O NOME DAS COISAS

RIO (boiada muge) – Eu trato as coisas pelo nome. O que Américo Teixeira Jr. revelou em seu “Diário Motorsport” na semana passada é um escândalo.

Para quem ainda não viu, Chase Carey, o CEO da Fórmula 1, mandou uma carta para o governador interino do Rio pedindo pressa na liberação das licenças ambientais para construir o tal autódromo de Deodoro.

Para quem ainda não sabe, o consórcio que venceu a estranhíssima licitação para fazer o autódromo quer erguê-lo às custas da destruição da Floresta do Camboatá, uma área de preservação ambiental — o maior pedaço de mata atlântica plana do Rio de Janeiro, uma área que no passado foi usada como paiol do Exército, explodiu, foi abandonada, passou a ser usada para treinamento de soldados e foi cedida pela União para substituir Jacarepaguá, destruído para a montagem do Parque Olímpico da cidade.

Para quem como eu não tem ideia de onde virá o dinheiro para a obra, sabe-se que autoridades municipais e estaduais juram de pés juntos que não haverá um tostão do erário nessa insanidade, mas quase ninguém acredita nas promessas. Assim, a origem da grana segue sendo um mistério. O custo estimado pelo próprio consórcio esbarra na casa do bilhão de bolsominions.

E para quem se pergunta quem está por trás dessa história toda, respondo que desconfio, mas acho melhor ficar quieto por enquanto.

Aos fatos, então. Carey diz que chegou a um acordo com a Rio Motorsports para assumir os negócios relativos a um GP no Brasil, e embora ainda não haja confirmação oficial, sabe-se que a mesma turma “comprou” os direitos de transmissão da F-1 para o país, com a desistência da TV Globo. Uso as aspas porque o mesmo consórcio “comprou” os direitos da MotoGP, cedeu para o Fox Sports (hoje propriedade da Disney) e não pagou. A Disney teve de se virar para assumir o papagaio.

É claro que o calote não é desconhecido do Liberty, o que torna ainda mais esquisita a negociação dos direitos com o consórcio — você faria negócios com quem não pagou a única coisa que disse ter comprado até agora? Mas são esquisitos, estes tempos, e por isso o melhor a fazer é aguardar. Os novos donos da F-1 estão claramente dispostos a romper todos os laços que ainda unem promotores, países e cidades com Bernie Ecclestone, e talvez isso explique a má vontade de negociar com São Paulo e com a Interpub — cidade e empresa que promovem a etapa brasileira do Mundial desde 1990 — e a aposta no Rio, ainda que se juntando a consórcio sem história ou passado.

Mas ninguém neste mundo rasga dinheiro, e sendo assim o consórcio tem um prazo para apresentar garantias financeiras do que que está “comprando”. As licenças ambientais, que Carey intima o governo de um Estado de um país estrangeiro a acelerar — este, para mim, o grande escândalo: querer interferir em questões que ultrapassam em muito a simples decisão de onde realizar um evento esportivo –, correrão no seu próprio ritmo. O que inclui, provavelmente, longas e demoradas batalhas jurídicas para tentar impedir o crime ambiental que seria a devastação do Camboatá.

Os apressadinhos, assim, têm na falta de tempo para passar a boiada um adversário. Ninguém deve se esquecer que o governador atual do Rio é interino, ainda que aliado do clã que se aboletou em Brasília para combater a mamadeira de piroca e a ameaça comunista que paira sobre o Brasil e o mundo distribuindo cloroquina. Nem que daqui a alguns meses teremos eleições municipais no país, e que o prefeito do Rio, pastor Marcelo Crivella, parece ter poucas chances de se reeleger — isso se puder se candidatar. Com um novo prefeito, dependendo de quem for, a chance de tudo voltar à estaca zero é grande. Por fim, que ninguém ignore, também, o fato de que Stefano Domenicali, um sujeito que sabe quantas rodas têm um carro e que consegue diferenciar um pistão de uma biela, assume como CEO da F-1 no começo de 2021 — o que tornará o lobby do bigodudo Carey sem muito efeito.

Faltam, pois, alguns detalhes não exatamente desprezíveis para que esse projeto seja levado adiante. Entre eles, um autódromo — que não existe –, alguma emissora de TV para transmitir as corridas — façam suas apostas –, o dinheiro para comprar os direitos e fazer a pista e alguém na cúpula da F-1 disposta a terminar o que Chase Carey começou.

O que penso disso tudo é que talvez o Liberty esteja trucando todo mundo e tenha na mão apenas, digamos, um modesto 3 — o consórcio misterioso. Talvez a cidade de São Paulo, a Interpub e a Globo estejam com duas manilhas — não necessariamente um casal maior, mas ainda duas manilhas. A ver quem pede seis.

E se você não sabe do que estou falando no parágrafo acima, é porque estudou muito na faculdade e não teve tempo de colar o zap na testa de ninguém.

Comentários

  • no meio do texto eu já tinha certeza de que havia sido escrito por vc flávio gomes. parabéns por se manter ácido e crítico às injustiças e expondo sempre os problemas sem temor sobre as consequências para com lidar com gnt grande. te admiro muito tanto pelo conhecimento quanto pelos posicionamentos. parab´nes.

  • Flavio, voce como jornalista d renome nao poderia pedir para a liberty comentar a carta e questionar o porque a f1 q luta para diminuir o rastro d carbono nos proximos ano está apoiando a destruicao d uma floresta para construção d autodromo?

  • este circuito em deodoro só se resume numa coisa…. TEM MUITA GENTE LEVANDO GRANA NESTA HISTORIA.
    MAS FALANDO EM UM NOVO CIRCUITO, DARIA PARA FAZER UMA EXCELENTE PISTA NO PROPRIO PARQUE OLIMPICO…JÁ TEM QSE TUDO PRONTO…

  • Eu duvido que este autódromo algum dia seja construído, mas o problema é muito mais velho. Não tivessem destruído Jacarepaguá e nada disso estaria acontecendo. É só lembrar quem e porque destruiu o velho autódromo. São os verdadeiros culpados, aliás, também são os “pais” deste troço que chamam de governo, o atual, foi o que sobrou. E nem precisa falar da Copa…

  • É verdade. A Paulistada desesperada para não perder a F1. Porque sabem que será o inicio do fim de Interlagos. Não tenham medo meus amigos, deste mato, melhor dizendo, desta floresta não vai sair coelho nenhum.
    Saudades de Jacarepaguá que foi covardemente exterminado aos poucos.
    R.I.P. Jacarepaguá.

    • Para sua ciencia Cariocas .
      A preocupação do Paulistanos em ter ou não F1 em Interlagos é a última, a principal mesmo é continuar a ter o autódromo.
      Quanto ao tal Deodoro.
      O problema não é também a F1, aliás nem é essa a questão.
      A questão é ambiental, destruição de floresta e natureza e a construção que vai ocasionar enormes roubos de grana pública além da tradicional corrupção.
      Vale lembrar que a tal grana pública é a grana que sai dos impostos que todos os Brasileiros pagam,

  • Até hoje não entendo porque destruíram a pista de Jacarepaguá para construir o Parque Olímpico!! Porque não fizeram como na Rússia?? Porque não reformar autódromos já existentes como Interlagos (o mais óbvio) ou talvez outro como de Londrina, sei lá? Para que facilitar se pode complicar…..Tem alguém ganhando com tudo isso, ninguém abandona o óbvio a toa.

  • Incrível que uma discussão como essa, para alguns, caia no bairrismo bobo e infantil de SP vs RJ. O que claro, não deve existir. Isso aí vai ter dinheiro público jorrado aos bicos, assim como teve no PAN, Copa do mundo e Olimpíadas. Vai servir pra enriquecer um monte de pilantras (de novo). É foda, desanima, sabe?! Parece que essas coisas não tem fim por aqui.

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