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quinta-feira, 7 de abril de 2011 - 20:58Brasil

O PAI DO HOMEM

SÃO PAULO – Então…

Depois de ler o que pude, ouvir o rádio e ver a TV, peguei meu carro, era dia de folga, jornalista folga de quinta-feira, fui até a oficina, vi os dois Weber que colocaram no Meianov, ligamos o carro, o motor ficou com um ronco legal, depois descemos lá onde eles fazem funilaria e pintura, a peruinha já está toda raspada, sem motor, descobrimos a cor original. Descobrir a cor original de um carro de 55 anos é algo emocionante para quem gosta deles, dos carros. Foi arrancar o forro do teto e lá estava o azul, Azul Firenze, segundo o amigo das cores, intocada a pintura, uma coisa bacana, ajuda muito na restauração, mesmo que o Azul Firenze não seja lindo, eu tinha a ideia de fazer creme e vinho, ou branco Lotus e azul-marinho. Mas ela era azul, ora bolas, e se nasceu assim, que continue assim. Acho que será azul, e também encontrei o número do chassi, é umas das únicas 173 fabricadas em 1956, creio que o mais correto seja mesmo fazê-la como era quando saiu da fábrica e tal.

Depois fui ao centro da cidade, com um trânsito curiosamente bom, atrás de um emblema e de umas calotas, o trânsito curiosamente bom.

As irrelevâncias nos movem. Tudo que fiz hoje foi irrelevante, ver uns carburadores, descobrir uma cor, procurar uns emblemas e umas calotas. Foi tudo que consegui fazer. Mergulhar na irrelevância e na indiferença.

O rapaz que entrou na escola atirando não se encaixa em nenhum perfil que permita esbravejar. Até onde se sabe, não era traficante, ladrão, fugitivo. Não era militante de nenhum partido, não lutava jiu-jítsu, não era um skinhead, não pertencia a nenhuma torcida organizada. Até onde se sabe, não usava drogas, não bebia, não era pedófilo, não era evangélico, não era muçulmano, não era judeu, não era cristão, não era xiita, não era sunita, não tirava racha na rua, não tinha suásticas tatuadas na pele, não pertencia a nenhuma seita, não era gótico, não era punk, não ouvia Bossa Nova, não usava piercing, não era rico, não era pobre, não era gordo, não era magro, não estava em liberdade condicional, não tinha passagem pela polícia, não vivia no Complexo do Alemão, não era do Jardim Ângela, não morava numa cobertura da Vieira Souto, não era nada. Segundo sua irmã, ele era estranho.

Estranho.

Seu nome era Wellington de Oliveira, um nome bem brasileiro, há milhares de Wellingtons, Washingtons, Andersons. O Brasil tem um estranho fascínio por W e por nomes que terminam em “on”. Wanderson, Jackson, Jobson, Richarlyson. Ele era um Wellington de Oliveira.

Quando não se pode culpar traficantes, fugitivos, ladrões, militantes, lutadores, skinheads, nazistas, torcedores organizados, drogados, cristãos, bêbados, pedófilos, muçulmanos, góticos, magros, evangélicos, rachadores, punks, gordos, xiitas, ricos, pobres, nem o prefeito, nem o governador, nem a presidenta, nem o ministro, nem o secretário, nem a polícia, nem o senador, nem o deputado, nem a diretora da escola, nem o médico, nem o professor, culpamos quem?

Culpamos quem?

Quando não podemos culpar ninguém, chegou a hora de assumir o que somos. Uma espécie fracassada, violenta, agressiva, condenada à extinção. Uma espécie habituada à barbárie, e que não se imagine que “nos transformamos em”. Sempre fomos assim, indecentes, obscenos, há séculos nos matando em guerras, inquisições, pogroms, chacinas, massacres, genocídios, atropelamentos, assassinatos, latrocínios, torturas, execuções. E pragas, pestes, terremotos, incêndios, tsunamis, deslizamentos, enchentes. Um moto-contínuo de mortes, mortes, mortes, e vinganças, vinganças, vinganças, ódio.

A criança é o pai do homem. Guardo um pequeno cartão com essa frase no meu carro, há anos está lá, era o convite da formatura do meu mais velho no pré-primário. Não o guardo como mantra ou guia espiritual. Está lá porque está lá, porque o carro que nos levou à formatura do pré ainda está comigo, e lá ficaram o cartão e a frase. De vez em quando uso o cartão, de papel de alta gramatura, cartolina, talvez, porque quando o vidro sobe levanta uma rebarba da forração da porta, e o cartão serve para colocar a forração no lugar. É um uso banal, irrelevante, coloco o cartão entre o vidro e a forração da porta, e tudo fica no lugar, tudo volta ao seu lugar. Um uso banal e irrelevante, mas que me faz ler essa frase todos os dias, ou, pelo menos, quando preciso colocar a forração da porta no lugar.

A criança é o pai do homem.

Wellington ajudou a nos matar mais um pouco hoje. É um erro, Wellington, matar-nos aos poucos. Da próxima vez, Wellington, mate-nos a nós, direto, sem intermediários.

Mate o homem, Wellington, não seus pais.

295 comentários

  1. wilma disse:

    Maravilhoso! Só posso dizer que terminei de ler o texto chorando. Que dor no peito! Que vazio! A uma profunda tristeza e ao mesmo tempo uma necessdade de tentar mudar o homem de hoje para que meus netos tenham a chance de ser o homem de amanhã.
    Seu texto é sensacional, dolorido,indisível.

  2. wilma disse:

    A única coisa que posso dizer è que terminei de ler o seu texto chorando. Fantástico, e ao mesmo tempo doloroso, real e por isso mesmo extremamennteindizível.

  3. Brasílio disse:

    Um texto digno de co-assinatura, feito com o coração, nada a acrescentar, só apoiar;

    opinião:
    escola tem de ser aberta, pois não, mas acima de tudo as crianças devem ser protegidas não só de um maluco, mas de traficantes e de pessoas mal intencionadas, e o custo de protege-las deve ser considerado irrelevante, independentemente de seu valor numérico; diga-se de passagem que o estado tem toda a responsabilidade enquanto abriga as crianças em suas escolas, ou não?; agora as sugestões mais simples surgem, mas a análise profunda que deveria passar pela EDUCAÇÃO, é relegada a n-ésima prioridade;

  4. Flávio disse:

    O que todos queriam ouvir: sabe esses males que assolam a humanidade, então…não há nada o que cidadãos comum possamos fazer……Por isso podemos continuar com nossas vidas egoístas em busca de mais dinheiro. Covardia de quem tem medo de assumir a responsabilidade sobre as pessoas ao nosso entorno….temos muitos outros problemas, inclusive mortes de crianças do lado de fora do vidro insulfilmado

  5. Maria Inez do Espirito Santo disse:

    Concordo com suas reflexões, mas discordo do tom totalmente pessimista.
    Postei em meu blog – http://www.vasosagrados.zip.net – um texto – “Onde os adultos” que gostaria de compartilhar também. Temos pontos de convergência em nossos pensares e estilos diversos de dizer…
    Muito grata.

  6. LEILA MARIA DA CRUZ AZEVEDO disse:

    É DIFÍCIL ACREDITAR NA EXISTÊNCIA DE ALGUÉM QUE TENHA ATINGIDO ESTE GRAU CONSCIENCIAL. VOCÊ FOI BRILHANTE NAS SUAS COLOCAÇÕES À RESPEITO DO CASO “WELLINGTON”. ESTE GRAU DE CONSCIÊNCIA EM QUE VOCÊ SE ENCONTRA É ALGO RARO. CONSIDERE-SE PRIVILEGIADO OU MELHOR, CONQUISTADOR DE UM CONHECIMENTO QUE REQUER GRANDE ESFORÇO. VOCÊ FOI CAPAZ DE ABORDAR O ASSUNTO AVALIANDO-O DE MANEIRA AMPLA E TOTAL. PARABÉNS, E QUE VOCÊ CONTINUE FAZENDO OUTRAS INDICAÇÕES NO MESMO NÍVEL DESTA.
    MUITÍSSIMO GRATA! UM FORTE ABRAÇO LEILA MARIA

  7. Fabiana Nogueira disse:

    Belo texto. Sou professora de escola pública, de alunos da mesma idade dos que foram mortos. E, desde ocorrido, sou indagada a todo tempo sobre o ocorrido. Não tenho resposta, apenas angústia. E é exatamente a angústia de saber que estamos nos destruindo. Abraço.

  8. Raquel disse:

    Para quem esta farto(a) de um jornalismo preguiçoso que toma conta da tv, internet, jornais e sei lá mais o que… é muito bom ler um texto como este. Parabéns Flávio Gomes!

  9. Jonas Bin disse:

    Flávio, acompanho seu blog há algum tempo e nunca tinha deixado nenhum comentário, mas desta vez não posso deixar de dizer que fiquei até arrepiado com o que você escreveu, ou com o que tu escreveste, como nós gaúchos dizemos. Acredito que tudo o que foi dito sobre isso pode ser resumido no seu texto: emocionante, e até onde pode haver um bom sentido nisso, impactante.

  10. Eduardo Baldan disse:

    Linda a frase do convite da formatura do seu filho.
    É desnecessário acrescentar qualquer coisa diretamente à esse assunto, muito já foi dito, inclusive com esse belo, porém magoado, texto. (Não teria como ser diferente, obviamente)

    Tracei um paralelo, indo ao cerne da barbarie. Como ainda não possuo blog, publiquei no facebook, imagino que esteja disponível para todos.

    Caso tenha sede, aqui está: http://www.facebook.com/#!/note.php?note_id=10150151694628932

    Um abraço e obrigado por suas reflexões.

  11. Daniel Faria disse:

    Brilhante.

  12. Rodrigo Martins disse:

    Parabens pelo post.
    Muito bem pensado e escrito.
    Faz pensar em quem realmente somos.
    Um abraco.

  13. Rogério Magalhães disse:

    Vale uma leitura, diretamente d’além mar:

    http://www.publico.pt/Mundo/reportagem-nunca-tivemos-nada-assim-no-brasil_1489022?all=1

    Principalmente o toque em outra tecla chata, a porra do desarmamento do populacho… será que dificultar acesso a armas não ajudaria muito a evitar casos assim? Ou caras como esse partem para o famoso “quem não tem 38, caça com facão ou faca de cozinha ou canivete”?

  14. Raphael Eterovich disse:

    Flavio.

    meus parabéns, texto marcante…

    Raphael

  15. Moacir A F de Faria disse:

    Quanto a espécie em extinção, convenhamos que negamos nossa origem em nome de uma racionalidade fragil. Os humanos, enquanto ramo dos mamiferos primatas somos animais, como os outros que dividem esse tempo neste planeta. Existem no íntimo de nossos gens aqueles impulsos primitivos que por milhares de anos tentamos dominar. Muitos conseguem, alguns não.
    Então o animal primitivo explode em fúria inexplicável.
    E a nossa maior indignação está no fato de não querermos nos ver naquele nosso semelhante desorientado. Queremos a todo custo negar nossa origem.

  16. renato disse:

    Que texto!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!quanta amargura bem traduzida….excepcional

  17. Adail Garrido disse:

    Este é a meu ver o “QUADRO” exato, da humanidade que vive num “ATRITO” permanente, sem saber onde se refugiar rsrs

  18. Olivo disse:

    Gigante. Monstro esse post. Um “temporal” do Flavinho, que larga na pole a respeito do assunto. Com folga. Parabéns véio.

  19. João Netto disse:

    Jamais iremos compreender a complexa pequenice do ser humano perante a infinitude do universo. O rapaz tinha uma psicopatia. A psiquiatria, ciencia que cabe na pequenice humana, seria capaz de cuidar do rapaz. Simples: ninguém dentre os próximos percebeu a doença.

  20. orlando disse:

    Há tempos digo que o homem é um projeto que deu errado.
    Rogo aos ET’s – se é que eles existem – que passando por aqui usem seu raio exterminador e acabem com a raça humana. Toda a raça humana. Não é pra sobrar ninguém. Deixando apenas as plantas e os animais, o planeta agradece.

  21. Ana disse:

    Não sei o que dizer,….fui a coluna mais sensata sobre esse caso que eu li!
    Perfeito.
    Obrigada!

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