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Wednesday, 30 de October de 2013 - 12:33F-1

SENNA, 25

suzuka88podioSÃO PAULO (boas madrugadas) – É claro que lembro bem do GP do Japão de 1988, uma das maiores vitórias de Ayrton Senna, talvez mesmo a maior e mais dramática, pelo que estava em jogo. Um título, ora bolas. E na largada o carro fica, fazendo com que ele tivesse de iniciar uma recuperação dura, duríssima, porque o cara lá na frente tinha o mesmo carro e não era um zé-ninguém, era Alain Prost.

Mas Suzuka e o mundo assistiram a uma exibição de gala de Ayrton, que foi buscar o que perdeu na largada e na metade da corrida já estava na cola do francês de novo, para passar e ganhar.

Hoje faz 25 anos do primeiro título de Senna, conquistado com estilo e dificuldade. E com menos pontos que seu companheiro de equipe, porque o regulamento, na época, previa descartes. Era triste para um piloto da McLaren ter de descartar resultados tendo na mão um carro que venceria 15 das 16 provas da temporada. Só o GP da Itália não ficou com Senna ou com Prost. Porque Ayrton se atrapalhou ao passar um retardatário, Jean-Louis Schlesser, e bateu. Berger ganhou, poucos dias depois da morte de Enzo Ferrari, num momento emocionante daquela temporada.

E foram muitos, apesar do domínio maclariano. Como esquecer a estreia de Senna pela equipe, em Jacarepaguá? Calor dos diabos, gente saindo pelo ladrão, Ayrton acabaria sendo desclassificado por ter trocado de carro antes da largada e depois da volta de apresentação. E mais umas semanas teve Mônaco, e quando eu dizia lá na primeira linha que é claro que me lembro da corrida de Suzuka, iria acrescentar que o que mais me marcou em 1988, mesmo, foi a corrida de Monte Carlo, por razões profissionais.

Eu trabalhava na “Folha” e estava muito envolvido com a cobertura da F-1, nosso carro-chefe na época — o futebol brasileiro estava em baixa, Piquet tinha sido campeão no ano anterior, Senna era o maior ídolo do país, eram tempos em que se falava de corrida em botequins e padarias. Naquele GP monegasco, todos se lembram, Ayrton tinha uma enorme vantagem sobre Prost quando bateu sozinho na entrada do Túnel.

Meu editor na época, Nilson Camargo, era chegado numa provocação. E elaborou, pessoalmente, a manchete do caderno de Esportes: “Senna, o barbeiro de Mônaco”. Ayrton, que lia tudo e sabia o que cada um escrevia sobre ele, ficou doido e passou o resto daquela temporada irritado com a gente. Era dura, a vida. Quem quiser ver a cobertura daquele GP, está aqui.

Aquela batida besta, no entanto, acabou sendo decisiva para Senna. A partir dali ele passou a se concentrar mais e venceu seis das sete etapas seguintes, sendo saudado como campeão por Prost depois da vitória em Spa. Bateu na Itália, Alain reagiu, mas não conseguiu a virada por conta dos descartes.

A campanha do francês naquele campeonato foi, a rigor, bem melhor que a de Senna. Sem os descartes, ele teria 105 pontos. Pelo regulamento, terminou com 87. Teve de jogar fora nada menos que três segundos lugares. É cruel. Senna teria feito 94 sem os descartes e ficou com 90 no total, tendo desprezado um quarto e um sexto entre seus descartes. Senna teve oito vitórias, três segundos, um quarto, um sexto e três abandonos. Prost ganhou sete, ficou sete vezes em segundo e abandonou duas. Mas eram as regras, e ninguém contesta a conquista. Vale a lembrança, no entanto, porque as campanhas deixam bem claras as diferenças entre os dois pilotos. Ayrton era o “win or wall”; deixou de ganhar duas provas fáceis, em Mônaco e Monza, por ser “wall”. Alain era mais regular e cerebral. Não cometia mais os erros da juventude, bicampeão que era.

Também na “Folha”, nossa cobertura naquele dia 31 de outubro foi gigantesca. Oito páginas, e eu que fechei a edição. Criei o “chapéu” (a pequena linha acima dos títulos, que dá o tom de uma cobertura) “A pátria sobre rodas”, que me pareceu apropriado para o momento do Brasil — um evidente trocadilho com o famoso “pátria de chuteiras”. Fizemos um bom trabalho.

No fim das contas, era o que me interessava naquele momento da vida. Fazer um bom trabalho. Se Senna fosse campeão, OK. Se fosse Prost, OK também. Mas na madrugada escura e silenciosa da minha casa, onde vi a corrida curiosamente sozinho, não lembro por quê, torci por Ayrton. Sua corrida foi fenomenal e ele mereceu.

143 comentários

  1. Leandro says:

    Eu tinha nove anos na época e me lembro desta corrida ,pra mim foi uma das melhores que eu já vi ,Ayrton na pista foi genial .Não foi a melhor corrida que eu vi dele (pra mim a melhor corrida do Ayrton foi na Europa 93 ) ,mas foi uma das melhores .

  2. Rodrigo S. Cruz says:

    Como diria Einstein duas coisas são infinitas: o universo e a estupidêz humana. É impressionante o quanto o Flávio Gomes é patético nessas tentativas desesperadas e inexplicáveis dele de procurar diminuir os feitos de Ayrton Senna. Até recorrer a mentiras é válido. Porque uma coisa dita de maneira distorcida acaba mesmo virando uma mentira. Ele diz que a rigor em 88, a temporada de Prost foi melhor que a de Senna porque o francês teve 7 segundos-lugares e teve de descartar 3. Meu amigo, na boa, não me faça rir. Se vc tem absolutamente um carro imbatível numa temporada de maneira que nenhuma outra equipe te ameace, é óbvio que ficar sendo “segundão” do companheiro de equipe na maioria das corridas, para somar mais pontinhos ou esperar que ele quebre ou tenha algum problema, não é uma boa performance. É uma atuação medíocre, prova que vc só vence por oportunismo e não por velocidade ou habilidade maior. Prost foi engolido por Senna em 88 e 89. Ganhou menos corridas, e marcou apenas 4 pole-positions contra 28 de Senna, herdou diversos abandonos dele, e em 89 ainda precisou recorrer ao “cartola” amiguinho para ser campeão. Mas é claro que isso vc não escreve…Um abraço.

    • Flavio Gomes says:

      Não devia responder a tamanho idiota, muito menos em post tão antigo. Mas, de fato, Senna foi mais performático que Prost nos dois anos em que correram juntos. 14 vitórias contra 11 do francês, 26 (e não 28) poles contra 4, um massacre, mas… 154 pontos somados, contra 186 de Prost, e um título para cada. Pole não dá ponto. Mostra que o piloto é rápido, claro, e Senna sempre foi. É um dos maiores de todos os tempos. Mas não é o maior. Agora suma daqui.

  3. Ricardo Diniz says:

    É de outro ano nas aqui tem a cena do Mansell abandonando em Suzuka de outro angulo….bem legal..http://www.youtube.com/watch?v=8NiUv_ly_fw

  4. Christian Alves says:

    Gostei da reportagem história da folha que vocês fizeram, Flavio. Muito Boa mesmo. Eu gostei mais da página 2, e uma coisa me chamou a atenção. Aquele textinho chamado: “Domínio brasileiro” na mesma pagina. Atualmente, aquela pergunta poderia ser formulada novamente 25 anos depois? Como seria respondida? A então resposta “Pouco importa” continua fazendo sentido hoje? O automobilismo e o jornalismo automobilístico, ainda está tão precário como hà 25 anos atrás? O que “engrenou” de lá pra cá?
    Deixo essa reflexão pra vocês.
    Abs.

  5. genaro crescendo says:

    FG. q o senna tinha feito 11 pontos a menos q prost eu ja sabia. mas o q a globo nao contava e eu nunca fiquei sabendo, é a historia de que os motores que a honda dava pros pilotos eram acertados para senna e nao para prost. gostaria que você explicasse melhor essa historia

    • VODKA FINLÄNDIA says:

      Motor acertado?
      O que é um motor acertado?
      A Honda em sua matriz no Japão calculava a faixa de giros e o torque do motor que mais agradava ao Senna em detrimento a Prost?
      E depois fazia uma série de motores otimizados “By Senna”?

    • Segafredo says:

      Não era uma questão de motores acertado p/ Senna. Ocorria que Senna era quem mais trazia informações a respeito dos motores e Prost em relação ao chassis(isso só ocorreu em 88), sendo assim os motores vinham de fábrica de acordo com o que Senna passava nos feedbacks aos japoneses. Esta história de motor pro Senna foi uma desculpa levantada por Prost em 89, quando a superioridade de Senna ficou ainda mais evidente durante a temporada, mas como Senna teve muitos problemas de abandono e quebras naquele ano, Prost conseguiu chegar em Suzuka com uma vantagem nos pontos, teve aquela merda no Japão que o Prost tratou de levar vantagem por meio de Balestre!

  6. Thiago Azevedo says:

    Salve Gomov!

    Acho até que já escrevi isso, dei o mesmo exemplo em outro post.

    Os números são bem relativos. Se você vê o resultado do GP de Mônaco de 1988, logicamente pensa: o Prost foi melhor.
    Agora… dá pra dizer que o Prost guiou melhor que o Senna na corrida? A cagada do brasileiro foi tentar meter uma volta no francês. Conseguir colocar 50 segundos num Prost em uma pista como Mônaco não é pouca coisa.

    Com o acidente, o Prost ganhou 3 pontos a mais (ele seria segundo) e o Senna deixou de ganhar 9. Aí são 12 pontos…

    A frieza dos números nem sempre conseguem contar bem a história.

    Um jogador de futebol (acho que foi o Denner) disse uma vez: “Prefiro um drible bonito que um gol”. É por aí…

  7. Alexandre says:

    Q saudades dessa época!!!
    A F1 era muito mais emoção do que é hoje.

  8. Cyro Ferraz De Cicco says:

    Muito bonito! Saudades daqueles tempos!

  9. Fernando says:

    Essa questão dos descartes me parece com aquela outra, que fica analisando os times de futebol campeões antes da era dos pontos corridos, para ver quem fez mais pontos. Bobagem. Todos conheciam o regulamento, e a abordagem de todos os pilotos se deu pensando nisso. Senna mereceu amplamente esse título, em seu primeiro ano em uma equipe realmente forte, e enfrentando quem para muitos era o melhor piloto do mundo. Anos épicos. Só quem viveu sabe. Abraços a todos.

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