CALORING DA PESTE (3)

A primeira de Piastri: trapalhadas da McLaren não tiram brilho do australiano

SÃO PAULO (mereceu, claro!) – Oscar Piastri ganhou seu primeiro GP num final de corrida em que as chatíssimas ordens de equipe ameaçaram se impor sobre o espetáculo. Sempre digo que elas são aceitáveis quando se trata de uma disputa de título em fases decisivas de campeonato. E olhe lá. Mas inverter posições quando o que está em jogo é uma vitória na metade da temporada é algo que sempre me parece muito, muito ruim. Mesmo que seja para corrigir uma trapalhada interna. É desagradável. Para todos os envolvidos. E para quem está assistindo.

Piastri mereceu vencer na Hungria. O australiano ganhou a posição de seu companheiro Lando Norris, que estava na pole, logo na largada. Depois disso, controlou a prova, mantendo o parceiro sempre a mais de 4s de distância. Ou quase. Porque cometeu um erro pouco antes da segunda parada, permitindo a aproximação do inglês. E a McLaren, nessa segunda parada para troca de pneus, errou e chamou Norris antes. Oscar fez seu segundo pit stop só duas voltas depois. Pela demora e pela escapada pouco antes, perdeu a liderança. OK, foi informado de que as posições seriam trocadas depois – afinal, a estratégia para Lando foi melhor, o que não fazia muito sentido, já que a prioridade é de quem está na frente. Mas a realidade é que Piastri, primeiro, cometeu um erro. Na sequência, não parou antes nos boxes. Tomou o conhecido “undercut”. Equívoco do time, não de Norris. Nem de Oscar. Por isso foi preciso corrigir a bobagem com a velha de boa instrução dos boxes.

As últimas voltas da prova foram tensas, com climão no rádio entre Norris e seu engenheiro. A equipe insistiu na inversão das posições. Lando contestou várias vezes. Oscar ficou calado. É seu estilo. Não reclama, não exige, faz o dele e pronto. No fim, Norris deixou o garoto passar, a três voltas da bandeira quadriculada. E não esticou muito o assunto. Cumprimentou o parceiro, distribuiu alguns sorrisos, reconheceu os méritos do rapaz, e ficou nisso. Incêndio apagado. Menos mal para o time.

Não culpo os pilotos. Nem o vencedor por não se impor nas paradas, pedindo para fazer o pit stop antes, nem o segundo colocado, que ficou bravo por ter de devolver a primeira colocação. A equipe é que poderia ter sido um pouco mais segura em suas decisões, isso sim. Para evitar que a situação constrangedora se tornasse necessária.

São lições, ao fim e ao cabo. A McLaren perdeu o costume de brigar por vitórias e dobradinhas. O último 1-2 aconteceu em 2021 na Itália (Daniel Ricciardo e Norris) e foi casual — resultado de um acidente entre Lewis Hamilton e Max Verstappen, os protagonistas daquele campeonato. Os tempos em que o time lutava lá na frente remontam ao início da década passada. Agora esses tempos voltaram. A equipe papaia, neste momento, tem um carro tão bom ou melhor que a Red Bull, dominante nos últimos dois anos. E até o fim da temporada vai, sim, fazer poles e ganhar corridas. Terá de lidar com tais cenários com mais frequência, entre outros motivos porque tem pilotos muito bons. Evitar atritos será a nova tarefa da chefia do time.

Pódio papaia: cada vez mais frequente em 2024

E dá para pensar, também, em ser campeã. No Mundial de Construtores, o resultado de hoje em Hungaroring levou a McLaren à vice-liderança com 338 pontos. A Red Bull tem 389. A Ferrari, com 322, ficou para trás. Nas últimas seis etapas, a equipe papaia marcou 184 pontos, contra 121 da Red Bull. A Mercedes marcou 162. Tais números indicam uma clara queda de desempenho rubro-taurino. Que tem muito a ver, óbvio, com o desempenho apagado de seu segundo piloto, Sergio Pérez.

O líder do campeonato Verstappen, hoje, lutou até o fim pelo pódio e terminou em quinto, após uma disputa forte com Hamilton – o terceiro colocado. Pérez foi o sétimo. Max segue firme em primeiro na tabela com 265 pontos, contra 189 de Norris. São confortáveis 76 pontos de vantagem. Dá para administrar. Aos que acreditam que o holandês despencou num abismo sem fundo, é sempre bom apresentar alguns dados. Nos últimos cinco GPs, ele foi quem mais subiu na tábua do Mundial: marcou 96 pontos. O segundo foi Hamilton, com 83. Piastri anotou 78 e Norris, 76. Ou seja: apesar de todo os percalços, tropeçando aqui e ali, o tricampeão permanece de pé.

O que parece certo é que a conquista do tetra, que parecia mamão com açúcar no começo do ano, demandará certo esforço do piloto e da equipe. E é preciso pensar bem no que fazer com Pérez, porque se Max vai se segurando na pontuação, “não dá para andar com uma perna só”, como disse ontem o chefe da Red Bull, Christian Horner.

Piastri, Norris e Hamilton formaram o pódio no calorão do domingão em Hungaroring. A corrida foi interessante, melhor do que a média histórica no circuito magiar. Pela 25ª vez em 39 edições da prova o vencedor saiu da primeira fila. Houve boas disputas, embora as ultrapassagens não tenham sido fartas – a natureza do traçado inibe grandes exibições de valentia. Teve drama no fim, com a comunicação frenética da McLaren com Norris, assim como no esforço de Verstappen para, pelo menos, salvar um pódio.

Então, vamos contar tudo que aconteceu, tintim por tintim.

A largada foi muito bonita, porque por alguma razão Norris achou que Piastri estava com um estilingue para atacá-lo, ou algo assim. Partiu mal, foi para cima do companheiro e abriu caminho para Verstappen. O holandês aproveitou, jogou seu carro para o lado de fora, passou Norris pela área de escape e voltou à pista em segundo, com Oscar em primeiro. Lando caiu para terceiro e ficou reclamando pelo rádio que o rival tinha feito a ultrapassagem de forma irregular. “Vejam o regulamento, procurem na página 196, parágrafo 4, alínea 12, item b! Está tudo lá, levem para a torre, tirem uma cópia, mandem um fax, chamem o VAR!”, gritava.

Calmamente, a equipe explicou que estava verificando tudo aquilo, mas que o VAR não estava disponível porque tinha sido muito usado ontem nos jogos do Flamengo e do Palmeiras. E parecia… descalibrado.

Na quarta volta, o engenheiro de Verstappen orientou o piloto a devolver a posição a Norris, enquanto a direção de prova investigava o caso e ameaçava uma punição. Cuspindo marimbondos, o holandês consentiu. “Ele me jogar para fora pode, vão à merda”, reclamou. Tirou o pé, entregou o segundo lugar e segue o jogo.

Os pit stops começaram bem cedo. Dos 20 que largaram, 13 optaram pelos pneus médios. Quatro (Fernando Alonso, Lance Stroll, Alexander Albon e Kevin Magnussen) foram de macios. Outros três (George Russell, Pérez e Pierre Gasly) escolheram os duros. A temperatura, como previsto, era alta: 29°C, com o asfalto variando entre 44 e 48°C, dependendo de onde o sol furasse as nuvens. Na oitava volta, Alonso, Albon e Magnussen foram para os boxes. Outros da turma do fundão também fizeram seus primeiros pit stops, como Guanyu Zhou, Esteban Ocon, Ricciardo e Logan Sargeant.

Verstappen: reclamando a corrida toda

Mas o primeiro pelotão seguia impassível, sem pensar em parar naquele momento. Na décima volta, Piastri, Norris, Verstappen, Hamilton, Charles Leclerc, Carlos Sainz, Stroll, Yuki Tsunoda, Valtteri Bottas e Russell eram os dez primeiros, sem que nenhum ataque fosse insinuado. Pérez vinha em 11º.

Stroll foi o último do grupo dos pneus fofinhos a parar, na 15ª volta. A janela de pit stops dos grandes foi aberta na volta 17, com Hamilton. Colocou pneus duros. Norris veio na volta 18. Também foi para os pneus de faixa branca. Na 19ª, o líder Piastri, estratégia idêntica. Verstappen assumiu a liderança, mas as coisas não estavam bem na Red Bull. Pelo rádio, o líder do campeonato continuava imprecando – agora, o alvo era o carro. A lista de defeitos apontados era bem extensa. “Os freios não funcionam, não consigo fazer curva, o bluetooth não está pegando, o GPS apagou e com 3G o Waze não abre! Nem WhatsApp consigo mandar! Está tudo uma merda!”

Por isso, para arrumar tudo, Verstappen foi aos boxes na volta 21. Gastou 3s, colocou os mesmos pneus duros de todo mundo e voltou atrás de Hamilton, em quinto. Não deu muito certo a história de adiar o pit stop. Perdeu uma posição. Leclerc assumiu a ponta, mas na volta 24 parou. Com 25 voltas, Piastri, Norris, Hamilton, Verstappen, Leclerc e Sainz eram os seis primeiros. Tsunoda, Russell, Pérez e Gasly fechavam o top-10, mas esses quatro ainda não tinham trocado pneus. O que fizeram nas voltas seguintes, com exceção de Russell, que foi esticando a corda até onde desse.

Piastri liderava sem nenhuma preocupação, com a diferença para Norris oscilando entre 3s e 5s. Hamilton também vinha longe, a mais de 4s de seu conterrâneo tiktoker. Verstappen, sim, tentava uma aproximação para recuperar a posição que perdera para Lewis na primeira parada. Na 32ª volta, a diferença entre os dois era de 1s5.

Quando deu metade da corrida, 35 voltas, Russell finalmente foi para os boxes, o último a trocar pneus. Max encostou em Hamilton já com possibilidade de abrir a asa para tentar a ultrapassagem. Ambos trocaram erros: Lewis freou tarde na curva 1 e Verstappen fez o mesmo na curva 2, e o resultado foi que um passou, o outro repassou e nada mudou. No rádio, mais protestos do piloto da Red Bull. “Não freia, não faz curva, inacreditável!”

Sainz: Ferrari discreta, longe do pódio

Era uma briga interessante, porque valia pódio. Graças a ela, Leclerc, o quinto, chegou nos dois. Mais intrigante que ela, porém, era a queda abrupta da vantagem de Piastri para Norris. De quase 5s, caiu para 1s3 na volta 38. A TV recuperou uma imagem que mostrou o australiano dando uma escapada de pista, perdendo tempo. Estava explicado.

Hamilton foi para sua segunda parada na volta 41, com Leclerc junto. Um queria se livrar de Verstappen. O outro, ganhar sua posição. O que acabaria acontecendo quando Max fizesse o segundo pit stop, sempre praguejando. “Incrível nossa capacidade de levar chapéu de todo mundo!” Ele se referia ao famoso “undercut”, quando um piloto que está atrás antecipa a parada, aproveita umas voltas a mais com pneus novos e ganha a posição daquele que faz o pit stop depois.

Norris fez sua segunda troca na volta 46, sem que tivesse esboçado qualquer ação sobre seu companheiro de equipe. Piastri veio na 48ª. Era o momento decisivo da corrida. Se voltasse atrás de Norris, adeus primeira vitória — numa disputa normal, sem blablablá. E foi exatamente o que aconteceu. Verstappen assumiu a ponta ainda tendo de fazer uma parada. Lando era o virtual vencedor.

Segunda parada de Piastri: posição perdida para Norris

Mas a McLaren, muito civilizada depois de sua barafunda, havia informado a Piastri, pouco antes, que ele poderia parar depois de Norris que as posições seriam restabelecidas. Assim que o australiano saiu dos boxes, a mesma informação foi passada ao inglês. Na volta 50, Verstappen parou. Voltou em quinto. Como imaginava, longe de Hamilton, o terceiro, e atrás de Leclerc, o quarto. Tinha agora pneus médios novos e chance de atacar ambos até o fim da corrida. Resmungando, claro.

Restava saber se a troca entre Norris e Piastri aconteceria, mesmo. Porque, na real, Lando tinha ganhado a posição mais pelo erro de Oscar do que exatamente pela parada duas voltas antes. Na volta 56, o inglês já tinha mais de 3s de vantagem sobre o parceirinho do carro #81. Verstappen, em quinto, esbravejava contra “a estratégia de merda que vocês me deram” e tentava, a todo custo, passar Leclerc. Na volta 57, conseguiu. Com pneus mais novos, médios, partiria para cima de Hamilton – que tinha duros.

Foi nessa altura que o clima pesou na McLaren. O engenheiro de Norris avisou que ele teria de trocar de posição com Piastri. “Mas por que vocês não chamaram ele antes?”, contestou o inglês. Ele tinha razão. Se o time tinha antecipado seu pit stop, e não o de Piastri, que culpa tinha? Fizeram aquilo para defendê-lo de Hamilton? Mas precisava? Não, não precisava. Conversinha.

Norris não quis nem saber, num primeiro momento. Seguiu argumentando e acelerando, e abriu 4s de Piastri. Verstappen, em quarto, se aproximava de Hamilton. Depois da segunda parada dos dois pilotos da McLaren, passei a acompanhar a prova no celular pela câmera do australiano. Estava curioso para saber o que seu engenheiro diria, como o piloto reagiria, ansioso pela primeira vitória na carreira. Mas era um monólogo. Só o cara do pitwall falava alguma coisa, dando orientações técnicas. Oscar não pronunciava nenhuma palavra. Em compensação, Norris e seu engenheiro tagarelavam loucamente. A estratégia de convencimento era: “Vocês estão gastando muito os pneus!”. Até que Lando, aparentemente, acedeu: “OK, então mandem ele chegar logo!”.

Verstappen x Hamilton: upa, cavalinho!

Verstappen voltou a atacar Hamilton. Na 63ª volta, a sete do final, mergulhou por dentro na curva 1, retardou a freada e tocou sua roda traseira esquerda na dianteira direita de Lewis. O carro decolou, aterrissou de bico e, por milagre, não quebrou e não bateu em nada. Bufando e amaldiçoando o destino, acabou perdendo a posição para Leclerc, também, caindo para quinto.

Lá na frente, nada de Norris atender às ordens da McLaren. Ao contrário. Faltando cinco voltas para o fim, a vantagem para Piastri era de 6s. Do ponto de vista técnico, não faria mais nenhum sentido entregar a vitória. Mas o engenheiro de Lando apelava para o emocional. “Amiguinho, tudo é trabalho de equipe. Somos um time, uma família. Tomamos café, almoçamos e jantamos juntos. Viajamos o ano todo, somos parceiros. Você ainda terá muitas chances na vida…” Ele evitava berrar, mas estava claramente perdendo a paciência.

Até que, na volta 67, foi duro e assertivo. “Hamilton está mais de 20 segundos atrás. Devolva a posição AGORA!” Foi especialmente eloquente no “agora”. Gritou, mesmo. E Norris, então, tirou o pé no meio da reta e deixou o australiano passar.

Piastri se tornou o 115º ser humano a ganhar um GP de F-1. Pelo rádio, agradeceu calmamente a todos: “Obrigado pela coordenação”. Quem é que agradece a COORDENAÇÃO depois de vencer sua primeira corrida? Oscar é esse tipo de piloto. Assim que estacionou no Parque Fechado, recebeu um aperto de mão de Norris. Tirou o volante, saiu do carro, subiu no cockpit, ergueu os braços timidamente e foi abraçar os mecânicos. De modo contido, sem se atirar de corpo e alma em cima da equipe. É um rapaz recatado e do lar.

Final em Budapeste: dobradinha da McLaren

Na entrevista pós-GP, Piastri disse que vencer na F-1 “era um sonho de criança”, falou que seu carro é “maravilhoso”, que controlou a corrida e que no final o time “fez a coisa certa” ao ordenar a troca de posições. Norris não jogou gasolina na fogueira. “É um dia espetacular para nós, estou muito feliz. Parabéns para o Oscar, me passou na largada, controlou a corrida. Merecia a vitória. A equipe me pediu para devolver a posição e eu devolvi. É isso. Ele já me ajudou muito em várias corridas e guiou melhor que eu, hoje. E com certeza temos como lutar pelo campeonato.”

Hamilton foi o terceiro, tornando-se o primeiro piloto a subir 200 vezes no pódio. Leclerc, Verstappen, Sainz, Pérez, Russell, Tsunoda e Stroll fecharam o grupo dos dez primeiros. Piastri foi o sétimo vencedor do ano. Nos últimos seis GPs, cinco pilotos diferentes ganharam corridas.

Semana que vem tem mais, na Bélgica. Será a 14ª etapa do campeonato, que então fará uma pausa para pilotos, equipes e agregados aproveitarem as férias de verão na Europa. Pode ser que até a corrida de Spa tenhamos algumas novidades no mercado de pilotos, como o anúncio oficial de Ocon na Haas. O futuro de Sainz segue indefinido. Pérez garante que não tem cristão no mundo para interromper seu contrato com a Red Bull.

Tenho dito, e repito: 2024 está se saindo melhor que a encomenda.

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CALORING DA PESTE (2)

Norris (dir.) e Piastri: 1-2 da McLaren no grid pela primeira vez desde 2012

SÃO PAULO (vazio) – Lando Norris e Oscar Piastri largam na primeira fila do GP da Hungria amanhã, o que faz da McLaren a favorita à vitória da 13ª etapa do Mundial. É a terceira pole de Norris na F-1. As outras foram na Rússia em 2021 e na Espanha neste ano. Já a McLaren não fazia uma primeira fila completa desde o GP do Brasil de 2012, com Lewis Hamilton na pole e Jenson Button em segundo no grid. Faz tanto tempo que Ron Dennis era o chefe e os carros eram prateados. Na corrida de amanhã, Max Verstappen e Carlos Sainz largam da segunda fila. O holandês admitiu que, neste momento do campeonato, virou caçador, em vez de caça. “Adoro a competição, mas prefiro estar na frente, não atrás. É uma situação diferente para a gente. Mas amanhã volta a fazer calor e talvez isso nos ajude na corrida.”

Calor. Ontem, quase derreteu todos no autódromo. Hoje, deu uma trégua. O dia amanheceu nublado e o terceiro treino livre foi realizado com pista seca e agradáveis 24°C. Ontem, os termômetros bateram nos 35°C rachando coquinho. E para animar um pouco o sábado, antes da classificação choveu. Coisas do verão europeu. Molhou um pouco a pista. Mesmo assim, quando a sessão que definiria o grid começou todos foram à luta com pneus slicks e muita pressa, porque havia uma boa chance de a chuva voltar. Hamilton, Sainz, Verstappen, Piastri e Alonso se colocaram entre os cinco primeiros sem enrolar demais. Estariam eliminados, naquele momento, Ricciardo, Stroll, Magnussen, Zhou e Hülkenberg.

Mas aí…

Aí, faltando 6min45s para o final do Q1, Pérez bateu. Bandeira vermelha, sessão interrompida. Checo era o nono colocado. Algo acontece com esse moço. Durante a semana, Christian Horner contou que recebeu o mexicano em casa para conversar, dias depois de dizer que era “insustentável” não fazer pontos com um carro como o RB20. Tomaram um chá. Falou com carinho do piloto e revelou o conselho que deu a ele: “Pare de olhar para o outro lado a garagem”. Não se comparar com Verstappen e não querer fazer o mesmo que o holandês foi a dica. “Renovamos seu contrato para ele tentar retomar aquele bom momento das quatro ou cinco primeiras corridas do ano.” (Para ajudar o chefe da Red Bull a ser mais preciso: foram seis boas provas. Nas seis primeiras etapas de 2024, Pérez foi ao pódio quatro vezes e marcou 113 pontos. De Ímola em diante, mais seis corridas, foram 15.)

Pelo jeito, o papo não adiantou nada. Ou o chá estava ruim. O que é difícil, em se tratando de um castelo na Inglaterra, onde Horner mora. Ele deve ter mordomo e governanta, daqueles que perguntam, ao servir: “Leite e açúcar, senhor?”.

Antes de a sessão ser retomada, coisa de dez minutos depois, uma chuvinha de nada veio e foi embora sem se fazer notar. Boxes abertos, quem ainda tentava se salvar voltou à pista com pneus slicks – os intermediários não foram considerados em nenhum momento, desde o início da classificação. Quem não precisava melhorar voltou, também. E deu para entender por quê. A pista ficou mais rápida. A ponto de Ricciardo fechar o Q1 com a melhor volta: 1min17s050. Hamilton e Verstappen ficaram em segundo e terceiro com o mesmo tempo: 1min17s087. Sainz, Albon, Hulk, Stroll, Tsunoda, Leclerc e Bottas fecharam os dez primeiros. E foram degolados Pérez, Russell, Zhou, Ocon e Gasly.

Pérez à parte, que tinha batido, os demais que ficaram fora do resto da classificação simplesmente erraram a hora de ir para a pista – quem saiu logo de cara se deu mal. Ou a estratégia, que foi o caso de Russell. Pelo rádio, o inglês perguntou delicadamente por que a Mercedes não colocou gasolina suficiente em seu tanque para ficar na pista até o final do Q1, já que as condições estavam melhorando bastante.

Não ouvi a resposta, mas minhas fontes na equipe mandaram o áudio do engenheiro: “George, quando for abastecer, pede sempre para encher o tanque até travar a bomba. Você tem essa mania de pedir valores redondos e sempre dá nisso. Manda completar, George, é fácil”. E ele respondeu com a gentileza de sempre. “Faço isso para facilitar o troco do frentista, é preciso ter empatia com aqueles que trabalham de sol a sol nos postos de gasolina, até porque eles sabem que em breve perderão seus empregos em função da popularização dos automóveis elétricos. Aliás, você sabia que hoje no Reino Unido o percentual de eletrificação…”, mas nesse momento Toto Wolff entrou na conversa e o interrompeu aos berros. “Você paga com cartão, George! E é cartão da empresa, George! Ninguém mais paga em dinheiro, George!” Dito isso, arrancou o fone, jogou na bancada e foi embora. No começo da noite, eu soube que Toto tomou um porre de Unicum e foi resgatado do bar do hotel por Hamilton, que descera para tomar um suco detox de brócolis, chicória e hortelã antes de fazer sua meditação e dormir. Tudo orgânico, claro.

No Q2, com o asfalto totalmente seco, os tempos começaram a despencar. Verstappen, em sua primeira volta rápida, fez 1min15s770. Já era o melhor tempo do fim de semana. Norris, no finalzinho do segundo segmento, cravou 1min15s540 e foi para a ponta. Piastri ficou em terceiro. Esse seria o duelo pela pole: Max x McLaren. Depois deles se classificaram para o Q3 Sainz, Leclerc, Stroll, Alonso, Tsunoda, Ricciardo e Hamilton – o heptacampeão, na bacia das almas. McLaren, Ferrari, Aston Martin e Acho que o Chip Tá com Defeito avançaram com suas duplas; Red Bull e Mercedes, com um carro cada. Dançaram Hülkenberg, Bottas, Albon, Sargeant e Magnussen.

Fila para última tentativa: só Ricciardo melhorou

Quando o Q3 foi iniciado, veio um aviso de que poderia chover dali a cinco minutos. Pelo sim, pelo não, os dez cabras classificados foram garantir seus tempos logo na primeira tentativa. Verstappen virou 1min15s555. E Landinho foi 0s328 mais rápido. Uma no cravo, outra na ferradura. Não sei direito o sentido desse ditado, mas gosto dele. A chuva prometida não veio. Max melhorou um pouquinho em sua segunda tentativa, mas não superou o influencer inglês – ficou a 0s046 do papaia #4. Pior, foi ultrapassado por Piastri e caiu para terceiro. Faltavam 2min13s para a quadriculada quando Tsunoda bateu. Bandeira vermelha.

Havia tempo para mais uma volta de todo mundo. Mas nem todo mundo voltou para a pista. Verstappen, irritadíssimo, saiu do cockpit. Pouco antes, ao fechar sua volta, socara o volante, de raiva. Tinha cometido um erro minúsculo na última curva, percebendo que ali perdera a chance de fazer a pole. Alonso também nem quis saber de andar mais. Colocou uma jaqueta e foi embora. Demorou muito para liberarem a pista. Os pneus dos que se dispuseram a fazer uma terceira tentativa esfriaram enquanto estavam na fila esperando a luz verde, e quando os boxes foram abertos já não tinha mais como mudar nada.

Os tempos da classificação: primeira fila da McLaren

Norris, Piastri, Verstappen, Sainz, Hamilton, Leclerc, Alonso, Stroll, Ricciardo e Tsunoda formam o time dos dez primeiros no grid. Ricardão foi o único que, no rabicho do Q3, conseguiu ganhar posição – justamente a de seu companheiro Tsunoda.

Duas paradas serão necessárias amanhã para aguentar o calor e o asfalto de Budapeste – que não é Budapeste, como já disse ontem; é Mogyoród. Já fui várias vezes para lá. Os locais não gostam quando a gente confunde os lugares. “Nós não é turco, nós é libanês”, dizem, irritados.

Norris e Piastri, largando bem, poderão controlar a corrida. Mas que ninguém espere ataques ensandecidos de Oscar sobre seu parceiro. O australiano é um piloto calmo e obediente. O normal é que fique quietinho. Mas será atacado por Verstappen. De sua capacidade de defesa dependerá o resultado da prova. A McLaren não faz uma dobradinha desde o GP da Itália de 2021, vencido por Ricciardo, com Norris em segundo.

Para ser sincero, não aposto num 1-2 papaia. Acho que Verstappen, em algum momento, vai mostrar suas garras. E Piastri, em corrida, ainda precisa mostrar mais ambição. Ferrari e Mercedes, antes que me esqueça, nada farão. Como dissemos ontem, o GP da Hungria foi vencido 34 vezes, em 38 edições, por pilotos que largaram nas duas primeiras fila – 89,5%. O índice de vencedores a partir da pole é de 42,1% (16 vezes). Foram sete vitórias de quem largou em segundo e oito dos que largaram em terceiro. E três de quem largou em quarto.

Se quiserem fazer uma fezinha, joguem em Verstappen, Norris e Piastri no pódio. Nessa ordem.

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CALORING DA PESTE (1)

Norris na frente: inglês briga pela pole amanhã

BUENOS AIRES (já com saudades) – Lando Norris foi o mais rápido da sexta-feira nos primeiros treinos livres para o GP da Hungria. Foi um dia escaldante em Hungaroring, depois da tempestade de anteontem que teve até chuva de granito. Eu sei que é granizo, mas adoro dizer que choveu granito, então não me irritem. O granito, o vento e o aguaceiro detonaram o motorhome da McLaren. Chamamos erroneamente essas estruturas que ficam nos paddocks europeus de motorhomes. Não são mais. Motorhome é um busão com varanda de lona, uns sofás dentro, TV e DVD. O que usam agora na F-1 são edifícios pré-montados transportados por gigantescas carretas. A equipe já tinha sofrido um incêndio em Barcelona. Melhor benzer essas coisas.

Mas eu falava do calor escaldante, e termômetros servem para isso: 31°C no ambiente, que no caso é uma cratera onde fica o autódromo de Budapeste, e 58°C no asfalto, o bastante para fritar ovos e esquentar goulash. Aliás, é minha obrigação dizer, outro erro que cometemos é chamar essa localidade de Budapeste, como escrevi acima. A pista fica mesmo em Mogyoród, monótono vilarejo de 8 mil habitantes à beira da autoestrada M3 onde antigamente tinha muito pé de avelã e por isso se chama Mogyoród, que na Antiguidade era a palavra usada para Nutella. Mas fica perto de Budapeste, então falamos Budapeste mesmo, que é bem mais bacana que Mogyoród, inclusive, embora não tenha avelãs – mas tem Nutella.

A Ferrari tinha começado bem o fim de semana, com Sainz fazendo o melhor tempo no primeiro treino. O time italiano via no GP da Hungria uma chance de se recuperar no campeonato, já que depois de Mônaco andou para trás nas pistas velozes que se seguiram. Budapeste é lenta e sinuosa, mais afeita à natureza dos carros vermelhos.

Mas na segunda sessão Leclerc jogou água no Brunello di Montalcino de Maranello. Com 17 minutos de treino, rodou e bateu forte, paralisando as atividades para reparos no guard-rail. O carro voltou sobre uma plataforma, com o lado esquerdo todo arrebentado. O trabalho da Ferrari para o resto do dia ficaria a cargo de seu companheiro espanhol, que cumpre aviso prévio na fábrica. Dizem que seu crachá já nem passa na catraca, precisa sempre mostrar o documento para a mocinha na recepção.

Leclerc bate: prejuízo para ele e para a Ferrari

Charlinho é simpático e carismático, seu crachá funciona perfeitamente e ele sempre sorri para a mocinha da recepção, diferentemente de Sainz, que reclama todo dia que já fez seu cadastro – “mas mudamos o sistema, señor”, diz a recepcionista enfatizando o señor, embora seja italianíssima de Bolonha. Mas erra muito, o monegasco. A batida estragou sua sexta-feira e prejudicou a de todo mundo, já que bandeira vermelha em treino livre faz os carros pararem, mas o cronômetro segue correndo. A sessão só foi reiniciada 15 minutos depois. Leite derramado não volta para o latão. Existe esse ditado, com leite e latão? Se não existe, achei legal. Enfim, 15 minutos de labuta coletiva foram perdidos por causa de Leclerc. Ponteiro de cronômetro não anda para trás. Outro ditado, copyright free.

Na retomada das ações, quase Zhou bateu em Pérez causando um incidente diplomático entre China e México. O piloto da Sauber rodou. Apenas uma barbeiragem a mais entre tantas. O moço de Xangai vive seus últimos momentos na F-1. Tem 12 corridas para aproveitar e contar para os filhos e netos, isso se se casar e tiver filhos, ou adotar uma ou várias crianças. Ninguém vai querê-lo em 2025. Não na F-1.

Norris foi o único piloto no fim de semana a completar uma volta abaixo de 1min18s, fazendo 1min17s788 na melhor delas. Faltavam 20 minutos para o fim e, àquela altura, algumas equipes já estavam preparando suas simulações de corrida, com sequências mais longas de voltas e experiências com os pneus, que na Hungria são sempre um problema – por causa das altas temperaturas e pelas características da pista. Todo mundo sabe que domingo a estratégia padrão será de duas paradas e pode ser que alguém largue com os macios, antecipando o primeiro pit stop. Pelo sim, pelo não, nos últimos dez minutos pneus duros e médios foram avaliados, sem que os tempos baixassem.

Os tempos da sexta: menos de 1s entre o primeiro e o 14º

Quem acabou saindo do autódromo um pouco mais aliviado foi Pérez, com o quarto tempo. A Red Bull usou duas especificações diferentes em seus carros, e o do mexicano agradou mais. Embora Verstappen tenha ficado à sua frente na tabela de tempos, ficou a impressão, pelo bom desempenho de Checo, que a sua seria mais adequada. Afinal, para Pérez andar bem o carro tem de estar bom demais. Alguém no time deve ter feito esse raciocínio.

Foram 38 GPs disputados em Hungaroring desde 1986, e não é novidade para ninguém que largar na frente é importante. Até hoje, 16 pilotos que largaram na pole venceram (42,1%) e sete ganharam partindo do segundo lugar no grid – o que dá uma taxa de 60,5% de vencedores a partir da primeira fila; ampliando essa conta até a segunda fila, batemos em 34 vencedores, 89,5%. Sendo assim, a classificação de amanhã se torna o primeiro ato de um GP disputado em duas partes. Pelos resultados de hoje, McLaren, Red Bull e Ferrari, nessa ordem, brigarão na frente. A Mercedes, que milagrosamente ganhou as últimas duas provas do Mundial, não vai andar bem nessa pista. Hamilton já venceu oito vezes na Hungria. A nona vai ter de esperar mais um pouco.

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SAI K-MAG, ENTRA OCON

BUENOS AIRES (de férias) – Só para atualizar vocês (as minhas férias terminam amanhã), a Haas acaba de informar que Kevin Magnussen não fica na equipe no ano que vem. Seu substituto será Esteban Ocon — o anúncio oficial será feito nos próximos dias. O dinamarquês foi resgatado pelo time em 2022, depois que estourou a guerra entre Rússia e Ucrânia, para o lugar do proscrito Nikita Mazepin. É o piloto que mais correu pela Haas desde sua fundação, em 2016. Disputou as temporadas de 2017 a 2020 e, ao final deste ano, terá completado sete campeonatos pela equipe americana. Foi nono colocado no Mundial de 2018, sua melhor classificação. São 135 GPs na casa. Também defendeu McLaren e Renault.

O jovenzinho Oliver Bearman já foi confirmado oficialmente pela Haas para 2025. O time também informou, no início da semana, que vai continuar usando motores Ferrari pelo menos até o final de 2028. Magnussen não tem destino certo. Seu atual companheiro, Nico Hülkenberg, assinou com a Sauber/Audi e se arrumou para o futuro. K-Mag, provavelmente, vai acabar na Indy. Ele estava se acomodando por lá no começo de 2022, quando foi chamado para ocupar o lugar de Mazepin.

Pelas minhas contas, faltam ser preenchidas vagas para o ano que vem na Mercedes, Alpine, Williams, Débito ou Crédito e Sauber. A Mercedes está entre Kimi Antonelli e Carlos Sainz, esperando ainda uma possibilidade de abduzir Max Verstappen. Na Alpine, Sainz é o favorito, mas se enrolar muito a equipe pode colocar Jack Doohan ou até, no limite, Mick Schumacher. A Williams também assedia Sainz, mas Antonelli é uma opção se a Mercedes decidir dar alguma experiência ao menino. Na É Aproximação?, Liam Lawson deverá correr no lugar de Daniel Ricciardo. Que, por sua vez, é capaz de arrumar uma vaguinha na Sauber/Audi, por que não? Esse segundo carro da montadora alemã é ainda uma grande dúvida. Sainz recebeu proposta. Ainda está estudando. O mercado todo, agora, depende da decisão do espanhol.

Ah, e ainda tem Pérez ameaçado. O mexicano renovou por dois anos com a Red Bull, mas se continuar fazendo merda será demitido. Aí abre-se uma vaga muito interessante no grid.

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Saiu o calendário das Sprints para 2025. O povo da F-1 adora Interlagos…

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EXISTE WEC EM SP (1)

O Corollão nos primeiros treinos livres: aproveitem!

SÃO PAULO (sorry) – Vocês não verão neste blog quase nada das 6 Horas de São Paulo, porque o amiguinho aqui viaja amanhã para uma semana de férias na Argentina. Perderei a corrida, com dor no coração. Mas com o passar dos anos aprendi que não dá para fazer tudo na vida. Paciência.

O Grande Prêmio, porém, cobre a prova com uma equipe enorme e lá vocês não perdem nada. A distância, vou acompanhar, claro. E quem puder ir, vá. Não é toda hora que Interlagos recebe eventos dessa magnitude. Fazia um tempão, aliás. O WEC foi embora do Brasil por conta de picaretagens mil de ex-promotores — alguns famosos, inclusive. Está de volta. Deixem de preguiça, e corram para o autódromo, que amanhã tem mais treino livre e classificação. Com Ferrari, Toyota, Porsche, Peugeot, Cadillac, Alpine e tudo mais.

Domingo, a corrida começa às 11h.

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FOTO DO DIA

Eis o RB17, a última obra de Adrian Newey para a Red Bull. É o carro de rua (mais ou menos de rua…) apresentado hoje em Goodwood.

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SOBRE ONTEM DE MANHÃ

A IMAGEM DA CORRIDA

Nos braços do povo: Hamilton, de calças vermelhas, renasce em Silverstone

SÃO PAULO (de volta) – São 104 vitórias, algumas resultaram em títulos (e são sete), outras são carregadas de significados (a primeira de todas, a mais difícil, aquela com três pneus, o triunfo marcante na casa do ídolo Senna…). E por que essa, em particular, arrancou lágrimas de Lewis Hamilton? Ele mesmo disse que nunca tinha chorado depois de ganhar uma corrida. Desta vez, chorou.

É fácil explicar. Hamilton estreou em 2007 na F-1 e até 2021, 15 anos seguidos, nunca deixou de vencer pelo menos um GP por ano. Um auge permanente, por assim dizer. Aí veio a derrota para Verstappen na última corrida de 2021, seguida de dois anos horríveis da Mercedes em 2022 e 2023, e mais 11 provas neste ano longe de brigar pelo degrau mais alto do pódio. Até a vitória redentora de ontem. Em casa, pela nona vez. Com o adicional de completar uma sequência quase inacreditável de 12 pódios seguidos em Silverstone — incluem-se nessa conta 11 GPs da Inglaterra e o GP do 70º Aniversário, na mesma pista, em 2020, quando o calendário teve algumas provas repetidas por causa da pandemia.

Nesse período de provações, Hamilton pensou em desistir de correr. E, como disse ontem, colocou em dúvida a própria capacidade de voltar a ganhar uma corrida. Esse foi o motivo do choro quase incontrolável. “Agora não preciso mais ficar me questionando sobre isso”, falou.

Hamilton achava que não seria mais capaz de vencer. Ontem, mostrou a si mesmo que é. Por isso a foto escolhida: o piloto junto ao seu povo com sua taça dourada.

E de calças vermelhas, que todo mundo percebeu…

Há uma série de números interessantes para as estatísticas da F-1 produzidos ontem. Hamilton, por exemplo, se tornou o primeiro piloto a vencer corridas em 16 temporadas diferentes. Ele está em seu 18º campeonato. Só não ganhou em 2022 e 2023. É também o primeiro piloto a vencer um GP 17 anos depois da primeira vitória na categoria. Com a Mercedes, chegou a 150 pódios. São 199 na carreira. E 15 em Silverstone — nenhum piloto subiu tanto no pódio no mesmo circuito. Mas tem de escolher um, né? Então vamos ao…

NÚMERO DA INGLATERRA

…piloto a vencer depois de ter disputado mais de 300 GPs. Essa foi mais uma marca importante anotada por Lewis. A vitória veio em sua 344ª corrida. A última antes dessa tinha sido na Arábia Saudita em 2021, em seu 287º GP. Além de Hamilton, só cinco pilotos largaram em mais de 300 GPs. E nenhum deles venceu depois da terceira centena. Alonso tem 389 e ganhou pela última vez na Espanha/2013 pela Ferrari, em seu 201º GP. Raikkonen encerrou a carreira com 349 largadas, tendo vencido a última de Ferrari nos EUA/2018, sua corrida nº 288. Barrichello, 322 GPs disputados, ganhou o último na Itália/2009 pela Brawn, na sua 280ª prova. Schumacher, que parou com 306 corridas, venceu pela última vez na 246ª delas, na China/2006, pela Ferrari. E Button, também 306 GPs, ganhou o último no Brasil/2012 pela McLaren, na sua 228ª largada.

Mercedes, duas vitórias seguidas: solução debaixo do capô

E a Mercedes, quem diria, chegou a duas vitórias seguidas nesta temporada. E se é verdade que na Áustria caiu no colo de Russell, na Inglaterra foi um resultado construído na base da velocidade, da estratégia e da pilotagem segura de Hamilton.

E, também, graças ao calombo no alto do nariz do carro, onde está pintado o número 44 na foto aí em cima. De acordo com as publicações que esmiúçam aspectos técnicos da F-1, é debaixo desse calombo que foi instalada uma estrutura acoplada às suspensões dianteiras que confere maior estabilidade ao W15. Esse carro, de novo, nasceu com um problema crônico de “porpoising”: bate muito no asfalto em trechos de alta velocidade e interrompe os fluxos de ar sob o assoalho. A tal estrutura confere rigidez ao conjunto todo, permitindo que o carro ande muito baixo, chegando perto da plenitude de sua eficiência aerodinâmica.

Demorou dois anos e meio, mas a Mercedes parece ter encontrado um caminho para corrigir os defeitos de nascença dessa linhagem de carros feitos para o regulamento que estreou em 2022.

A FRASE DE SILVERSTONE

“É insustentável não marcar pontos com esse carro.”

Christian Horner, sobre Pérez
Pérez: na marca do pênalti

São 15 pontos nas últimas seis corridas. Nico Hülkenberg, da Haas, fez 16 nas últimas duas. Se a comparação for com o companheiro Max Verstappen, é covardia: 119. Estamos falando de Sergio Pérez. Que zerou em três dos últimos cinco GPs. E nesses cinco, largou três vezes atrás de… Logan Sargeant!

Como disse o chefe Christian Horner, passa a ser uma situação insustentável. O que se sabe: que Pérez, ainda que com contrato renovado por mais dois anos, tem cláusulas de performance. Até o GP da Bélgica, não pode estar mais de 100 pontos atrás de Verstappen e, no máximo, cinco posições atrás na classificação do campeonato.

Neste momento, Max tem 255, contra 118 do mexicano. A diferença é de 137. Checo está em sexto no Mundial, exatas cinco posições atrás do holandês, que é o líder. Mas na sua cola estão George Russell (111) e Hamilton (110).

Liam Lawson fará um teste em Silverstone nos próximos dias.

SOSTITUZIONE – A Ferrari anunciou hoje a saída de Enrico Cardile, engenheiro que cuidava dos chassis da equipe. Foram quase 20 anos de serviços prestados em Maranello. O chefe Frédéric Vasseur vai acumular as funções de diretor-técnico na área. Hum… Em outubro, o francês Loïc Serra, ex-Mercedes, começa na Ferrari — estava em quarentena. Mas tem gente interpretando a saída como preparação de terreno para a chegada de Adrian Newey. Já Cardile deve acertar com a Aston Martin em breve. Já trabalhou com Alonso na Ferrari.

UM HORROR – “Pior que um pesadelo.” Assim Charles Leclerc descreveu seu fim de semana. A Ferrari, depois de Mônaco, fez várias atualizações em seu carro. Nenhuma funcionou. Tanto que em Silverstone o time voltou às configurações que estavam sendo usadas em Ímola, cinco corridas atrás. O monegasco reclamou de tudo, inclusive de ter colocado pneus intermediários tentando antecipar a chuva. “Só veio dez voltas depois. Jogamos a corrida no lixo”, disse. São duas corridas sem pontos, já: 11º na Áustria e 14º na Inglaterra. Sem contar abandonos por quebras ou acidentes, e considerando apenas as provas em que chegou ao final, Charlinho não tinha uma sequência tão ruim desde os três primeiros GPs que disputou, pela Alfa Romeo, em 2018: 13º, 12º e 19º em Melbourne, Bahrein e China.

NA REDE – Coisinhas da internet ainda ligadas à corrida de Silverstone. A “Autosport” fez a lista dos resultados de Hamilton nas últimas 11 edições do GP da Inglaterra, com seus impressionantes 11 pódios e oito vitórias. Lembrando que seu primeiro triunfo em casa foi em 2008, pela McLaren, e que ainda teve um segundo lugar na corrida de 2020 batizada como GP do 70º aniversário na mesma pista para fechar a lista de 12 pódios seguidos em Silverstone. Lewis foi escolhido pelo amigo internauta como Piloto do Dia. E o amigo internauta Sebastian Vettel postou no Instagram uma foto do piloto com a expressão “Goat”, acrônimo em inglês para “greatest of all time”.

NAS PISTAS – Hamilton bateu o recorde histórico de nove vitórias no mesmo circuito, mas pode repetir o feito daqui a menos de duas semanas na Hungria, onde também já ganhou bastante: oito vezes. O inglês estava empatado com Michael Schumacher como maior vencedor numa mesma pista. O alemão ganhou oito em Magny-Cours, na França. Os dois também dividem o terceiro lugar nessa estatística: Hamilton tem sete vitórias no Canadá e Schumacher ganhou sete em Ímola e também na pista de Montreal.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS de novo de ver a Haas competitiva, com Nico Hülkenberg repetindo o sexto lugar da Áustria. Isso depois de um início de prova complicado, tendo perdido três posições na largada. A equipe acertou na estratégia, chamou o alemão para os boxes na hora certa e ele, na pista, entregou resultado. Como já devo ter dito na semana passada, a Audi acertou em contratá-lo.

NÃO GOSTAMOS de novo de ver a Sauber se arrastando com Valtteri Bottas e Guanyu Zhou nas últimas posições. A equipe continua sendo a única a não marcar pontos em 2024. Entende-se o clima de fim de feira, já que o time vive um período de transição para virar Audi em 2026. Mas também não precisava ser tão ruim. Desse jeito, vai ser bem difícil convencer Carlos Sainz a abraçar o projeto. Ele mesmo, aliás, já parece ter desistido.

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LABORIOSAS (3)

Alegria infinita na Inglaterra: vitória de Hamilton em casa

SÃO PAULO (a gente já estava com saudades) – Segundo os organizadores do GP da Inglaterra, 480 mil pessoas passaram pelas arquibancadas e gramados de Silverstone neste fim de semana. É uma multidão à altura do que se viu na 12ª etapa do Mundial de F-1. A vitória de Lewis Hamilton foi uma das mais emocionantes das 104 de sua carreira e levou o autódromo a uma verdadeira catarse coletiva.

Por vários motivos. Primeiro, o heptacampeão não ganhava desde 5 de dezembro de 2021, na Arábia Saudita. É muita coisa para um piloto que detém o recorde de vitórias na categoria e único a entrar na casa dos três dígitos na história.

Segundo, esta é sua última temporada na Mercedes e foi seu derradeiro GP em casa vestindo o macacão do time que defende desde 2013. São muitas lembranças e conquistas que pareciam ficar cada vez mais distantes no tempo. Ano que vem ele estará lá de vermelho Ferrari.

Terceiro, Lewis estabeleceu um recorde histórico e impressionante: tornou-se o primeiro piloto a ganhar nove corridas no mesmo circuito – estava empatado com Michael Schumacher, que venceu oito vezes em Magny-Cours, na França. A primeira foi em 2008, pela McLaren. Já na Mercedes, venceu quatro seguidas de 2014 a 2017, mais três de 2019 a 2021 e hoje, pela nona vez.

Por fim, porque a Inglaterra viveu, neste fim de semana, o auge da felicidade que um povo poderia desejar. Foram muitas razões para comemorar, a começar pela vitória dos trabalhistas nas eleições que tiraram os conservadores do poder depois de 14 anos – responsáveis pelo Brexit, a estapafúrdia saída do Reino Unido da União Europeia que tanto prejudicou sua população e isolou comercialmente Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte do resto do continente. Ontem já fora motivo de festa a pole de George Russell em Silverstone, com mais dois ingleses em segundo e terceiro no grid – Hamilton e Lando Norris. Na sequência veio a classificação do English Team contra a Suíça, nos pênaltis, para as semifinais da Euro, que está sendo disputada na Alemanha.

Os ingleses inventaram o futebol e foi na ilha que nasceu a F-1. O que se viu neste fim de semana foi uma daquelas raras conjunções cósmicas em que tudo dá certo. Não para indivíduos, mas para uma população inteira. Então, os caras têm mais é de festejar, mesmo. Vai faltar cerveja nos pubs do reino nas próximas horas. Que se divirtam.

E vamos a este belo GP da Inglaterra, que fez justiça à fama de Silverstone e à reverência que todos que gostam de F-1 prestam a essa pista.

A largada foi muito limpa e mais ou menos como se previa: Hamilton fazendo a proteção ao pole Russell e deixando a turba atrás se virar. Na turba estava Max Verstappen, que partiu bem e passou Norris rapidinho, se posicionando em terceiro. Estava cercado de motores Mercedes: George e Lewis à frente, Lando e Oscar Piastri atrás. Quem largou mal foi Nico Hülkenberg, caindo de sexto para nono. Charles Leclerc saltou de 11º para oitavo. O grid teve 18 carros alinhados, apenas. Sergio Pérez largou dos boxes e Pierre Gasly abandonou ao final da volta de apresentação com problemas no câmbio. Dois pilotos largaram com pneus macios: Guanyu Zhou e Esteban Ocon. Pérez foi de duros. Os demais, de médios.

A corrida começou com pista seca, muitas nuvens no céu e possibilidade iminente de chuva. A comunicação de rádio entre boxes e cockpits era frenética. “Vai chover daqui a 18 minutos e 40 segundos entre as curvas 13 e 14 e nas quatro primeiras barracas a leste do portão B, incluindo o furgão das batatas fritas”, dizia um. “Temos previsão de chuva em sete minutos e 12 segundos no motorhome da FIA e sobre o The Malt Shovel Tavern na Bridge Street em Northampton, a propósito um ótimo pub”, avisava outro. “Nosso radares indicam pancadas no final da tarde para Kuala Lumpur e Nova Déli a partir de quarta-feira, mas o tempo melhora no fim de semana”, informava mais um.

Os pilotos, na dúvida, aceleravam.

Norris: bem no início, erros estratégicos depois

Com dez voltas, Russell, Hamilton, Verstappen, Norris, Piastri, Carlos Sainz, Lance Stroll, Leclerc, Hülkenberg e Fernando Alonso se mantinham nas dez primeiras posições sem ataques ferozes ou defesas muito explícitas – o que acontecia, sim, no segundo pelotão, com numerosas ultrapassagens envolvendo carros da Sauber, Haas, Alpine, Seu Cartão é de Aproximação? e Williams, ainda que por posições pouco relevantes.

No festival de boletins meteorológicos a que os pilotos estavam sendo submetidos, uma informação era comum a todos: a chuva, quando chegasse, seria breve. Na volta 14, Norris conseguiu reduzir a diferença para Verstappen para menos de 1s, podendo abrir a asa e ensaiar alguma tentativa de ultrapassagem. Passou na volta 15, sem resistência do holandês. As arquibancadas urraram.

Torcida por Lewis: barulhenta e feliz

A água chegou na altura da 17ª volta, quando o público começou a vestir suas capas e a abrir guarda-chuvas. Eram alguns pingos esparsos, ainda sem molhar o asfalto. Piastri, nesse momento, também passou Verstappen e foi para a quarta posição. A pista ficava escorregadia e Hamilton colou em Russel. Abriu a asa e passou na 18ª volta. As arquibancadas urraram em dobro.

Aí a corrida ficou boa. Hamilton e Russell foram para a área de escape e Norris se aproximou de ambos. Os dois Mercedes voltaram ao leito da pista, mas George perdeu a posição para Lando. No rádio, o engenheiro de Verstappen disse a ele que se conseguisse sobreviver àquelas voltas, beleza. A recompensa viria em algum momento.

Na volta 20, Norris passou Hamilton e assumiu a liderança. Piastri veio junto, superou Russell e foi para cima de Hamilton. Os carros da McLaren, naquela condição de pista meio seca e meio molhada voavam. Oscar deixou Lewis para trás no fim da 20ª volta.

Naquele momento, Leclerc foi para os boxes para colocar pneus intermediários. Pérez, Ocon e Zhou fizeram o mesmo, acreditando que seriam os melhores para aquele asfalto, digamos, traiçoeiro.

Mas a maior parte da pista estava seca. Quem apostou em água pesada se deu muito mal. Os pneus intermediários, sem chuva, transformaram seus carros em carroças lerdas e inguiáveis. Ocon nem esperou por isso, voltou aos boxes e colocou slicks de novo. Os demais ficaram se arrastando.

Hamilton: fim de prova com pneus macios, 104ª vitória

Lá na frente a coisa continuava divertida. Piastri enconstou em Norris na volta 26. Foi quando a chuva voltou e Verstappen e Sainz, quinto e sexto, foram para os boxes. Ambos colocaram pneus intermediários na 27ª volta. Essa era a hora, não antes. McLaren e Mercedes ficaram na pista, e a chuva apertou. Norris parou na 28ª. A Mercedes chamou os dois ao mesmo tempo e fez as trocas. Piastri permaneceu com os slicks e assumiu a liderança. Mas não foi uma boa ideia da McLaren.

O australiano só parou na 29ª e perdeu muito tempo na volta extra num piso já bem molhado, com pneus para pista seca. Quando saiu dos boxes, caíra para sexto. Norris, Hamilton, Verstappen, Russell e Sainz eram os cinco primeiros. Resumo das paradas: Max e Sainz ganharam duas posições, Russell perdeu uma, Piastri despencou quatro.

Só que a chuva era muito fraca. E os pneus intermediários, se serviram para duas ou três voltas no asfalto úmido, começaram a esfarelar nos longos trechos de pista praticamente seca. Verstappen e Hamilton, pelo rádio, foram os primeiros a reportar os problemas. O que fazer? Trocar de novo? Se segurar daquele jeito? Alguém daria o pulo do gato?

Na dúvida, ninguém fez nada. Só um: Russell. E não fez nada que gostaria… Na volta 34, a equipe chamou o piloto para os boxes. “George, vamos abandonar”, disse o engenheiro. As causas não foram reveladas, não na hora. O piloto, normalmente muito educado, recebeu a notícia com um palavrão. Minutos depois a equipe avisou Hamilton que seu companheiro estava fora com um problema de vazamento de água.

Russell abandona: frustração depois de largar na pole

E era chuva que ia e voltava, apertava e diminuía, e os meteorologistas continuavam passando seus boletins sem parar. Na hora em que a água foi um pouco mais intensa, ali pela volta 36, Hamilton começou a diminuir a diferença para Norris. Em partes do circuito, porém, fazia sol. Nesses trechos, Lando abria um pouco.

A 15 voltas do final, o asfalto estava quase totalmente seco. Na volta 38, Hamilton e Verstappen foram para os boxes colocar slicks. A Mercedes pôs macios no carro de Lewis. A Red Bull optou por duros no carro de Max. Piastri, desta vez, foi o primeiro McLaren a trocar. Norris ficou na pista. Foi chamado na volta seguinte e colocou macios, numa parada não muito rápida: 4s5. Essa volta extra de intermediários e o pit stop atrapalhado custaram caro ao jovem inglês do carro laranja #4: Hamilton assumiu a liderança, com Lando em segundo. As arquibancadas urraram em triplo.

E quem começou a andar muito bem? Max Verstappen, de pneus duros, em terceiro. Teria, em tese, uma borracha menos estragada nas voltas finais da corrida, podendo pelo menos atacar Norris pelo segundo lugar e quiçá Hamilton, ambos de macios. Lewis liderava e a torcida não se continha, vibrando a cada passagem.

E é mesmo um monstrinho, esse tal de Verstappen. Na volta 47, a cinco do final, conseguiu entrar na zona de asa móvel para atacar Norris. Daria o troco da ultrapassagem sofrida lá no começo da corrida. Na 48ª volta, fez com Lando exatamente o que o amigo tinha feito com ele: passou no final da reta Hangar, sem resistência, e assumiu o segundo lugar.

Ganhar a corrida, porém, seria tarefa bem mais difícil. Faltavam só três voltas e Hamilton estava 3s à frente. Não entregaria aquela rapadura de jeito nenhum. E não entregou. Fim de jejum, recorde de vitórias num mesmo circuito, a alma lavada.

Brian May, lendário guitarrista do Queen, mostrou a quadriculada para Sir Lewis Hamilton ao final de 52 voltas. Verstappen abraçou com sorriso no rosto o segundo lugar, conquistado à base de talento e estratégia, e Norris foi o terceiro, frustrado e cabisbaixo. A massa foi à loucura nas tribunas da pista onde Lewis já havia vencido oito vezes. Um delírio completo para os ingleses.

Piastri, Sainz, Hülkenberg, Stroll, Alonso, Alexander Albon e Yuki Tsunoda fecharam a zona de pontos, com menções honrosas ao alemão da Haas em sexto, à dupla da Aston Martin, que finalmente fez uma corrida aceitável, e à Williams, que marcou dois pontinhos com Alex. E, vá lá, a Sainz, que com uma Ferrari manca chegou em quinto e fez a melhor volta da prova. Leclerc terminou numa patética 14ª posição.

O primeiro a cumprimentar Hamilton no Parque Fechado foi Russell. Lewis, chorando, ergueu a bandeira da Inglaterra que havia recebido de um fiscal de pista e depois correu para sua equipe. Depois, deu um longo abraço em seu pai Anthony. Tudo isso ainda de capacete. Quando tirou, foi para o gramado em direção ao público. Levantou de novo a bandeira, bateu no peito, e voltou.

Norris, o mais tristonho dos três primeiros, deu os parabéns a Hamilton e à Mercedes, mas reconheceu que a McLaren bobeou em alguns momentos da prova. Também se culpou por não tomar as decisões certas quando devia – falava, claro, do momento exato de trocar pneus –, mas no fim se conformou: “Estou feliz de pelo menos estar no pódio”.

Verstappen, sereno como se tivesse acabado de jogar uma partida de damas, falou que não esperava chegar tão bem, em segundo. “Não tínhamos um bom ritmo e achei que iria terminar em quinto ou sexto. No fim a gente fez as escolhas certas nas horas certas e os pneus duros nas últimas voltas me ajudaram muito.”

Aí veio Hamilton para a entrevista a Jenson Button, seu ex-companheiro de McLaren. Isso depois de mais um abraço demorado, desta vez em sua mãe Carmen. “Nunca tinha chorado por uma vitória. Mas hoje não consigo parar de chorar. Desde 2021 tentando vencer, nesta equipe incrível… É meu último GP da Inglaterra pela Mercedes e eu queria muito dar esta vitória a eles. Sou muito grato a esta equipe. Foram dias muito difíceis. É muito duro ficar tanto tempo sem vencer, mas o mais importante é lutar, se dedicar, não desistir.”

Não desistiu, e foi muito bonito. Foram 945 dias de espera desde a vitória de 2021 em Jedá, 56 corridas sem saber o que era subir no degrau mais alto do pódio, lugarzinho muito especial que conhece tão bem. “Nos últimos tempos, cheguei a me questionar se já não era mais capaz de fazer algo como fiz hoje.”

Como vimos todos, ainda é.

Verstappen segue líder tranquilo do campeonato com 255 pontos, contra 171 de Norris. São 84 de vantagem. Confortável, sem dúvida. Mas no ano passado, depois de 12 etapas, Max tinha 314 pontos. Aquele domínio absurdo de 2023, como temos dito já há algum tempo, não vai acontecer de novo tão cedo. Leclerc estacionou em terceiro nos 150 e Sainz subiu para 146. Hamilton, apesar da vitória, segue em oitavo com 110, um atrás de Russell. Pérez perdeu o quinto posto para Piastri: 124 x 118. O mexicano está na marca do pênalti na Red Bull. Fez 15 pontos nas últimas seis corridas, o que beira o ridículo.

No Mundial de Construtores, o time dos energéticos permanece com alguma folga porque a Ferrari, vice-líder, vem derrapando nas últimas provas. Tem 373 pontos, contra 302 dos italianos — que precisam, na verdade, se preocupar com a aproximação da McLaren, que foi a 295. A Mercedes tem 221 e está em quarto.

Com a vitória de Hamilton, a temporada chega ao seu sexto vencedor diferente em uma dúzia de corridas algumas delas muito boas. É muito mais do que se poderia esperar depois de um início de campeonato dominado amplamente por Verstappen.

Resumindo, não dá para reclamar muito de 2024, não.

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Se não for ridículo, já estará de bom tamanho.

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