexicano. Lawson tinha sido abalroado por Sainz na largada e teve de ir aos boxes para tentar arrumar o carro. Quando voltou à corrida, deu de cara com dois fiscais que tinham atravessado a pista para tirar detritos do asfalto. Houve um mal-entendido entre direção de prova e comando dos fiscais. A situação foi crítica. Felizmente ficou no susto e ninguém se machucou. Lawson acabou abandonando a corrida. A FIA promete investigar em detalhes o que aconteceu.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… de ver o maravilhoso Honda RA272 que venceu o GP do México com Richie Ginther em 1965, exatos 60 anos atrás. Foi a primeira vitória da marca japonesa na F-1. O carro, que pertence ao museu da montadora, foi levado ao Hermanos Rodríguez para algumas voltas de exibição. Yuki Tsunoda foi o encarregado de dirigi-lo. Pena que teve um probleminha no câmbio e ele parou depois de poucos metros. Mas deu para matar a saudade de um dos mais belos carros da história.

NÃO GOSTAMOS… da Williams e de Carlos Sainz. A equipe saiu zerada e errou tudo com Alexander Albon, que largou inexplicavelmente de pneus duros. O espanhol, por sua vez, só fez bobagem. Na largada, bateu em Lawson. Na batida, quebraram-se os sensores de velocidade do carro. Sem o sensor, Sainz excedeu a velocidade permitida nos boxes duas vezes, levando duas punições. Acabou rodando na penúltima volta.

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FOTO DO DIA

Reproduzo trecho da newsletter “Invenções de Morel”, de Ronaldo Bressane (https://ronaldobressane.substack.com/). A foto é de Bob Wolfenson. Fico besta com a capacidade desses gênios das lentes de transformarem paisagens banais em obras de arte.

Mais fantasmagórico dos projetos do fotógrafo do Bom Retiro, Exteriores (Cosac) reúne 75 imagens pinçadas de seu incrível baú por sua assistente Ana Tonezzer, com projeto gráfico de Edu Hirama e impressão da Ipsis — que faz a Morel. Entre variadas cidades europeias, brasileiras e asiáticas, vemos chapas coloridas desde os anos 1970 até a nossa década de 20, clicadas ora em super câmeras profissionais, ora em prosaicos celulares. São imagens silenciosas, quase sempre em paisagens urbanas desertas. Mesmo naquelas em que há presença humana, sente-se solidão, deslocamento, desconexão, estranheza. A composição muitas vezes é enviesada, passando tensão e inquietude. Na entrevista ao editor Charles Cosac, Wolfenson diz que um traço a unir as imagens é a “busca por beleza, mas não no sentido cosmético, e sim de algo evocativo, de um sentimento de prazer, de uma descoberta, de um merecimento”. Um tablebook pra viajar sem sair do lugar.

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