PAUL | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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terça-feira, 23 de novembro de 2010 - 21:16Rádio Blog

PAUL

Quando os quatro garotos se juntaram em Liverpool para criar uma banda, tinham planos ambiciosos, e deles fazia parte um grande show num estádio que ainda seria construído num país distante, para um cara que ainda não tinha nascido e que teria dois filhos, que quando pequenos só iriam dormir com esse cara cantando umas músicas que ainda não tinham sido compostas, muito menos cantadas, mas as músicas ficariam gravadas nas cabecinhas dos meninos de modo que quando eles fossem um pouco maiores, no dia do tal show, saberiam as letras de cor, não todas, mas algumas, aquelas com refrões menos complicados que pudessem ser entendidos em qualquer idioma, como lá-lá-lá e ob-la-di, e algumas outras com palavras curtas como let, it e be, por exemplo, e outras mais que aprenderiam nos primeiros anos de escola, como black e bird, portanto havia muito trabalho pela frente, era preciso formar a banda, compor as músicas, ensaiar, tocar, gravar, e ainda esperar o estádio ser construído, o cara nascer, casar, ter os filhos, e era preciso ainda fazer sucesso, para que as músicas fossem conhecidas e chegassem ao país distante, e que o cara gostasse delas, comprasse os discos, decorasse as letras, e os quatro garotos não sabiam direito quanto tempo isso iria levar, então só restava torcer para que os planos dessem certo até que chegasse o momento exato em que o estádio estivesse pronto para o show, e que tivesse acontecido tudo aquilo que se esperava com o cara que ainda iria nascer, ou seja, que nascesse, ouvisse, comprasse, decorasse, era preciso dar tudo certo lá no país distante e em Liverpool também, e até que tudo estava correndo bem, talvez bem até demais, porque a banda fez muito sucesso, muito mesmo, e depois que as músicas com refrões fáceis e palavras curtas já tinham sido compostas e gravadas, vieram outras, bem mais difíceis e igualmente belas, e o sucesso era tão grande que um dia os quatro garotos ficaram grandes demais para uma banda só e se separaram, mas a ideia original do show no estádio do país distante para aquele cara e seus dois filhos foi mantida, disso não há dúvidas, como saberemos adiante, era um ponto de honra para os quatro, apenas uma questão de tempo para que tudo acontecesse conforme planejado, até que um deles morreu, isso não estava nos planos, e o que fazer?, seguir em frente, há um projeto que deve ser concluído, leve o tempo que levar, seja como for, e os anos foram passando, mas felizmente as canções simples não foram esquecidas, essa parte estava garantida, ficaram gravadas no vinil e nessas pequenas fitas magnéticas e nesses discos metalizados, então o segundo garoto morreu, um despropósito, o que faremos?, seguimos, há uma meta, um destino, um objetivo, não devemos nos desviar, até que chegou o dia, porque o estádio tinha ficado pronto um bom tempo atrás, e o cara nasceu, e seus filhos também, e eles já sabiam algumas letras de cor porque o cara cantava na hora de dormir e colocava para tocar no carro, não havia mais motivo para adiar nada, e dos quatro apenas um, no fim das contas, pôde cruzar o oceano até aquele país distante para o show planejado tanto tempo atrás, o estádio estava lá, o cara e seus dois filhos também, se tivessem combinado não teria dado tão certo, marcaram dia e hora, e no dia e na hora marcados estavam os quatro lá, um dos garotos de Liverpool mais o cara e seus dois moleques, podiam começar, ok, faltam os outros três, mas não se pode querer tudo, certos planos precisam ser adaptados às circunstâncias, então que comece o show, magical mistery tour, é deles?, pergunta o mais novo, é, responde o cara com algumas lágrimas nos olhos, e pelo que consta foram só essas, logo no início, porque afinal o show estava combinado desde muito tempo antes, antes mesmo de ele e os filhos nascerem, e sempre que esses momentos muito esperados chegam, alguém se emociona, quem diria que eu ia ver um deles ao vivo, diz o mais velho, é mesmo, responde o cara, quem diria, all my loving, é deles?, o mais novo, é, o cara, é do primeiro disco, e as músicas iam sendo cantadas uma a uma, é deles?, o mais novo, não, essa não, é só dele, two of us, my love, blackbird, eleanor rigby, here today, agora vou fazer uma homenagem, anuncia o garoto que sobrou, e something, o baixo, o violão, a guitarra, tudo meio desgastado dos tempos em que os planos para aquele show foram traçados, e então, no piano negro, no alto do palco que estava um pouco longe, mas os telões eram do tamanho do prédio, garantiu o cara aos filhos, tranqüilizando-os, vai dar para ver tudo, o som é bem alto, vocês vão gostar, e no piano negro as palavras curtas, let, it e be, e o mais novo cantou junto, o mais velho também, então live and let die, explosões e luzes fortes, esse cara é foda, pensou o cara, ele sabe que crianças gostam dessas coisas, planejou tudo direitinho, e aí o cara se deu conta de que não estava chorando como pensava que ia chorar, que nada, estava era com um puta sorriso no rosto, aquele era a day in the life muito especial, muito mesmo, valeu a pena esperar tanto tempo, ele está feliz, disse o mais velho sobre o garoto de Liverpool, claro que está, respondeu o cara, afinal foram muitos anos esperando para fazer esse show para a gente, hey, jude, sussurrou, e os dois meninos cantaram com os braços para o alto, uau, pensou o cara, como é que eles sabem essa música inteirinha desse jeito?, e aplaudiam e gritavam com seus pulmõezinhos a pleno, e o tempo foi passando, estava ficando tarde, e in the end the love you take is equal to the love you make, o que quer dizer isso?, pergunta o mais novo, ah, é sobre amor, essas coisas, responde o cara, e os três estão sorrindo, acabou, o garoto de Liverpool se despede, acena para os três lá longe com a sensação da missão cumprida, finalmente fiz o show, os três agradecem, estão com fome, vão comer um sanduíche, os moleques estão ainda mais felizes porque no dia seguinte vão faltar na escola, acabou muito tarde, acho que combinaram com o garoto de Liverpool, tenho certeza, vi que ele deu uma piscadinha lá de longe, e é uma pena que os outros três não puderam vir, ficariam muito contentes com os aplausos e com a alegria do cara e de seus dois filhos, talvez até se emocionassem, é que demorou um pouco mais do que devia esse show, a gente não consegue adivinhar o futuro, não é mesmo?, mas tudo bem, o importante é que o show aconteceu, já podemos ir.

179 comentários

  1. Rebeca Gambassi disse:

    Sensacional, o texto, Flávio!! Adorei… Alias, adoro td que vc escreve!! Continue assim e parabens por ter conseguido “doutrinar” os seus filhotes para ouvir boa musica e nao essas porcarias que tao ae na midia!!

    Super beijo!

  2. Marcos° disse:

    Posso fazer uma consulta! Gostaria de levar meu Zézinho ao show do U2 hoje, a censura é 12 anos, ele tem 11. Como vc foi ao Paul com seus Herdeiros , eles já tinham idade superior a censura do Paul ( 14 anos)?. Será que vão barrar o meu Zezinho, tem alguma dica.?

    abraço

  3. Marcelo Espíndola disse:

    Queria escrever como você para poder elogiar seu texto à altura !!!

  4. Alexandro disse:

    Flávio, fiquei emocionado . Eu também tenho dois filhos e é exatamente assim que pensamos tudo ao lado deles,todos os detalhes e canções, buscando ensiná-los que o importante é amar e ser feliz.
    Obrigado pelo belissimo texto.

  5. Tiago disse:

    Quando eu virar um anão, quero escrever assim também!

  6. Daniela disse:

    Pô, bem hoje que eu tinha conseguido parar de chorar de emoção por causa do show, resolvi ler seu post. La vou eu chorar de novo…

  7. Danilo A. disse:

    Como sempre, brilhante.

    Uma correção, se já não foi feita, e se me permite: é Eleanor Rigby, e não Rugby, eheheh.

  8. Mario Pacheco disse:

    Muito legal o texto Gomes…gosto do jeito que vc conta suas experiencias de vida..show!!!…literalmente

  9. Bellissimo disse:

    Não há o que dizer de uma figura ilustre que foi membro de um quarteto lendário..e que depois de 40 anos, suas musicas e letras são inspirações para milhares de crianças, garotos, jovens do mundo todo. Um super show.um super dia..Um super cocerto..Salve The Beatles….

  10. Thais disse:

    Demais,como sempre escrevendo e descrevendo tudo com muita emocao e conhecimento…amei…

  11. José Arthur disse:

    Flavio, sou seu leitor desde antes do blog, esperando pelas colunas e pelos Diários de Viagem. Nunca havia postado nada mas não pude deixar de me emocionar com seu texto. Muito bacana, até porque me identifiquei, já que levei o meu moleque para o gramado, vindo do Rio e pude compartilhar com meu filho ver, ao vico, um dos heróis do século XX. Grande texto. Abraços, Z

  12. Luís Almeida disse:

    Fantástico texto.

    E ainda bem que gostou do concerto. O Paul também deve estar bem feliz pela sensação do dever cumprido.

  13. Andreia disse:

    Foi o primeiro post que li em seu blog, indicado pelo meu namorado. Fomos ao show, e só quem estava lá pode entender tudo isso que vc escreveu.
    Parabéns!

  14. Vitor Viviani disse:

    Lindo o texto, parabéns !! O show foi … O Show.

  15. jean pierre disse:

    Muito bom o seu texto, parabéns!

  16. Sandro disse:

    É, os Gominhos tiveram um fim de semana realizador, sábado viram a lusa ganhar e fizeram um SP Tour e no domingo assistiram ao show do Paul. Realizados mesmo!!!!

  17. Clayriston disse:

    Grande Gomes, és um cara de muita sorte, por ter um sonho realizado, teus guris também são de uma sorte tremenda pois não esperaram tanto tempo.

    Conserve esse dom de transmitir tanta alegria em tão poucas palavras, estou deveras emocionado, vi o show daqui de longe PB, e me emocionei como nunca havia antes, e como não podia esperar, também me emocionei com seu relato, mais uma vez parabéns.

    E como diz o Jeambro… me dá medo o futuro. Guardarei na memória e no meu toca discos coisas assim, para que um dia meus filhos possam ter uma fração do privilégio que o pai deles teve ouvindo boa música, ao vivo e a cores, pela TV é claro, mas ainda assim, belíssimo espetáculo.

    Forte abraço e, cabra, vem passar as férias aqui na Paraíba, se algum dia tirares férias.

  18. LUIZ OVIDIO LUZ BORO disse:

    parabens, cara , vc escreve pacas, e amanha 25/11 completo 60 anos,e tive o previlegio de curtir ca no interior barretos, todos os vinis do quarteto de liverpool , e o que vc fez me lembrou qdo em 1965 meu pai me levou em interlagos e vi o camilo junto com o caetano damiani dar um show, e nos charutos junto com o valente repetir a dose, e 28 anos depois levei meu casal de filhos p conhecer interlagos na F1, E quando passei por baixo da pista e entrei no padock e vi os dois extasiados de emoçao, lembrei de meu velho pai, e desabei… valeu cara vc pela sua idade , e intelectualizado e culto dentro de um parametro que so posso elogiar … valeu …

  19. Jeambro disse:

    Sensações ruins. Esse show me dá uma sensação de que um ciclo está se fechando. Beatles, Pink Floyd, Genesis, estão todos indo embora, e estão sobrando apenas Luan Santana, Restart, NXzero e porcarias parecidas.
    Meu Deus.

  20. Pedro Araújo disse:

    Um dos relatos de show mais bonitos que já li, Gomes, Parabéns, cara. Seus garotos são moleques de sorte. E o pai deles também, né?

  21. cidinho disse:

    Flavio parabens pelo texto fantastico.

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