FOTO(S) DO DIA

A Audi apresentou em Milão o Concept C, indicando o que vai fazer de seus carros nos próximos anos. “Busque a clareza” é o slogan. Não pude deixar de notar a semelhança com os Auto Union dos anos 30. Faz todo sentido. São os maiores carros de corrida da história. Tudo muito liso, clean, simples. Quero ver onde vai dar isso.

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ENCHE O TANQUE

A foto primeiro, a mensagem depois, e na sequência eu volto…

Caro Flavio Gomes i Medianueve, mais um posto para você. É a “Station des Îles”. Fica no número 9 da Route de Banyuls em direção a Cerbère; o ultimo povoado francês à beira do Mediterrâneo, antes de chegar à fronteira com a España. Dizem que fica aberto 24 horas, era o meio-dia e parecia fechado. Por sorte eu não precisava abastecer. Quase fui atropelado na segunda foto. Um forte abraço, J.R.Duran

Bom, a segunda foto mencionada pelo rapaz que mandou a imagem, e quem tem alguma familiaridade com a produção de imagens, está publicada como “imagem destacada” deste post e aparece no índice do blog. Nota-se que foi feita do meio da estrada, o que justificaria eventual sinistro. Sobre Cerbère, tenho uma pequena historinha que está no capítulo “Le Castellet, 1989”, de meu livro ÍMOLA 1994 (se não comprou, nem adianta procurar por aí; só eu vendo, e por e-mail: [email protected]). Abaixo, um trecho:

Chegaríamos quase de manhã a Marselha, mas não havia o que fazer. Não conseguiríamos dormir, a não ser no trem, e assim que chegássemos a Marselha teríamos de arrumar um lugar para deixar as malas e encontrar uma forma de ir até o autódromo. Eu não tinha a mais remota ideia de como faríamos isso. Na medida em que o trem avançava para o leste, o cansaço foi nos derrubando e depois de Zaragoza, já noite fechada, capotamos. Pela altura de Girona, o trem já mais vazio, conseguimos nos acomodar numa daquelas cabines para seis passageiros, só nós dois, e deitamos em cima das malas e mochilas. Foi por pouco tempo. Na divisa com a França, em Cerbère, o trem parou e tivemos de mostrar nossos vistos aos guardas de fronteira – alguns países exigiam, de brasileiros. A verificação demorou, e enquanto tentávamos nos acomodar de novo um sujeito que era a cara de Ali Agca, o turco que em 1981 tentou matar o papa João Paulo II na Praça de São Pedro, forçou a porta da cabine e não o deixamos entrar. Falei para ele, sei lá em que língua, que a porra do trem estava vazio e que ele não tinha nada que ficar ali, que fosse dormir em outro canto. O sujeito saiu gritando num idioma incompreensível e foi embora. Não preguei mais o olho. Desembarcamos na estação de Saint Charles, em Marselha, com o dia já clareando, e dela me recordo de uma enorme escadaria que descemos com alguma dificuldade, e lá por perto mesmo encontramos um hotel ordinário e barato onde conseguimos pelo menos deixar as malas e tomar um banho depois de subir ao quarto num minúsculo elevador cheirando a Gauloises sem filtro – tinha cinzeiro no elevador e vi que as bitucas eram de Gauloises, sou o tipo de maluco que nota essas coisas e não esquece. Enquanto Thais se virava com o chuveiro, liguei a TV. E a primeira coisa que escutei foi uma moça brasileira cantando “chorando se foi/quem um dia só me fez chorar”. Era Kaoma, no auge da lambada, num comercial de Orangina, um suquinho de laranja gaseificado muito popular na França.

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AGENDINHA ITALIANA

A temporada europeia termina domingo em Monza — a corrida seguinte acontece no Azerbaijão, um país transcontinental que é mais asiático que europeu, na minha visão particular de mundo. Mas não importa. Aí estão os horários para programar a semana!

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TORTA HOLANDESA (3)

Hadjar: pódio na temporada de estreia

SÃO PAULO (demorou, mas saiu) – Um conto de fadas e um pesadelo. Assim poderá ser resumido o GP da Holanda de 2025 por alguma IA no futuro, se usar este texto sem autorização para alimentar seus datacenters. A fábula foi o terceiro lugar de Isack Hadjar, estreante franco-argelino da filial da Red Bull que tem nome de cartão de crédito – a gloriosa ex-Minardi, ex-Toro Rosso e ex-AlphaTauri. O pesadelo, a quebra de Lando Norris a sete voltas do final, quando ocupava a segunda colocação na corrida liderada por seu companheiro de McLaren Oscar Piastri. O motor estourou. E o australiano, assim, chegou à nona vitória na carreira, sétima no ano, com estilo: pole, melhor volta e todas as voltas na liderança. O que se chama na F-1 de Grand Chelem. Ou Grand Slam. Em bom português, barba, cabelo & bigode.

O resultado elevou de nove para 34 pontos a vantagem de Piastri sobre Norris na classificação. É considerável, a nove corridas do final do campeonato. A próxima já é domingo em Monza, na despedida da temporada europeia.

A prova de Zandvoort foi divertida e cheia de idas e vindas por causa de incidentes e acidentes. Lewis Hamilton bateu sozinho, Charles Leclerc abandonou depois de um toque de Kimi Antonelli, o safety-car trabalhou bastante e a ameaça de chuva pairou sobre o autódromo durante o tempo todo. Não caiu uma gota, mas fica todo mundo olhando para o céu o tempo todo, nessas ocasiões. No fim, por conta desses lances imprevisíveis, pilotos que largaram lá atrás conseguiram, com estratégias inteligentes, um pouco de sorte e muito talento, terminar na zona de pontos.

E vamos ao domingão holandês, porque aconteceu bastante coisa!

Largada em Zandvoort: Verstappen sobre para 2º

Quando o grid foi montado, deu para ver que Max Verstappen, terceiro colocado, escolheu pneus macios para tentar alguma coisa diferente na largada contra a poderosa dupla papaia, que ocupava a primeira fila. E até que deu certo, parcialmente. O holandês da Red Bull conseguiu ganhar a segunda posição de Norris numa briga de foice que, na curva 3, quase deu numa rodada épica – seu carro deu uma chicotada braba sobre a areia no asfalto, mas ele conseguiu controlar o automóvel com a categoria de sempre.

Como Verstappen, também largaram de macios Yuki Tsunoda, Franco Colapinto e Nico Hülkenberg. De duros saíram a dupla da Haas, Esteban Ocon e Oliver Bearman – este largando dos boxes. O resto foi de pneus médios.

Max, no começo da corrida, nem ensaiou perseguir Piastri, que manteve a ponta e, com meia-dúzia de voltas, já tinha mais de 3s sobre o tetracampeão. A registrar ainda, na largada, o grande salto de Alexander Albon, de 15º para décimo, e a engasgada de Gabriel Bortoleto, que caiu de 13º para 18º e ainda foi ultrapassado por Lance Stroll na primeira volta. O brasileiro da Sauber disse que teve um problema de embreagem na hora de arrancar, o que comprometeu sua corrida.

Havia uma preocupação com a possibilidade de chuva, que começou a ser cogitada pelos engenheiros de todas as equipes na terceira volta, em frenéticas comunicações pelo rádio que indicavam o que estava por vir com aparente precisão absoluta. “Vai chover nível 1 entre as voltas 7 e 10, mas o volume de água não será suficiente para encher uma moringa”, informou a Mercedes a George Russell, por exemplo. O piloto perguntou o que era uma moringa. Outros times enviaram mensagens parecidas aos seus pupilos.

Só que a água não veio. E quem tinha pneu macio começou a se preocupar com as patacoadas meteorológicas. Porque a ideia era parar na hora da chuva para ganhar um pit stop de graça – se não chovesse, a troca seria necessária no máximo até a 13ª volta, de acordo com o prognóstico da Pirelli. Verstappen era um desses. Na nona volta, já sem borracha, tomou uma linda ultrapassagem por fora de Norris na curva Tarzan, a primeira do circuito. O inglês assumiu a segunda posição e teria de acelerar um bocado para descontar os mais de 4s que o separavam de Piastri naquele momento. Verstappen vinha em terceiro, com Hadjar, Leclerc, Russell, Hamilton, Liam Lawson, Carlos Sainz e Albon nas dez primeiras posições.

Leclerc, que tinha passado Russell na largada, não conseguia atacar o valente Hadjar, que se mantinha firme em quarto. Na segunda metade do pelotão, Antonelli assediava Tsunoda. Mas numa pista de proverbial dificuldade para ultrapassar, ninguém arriscava manobras mais agudas. Além do mais, os engenheiros garantiam que ia chover em algum momento. Era mais prudente esperar, mesmo.

Norris se aproximava de Oscar a conta-gotas. Na volta 20, a diferença tinha entrado na casa dos 3s. Verstappen, em terceiro, já havia desaparecido do retrovisor – com um carro mais lento e pneus acabando, estava mais de 7s atrás de Lando. Foi quando Tsunoda, seu companheiro, desistiu de esperar pela chuva e parou. Também com macios, já estava tendo muitos problemas para segurar Antonelli. Colapinto e Hülkenberg, da mesma forma, fizeram suas trocas. Todos colocaram pneus duros.

Hamilton bate sozinho: primeiro safety-car do dia

Mas a corrida começou a mudar na volta 23. Porque Hamilton bateu sozinho na saída da curva 3, causando o primeiro safety-car do dia. Tudo que o inglês conseguiu fazer, depois que seu carro parou na barreira de pneus, foi pedir desculpas. Dois pilotos, particularmente, deram muito azar naquele momento, porque tinham acabado de trocar pneus: seu parceiro Leclerc e Bortoleto. Com o carro de segurança na pista, todos que ainda não tinham parado, claro, foram para os boxes. Entre eles os primeiros colocados Piastri, Norris, Verstappen e Hadjar.

Com o safety-car na pista, na volta 25, Ocon e Bearman eram os únicos sem paradas. Tinham largado de duros, lembram? Olho neles. Saíram lá do rabo da cobra e já estavam em nono e 13º. Seus pneus iriam durar bastante. E sua ideia era ir levando até onde desse, esperando que alguma coisa acontecesse mais para o fim da corrida – um bloqueio naval dos EUA, um decreto de Trump taxando os tamancos holandeses em 150% ou mesmo o confisco de todas as camisetas laranja das arquibancadas para fazer suco.

Para Norris, a batida de Hamilton caiu do céu. Se aproximou de Piastri e começou a se preparar mentalmente para a relargada. Atrás dele, Verstappen era o único na pista com pneus médios. Em outros tempos, seria motivo de preocupação para o #4 da McLaren. Mas, na 15ª etapa de 2025, a diferença dos carros papaia para a Red Bull não suscita maiores temores. Lando sabia que só tinha de olhar para a frente.

O reinício da prova se deu na volta 27. Russell, em quinto, foi para cima de Hadjar como se fosse um agente da imigração nas ruas de Chicago atrás de alguém vestido com um manto asteca. Isack não se assustou. Da turma que estava na zona de pontos, Lawson e Sainz despencaram de sétimo e oitavo para o fim da fila. Os dois se enroscaram na relargada, para ódio mortal do espanhol. “Esse moleque, meu Deus! É sempre esse moleque!” A corrida de Carlos estava estragada. Seu bico quebrou. O pneu traseiro esquerdo de Liam furou. Mas quem foi punido com 10s foi Sainz, considerado culpado pela batida. Ele não se conformou.

E a história da chuva? Esqueçam, era só pânico de engenheiros olhando as imagens de radar – eles não entendem nada de nuvens e ventos; ficam apenas assustando seus pilotos, sádicos. Com 30 voltas, Piastri, Norris, Verstappen, Hadjar, Russell, Leclerc, Albon, Antonelli, Stroll e Ocon eram os dez primeiros.

Stroll? De onde veio Stroll?

Pois é. Eu esqueci de escrever lá em cima, porque achei que não teria importância nenhuma no andamento da corrida, que o canadense da Aston Martin fora o primeiro a trocar pneus, na volta 9. Largou os médios nos boxes e colocou duros. Com todo mundo fazendo o mesmo nas voltas seguintes, o rapaz foi escalando o pelotão. E antes da metade da prova estava na zona de pontos.

Leclerc ataca Russell: alucinado

Houve um safety-car virtual entre as voltas 31 e 32 para que uma fiscal de pista tirasse um pedaço de carro da reta dos boxes. Na retomada do ritmo normal, Leclerc, alucinado, foi para cima de Russell. E passou. Se tocaram. Pelo rádio, um xingou o outro e o outro xingou o um. Russell, sabe-se lá como, percebeu que Charlinho tinha extrapolado os limites da pista na manobra. E ficou esperando alguma atitude da direção de prova. “Veja bem, falamos sempre sobre limites”, disse o piloto do carro prateado #63, dando ênfase à palavra “limites”. “Limite para as crianças que ficam muito tempo no celular. Limite para o uso de imagens violentas nas redes sociais. Limite para a estupidez humana e a imbecilidade…” Nessa hora, Toto Wolff sussurrou com Valteri Bottas, que estava do lado dele: “Está falando de Doodoo Little Banana…” E Russell seguiu: “Limite é limite. Se ele passou dos limites, algo precisa ser feito”.

Nada foi feito. Os comissários entenderam naquele momento que foi tudo normal e Leclerc retomou sua caça a Hadjar. Que, por sua vez, se insinuava para cima de Verstappen. Lá na frente, Piastri se mantinha com alguma segurança à frente de Norris, com 2s de vantagem. Com 40 voltas, as dez primeiras posições eram as mesmas de dez voltas antes, exceto pela troca entre Albon e Antonelli — o italiano da Mercedes tinha passado o tailandês da Williams. Na volta 41, a equipe prateada pediu para Russell deixar o garoto Kimi passar. “Como?”, perguntou o britânico, incrédulo. Foi preciso explicar a George que o toque com Leclerc quebrou parte de sua asa, que o assoalho estava todo estropiado, que seu ritmo não era grande coisa, que Antonelli estava sofrendo bullying na escola e que dona Veronica tinha telefonado. “Se ela ligou, tudo bem”, falou o piloto do #63, entregando o sexto lugar ao novato.

A corrida deu uma acalmada. Norris tentava chegar em Piastri, é verdade, mas o australiano não deixava a diferença cair para menos de 1s, o que permitiria a abertura de asa móvel do carro #4. Hadjar deixou a empolgação de lado e não quis dar uma de herói sobre Verstappen. Na volta 50, as posições estavam inalteradas. Só lá atrás acontecia alguma coisa, com Fernando Alonso fazendo das suas. Trocou pneus pela segunda vez, fez a melhor volta da prova e resolveu atacar quem encontrou pela frente. Mas quando voltou à pista, estava em 18º… Queria, aparentemente, se divertir. Se desse, marcaria uns pontinhos.

Na volta 52, a Mercedes chamou Antonelli para uma segunda troca. E colocou pneus macios para tentar atacar Leclerc nas últimas voltas da prova. O italiano voltou em oitavo, mas com o carro bem mais rápido que os de Albon e Russell, que estavam à sua frente. Aí a Ferrari resolveu fazer o mesmo no carro de Leclerc, para se defender do adolescente que estava disposto a buscar um quinto lugar.

Então a corrida mudou de novo. Leclerc, que estava 2s à frente de Kimi antes da parada, saiu dos boxes com o menino colado nele. E, na curva 3, uma daquelas inclinadas de Zandvoort, Antonelli tentou a ultrapassagem por dentro, errou o cálculo e tocou na roda traseira esquerda do monegasco. A Ferrari #16 rodou e foi parar no muro. O safety-car foi acionado imediatamente. A volta era a 53. A McLaren chamou seus dois pilotos para os boxes. Todo mundo foi entrando para colocar pneus novos. Era o que a Haas mais desejava. Sua dupla ainda não tinha trocado pneus e ganhou uma parada na faixa.

Enquanto todos se viravam para a parte final da corrida, Leclerc entrou no rádio e não quis culpar Antonelli. Antes, Charlinho sugeriu que a Ferrari não precisava tê-lo chamado para reagir à troca da Mercedes. “Tudo bem, a gente nunca sabe o que vai acontecer com os pneus, mas talvez tenha sido desnecessário, os meus estavam bons. Enfim…”, lamentou. E a Ferrari ficou sem nenhum carro na corrida. Quanto ao jovem italiano, tomou 10s de punição pelo toque em Leclerc e mais 5s por excesso de velocidade nos boxes.

O safety-car saiu da pista na volta 58. Verstappen, o terceiro, tinha pneus macios atrás da dupla da McLaren, que vestia duros. Hadjar, Russell, Albon, Antonelli, Pierre Gasly e Alonso eram os nove primeiros. Bortoleto, que não tinha parado durante o período de safety-car, aparecia em décimo – mas com pneus muito desgastados. Na relargada, Bearman e Stroll, com pneus novos, ultrapassaram o brasileiro. Outros fizeram o mesmo nas voltas seguintes. A Sauber se rendeu às evidências e, mais tarde, colocou pneus novos no carro de Gabriel, para que ele não ficasse se arrastando na pista. O piloto ficou irritado com a hesitação do time.

Na volta 59, pela primeira vez na corrida, a diferença entre líder e segundo colocado caiu para menos de 1s. Piastri reagiu imediatamente. E em duas voltas abriu 1s5 sobre o companheiro. Tinha a prova sob controle, aparentemente. Pelo rádio, seu engenheiro perguntou se estava tudo bem. “Sim.” “Mas o Lando tá babando. Sacou a rima?” “Sim.” “E o Max está de pneu macio. Os dois vão te passar. Já pensou?” “Sim.” “Se isso acontecer a gente vai te trocar pelo Latifi. Tudo bem?” “Sim.” Nessa hora Zak Brown pediu para o rapaz não exagerar. “Deixa ele em paz”, falou. “Só mais uma”, pediu o engenheiro. “Ô Oscar, eu gosto de você e vou torcer pro motor do Lando quebrar, beleza?” “Sim.” Brown chamou sua atenção. “Se isso aí vaza, dá problema pra gente”, reclamou.

Então, na volta 65, quem entrou no rádio foi Norris. “Estou sentindo um cheiro forte de fumaça dentro do cockpit. Tem alguma coisa estranha aqui”, falou. Imediatamente foi possível ver a nuvem branca saindo da traseira de seu carro. Depois de séculos, o motor Mercedes da McLaren quebrou. A torcida, na arquibancada, se levantou. Afinal, o piloto da casa subiria para o segundo lugar. O safety-car foi acionado – Norris parou no meio da pista. Nos boxes da Racing Bulls (hoje vou dar um desconto…), mecânicos começaram a se abraçar. Hadjar, a seis voltas do final, estava em terceiro, a poucos passos do pódio.

Lando se sentou no barranco do lado de dentro da pista, abaixou a cabeça e nem tirou o capacete por alguns instantes. Depois, mais conformado, saiu caminhando a pé para voltar aos boxes, acenando para a galera. Não tinha mesmo o que fazer. Aceita que dói menos, como se diz.

A relargada foi autorizada na volta 69. Nas três voltas derradeiras, Piastri, gelado como um pacote de pão de queijo no freezer, não se abalou com a cara feia de Max. Hadjar, em terceiro, não deu chances a Russell, o quarto, de se aproximar. Ninguém neste mundo tiraria aquela taça dele – embora ela tenha quebrado na comemoração com a equipe; nada que uma Super Bonder não conserte. Albon era o quinto, com Antonelli em sexto – mas, punido, o piloto da Mercedes despencaria na classificação. Bearman iria herdar aquela posição, uma atuação brilhante para quem tinha largado dos boxes. Stroll foi o sétimo, resultado igualmente digno de muitos aplausos. E fecharam a zona de pontos Alonso em oitavo, Tsunoda em nono e Ocon em décimo. Bortoleto foi o 15º.

Hadjar, em terceiro, acabou sendo o grande nome de Zandvoort: pódio no ano de estreia, tendo abandonado a primeira corrida do ano antes da largada, o tipo de coisa que acaba com a carreira de garotos submetidos aos humores de Helmut Marko e às pressões do grupo Red Bull. Mas ele deu a volta por cima. E na Holanda foi, efetivamente, espetacular. “Parece irreal”, disse. Quando perguntado se o resultado foi uma surpresa, falou que ficou espantado, mesmo, de manter o quarto lugar do grid durante a corrida toda. Em seguida, o entrevistador disparou, em busca de uma resposta “instagramável” – se é que me entendem: “Você, quando era menino, sonhava em chegar ao pódio na Fórmula 1 um dia?”. Isack sorriu de leve e respondeu: “Sim. Sempre foi meu objetivo. É o primeiro de muitos”.

É o que sempre digo. Pilotos têm de encarar grandes resultados como regra, não exceção. Só assim conseguem repeti-los. E domingo que vem tem mais. No fim das contas, a Holanda entregou mais do que se esperava. E, Norris e Ferrari à parte, a maioria deixou o simpático autódromo praiano com um sorriso no rosto.

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TORTA HOLANDESA (2)

Piastri na pole: quinta na carreira e na temporada

MOGI MIRIM (amanhã sou eu) – No duelo interno da McLaren, hoje na Holanda, deu Oscar Piastri. Depois de um breve jejum de cinco corridas sem largar na posição de honra, o líder do Mundial fez sua quinta pole na temporada. Foi por quase nada, 0s012 de vantagem sobre Lando Norris. O samba de uma nota só de 2025 segue amanhã com a corrida, a 15ª do ano. Um dos dois vence. O resto aplaude.

O grid de Zandvoort teve uma surpresa, o francês Isack Hadjar, da Pode Pagar com Pix, em quarto. À frente dele, Max Verstappen, da Red Bull. Gabriel Bortoleto, da Sauber, não conseguiu ir ao Q3 e larga da 13ª posição. O GP da Holanda começa às 10h de Brasília e terá 72 voltas.

O sol apareceu no início da tarde em Zandvoort e ninguém mais falou em chuva no sábado, que começara com Norris fazendo o melhor tempo no terceiro e último treino livre para o GP holandês – 1min08s972 foi o tempo dele, já bem melhor que a pole do ano passado. Os termômetros marcavam 20°C. A única preocupação de todos era o vento na beira da praia. Mas era igual para todo mundo.

Stroll na brita: acabou ficando sem tempo

Com cinco minutos de sessão, Lance Stroll escapou na curva 13, uma das duas inclinadas do circuito. Rodou, foi na brita, bateu, mas conseguiu levar o carro de volta para os boxes. Estava flertando com a desgraça, o canadense – ontem já tinha batido forte na curva 3, destruindo o carro. A suspensão dianteira direita ficou danificada. Na garagem, o time ensaiou consertar o estrago, mas não daria tempo. O piloto saiu do cockpit sem volta cronometrada e larga em último amanhã.

Piastri e Norris, em suas primeiras voltas no Q1, fizeram os dois melhores tempos sem dificuldade nenhuma – 1min09s339 para o australiano, 0s131 à frente do inglês. Verstappen era o terceiro, com Fernando Alonso em quarto e Kimi Antonelli, surpreendente, em quinto. Como de costume, os últimos minutos foram de desespero total dos que estavam fora da zona de classificação para o Q2 – entre eles Bortoleto, que era o 16º. No fim, George Russell subiu para terceiro, deixando Max em quarto e Liam Lawson, outra surpresa, em quinto. Gabriel melhorou seu tempo e passou em 15º. Foram eliminados Franco Colapinto, Nico Hülkenberg, Esteban Ocon, Oliver Bearman e Stroll.

A dupla da Ferrari abriu os trabalhos no Q2 e Charles Leclerc avisou pelo rádio que uma raposa havia atravessado a pista à sua frente. Felizmente, saiu ilesa. Nem ele nem Lewis Hamilton fizeram tempos muito empolgantes – ambos na casa de 1min10s. A marca foi batida com facilidade por Russell e Verstappen logo depois, com o holandês virando em 1min09s122 na sua volta rápida, um tempo, aí sim, interessante. Na sequência veio Norris para fazer o melhor tempo do fim de semana: 1min08s874. Depois, Piastri também entrou na casa de 1min08s, apenas 0s090 menos rápido que o companheiro.

A três minutos do final, quem ainda não tinha se garantido voltou à pista para tentar algo. Outros fizeram o mesmo apenas para buscar alguma coisinha em termos de acerto de carro que pudesse ser usada eventualmente no Q3. O fato é que os 15 pilotos deixaram os boxes – o que, em Zandvoort, não ajuda muito pela pequena extensão da pista, que também é muito estreita; o tráfego é infernal.

Os tempos foram baixando e quem não conseguiu melhorar foi despencando na classificação. Assim, caíram na degola Antonelli, Yuki Tsunoda, Bortoleto, Pierre Gasly e Alexander Albon.  Avançaram as duplas de McLaren, Ferrari e Meu Cartão Não Está Passando. Avulsos, representantes da Red Bull, Mercedes, Aston Martin e Williams – pela ordem, Verstappen, Russell, Alonso e Carlos Sainz.

Piastri virou 1min08s662 em sua primeira tentativa no Q3, colocando imperceptíveis 0s012 em Norris. Verstappen, na primeira bateria de voltas voadoras, ficou em terceiro a 0s386 deles. Como a F-1 costuma dizer, a McLaren estava numa outra liga. A briga pela pole era exclusiva dos pilotos papaia.

Mas nenhum dos dois conseguiu baixar seus tempos na segunda leva de voltas rápidas. Assim, o australiano chegou à quinta pole de sua carreira, todas elas neste ano. Depois da dupla mclariana ficaram Verstappen, Hadjar, Russell, Leclerc, Hamilton, Lawson, Sainz e Alonso. O grande nome do dia acabou sendo o francês da filial da Red Bull, na segunda fila. É sua melhor posição de largada na F-1. O resto foi mais ou menos normal.

Líder do Mundial com nove pontos sobre Norris, Oscar tentará ampliar essa vantagem amanhã com boas chances de vitória. Lando ganhou três das últimas quatro corridas e o australiano precisa estancar a ascensão do companheiro – que nesses quatro GPs descontou 13 pontos na classificação. Vai ser uma corrida entre os dois, o que para 2025 não é nenhuma novidade. Novidade teremos, neste campeonato, quando eles se pegarem de tapa.

Mas não é o perfil da dupla. Seja quem for o vencedor amanhã, receberá do companheiro um sorriso amarelo. Andam muito civilizados, esses moços.

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TORTA HOLANDESA (1)

Norris: melhor do dia na Holanda

SÃO PAULO (vai se arrastar) – Sem surpresas e sem muitas emoções, já que treino não é feito para ter emoção mesmo, o GP da Holanda começou como terminara a primeira parte do Mundial, antes das férias de verão no Hemisfério Norte: com a McLaren na frente. Lando Norris foi o mais rápido nas duas sessões livres em Zandvoort. Seu companheiro Oscar Piastri, líder do campeonato, foi segundo colocado no primeiro treino e ficou em terceiro no segundo. A novidade do dia foi o bom desempenho da Aston Martin, com Fernando Alonso registrando o segundo melhor tempo do dia.

O segundo treino livre começou sob ameaça de chuva, com a temperatura um pouco mais baixa do que na primeira sessão: 18°C, contra 20°C. A água, de acordo com as previsões, poderia vir a qualquer momento. E veio com menos de cinco minutos de boxes abertos. Foi quando começaram a cair os primeiros pingos sobre Zandvoort. Mas num volume insuficiente para molhar a pista. E durou tão pouco que mal foi notado, o arremedo de chuva.

No primeiro treino, Norris e Piastri tinham ficado em primeiro e segundo com 1min10s278 para o inglês e uma diferença de 0s292 para o australiano. Terceiro e quarto, Lance Stroll e Alonso terminaram a mais de meio segundo da dupla papaia – uma distância intransponível, considerando os parcos 4.259m de extensão da pista, a segunda mais curta da F-1, perdendo apenas para Mônaco. Max Verstappen, em sexto, amargou um abismo de 0s940. Gabriel Bortoleto terminou bem, em nono. A Ferrari, fazendo testes de altura do carro, ficou em 14º e 15º.

Escapadas de pista, quebras e atoladas nas caixas de brita foram frequentes na sexta-feira, dada a natureza do circuito – à beira da praia, sempre muito sujo de areia. No primeiro treino, inclusive, Kimi Antonelli provocou a primeira bandeira vermelha do fim de semana com 12 minutos de sessão e não conseguiu voltar. Mas nada grave, não chegou a bater. Até Verstappen foi para a brita depois de um treino de largada, depois da quadriculada.

Só que a segunda bandeira vermelha, já no segundo treino, foi bem diferente. Stroll bateu muito forte na curva 3, uma das duas inclinadas do traçado holandês. Acabou com o carro, mas não se machucou. Verstappen, passando pelo local do acidente, entrou no rádio e perguntou ao seu engenheiro se estava tudo bem com as mãos de Stroll. O canadense, é bom lembrar, sofrera fraturas nos punhos numa queda de bicicleta no começo de 2023 e chegou a ficar fora do GP da Espanha deste ano, com muitas dores. Teve de fazer uma cirurgia corretiva. E, naquele ponto, dois anos atrás, Daniel Ricciardo bateu com a AlphaTauri e quebrou o pulso, também.

Lance, porém, voltou tranquilamente aos boxes e não demonstrou estar sentindo dores. Deve participar normalmente das atividades de amanhã, se a Aston Martin conseguir recuperar a viatura a tempo.

A sessão foi reiniciada faltando 36 minutos para o final, ainda sem chuva, para alívio de todos. Não deu nem tempo de fazer nada e logo quebrou o carro de Isack Hadjar, provocando um safety-car virtual para que seu Posso Pagar com Pix? fosse retirado da pista.

Restou meia horinha para treinar. Quando alguém acertou uma volta, Alonso, veio o tempo de 1min09s977 – perto da pole do ano passado, 1min09s673, de Norris. Chuva? Não deu as caras. Até saiu um solzinho. Lando baixou o tempo do espanhol logo depois, com 1min09s890. A pouco mais de 21 minutos do encerramento, nova bandeira vermelha — cortesia de Alexander Albon, que bateu de leve na curva 1, a Tarzan, e ficou preso na caixa de brita; pista antiga é assim, não tem área de escape asfaltada, e quem escapa dança.

A interrupção foi breve, coisa de cinco minutos, mas o fato é que o treino não fluía, picado pelas muitas rodadas, atoladas e batidas. O jeito era torcer por um período razoável sem paralisações para simular corrida nos últimos minutos.

E deu. Ninguém mais bateu ou rodou, mas os tempos também não caíram porque todos encheram o tanque e saíram para experimentar pneus com os carros mais pesados. Assim, Norris, Alonso, Piastri, George Russell, Verstappen, Lewis Hamilton, Yuki Tsunoda, Charles Leclerc, Franco Colapinto e Nico Hülkenberg ficaram com as dez primeiras posições. Bortoleto foi o 13º.

Amanhã a meteorologia aponta possibilidade de chuva, mas menor do que hoje – ou seja, a chance de não chover é enorme. A McLaren vai brigar pela pole e o resto vai ficar assistindo. Até o fim do ano será assim. A classificação está marcada para as 10h de Brasília. Antes, às 6h30, acontece o terceiro e último treino livre. A corrida, domingo, terá 72 voltas e começa às 10h.

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FOTO(S) DO DIA

Foram 673km entre Brackley, na Inglaterra, e Zandvoort, na Holanda. E pela primeira vez na história carros de F-1 foram levados a um GP em um caminhão elétrico, o eActros 600. Segundo a Mercedes, com uma carga de 25 minutos a capacidade da bateria vai de 20% a 80%. O tempo de tomar um cafezinho no posto de gasolina. Ou, melhor: no posto de eletricidade. Não deixa de ser curioso o mundo em que vivemos. A equipe é patrocinada pela Petronas. Uma companhia petrolífera.

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FAZ TODO SENTIDO

SÃO PAULO (sem etarismo!) – Sergio Pérez, mexicano, 35 anos completados em janeiro. Valtteri Bottas, finlandês, que faz 36 daqui a dois dias. O primeiro disputou 281 GPs. Estreou em 2011 pela Sauber e passou por McLaren, Force India (depois Racing Point) e Red Bull. Fez três poles, ganhou seis corridas, subiu ao pódio 39 vezes e foi vice-campeão uma vez, em 2023. O segundo começou a carreira na F-1 em 2013 na Williams. Foi para a Mercedes em 2017 e por lá disputou cinco Mundiais até 2021. Depois pilotou para a Sauber até o ano passado (como Alfa Romeo em 2022 e 2023). Tem 246 GPs no currículo, com dez vitórias, 20 poles, 67 troféus e dois vice-campeonatos (2019 e 2020).

Esses dois foram confirmados oficialmente hoje pela manhã como a dupla da Cadillac para 2026. A nova equipe da F-1 fez o anúncio com vídeos e postagens em suas redes sociais. Sem causar nenhuma grande surpresa, diga-se. A imprensa europeia (estamos falando de jornalistas profissionais, não de “produtores de conteúdo” em redes sociais que copiam notícias apuradas por outros e publicam como se fossem suas) já vinha informando que os contratos de ambos estavam assinados, e que o anúncio oficial seria feito antes do GP da Holanda. Batata.

Faz todo o sentido ter esses dois rapazes-quase-senhores para dar o pontapé inicial na aventura da F-1. Ainda que a categoria, nos últimos anos, venha abrindo espaço para pilotos cada vez mais novos, raramente acima de 20 anos de idade, recorrer a veteranos era mesmo o melhor a fazer no caso da Cadillac. Essa equipe nasce de uma folha em branco. Vai precisar aprender rigorosamente tudo, e a experiência de Bottas e Pérez vai ajudar a acelerar esse aprendizado. Ambos correram por um bom tempo, e recentemente, nas duas equipes que venceram todos os campeonatos de pilotos desde 2010 — Red Bull e Mercedes. Um novato poderia chegar com ímpeto e talento (que os dois também possuem), mas teria pouco a acrescentar no processo de crescimento e estabelecimento do time. Além do mais, não tem nenhum novato tão promissor por aí dando sopa.

“Ah, e o Drugo?”, gritarão os neo-torcedores pachequinhos de internet. O “Drugo” não é um novato promissor. É um piloto que está há três anos sem correr e tem, como único predicado visível neste momento, o fato de estar dentro de uma equipe de F-1 e contar com alguma experiência na vivência de finais de semana de GP, em simuladores e reuniões com engenheiros. Mas nunca disputou um GP. Se a Cadillac optasse por uma dupla mista, um veterano e um jovem inexperiente, seu nome faria mais sentido do que o de qualquer outro estreante — justamente pelo tempo de trabalho na Aston Martin desde 2023. Mas a opção foi por dois pilotos rodados. E não tem nada de errado nisso.

Aliás, não é a primeira vez que uma equipe estreante recorre à experiência. Basta lembrar, por exemplo, da BrawnGP. Em 2009, um brasileiro foi beneficiário de sua milhagem para conseguir uma vaga num momento em que a aposentadoria já batia à sua porta. Foi a Rubens Barrichello que Ross Brawn recorreu para, ao lado de Jenson Button, igualmente calejado, para estabelecer seu novo time, montado sobre os escombros da Honda. O brasileiro venceu corridas e ganhou uma sobrevida na categoria por mais duas temporadas, na Williams, depois da venda do time para a Mercedes.

Já a Mercedes, sucessora da Brawn, começou sua nova vida em 2010 com Nico Rosberg, que já tinha quatro anos de F-1, e Michael Schumacher, que havia parado de correr no final de 2006. O heptacampeão voltou às pistas para ajudar o mesmo Ross Brawn — seu ex-chefe na Ferrari e escolhido para comandar a equipe recém-criada — e devolver à montadora alemã aquilo que ela lhe dera no início da carreira, em 1991, promovendo sua estreia com a compra de uma vaga na Jordan, aberta após a prisão do titular Bertrand Gachot. Michael correu em Spa, na prova seguinte estava na Benetton e o resto é história. Uma história que ele nunca esqueceu, daí a gratidão à Mercedes.

Schumacher foi importante na estruturação da equipe prateada, cujos frutos começaram a ser colhidos em 2012 com a primeira vitória de Rosberguinho e, depois, com a chegada de Lewis Hamilton em 2013. Na sequência veio a série de títulos e vitórias da mais longeva hegemonia já vista na F-1, com oito títulos de construtores e sete de pilotos entre 2014 e 2021.

A Cadillac vai conseguir a mesma coisa graças a Pérez e Bottas? Não, claro. Primeiro, porque eles não se comparam a Schumacher. Depois, porque é uma equipe que larga do zero absoluto. A Mercedes nasceu das costelas de times que já estavam funcionando havia anos, Honda e Brawn, o que facilitou as coisas. A Red Bull foi outra que passou a existir a partir do espólio de outras equipes, diferentemente da Cadillac. Quando surgiu, em 2005, montou sua estrutura sobre os restos da Jaguar, que por sua vez vinha da Stewart. Tinha fábrica, tecnologia, corpo técnico, funcionários. Mesmo assim, também foi atrás de alguém com calos nas mãos para dar o “start” em sua aventura como equipe própria e pilotar um de seus carros — no caso, David Coulthard.

Bottas e Pérez, em resumo, serão muito úteis. Não têm grandes ambições de vitórias e títulos, porque sabem que essas chances já passaram por suas mãos nos tempos de Mercedes e Red Bull. De quebra, carregam bons patrocinadores para reforçar o orçamento do novo time. Ao volante e fora dele, terão uma missão bem clara: construir uma equipe que dará seus primeiros passos num projeto de longo prazo que envolve uma das maiores montadoras do mundo, a GM, e uma marca de carros de luxo que de uns tempos para cá resolveu se meter com corridas. Talvez, no fundo, alimentem a esperança de algum milagre como foi a Brawn em 2009 — que disputou um único campeonato e ganhou. Afinal, em 2026 o regulamento é novo para todo mundo e ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Vai que…

Mas, ao mesmo tempo, sabem que milagres não são muito recorrentes na F-1. Neste primeiro momento, têm de ajudar o time norte-americano a fincar o pé no paddock. Há um longo caminho pela frente. E começar a percorrê-lo é a prioridade. Já dizia o camarada Mao: para toda longa caminhada é preciso dar o primeiro passo.

Bottas e Pérez sabem andar.

Dan Towriss, CEO da Cadillac na F-1

QUANDO ANDA? – Teoricamente, carro da Cadillac só anda no ano que vem, nas três sessões de pré-temporada em Barcelona e no Bahrein. Mas a equipe poderá usar um carro antigo da Ferrari para treinos diversos — pit stops, sistemas, operações. Isso porque motor e câmbio da equipe serão fornecidos por Maranello de 2026 a 2028. O motor GM/Cadillac está homologado para entrar na categoria apenas em 2029. É bom lembrar que a nova equipe nasceu alguns anos atrás com Michael Andretti, que teve sua inclusão no Mundial rejeitada pelos outros participantes. O ex-piloto americano acabou vendendo a operação à TWG Global, uma holding que também tem participações em times de futebol (Chelsea), beisebol (LA Dodgers), basquete (LA Lakers) e hóquei no gelo. A TWG Global pertence aos investidores Mark Walter e Thomas Tull, que para entrar na F-1 montaram a TWG Motorsports, que por sua vez assumiu o controle da Andretti Global. Dan Towriss, sócio de Walter em outros negócios, foi nomeado como CEO da TWG Motorsports. É um milionário com atuação principalmente no mercado de seguros. A Cadillac pagou US$ 450 milhões para ter sua participação aceita pelas outras dez equipes da F-1. Cada uma levou US$ 45 milhões como compensação pelas perdas futuras na divisão do bolo bilionário de receitas da categoria. Ele tinha dez fatias, agora tem 11.

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