CAMELÓDROMO (2)

Mágica: Verstappen acaba com favoritismo da McLaren

SÃO PAULO (o cara é foda) – Max Verstappen larga na pole-position para o GP da Arábia Saudita amanhã Foi a segunda dele no ano, 42ª na carreira. Impressionante. O holandês bateu a McLaren, que vinha gabaritando as folhas de tempos desde a sexta-feira, exceção feita ao primeiro treino livre. Os carros papaia eram franco favoritos à primeira fila. E se pudessem ocupar a segunda, lá estariam também.

Mas Verstappen inverteu a lógica e fez mais uma de suas voltas mágicas. Como em Suzuka, foi aplaudido de pé. Com um carro claramente difícil, fez o que nenhum piloto do grid atual conseguiria. E ninguém deve duvidar dele na prova. Max só não faz chover no deserto. O resto é com ele.

E vamos contar como o rapaz quebrou a banca de novo.

Piastri, segundo: diferença de 0s010 para Verstappen

No Q1, a primeira volta de Norris, 1min28s026, foi 0s8 melhor que a de Albon, que estava na liderança quando o inglês fechou a sua. Depois veio Leclerc para a segunda posição, a 0s5. Só que tinha Verstappen na parada. OK, sem carro para bater Lando, teoricamente. A McLaren, em Jedá, é inalcançável. Teoricamente. Mas o holandês ficou a 0s122 dele, como se dissesse: “Ainda estou aqui”. Na sequência, Piastri baixou o tempo do companheiro em 0s007 – 1min28s019.

Na sessão do fim da tarde, de manhã pelo horário brasileiro, Norris havia registrado 1min27s489. Tinha sobras no carro. Teoricamente. Deu o troco no australiano na sua segunda saída no Q1 virando em 1min27s805, 0s214 melhor que o companheiro/rival. E veio Verstappen de novo: 1min27s778, 0s027 à frente de Norris.

Verstappen, certeza?

Sim. Ainda estou aqui.

O Q1 terminou com 17 carros no mesmo segundo, de Max até Jack Doohan – 0s961 de diferença. Vou usar uma forma meio infantil de escrever, para conquistar o público “xóven”: equilíbrio que chama. Foram eliminados, pela ordem, Lance Stroll (que, se pudesse, estaria fazendo artesanato em Itacaré), Doohan, Nico Hülkenberg, Esteban Ocon e Gabriel Bortoleto.

O brasileiro larga mais uma vez em último. Sua melhor volta foi 1s684 pior que a de Verstappen e 0s680 mais lenta que a de seu companheiro de Sauber. Na última tentativa, rodou. Não é um bom fim de semana para Bortoleto, que perdeu um treino ontem com problemas mecânicos em seu carro. “Cometi um erro com o último jogo de pneus. Tinha pegado um vácuo do carro do Max, cheguei mais rápido uns 10 km/h na curva 1, freei tarde, perdi a traseira do carro e rodei”, explicou.

Os dez primeiros na primeira fase da classificação: Verstappen, Norris, Piastri, Kimi Antonelli, Yuki Tsunoda (a 0s448 do parceiro de Red Bull), Alexander Albon, George Russell, Carlos Sainz, Lewis Hamilton e Pierre Gasly.

Tsunoda: entre os dez primeiros

No Q2, Albon foi de novo o primeiro a ir para a pista para fotografar a tabela de tempos na ponta. Durou pouco, porque logo depois Gasly, Sainz e Piastri deixaram-no para trás. O australiano: 1min27s690. Então, Verstappen: 1min27s529, 0s161 mais rápido que Oscar. Ainda estou aqui. Faltava Norris: 1min27s481, melhor tempo do fim de semana até ali. “Também estou”, falou pelo rádio.

(Isso tudo é invenção minha. Não consta que essa turminha do barulho tenha visto no cinema o exuberante libelo de Walter Salles contra os porcos da ditadura militar. Só que aqui é literatura, rapá!)

Max era uma ameaça, ainda que o favoritismo da McLaren fosse gigantesco, a julgar pelos treinos livres e pela perspectiva de seus pilotos apertarem algum botão mágico no volante no Q3. Bem ou mal, o piloto da Red Bull se insinuava entre os dois papaia. E foi assim que ele terminou o Q2, com Norris à frente e Piastri atrás. Foram eliminados Albon, Liam Lawson, Fernando Alonso, Isack Hadjar e Oliver Bearman. O tailandês perdeu a vaga no Q3 para Hamilton por ridículos 0s007. Avançaram as duplas de McLaren, Mercedes, Ferrari e Red Bull. A eles se juntaram um carro da Williams, de Sainz, e um da Alpine, de Gasly.

E aí vem o Q3. E aí vem a bandeira vermelha. Lando Norris. Pressão que chama.

(De novo escrevi assim, desse jeito ridículo, para agradar os “xóvens”. Tenho sido orientado a isso.)

Norris bateu na curva 5. Passou violentamente sobre a zebra na 4, perdeu o controle e pimba!, deu no muro. “Estou bem”, disse pelo rádio quando seu engenheiro perguntou. “Idiota”, acrescentou, em voz baixa. “Quem é idiota, eu?”, rebateu o engenheiro, fulo. “Idiota é você, que não consegue fazer uma curva!” Lando tentou acalmar o amigo: “Não, não te chamei de idiota. O idiota sou eu. Sou eu, que não sei pilotar um carro sob pressão. Idiota sou eu, que fico fazendo vídeos para o TikTok. Idiota sou eu, que em vez de comprar um avião fico pegando carona com o Max. Idiota sou eu, que fico irritado quando vejo memes com minha cara de sonso. Idiota sou eu, a quem chamam de ‘Dando Molis’. Idiota sou eu, que fico postando foto de prato de macarrão no Instagram”. “Sim”, comentou Piastri, que por acaso estava na escuta.

A sessão foi interrompida faltando 8min32s para o final, na pista que o locutor insiste em chamar de “circuito de corniche”. CORNICHE NÃO É NOME PRÓPRIO, SERÁ QUE PRECISAMOS GRITAR? Seria como chamar pista na praia de Copacabana de “circuito da praia” e não “circuito de Copacabana”. Mas tudo bem. Estou velho para ficar corrigindo os outros.

Só Piastri tinha tempo marcado quando Norris bateu: 1min27s560. Os demais estavam em suas voltas rápidas e tiveram de abortá-las.

Grid em Jedá: Bortoleto em último

Carro removido pela plataforma da seguradora, boxes abertos, Verstappen foi para a pista e, sádico, virou um tempo 0s001 melhor que o do australiano. Ainda estou aqui. Alarmados, os engenheiros, mecânicos, técnicos e acionistas da McLaren saíram gritando com o piloto pelo rádio. “É o Max de novo! Max está em primeiro! Fez um tempo um milésimo melhor! E agora? Oscar, você consegue melhorar?” “Sim.” “Tem certeza?” “Sim.” “Não vai bater o carro que nem o Lando, vai?” “Sim.” “Não, não bata que nem o Lando, o Lando é um idiota!” “Sim.”

Mas quem melhorou foi Russell, com 1min27s407, uma volta muito boa. A pista, aparentemente, estava ficando mais rápida. O inglês da Mercedes foi 0s152 melhor que Verstappen. Piastri também melhorou, 1min27s304. “Boa, Oscar!” “Sim.” “Acha que o Max bate seu tempo?” “Sim.”

Bateu. O cara foi lá e virou 1min27s294, 0s010 melhor que o #81 da McLaren. Russell ficou em terceiro, com Leclerc, Antonelli, Sainz, Hamilton, Tsunoda (a 0s910 da pole), Gasly e Norris fechando os dez primeiros.

Ainda estou aqui.

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CAMELÓDROMO (1)

Norris: McLaren na frente em Jedá

SÃO PAULO (já usei?) – Tirando a McLaren, todo mundo anda meio tenso no paddock da F-1. A Red Bull porque o carro é um problema e todo mundo anda dizendo que Max Verstappen vai deixar a equipe. A Ferrari porque Lewis Hamilton não vira e a imprensa italiana já questiona sua contratação. A Mercedes até que vive dias mais calmos, mas se pergunta: quando vamos voltar a vencer? E tem a Aston Martin, numa draga desgraçada. E a Sauber, com um carro ruim e problemas sérios — Gabriel Bortoleto nem participou do segundo treino. E se olhar aqui e ali, é estreante que não sabe até onde vai no campeonato, é piloto rebaixado que não se encontra, é veterano dando sinais de cansaço, é recém-contratado de quem se esperava mais.

Mas a McLaren navega em mares tranquilos. Toda essa introdução gigantesca aí em cima, que não quer dizer nada, é pura embromação, para dizer que Lando Norris e Oscar Piastri ficaram com os melhores tempos no segundo treino livre para o GP da Arábia Saudita, que é o que importa — realizado à noite lá, no horário da classificação e da corrida. No primeiro, ainda com sol e calor do fim da tarde em Jedá, deu Pierre Gasly, da Alpine. Uma surpresa, claro.

Sol e calor, para não ficar numa coisa genérica, são 34°C de temperatura ambiente e quase 50°C no asfalto. De noite, 20h locais (a diferença de fuso horário para o Brasil é de seis horas), os termômetros caíram para 27-28°C, com 37°C no asfalto. A definição do grid, amanhã, acontece nesse horário (14h aqui). A largada, domingo, também. Serão 50 voltas.

Norris e Piastri ficaram se alternando na primeira posição do treino até faltarem 20 minutos para o final, quando todas as equipes colocaram pneus médios e bastante gasolina no tanque para simular situações de corrida. Aí a sessão foi interrompida com uma bandeira vermelha quando faltavam cerca de dez minutos para o final porque Yuki Tsunoda bateu no muro. Quando foi reiniciada, não deu nem tempo para voltas cronometradas; só para sair do box e treinar largada.

Verstappen, o terceiro colocado, ficou a 0s280 do líder do dia — ou da noite, para ser preciso. Tirou leite de camelo da areia do deserto. Mas não faz milagre. Charles Leclerc e Carlos Sainz, companheiros de jogos de gamão, ficaram em quarto e quinto.

Muitos pilotos deram lambidas nos muros da pista de Jedá, a terceira mais longa do calendário com seus 6.174 m de extensão (só perde para os 7.004 m de Spa e para os 6.201 m de Miami). É um circuito de rua-quase-permanente. Muito veloz, mais de 250 km/h de média, não perdoa muitos erros, com seus muros próximos.

O GP da Arábia Saudita foi disputado pela primeira vez em 2021. É um arranjo financeiro da F-1 com o governo ditatorial do país, que escolheu a petrolífera estatal Aramco para ser patrocinadora da categoria. A empresa, inclusive, é dona de boa parte das ações da Aston Martin, pretende comprar a equipe inteira e, segundo a imprensa italiana, já meteu na mesa do empresário de Verstappen uma proposta de US$ 300 milhões por três anos para tirar o holandês da Red Bull e enfiá-lo no time verde já em 2026.

A pista, batizada de Jeddah Corniche Circuit. “Corniche”, palavra francesa, é usada para descrever uma estrada ao longo de uma montanha ou de um penhasco, e tem um sentido turístico aplicado genericamente a orlas de cidades de praia. Quem vai de Nice para Mônaco, por exemplo, pode optar pela Haute (alta) Corniche, pegar a Moyenne (média) Corniche ou ainda a Basse (baixa) Corniche, minha preferida, que passa por Villefranche-sur-Mer, Beaulieu-sur-Mer e Cap-d’Ail. Nessas cidades costumo comprar frutas, cigarros Gauloises e tomar café Illy, que é italiano, mas na França dizemos “ilí”. E sempre que paro para tomar café, compro também o “Libé” para saber das últimas. Por vezes tomo um sorvete no Les Délices d’Aristée.

Tudo isso para dizer a vocês que “corniche” não é nome próprio como Tarumã ou Paul Ricard, se é que me entendem. A corniche em questão margeia o Mar Vermelho.

Sobre Bortoleto, descobriram um vazamento de gasolina dentro do cockpit. Tiveram de desmontar o carro e vão ter de trocar o chassi, a célula de sobrevivência onde se espetam as suspensões, motor, câmbio e asas. Na prática, seu carro terá de ser reconstruído para amanhã. É ruim, claro, porque ele perdeu a hora de treino noturno, embora conheça a pista porque já correu lá de F-2.

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SOBRE ONTEM À TARDE

A IMAGEM DA CORRIDA

O animado Piastri: vitória é regra, não exceção

SÃO PAULO (sem emoção) – Foram muitas as fotos de Oscar Piastri, hum, comemorando a vitória no GP do Bahrein. Chama a atenção como esse rapaz recebe com naturalidade qualquer resultado numa corrida. Não demonstra emoções e trata a vitória como regra, não exceção.

Pode não agradar todo mundo, mas ele não é o primeiro. O mais célebre a cultivar tal estilo talvez seja Kimi Raikkonen, apelidado de “Homem de Gelo”. Lembro quando ganhou o título em Interlagos, em 2007. Saiu do cockpit, subiu no carro e antes de erguer o punho, socar o ar, gritar qualquer coisa, o que fez? Abaixou a joelheira.

Piastri é desses.

Norris (esq.): quatro pódios em quatro corridas

Lando Norris, por sua vez, chegou em terceiro e conseguiu seu quarto pódio em quatro corridas — antes fora primeiro na Austrália e segundo na China e no Japão. É o primeiro piloto da McLaren a levar quatro taças para casa nas quatro primeiras etapas de um campeonato desde Lewis Hamilton em 2007. Mesmo assim, saiu chateado do Bahrein. “Cometi muitos erros”, resumiu.

Erros também podem ser atribuídos à Ferrari, que estabeleceu para Charles Leclerc e Hamilton uma estratégia diferente, de largar com pneus médios — 15 dos 20 que estavam no grid partiram com macios. No fim, mais uma corrida sem pódio. A última vez que o time italiano passou em branco nas quatro primeiras etapas de um Mundial, sem uma tacinha, foi em 2021.

Mas a equipe atribuiu o resultado apenas discreto ao azar. A entrada do safety-car na volta 32 inviabilizou o pulo do gato que seus estrategistas imaginaram para o fim da prova. Paciência. De qualquer maneira, a Ferrari saiu de Sakhir com 22 pontos, menos apenas que a McLaren, que marcou 40. O time papaia venceu pela primeira vez no Bahrein.

Falando em pontos, reforce-se que a Alpine marcou pela primeira vez no ano com o sétimo lugar de Pierre Gasly, e que a Haas ultrapassou a Williams com o oitavo de Esteban Ocon e o décimo de Oliver Bearman. O time americano tem sido a grande surpresa do campeonato, com pontos em três das quatro corridas, depois de um mau início na Austrália.

E no Bahrein o resultado teve ares de heroísmo. No sábado, Ocon arrebentou o carro na classificação. A equipe conseguiu reconstruí-lo sem que precisasse largar dos boxes. Estava em 14º no grid. Já Bearman foi muito mal na classificação e ficou em último. Mesmo assim, terminou nos pontos resistindo aos ataques de uma Mercedes, de Kimi Antonelli, por mais de dez voltas no fim.

As estratégias foram diferentes para cada piloto. Ocon largou de macios, ganhou duas posições na primeira volta, parou logo na oitava, colocou médios e foi trocar de novo para duros na volta 27. Nem aproveitou o safety-car. Já Bearman partiu também de macios, pulou de 20º para 14º na primeira volta, colocou duros na 14ª e voltou aos macios na 32ª, quando o safety-car foi acionado.

Uma volta por cima e tanto do time comandado pelo discreto Ayao Komatsu.

A FRASE DE SAKHIR

“Não tivemos medo de nada.”

Ayao Komatsu, chefe da Haas
Pit stop de Ollie: coragem para ousar com estratégias diferentes

Houve punições depois do GP do Bahrein, não registradas ontem no relato da corrida. A primeira a Nico Hülkenberg, que perdeu o 13º lugar porque a prancha sob o assoalho de seu carro teve desgaste maior que o permitido. Algo semelhante ao que resultou na eliminação de Hamilton do GP da China. Não muda o preço do dólar, porque o alemão da Sauber ficou fora dos pontos, de qualquer maneira.

Já Carlos Sainz foi considerado culpado por jogar Antonelli para fora da pista e perderia três posições no grid da Arábia Saudita. Perderia, mas não perdeu. A Williams pediu para que a decisão dos comissários fosse revista, isso foi feito e a direção de prova voltou atrás depois de poucos minutos.

O NÚMERO DO BAHREIN

141

…dias se passaram desde a última vez que a Red Bull tinha pontuado com seus dois pilotos em um GP. Foi em Las Vegas em 23 de novembro do ano passado. Lá Max Verstappen ficou em quinto e Sergio Pérez foi o décimo. Depois daquela prova vieram os GPs do Catar e Abu Dhabi, onde Max ficou, respectivamente, em primeiro e sexto. O mexicano zerou. Neste ano, o holandês foi segundo na Austrália, quarto na China, primeiro no Japão e sexto no Bahrein. Liam Lawson zerou nas duas primeiras e o mesmo aconteceu com Yuki Tsunoda em Suzuka. Ontem, finalmente, um companheiro de Verstappen marcou pontos. O japonês terminou a prova em nono.

Tsunoda: pontos em sua segunda prova pela Red Bull

E a coisa anda esquisita na Red Bull. Ontem, depois da corrida, o agente de Verstappen, Raymond Vermeulen, foi flagrado por jornalistas ingleses e holandeses aos berros com Helmut Marko. Depois, à imprensa alemã, o guru da equipe admitiu que para segurar Max no time será preciso entregar a ele, antes de mais nada, um carro capaz de ganhar corridas. E o diagnóstico interno é de que o RB21 não está nesse patamar — apesar da vitória em Suzuka. Depois, convencê-lo de que o projeto de 2026 pode ser vitorioso.

Verstappen falou a jornalistas de seu país que o que tem nas mãos neste ano é suficiente apenas para disputar o campeonato. Vencer, não.

Toto Wolff adorou. O chefe da Mercedes sonha em tirar Max da Red Bull. O contrato de George Russell termina no final deste ano — embora seu desempenho nas primeiras corridas do ano tenha acelerado o processo de renovação. O de Verstappen, apenas em 2028. Mas ele tem cláusulas de performance que permitem uma rescisão a qualquer momento. Aston Martin, com Honda e Newey? Pode ser, também.

Essa novela vai longe.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… de ver como Russell lidou com as inúmeras dificuldades que teve na corrida para terminar em segundo e levantar seu terceiro troféu no ano — foi terceiro na Austrália e na China. O maior problema foi no sistema de freios nas últimas 12 voltas. Entrou em pane eletrônica e a cada freada o rapaz tinha de adivinhar se precisava pisar mais forte ou não no pedal. Ainda teve um problema no DRS. Uma hora apertou o botão do rádio e a asa móvel abriu. Tirou o pé do acelerador para fechar na hora — os comissários entenderam que não levou vantagem esportiva quando isso aconteceu. Se segurou assim, cheio de perrengues, na frente de um Norris que vinha babando nas últimas voltas. Nem por isso foi tratado como herói nas redes sociais — sim, o recado é para os patriotas que acharam que Gabriel Bortoleto tinha de ser recebido pelo presidente da República depois dos problemas de freio que teve na Austrália. E saiu sorrindo do carro, feliz com o que conseguiu. Principalmente por ter dado 24 voltas de pneus macios após a segunda parada sem detonar a borracha.

NÃO GOSTAMOS… da eleição de Hamilton como “Piloto do Dia”. O amigo internauta tinha Gasly, Ocon e Bearman se quisesse premiar aqueles que surpreenderam chegando nos pontos. Ou até Russell, pelos problemas ao longo da prova. No limite, o impecável Piastri. OK, Lewis largou em nono e chegou em quinto. Mas também não foi assim uma Brastemp.

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AGENDINHA SAUDITA

Última corrida da tripleta de começo de temporada: GP da Arábia Saudita, domingo que vem. Segue nossa agendinha da semana!

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QUE O TEMPO É MAIOR (3)

Empolgadíssimo, Piastri comemora a quarta vitória na carreira

SÃO PAULO (foi fácil) – Oscar Piastri venceu sua segunda corrida no ano, quarta na carreira, hoje no Bahrein. Vitória inconteste, a partir da pole-position e com a melhor volta da prova. George Russell, da Mercedes, foi o segundo. Lando Norris, companheiro de Piastri na McLaren, fechou o pódio na terceira colocação. Lando segue na liderança do campeonato, agora três pontos à frente de seu parceiro de equipe. Max Verstappen, sexto colocado na corrida, vem atrás deles, oito pontos atrás de Norris.

Foi um belo GP, como se esperava, graças às diferentes estratégias de pneus que uma pista como a barenita exige. O asfalto desgasta muito a borracha e ninguém conseguiria completar as 57 voltas da prova com menos de duas paradas. Para ajudar ainda mais, uma entrada do safety-car pouco depois da metade da corrida juntou todo mundo que estava espalhado pelos 5.412 m do circuito. E a parte final da quarta etapa do Mundial acabou sendo a mais divertida de todas.

Largada no Bahrein: Norris posicionou mal o carro no grid e foi punido

A largada foi elétrica, com Russell passando Charles Leclerc e pulando para segundo. Charlinho largou de pneus médios – como Lewis Hamilton, Fernando Alonso, Liam Lawson e Gabriel Bortoleto; os demais foram de macios. Norris, milagre, foi quem deu o maior salto, de sexto para terceiro. Naquela posição se colocaria na briga pela vitória. Verstappen, por sua vez, pouco habituado ao pega-pra-capar do meio do pelotão, caiu de sétimo para oitavo.

Ocorre que os olhos de lince dos comissários perceberam que Norris alinhou seu carro fora do colchete no grid. Quem também notou foi Verstappen, atrás dele na grelha de partida. “O Lando está fora do lugar! Avisem alguém! Estou vendo! Pilantra!” Tomou 5s de punição. Lando, não Max.

Na quinta volta, Kimi Antonelli e Verstappen passaram Carlos Sainz, jogando o piloto da Williams para a oitava colocação. Piastri, Russell, Norris, Leclerc e Pierre Gasly eram os cinco primeiros, com Kimi e Max em sexto e sétimo. Depois do espanhol, Hamilton e Yuki Tsunoda completavam o top-10.

Na nona volta, Hamilton foi para cima de Sainz, também, mas Carlos se defendeu com energia. Afinal, aquele carro vermelho era para ser dele, não de Lewis. Tinha algo de pessoal naquela briga. Depois de duas tentativas, o inglês conseguiu passar, trazendo com ele Tsunoda. Na décima, Antonelli passou Gasly e foi para quinto. Me contaram, não sei se é verdade, que a mãe de Kimi ligou na hora para Toto Wolff, o chefe da Mercedes. “Escuta aqui, meu senhor… Isso é hora de meu menino estar na rua? Já é de noite! Manda ele já pra casa que tem aula amanhã!”

Hamilton, quinto: planos da Ferrari frustrados pelo safety-car

Norris parou na volta 11 e já pagou sua punição. Gasly e Verstappen também. Os pneus macios estavam acabando e a primeira janela de pit stops estava aberta. O pelotão seria embaralhado até todo mundo trocar pneus – da turma da frente, a dupla da Ferrari esticaria o primeiro stint porque tinha borracha mais resistente. Norris caiu para 13º, Gasly para 14º. Verstappen, que demorou um pouco nos boxes, despencou para a 16ª posição. O problema na parada da Red Bull foi nas luzes operadas pelo time que liberam o carro depois da troca. Aconteceu o mesmo com Tsunoda. Max foi o único que colocou pneus duros, uma estratégia diferente da dos demais.

Na ponta, Piastri e Russell, de macios, seguiam sem parar. Leclerc e Hamilton vinham atrás deles. Jorginho foi para a troca na volta 14 e voltou à frente de Norris. A McLaren, pelo rádio, perguntava a Oscar, o líder: “Seus pneus estão bons?”. “Sim”, respondia o australiano. “Quer trocar?” “Sim.” “Sim ou não, cacete?” “Sim.” Parou na volta 15.

Leclerc, o novo líder, recebeu uma mensagem na volta 16. “Vamos para o plano B de Bravo”, informou o engenheiro. “Prefiro o D de Delta”, devolveu o monegasco. “Que tal o C de Curumim?”, sugeriu outro engenheiro. “C de quê?”, perguntou Leclerc. Aí entrou Hamilton na conversa: “G, vamos de plano G de Goiaba”. “Precisamos padronizar os nomes desses planos”, comentou o chefe Frédéric Vasseur com quem estava ao seu lado.

A Ferrari chamou seus dois pilotos na volta 18. E colocou pneus médios, de novo, nos dois carros. “Que plano é esse?”, questionou Leclerc. “P de Pintassilgo”, informou o engenheiro. “Esses códigos estão meio esquisitos…”, falou Vasseur ao mesmo colega, que nada entendia.

Piastri, Stela e Norris: McLaren lidera os dois campeonatos

Com todo mundo de pneu trocado, Piastri, Russell, Norris, Leclerc, Gasly, Esteban Ocon, Verstappen, Antonelli, Jack Doohan e Hamilton eram os dez primeiros. De onde tinha vindo Ocon, ninguém sabia. De 14º no grid, de repente o piloto da Haas apareceu em sexto. Lewis foi quem mais perdeu nas trocas. Na volta 20, Kimi se jogou com a Mercedes sobre Verstappen e passou o holandês da Red Bull. “Cadê o pai desse menino?”, gritou Max.

Na volta 21, Lewis começou a se recuperar, passou Doohan e, na sequência, deixou Verstappen para trás assumindo a oitava posição. Max, pelo rádio, fazia um diagnóstico preciso do RB21: “Está ridículo isso aqui. Me deem, sei lá, um Twingo que ando mais que isso”.

(Não sei se falou exatamente Twingo, mas o sentido é esse.)

Lá na frente, a briga passou a ser pelo terceiro lugar entre Leclerc e Norris. Na volta 24, o piloto da Ferrari atacou o inglês. Não conseguiu. Russell, o segundo, estava um pouco à frente, acompanhando a refrega pelo espelhinho. “Uau, amigos, vejo que meus dois colegas estão se engalfinhando pela terceira posição no pódio, que concede um belo troféu…”, começou. “Cala a boca, George”, pediu Toto Wolff. “Olha pra frente.”

Na volta 25, mais duas belas ultrapassagens. Leclerc passou Norris por fora, assumindo o terceiro lugar. E Hamilton, mais atrás, fez o mesmo com Antonelli. Depois, na volta seguinte, com Ocon. E pulou para sexto. Estava se divertindo, o inglês.

Verstappen: sexto lugar em corrida discreta

Na volta 27, Verstappen fez sua segunda parada e colocou pneus médios. A tática dos duros no segundo stint não deu certo. A Red Bull mandou apenas dois mecânicos para a troca. Um deles, fumando. O outro, terminando a marmita do jantar. Pediu um tempinho e disse que já atenderia o cliente que tinha chegado. Levou umas duas horas, a troca. Max caiu para último. Na 28ª, Antonelli e Ocon foram para os boxes. A Mercedes colocou pneus macios no carro do italiano, com ousadia e alegria. Daria tudo errado e Kimi faria um terceiro pit stop, saindo dos pontos.

Segunda janela aberta, boxes movimentados, de novo o pelotão embaralhado. A Alpine chamou os dois ao mesmo tempo. Gasly voltou em décimo. Doohan, em 17º. Verstappen começou a escalar a montanha. Na volta 30, já era o 14º. À frente dele, Antonelli. “Isso é hora de criança ficar na rua?”, gritou Max pelo rádio. “Cadê a mãe dele?”

Piastri, na frente, abria 7s sobre Russell. “Oscar, como está a aderência?”, o rádio. “Sim”, Oscar. “Oscar, amigo, nos diga pelo menos como estão os pneus e se você está perto de trocar.” “Sim.” Nesse momento o engenheiro tirou o fone e começou a chorar. Zak Brown, então, entrou no rádio. “Oscar, pelo menos responda alguma coisa, seu engenheiro está chorando. Você não tem coração?” “Sim.”

Na volta 32, uma entrada surpreendente do safety-car permitiu que Piastri fosse aos boxes para fazer sua segunda troca. Todo mundo que não tinha trocado ainda fez o mesmo. O carro de segurança entrou para que pedaços de carro fossem retirados após um toque entre Tsunoda e Sainz. A Ferrari lamentou, porque tinha uma estratégia de pneus diferente de todo mundo. “OK, Lewis, vamos agora para o plano F de Fetuccini”, ao que o piloto respondeu: “Está ótimo, gente, o que vocês disserem está dito, mas sou vegano, não esqueçam”.

A Mercedes foi otimista na parada e colocou pneus macios no carro de Russell. Piastri era o líder, com médios. “Amigos, terei 24 voltas para percorrer com pneus macios, não seria uma estratégia um tanto quanto audaciosa? Vejam, esta é uma borracha que se desgasta mais rapidamente que as demais. Não quero aqui, claro, questionar a qualidade dos pneus Pirelli. Lembram do Campeão Supremo? Que pneu, senhores, que pneu! Lembro de uma corrida em…” “Cala a boca, George”, corrigiu Toto. “Campeão Supremo era Firestone.”

Piastri, Russell, Leclerc, Norris, Hamilton, Gasly, Ocon, Verstappen, Doohan e Sainz eram os dez primeiros quando o safety-car deixou a pista na volta 35. Era uma nova corrida, de 22 voltas. Com pneus diferentes entre eles. Na relargada, Hamilton passou Norris, que deu o troco na curva seguinte. Lewis estava de pneus duros. Lando, de médios. Mas o piloto da McLaren passou por fora dos limites de pista e foi orientado a devolver a posição, voltando ao quinto lugar.

Sainz: único abandono da prova

Na volta 38, Norris conseguiu passar Hamilton e assumiu o quarto lugar. Uma breve pane na cronometragem jogou Russell para último e colocou Lando em terceiro. “Amigos, o que teria acontecido com os cronômetros? Sim, sei que eram Rolex na temporada passada e agora são TAG Heuer, mas ambas as marcas têm excelente reputação. Eu mesmo, no meu pulso, uso um modelo…” “George, não tem como calar a boca?”, implorou Toto mais uma vez.

Demorou um pouco para a cronometragem informar que o sensor do carro de Russell tinha desaparecido no éter, e o inglês caiu num buraco negro da tabela de tempos. Mas estava em segundo. Leclerc, Norris, Hamilton, Gasly, Verstappen, Ocon, Doohan e Tsunoda eram os dez primeiros. Pelo rádio, a Mercedes informou a Russell que ele tinha um problema na asa móvel. Que só poderia ser aberta ao comando do engenheiro. “OK, amigos. Vejam bem, a asa móvel, em si, é um dispositivo que sequer me agrada. Gosto de um automobilismo, como dizem os jovens, raiz. Sim, sei que sou jovem, mas por vezes penso que meu espírito é um pouco mais… antigo. Entendem o que eu digo? Isso não quer dizer que…” “Cala a boca, George.”

Era uma corrida muito movimentada. Como todos andavam bem próximos, cortesia do safety-car pouco depois da metade da prova, posições eram disputadas no braço por todo o pelotão. Oliver Bearman e Antonelli passaram Doohan, coitado, que lutava por seus primeiros pontos na F-1. O jovem inglês da Haas entrou na zona de pontuação, uma façanha para quem largara em último. Norris ainda lutava pelo pódio, atacando Leclerc com disposição. Na volta 49, quase se tocaram.

E a ultrapassagem, belíssima, aconteceu na volta 52. Lando foi com decisão para cima do monegasco e assumiu o terceiro lugar. Na Mercedes, pânico. O engenheiro avisou a Russell que seu painel poderia apagar a qualquer momento. “Mas segue em frente, não é nada.” A asa móvel começou a abrir e fechar sozinha. Correria o risco de uma punição após a corrida. “Vejam, amigos, essa história de painel… Nem ligo. Gosto mesmo de instrumentos analógicos! VDO, lembram? Ponteiros, números, aquela luz suave numa estrada à noite… Que coisa linda! E também ouço discos de vinil, devo dizer. Vocês escutaram o último de Miles Davis? Ah, aquele trompete… E minha vitrola não é qualquer uma, não! Gradiente, conhecem?” “George, cala a boca.”

Norris, com todos os perrengues, era o nome da corrida. Na volta 55, chegou em Russell e tentou até o fim o segundo lugar. Na última volta fizeram a curva 1 lado a lado. Mas não deu para ele. Piastri acabou vencendo com mais de 15s de vantagem para o inglês da Mercedes, que cruzou a linha 0s7 à frente de Norris. Leclerc, Hamilton, Verstappen (ganhou a sexta posição na última volta), Gasly, Ocon, Tsunoda e Bearman ficaram com as dez primeiras posições. A Alpine fez seus primeiros pontos no ano. Yuki, seus primeiros pela Red Bull. A Haas, incrível, colocou seus dois carros na zona de pontuação.

Piastri foi efusivamente festejado pelo rádio. “Ah moleque! Segunda vitória no ano! Você está a três pontos do Lando na classificação! Cara, dá pra lutar pelo título! Tu pode ser campeão, menor!”, gritou o engenheiro. “Sim”, respondeu o piloto. Foi a 50ª corrida da carreira do australiano. “Que jeito de comemorar!”, vibrou Karun Chandhok, ex-piloto, na primeira pergunta da entrevista pós-GP. “Sim”, disse Piastri. “Foi estressante quando entrou o safety-car?” “Sim.” “Mesmo assim você sabia que ia ganhar?” “Sim.” “E como vocês vão celebrar a vitória?” “Sim.” “Vai ter festa?” “Sim.”

(A entrevista de Russell ainda está rolando, no momento em que escrevo este texto. Ele está falando, agora, sobre a confusão dos pneus Pirelli. “Eu falei Campeão Supremo, queria dizer Tornado Alfa. Sempre me confundo. Vocês não? Ah, está muito difícil encontrar pneus 5:60 15. Mas há boas alternativas no mercado. Veja bem, não são a mesma coisa, mas…”)

Na classificação, Norris tem 77 pontos, contra 74 de Piastri. Verstappen salvou alguma coisa num fim de semana ruim e foi a 69. Russell tem 63. Domingo que vem tem mais, na Arábia Saudita.

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FOTO(S) DO DIA

Jackie Stewart conseguiu autógrafos de todos os campeões mundiais vivos para colocar nesse capacete. Sim, todos. Inclusive Michael Schumacher — na segunda foto, o “MS” abaixo da viseira. Foi a primeira manifestação pública de vida de Schumacher desde 2013, quando sofreu o acidente de esqui na França. Incrível. A assinatura foi feita com a ajuda de sua mulher, Corinna. O capacete será leiloado com renda em prol de pesquisas científicas sobre a demência. Stewart andou com sua lindíssima Tyrrell campeã mundial de 1973 agora há pouco no Bahrein.

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QUE O TEMPO É MAIOR (2)

Piastri: segunda pole no ano, segunda na carreira

SÃO PAULO (já ganhou) – Oscar Piastri fez a pole-position para o GP do Bahrein, quarta etapa do Mundial, e comemorou efusivamente pelo rádio com seu engenheiro da McLaren. “P1, Oscar, conseguimos, cara, tu é foda, moleque, porra, chupa Lando!”, gritou o funcionário da equipe enquanto o australiano desacelerava seu carro para voltar aos boxes. “Sim”, falou.

Ao sair do cockpit, vibrou intensamente com os mecânicos da equipe, que correram em sua direção gritando coisas como “valeu!”, “pika das galáxias!”, “é nóis!”. “Sim”, disse a eles. Na entrevista pós-classificação, David Coulthard, ex-piloto, derramou-se em elogios e perguntou o que ele estava sentindo depois de fazer a pole. “Sim”, respondeu. “Você tem 49 pontos, Lando lidera com 62 e Max tem 61, estão bem atrás no grid em sexto e sétimo, já parou pra pensar que pode sair daqui em primeiro no campeonato?”, insistiu o escocês. “Sim”, concluiu o piloto.

Piastri tinha motivos para estar tão eufórico. Lando Norris larga só em sexto, depois de andar junto com ele em todos os treinos e errar justo na volta que importava, a última do Q3. Max Verstappen, brigando com o carro e com a sombra, parte em sétimo. Lando deve escalar rápido o pelotão amanhã – tem carro para isso. Max vai tentar não perder a paciência com a equipe para terminar entre os cinco primeiros.

Não vai ser fácil, porque dois carros da Mercedes estão bem no Bahrein. George Russell fez o segundo melhor tempo e Kimi Antonelli, o quarto. Ambos, porém, perderam uma posição no grid porque saíram de suas garagens antes da autorização da direção de prova quando o Q2 seria reiniciado, após acidente de Esteban Ocon (leia a caixinha vermelha abaixo). Outro que apareceu bem no último momento foi Charles Leclerc, terceiro com a Ferrari — mas larga em segundo após as punições aos pilotos da Mercedes. O quinto mais rápido foi uma grande surpresa, Pierre Gasly, da Alpine – única equipe que ainda não pontuou no ano. É outro que ganha uma posição e parte em quarto, na segunda fila.

A classificação aconteceu com 28°C de temperatura na noite barenita, bem abaixo dos quase 35°C registrados no último treino livre – realizado ainda com sol a pino. E começou com Max reclamando. Depois de errar e abortar sua primeira volta rápida, o holandês entrou no rádio e afirmou, categórico: “Tem alguma coisa muito errada com este carro”. O primeiro embate da classificação entre Norris e Piastri teve vitória do inglês: 1min31s107, 0s285 à frente do australiano. A brincadeira seria apenas entre os dois, pela lógica.

Como de hábito, todo mundo deixou para os últimos cinco minutos a tarefa de resolver a vida no Q1. Os dois pilotos da Red Bull não tinham tempos registrados – Yuki Tsunoda teve uma volta cancelada por exceder os limites de pista. Tirando a dupla da McLaren e Leclerc, que estava em terceiro, todos os demais, sem exceção, corriam riscos de não passar ao Q2. As diferenças entre eles eram mínimas. Qualquer décimo seria importante.

E aí foi aquela agonia, todos na pista, a tabela de tempos mudando freneticamente. Lewis Hamilton deu sinal de vida – foi a única vez no fim de semana até aqui — e pulou para segundo, a 0s112 de Norris. Os dois rubrotaurinos avançaram, com Verstappen em terceiro e Tsunoda em 11º. Jack Doohan, em quinto com a Alpine, foi uma grande surpresa. Nico Hülkenberg avançou ao Q2 em 15º, repetindo o feito de seu companheiro de Sauber, Bortoleto, na Austrália. Depois perderia sua volta por exceder os limites da pista. Do primeiro ao 16º, apenas 0s933 de diferença. Para o 20º, 1s266. Não dá para reclamar.

Foram eliminados Alexander Albon, Liam Lawson, Gabriel Bortoleto, Lance Stroll e Oliver Bearman. Duas novidades aí: Albon e Bearman, que têm frequentado fases mais agudas das classificações, ficaram pelo caminho. Lawson, que anda numa maré de dar dó, foi prejudicado porque sua asa móvel fechou sozinha. Aí não tem milagre. Já Bortoleto explicou que optou por usar dois jogos de pneus no Q1 e seu parceiro, três. “Não me impressiona, o carro é muito imprevisível. É mais ou menos onde estamos, mesmo”, disse, desanimado, sobre o 18º lugar no grid.

Leclerc: reação com a Ferrari, terceiro tempo, segundo no grid

Mal começou o Q2, uma batida forte e bandeira vermelha interrompendo os trabalhos. Esteban Ocon estampou seu carro de traseira numa barreira de proteção logo na abertura da volta rápida, depois de pegar a zebra da curva 2 de forma indevida. Pediu desculpas pelo rádio. A Haas teria muito trabalho para reconstruir a viatura. Prejuízo danado para o time. Mas não se machucou.

A briga interna da McLaren seguiu no Q2. Desta vez, Piastri na frente com 1min30s454, 0s106 à frente de Norris. E de novo a dupla da Red Bull deixando para o final da sessão a tentativa de volta rápida – ambos, assim como outros pilotos, estavam na sua primeira tentativa quando houve a bandeira vermelha da batida de Ocon, perdendo um jogo de pneus macios.

Foi um repeteco do Q1, com os dois papaias descansando nos boxes enquanto os demais se engalfinhavam atrás de um lugarzinho entre os dez primeiros. Mas Norris voltou à pista nos últimos instantes, para tentar bater o companheiro. Não conseguiu. Avançaram com eles Gasly, Russell, Antonelli, Leclerc, Carlos Sainz, Hamilton e, na bacia das almas, Verstappen e Tsunoda. Empacaram no Q2, pela ordem, Doohan, Isack Hadjar, Hülkenberg, Fernando Alonso e, claro, Ocon. Desta vez, entre os dez primeiros, apenas um novato: Antonelli, com a Mercedes.

O incidente que levou à punição dos pilotos da Mercedes aconteceu no reinício da sessão, após a bandeira vermelha de Ocon. Russell e Antonelli saíram de suas garagens para esperar a liberação da pista antes de a direção de prova informar quando o Q2 seria retomado. Com isso, tomaram as primeiras posições na fila da saída de box. A direção notou a malandragem. Horas depois da classificação, puniram cada a perda de uma posição no grid. Quem também perdeu sua posição no grid foi Hülkenberg, deslocado de 13º para 16º. Com muito atraso, os comissários cancelaram a volta que tinha colocado o alemão no Q2 por exceder os limites de pista. O maior prejudicado pelo atraso foi Albon, que teria avançado ao Q2 e poderia sonhar com uma posição entre os dez primeiros, como seu companheiro Carlos Sainz, oitavo no grid — pela primeira vez desde 2017 a Williams conseguiu ir ao Q3 no Bahrein; a última tinha sido com Felipe Massa.

O grid no Bahrein antes das punições: pilotos da Mercedes caem uma posição cada

No Q3, Russell fez uma boa volta na abertura com 1min30s364. Era a melhor do fim de semana até então. Aí veio Piastri e baixou a marca do inglês em 0s131. Norris não conseguiu superar o piloto da Mercedes e ficou em terceiro na primeira bateria de voltas voadoras. Verstappen, reclamando dos freios, em oitavo. E isso porque Hamilton e Antonelli tiveram suas voltas canceladas por excederem os limites da pista.

Faltava o “segundo tempo”, a segunda leva de voltas voadoras. E aí a Mercedes apavorou. Russell virou 1min30s009, com Antonelli em segundo. A pista estava melhorando e Leclerc superou Kimi, jogando a Ferrari na segunda posição. Restavam os meninos da McLaren. E Piastri foi o cara: 1min29s841, pulando para a pole com 0s168 de vantagem para Jorginho. Norris pipocou, fez uma volta ruim e ficou a 0s426 dele: sexto colocado. Os dez primeiro no cronômetro: Piastri, Russell, Leclerc, Antonelli, Gasly num impressionante quinto lugar, Norris, Verstappen, Sainz, Hamilton e Tsunoda. Com as punições aos pilotos da Mercedes, a primeira fila terá Piastri e Leclerc e a segunda, Russell e Gasly. Na terceira, Antonelli e Norris.

É um grid embaralhado, o que faz prever uma corrida interessante, já que a pista é boa para ultrapassagens e a previsão de pelo menos duas trocas de pneus deve favorecer o jogo estratégico. Algo melhor que se viu no último domingo, em Suzuka.

Pelo menos dois pilotos saíram deprimidos da classificação. Hamilton, o nono, disse que fez uma volta muito ruim e que o problema é ele mesmo. “Simplesmente não fiz meu trabalho direito. Tem sido assim aos sábados nos últimos tempos”, falou, decepcionado. “Lamento muito pela equipe.” Já Norris não se conformou com sua volta desastrosa: “Parecia que eu nunca tinha guiado um F-1 na vida”.

A lógica indica uma vitória de Piastri. Os outros dois lugares no pódio serão bem disputados. Tem Ferrari e Mercedes na briga, assim como Lando, se não fizer nenhuma bobagem e não ficar morrendo de medo de Verstappen atrás dele na largada. A prova começa ao meio-dia, horário de Brasília, com 57 voltas.

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QUE O TEMPO É MAIOR (1)

SÃO PAULO (adivinhem) – Hoje vai ser no corre… Tive gravação a tarde inteira e só agora consegui sentar para rabiscar algumas parcas linhas sobre os primeiros treinos no Bahrein. Na primeira sessão, diurna, calor de fritar ovo no asfalto velho do circuito: 37°C, quase 50°C na pista. Pouco a aproveitar dessa sessão, usada por seis equipes para queimar o primeiros dos quatro treinos livres obrigatórios para novatos ao longo da temporada.

No cronômetro, o melhor deles foi o inglês Luke Browning, da Williams, em 13º. Dino Beganovic — muito prazer –, sueco, andou com a Ferrari e ficou em 14º. Felipe Drugovich foi o 16º com a Aston Martin, Ryo Hirakawa, agora na Haas, ficou em 17º, Frederik Vesti, dinamarquês, fechou a sessão em 18º com a Mercedes e o japonês Ayumu Iwasa andou com o carro de Verstappen na Red Bull e terminou em 19º. Pronto, todos com os nominhos registrados e parabéns, ninguém bateu nem destruiu nada.

No topo da classificação, McLaren com Lando Norris. Pierre Gasly em segundo, o que mostra como essa sessão não teve muita importância. Lewis Hamilton em terceiro com a Ferrari. A quase 0s6 de distância. Tá feia a coisa em Maranello.

Piastri: mais rápido da sexta-feira

Cai a noite, a temperatura cai junto: 29°C. Ainda assim, bastante quente. E com todos os titulares na pista deu McLaren de novo, agora em primeiro e segundo Oscar Piastri foi o melhor e só Norris chegou perto, a 0s154. O inglês reclamou do carro, disse que estava “terrível”. O australiano gostou.

O terceiro, George Russell, ficou a mais de meio segundo de Piastri. Desenha-se um domínio papaia no GP do Bahrein, mas é bom lembrar que no Japão parecia que seria assim e no fim Verstappen ganhou. Mas acho difícil uma volta por cima tão eloquente quanto a de Suzuka. Max ficou a 0s825 do melhor tempo e foi muito claro ao fazer o diagnóstico do RB21: “Muito lento”.

A Ferrari voltou a decepcionar. Charles Leclerc foi o quarto, OK, mas Hamilton ficou em oitavo mais de um segundo atrás do líder. A equipe está tendo de lidar com um carro mais alto em relação ao chão (para não gastar a prancha no assoalho e ser desclassificada, como na China) e nada está funcionando direito.

Três novatos foram bem na abertura dos trabalhos no deserto (que já atravessei uma vez, mas ninguém me viu passar) de Salhir. Isack Hadjar foi o sexto colocado com a Não Tem Taxa na Maquininha, Oliver Bearman colocou a Haas em nono e Gabriel Bortoleto foi o 13º com a Sauber, que não é mesmo carro para a primeira parte da tabela. Mas se fosse uma classificação, passaria ao Q2. Kimi Antonelli também trabalhou direitinho depois de perder quase todo o primeiro treino por problemas mecânicos e colocou a Mercedes em quinto.

E terminamos este brevíssimo relato rindo de Fernando Alonso, que tirou o volante de seu carro numa das voltas que dava à noite porque algo tinha dado mau contato. Tirou e colocou de volta e falou pelo rádio que precisava trocar a bagaça. O link do vídeo está aí embaixo. Estou há dias com algum bug aqui no WordPress e não consigo postar links de outro jeito. Sorry.

https://x.com/F1/status/1910713818965025040

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FOTO DO DIA

Hamilton chegou ao Bahrein de cabelão solto. Homão bonito da peste!

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SOBRE ONTEM DE MADRUGADA

A IMAGEM DA CORRIDA

Norris tenta pela grama: inútil

SÃO PAULO (fraquinha…) – Foi um GP bem mais ou menos, então não vamos nos estender para além do que merece. A foto acima nem boa é. Mas foi o momento da corrida de Suzuka em que Lando Norris tentou alguma coisa: na saída do pit stop, pela grama. Max Verstappen tirou uma onda do rival depois da prova. “Cortador de grama caro, esse…”, falou.

O inglês da McLaren, num primeiro momento, reclamou que foi jogado para fora da pista. Depois, ao ver o VT, deve ter se envergonhado do que disse.

O fato é que o holandês deitou na McLaren no Japão, fazendo a pole no sábado e, no domingo, 53 voltas impecáveis com o adversário a menos de 2s de distância. Não cometeu um erro sequer. Venceu sem ter melhor carro — isso acontece às vezes, e só com pilotos acima da média.

Pensou no Ayrton Senna de 1993? Pois pensou certo.

O NÚMERO DO JAPÃO

3

…vencedores diferentes nas três primeiras corridas da temporada: Norris, Piastri e Verstappen. Isso não acontecia desde 2013, que teve Raikkonen (Lotus) na Austrália, Vettel (Red Bull) na Malásia e Alonso (Ferrari) na China. Bom sinal.

Max: terceiro vencedor diferente em três corridas

Outros números poderiam ser mencionados aqui, como os de Kimi Antonelli. Já falamos ontem que ele se tornou o mais jovem a liderar uma corrida na história (18 anos e 224 dias), batendo Verstappen por quatro dias apenas — o holandês tinha 18 anos e 228 dias quando liderou (e venceu) o GP da Espanha de 2016. Uso os números oficiais da F-1, registrados aí embaixo.

Mas o italiano também anotou mais duas marcas importantes. Tornou-se o mais jovem a fazer uma melhor volta de GP e igualou uma marca de Lewis Hamilton lá de 2007. O inglês tinha sido o último estreante a pontuar nas três primeiras corridas de uma temporada: terceiro na Austrália e segundo na Malásia e no Bahrein pela McLaren, sua primeira equipe. Kimi foi quarto em Melbourne, sexto em Xangai e sétimo ontem em Suzuka.

Poderia também falar da Ferrari e da Williams. Na primeira, Charles Leclerc tornou-se o piloto que mais marcou pontos pela equipe de Maranello: 1.411, superando os 1.400 de Vettel. Mas esse dado não é muito relevante, considerando que a F-1 mudou o sistema de pontuação muitas vezes na história. Quando Michael Schumacher estreou em 1991, por exemplo, o vencedor de um GP ganhava dez pontos e só os seis primeiros marcavam. Hoje o ganhador leva 25 e a zona de pontos vai até o décimo colocado.

Já a Williams pode comemorar uma marca modesta, até, mas representativa para uma equipe que pouco tempo atrás quase fechou as portas. Com 19 pontos em três corridas, tem seu melhor desempenho em início de temporada desde 2016, quando somava 29 depois da terceira etapa do Mundial. No ano passado inteiro foram 17.

Que o time agradeça a Alexander Albon, responsável direto pelo bom momento do time. Fez 18 dos 19 pontos até agora. Carlos Sainz ainda não estreou direito. Tem sido a grande decepção do ano.

Falando do vencedor, Christian Horner contou depois da corrida que o pit stop de Verstappen não foi tão bom quando costuma ser (permitindo que Norris saísse colado nele) porque dois dos mecânicos titulares responsáveis pela troca de pneus tiveram de voltar à Inglaterra. Irmãos gêmeos, foram assistir o pai adoentado. Sendo assim, o time teve de recorrer ao banco de reservas.

Bem, no fim das contas não fez muita diferença porque Max saiu na frente e ganhou a prova. Depois, comemorou e agradeceu à Honda pela parceria vitoriosa que termina no fim do ano. A montadora japonesa vai para a Aston Martin e a Red Bull terá motores feitos por ela mesma em parceria com a Ford.

Valeu, Honda: Red Bull agradece aos japoneses

A FRASE DE SUZUKA

“Só aconteceu isso na corrida?”

Oscar Piastri, ao ver os melhores momentos da prova na salinha antes do pódio
Piastri: não aconteceu muita coisa

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… de Ryo Hirakawa, 31 anos, que andou com a Alpine no primeiro treino livre, na sexta-feira, e ficou em 12º, na frente de Pierre Gasly. O japonês já foi reserva da McLaren e testou para a Haas em Abu Dhabi no treino de pós-temporada do ano passado. Piloto da Toyota no WEC, venceu as 24 Horas de Le Mans em 2022 e é bicampeão mundial da categoria. A Toyota tem acordo técnico/financeiro com a Haas. E hoje mesmo o time americano anunciou Hirakawa como seu novo piloto reserva. Vai fazer o primeiro treino livre no Bahrein, sexta-feira, e no México no lugar de Oliver Bearman; na Espanha e em Abu Dhabi, anda com o carro de Esteban Ocon.

Hirakawa: ótima impressão, contrato novo

NÃO GOSTAMOS… da corrida.

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